Ask Google Guru:

terça-feira, 5 de outubro de 2010

SUPERFÍCIE




Não te importes com as firulas do cérebro
nem com as sutilezas da alma, meu amigo.
Saiba que é à flor da pele que mora o perigo!

OLHOS NEGROS




Uma vez apaixonei-me primeiro por teus neurônios
e só mais tarde meu cerebelo entendeu-se com meus hormônios
mas então já estávamos nos separando e eu, desonrado, fui para o fim da fila:
tornei-me o último homem do mundo a ser focalizado por suas negras pupilas.


QUANTO VALE



Tudo tem seu preço
registrado e tabelado na praça.
Aquele que não souber vender na hora certa
mais tarde acabará tendo que dar de graça.

sábado, 2 de outubro de 2010

MAL SECRETO



Queria descer à fonte impura
como quem vai à pia batismal,
queria tua boca, tua língua à procura
da seiva escondida, do secreto animal!

Queria não ter que escolher
entre ser poeta ou estar ereto.
Queria que “homem” ou “mulher”
não limitassem as almas a um mal secreto.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

UM VILÃO



Já amei demais, já sorrí demais, já saltei sobre montanhas

mas hoje tenho pés cansados, e um coração que não sonha.


Mas ainda sei rimar, e dizer coisas bonitas e fáceis

para as raposinhas que me cercam, rapineiras tão dóceis.


Sei dizer “tu és linda” para outras meninas neste mundo virtual

esperando provocar este seu coração feito de água e sal.


Não faço mais poemas para chorar as mágoas.

Meus amores, meus amigos, meus inimigos, são passadas águas.


Te vejo por aí, muito bela, mas pouco humana.

E outras meninas continuam indo e vindo, borboletas insanas.


Tenho pequenas alegrias, compradas a preço de ouro.

Não quero mais ser bom. Não desejo receber seus tristes louros.


Caminho sorrindo na multidão.

Sou mentiroso, sou vilão.


Poesia e diazepan sustentam minha sanidade.

E o que parece dor, às vezes é pura vaidade.


No domingo ouço mentiras gostosas na igreja, e meu peito em chamas arde.

Deus joga xadrez comigo todos os dias, e algumas vezes Ele perde!


A MUSA DO MEU FADO




A musa do meu triste fado
nunca teve a culpa completa.
Nunca fui de fato seu namorado
mas hoje sou seu poeta.
Em todas as meninas na rua vejo tua face
e me escondo, ou a persigo, ou apenas choro sozinho.
Se de todo sofrimento um anjo em sonhos me contasse
mesmo assim eu escolheria cruzar o teu caminho.
Oh musa do meu fado
sempre tão educada e gentil…
nas tuas mãos sou gado marcado
sou lobo vestido de ovelha no covil.
Maldita foi minha sorte
na hora mais feliz da minha vida.
Desejei ser o príncipe consorte
mas fui apenas uma criança aborrecida.
Tantas vezes já te disse adeus
e de longas despedidas tecí meus poemas…
desculpe, mas é que lembrar dos olhos teus
faz-me amar essas dores maiores por lembranças tão pequenas.
Se hoje te atormento
é com sinceridade que mil vezes te peço desculpas.
Compartilho com Adão os mesmos lamentos
após ter provado de Eva a deliciosa fruta.

-

O SORRISO DO VÔ VICENTE




Vô Vicente morreu num domingo
sentado na cadeira de balanço
olhando brincar ao longe na campina
suas netinhas, belíssimas meninas.

Vô Vicente morreu dormindo
dizem até que estava sonhando.
Colocaram-lhe o terno branco
como manda a tradição.
A algibeira, a bíblia velha e o facão
foram juntos com o corpo no caixão.

Vô Vicente morreu sonhando
olhando de olhos fechados
aquelas terras beijadas de orvalho
e aqueles campos abençoados
por anos do mais duro trabalho.

Vô Vicente morreu num domingo
ereto como um coronel na cadeira de balanço
e com mão firme pra não deixar cair a xícara de café
porque era homem cristão, sério e forte
e não se deixaria envergonhar pelos truques da morte.

Vô Vicente morreu dormindo.
Vestiram-lhe o terno branco
como era de costume naquelas terras
vestir o morto com roupa de ir á missa
e pendurar-lhe no peito medalhinhas de santos
e medalhões de guerra.

Vô Vicente morreu segurando
a caneca de café quentinho e amargo.
Os homens da casa o banharam e vestiram
como era devido ao seu cargo.
Rasparam-lhe a barba centenária
para melhor apresentar a figura mortuária.

Vô Vicente morreu num domingo
e a família grande veio da capital
já engolindo soluços e lágrimas de sal.
Vinham carpindo o morto sem nem tê-lo visto
(cantavam o Birim-Birim como previsto)
prontas para bater seus bens em revista.

Mas ao ver o velho ali deitado
o povo todo se calou consternado.
Depois de banhado, barbeado e arrumado
puderam ver que com a cara limpa
sob as saudações de tiros e sinos
Vô Vicente estava era sorrindo
e tinha o sorriso bonito de um menino.



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O FOGO OLÍMPICO






Empenhados numa procura infinita
pelo centímetro certo da carne mais aflita
os amantes esquecem o ar que lhes falta
quando os lençóis num festim de ribalta
tramam um espetáculo de sons sustenidos
por arpejos feitos de etéreas sílabas tônicas
e quiméricas delícias agônicas.
Neste concerto de gemidos sinfônicos
ouvem-se sons como os de um violino agônico
compassado pelos movimentos subterrâneos de um magma
que pesseia por caminhos tortos - nossas veias -
irrompendo odores e sabores subcutâneos
que não cabem em poemas feitos em qualquer língua
pois o fogo daquele momento, se descrito em palavras
perde a força, e inevitavelmente se apaga
porque o que só o corpo entende
o intelecto quando apreende
deixa morrer à míngua!


LA DERNIÉRE MINUTE





"La Derniére Minute"

No meio de um sonho contado em Francês
Carla Bruni cantava "La Derniére Minute" pra mim.
Neste ponto, sem pudor, confesso a vocês:
não sei como o sonho terminou porque gozei antes do fim!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

TEZ


Ando a tatear os fatos
e o eco dos meus dedos
em segredo no oco da noite
reverbera o verbo açodado do açoite
dessas palavras não ditas
mas sempre aflitas
malditas
como fetos
que ficaram
só na vontade
na palavra ereta
mas imperfeita, incompleta
porque certos poetas
ao chegar aos pés da sua musa
não lhes defloram
não rasgam-lhes a blusa:
com uma idéia na cabeça
e na mão uma flor roxa
não consumam o ato
porque de fato sua prosa
erra o alvo
e goza na coxa.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O SEMEADOR DE ABISMOS





Sentei-me à beira de cordilheiras imaginárias
procurando coragem para um voo desesperadamente resignado.
Sentei-me e chorei um choro miúdo e precário
como quem sabe-se ser um vilão e não um coitado.

Mas lembrei-me de tantos outros poços sem fundo que construí
jogando pétalas de saudade até que eles transbordassem sob meus pés.
As horas de apaixonada cólera que vivi
como as estátuas de bronze sozinhas nas madrugadas geladas e sombrias.

Perdi a capacidade de mostrar meu choro,
e mesmo meu silêncio e minha rima, que antes eram de ouro,
hoje são metais corrompidos por um sentimento de banalidade
e pelo manuseio descuidado de mãos sem paixão: só a impura vontade!

Já não entendo minhas ereções tardias, nem olho os seios das musas
sob seus vestidos de transparências tão propícias...
Aos poucos perco o delicioso e infantil vício de desvendar o recheio de suas blusas.
Já não olho pernas, olhos, pulsos, pescoços, coxas...
e toda mulher que se insinua me parece a morte a cortejar-me com uma flor roxa!

Abri com uma faca enferrujada um sorriso de sangue no meu peito
e de cada gargalhada escarlate pinga fogo na terra,
abrindo nela um leito tão profundo
que parece escavado pelo próprio arquiteto do mundo.

Pelos caminhos onde passo deixando meu rastro de amor e cinismo
aos poucos vou-me esgotando, e quem vem atrás não suspeita de nada:
cada gota do meu sangue ainda apaixonado, é derramado como poderoso magma
que jamais semeia rosas mentirosas, preferindo os mais sinceros abismos.


-

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

MADRUGADA VELOZ


Não quero fazer poesia sobre coisas profundas.
Sou do tipo que encara a santidade de chinelos e bermudas!
Não quero a metafísica, pois ela não faz frente aos fatos:
Sou do tipo que vive à flor da pele, onde tudo é deliciosamente imediato!

Nesta madrugada veloz
não serei como o tolo que procura o amor eterno:
antes venha a mim qualquer corpo feroz
que dê fim a este longo inverno.

Quero cantar àquele que me venha tocar os pêlos,
que saiba invadir como quem pede licença, e parar como quem segue adiante,
e com os quereres da alma soberanos aos cálculos da mente
saiba amar amiúde, sem pressa, com força e com zelo.

Nesta madrugada veloz como um trem
sou passageiro de uma única verdade:
metade de mim é vontade
e a outra metade também!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

COM TODA FORÇA, MAS GENTILMENTE




Talvez minha pele seja contemporânea dessa gente,
desses ventos rudes, desses gritos sem razão.

Talvez eu dê as mãos a esse povo e descubra sem surpresa
que suas mãos são frias e duras, feitas de pedra.
Talvez eu os olhe com um olhar de carinho e diga-lhes que sou poeta
e com um estranho desconforto eu sinta seus dedos afrouxarem
e pouco a pouco suas mãos descolarem-se das minhas.
Mas eu os seguro firme e mantenho os olhos fixos
e continuo afirmando: poeta! poeta! poeta!

Mas a ciranda de pedra deve continuar
e eu calo e encaixo-me nas engrenagens de carne e sangue
que fazem o mundo girar e ser esta maravilha tenebrosa
que é capaz (e necessita) de pôr chifres nos carneirinhos
e espinhos nas mais lindas rosas.
Sou essa casca feita dos tempos que vivo
e sou o que vai com os ventos da vontade alheia
contrariando o turbilhão que me percorre as veias.

Mas por dentro talvez eu seja diferente
um tipo estranho de gente que outras gentes evitam
e chego a pensar que sou mesmo estranho a tudo isso:
sou sonho, sou vontade feérica, mas sutil,
sou a força que convence pela delicadeza,
e que se mistura à multidão como o açúcar no café
e que se agarra ao mundo como numa corda se faz um nó.

Sou poeta
e só.

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A PEDRA




Quase todos os dias acordo sobressaltado
no meio da madrugada contendo um grito
que poderia durar uma eternidade.

Quase todos os dias acordo com uma pedra de fogo dentro do peito
e quero escavá-la, retirá-la dali, jogá-la num lago negro e profundo
e dar-lhe as costas para jamais voltar.

Quase todos os dias eu finjo que acordo, mas sei que estou sonhando
pois a verdade é que estou pesado, adernado como um navio submerso
onde nada vive, nada toca além do oceano frio e escuro.

Algumas vezes ouço alguém me chamar e juro que a voz vem lá da superfície
mas já não tenho forças, nem vontade, para nadar todo o caminho de volta
e olhar o céu, e ver a luz, e atender a quem me chama com um sorriso.

Poderia ser o amor, poderia ser um amigo, poderia ser um anjo.
Mas eu já não acredito mais no amor, nem em amigos, nem em anjos.
Eu não tenho alma, tenho dentro de mim apenas uma pedra
uma pedra incandescente que costumo chamar poesia.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

SANCTUS



Meu melhor inimigo
este corpo exíguo
que se desfaz com calma
transformando matéria em alma…

Esta melhor parte de mim
já nascida para ter um fim
é o que se esconde sob minha pele:
o que o corpo ama, o espírito repele.


quinta-feira, 8 de julho de 2010

A ERVA


Queime a erva cheirosa
com pétalas de rosa.
Ou junte camomila e faça um chá.
Tudo agrada a Buda, Javé ou Jah!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

HOMO SUM



Meus gametas
seus profetas
meus planetas
seus poetas
minha caneta
suas teclas.

Minhas rimas
tuas ruínas
meu corpo
teu porto
meus sinos
tua sina
meu rubor
teu calor
minha vontade
tua maldade
meu céu
teu véu.

Palavras 

se encaixam
mas os corpos 

não.
É preciso 

ir mais baixo
e fazer certa 

fricção.

terça-feira, 4 de maio de 2010

FOTOGRAFIA



O nariz típico do Mediterrâneo,
aqueles cabelos finos sobre a desnuda nuca,
no corpo marcas de um fogo subcutâneo,
o sambinha miudinho e muito discreto
que deixa o poeta surpreendentemente ereto,
a voz tímida e meio rouca,
a conversa típica dos gênios e dos loucos,
os gestos contidos, mas com mãos fortes,
os seios pequenos, mas convidativos,
o colo que convida ao nascimento, ou á morte,
o jeito de olhar como quem não está olhando,
o jeito de tocar como quem mal está sentindo,
o jeito de andar como quem nem está caminhando
o jeito de sorrir como se fosse o mundo que estivesse sorrindo
a forma com que te vejo sem descobrir se és menino ou menina,
a forma que te mostras, deixando impossível encontrar a certa rima,
assim és, amiga e súbita companhia de sonho e de poesia:
és um sol em alta noite, és a lua em pleno dia!


quinta-feira, 29 de abril de 2010

FERNANDA



Chico assoviava feliz
a tristeza da sua Beatriz.

Jobim, com a palavra clara e precisa
fez eterna a sua Luíza.

Eu, que em minha alma já não sei quem manda
queria escrever sobre uma tal Fernanda.

Talvez protegê-la sob outro nome:
Renata, Erika, Mônica, Fabrícia, Ludmila, Carol...

Mas o amor só abrasa, não consome.
Eu sou fósforo, tua lembrança é álcool!

Não pretento ser um Buarque de Hollanda
para reinventar a incontestável Fernanda.

Não queria ser um Tom ou um Vinícius
para contar como ela domina minhas virtudes e meus vícios.

Deus dá, mesmo quando tira.
Levou-me o amor. Deixou-me a lira.


quinta-feira, 15 de abril de 2010

ALTAR PARTICULAR



No meu altar particular

não há lugar para redenção.
Todos os salmos que posso cantar
são juras de amor em vão.


Com quem posso reclamar
se teus mal-feitos são permitidos pelo próprio Deus?
De que me vale o Sol imenso sobre o mar
se à noite não me guia o farol dos olhos teus?


Tu, que só querias algumas moedas
em troca de um toque em tua carne mesquinha.
Tu, por quem choro em segredo
deixou-me o triste vício de amar sozinho.


Quero esquecer do teu rosto,
mas poderia descrever com minúcia as tuas curvas.
A tua persona é vil e pobre: banquete sem gosto...
mas teu corpo e o meu são como a mão e a luva!


Anjo, eu queria te dar um nome,
mas tu não mereces.
A você dedicarei apenas
poemas, punhetas e preces.