Ask Google Guru:

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

EX FUMO DARE LUCEM




Sigo em frente
na foz nas das gentes
ouvindo vozes antigas
e o marulho solfejante das ondas.

Tiro fotografias instantâneas
não daquilo que está á margem
mas das coisas sucedâneas, subcutâneas,
aquelas que trazem calma e vertigem.

Ando com passos de bêbado na corda bamba:
esse é meu compasso, passear por bossas e sambas.
Esse corpo nasceu comigo, mas descolou-se da alma logo cedo:
certas partes de mim são infinitas, outras quebram fácil como brinquedos.

Mar... teu latim de pedras azuis que cantam para mim
as canções de ninar que minha mãezinha no céu já se esqueceu.
Ouço, oceano, e transbordo de poemas que jamais virão á luz.
O Gólgota está vazio. Não fará mal jogar pedras na cruz.

Teço sem pressa a salmodia das madrugadas que se vão em gestos sem pudor.
Deus está morto. Mas o menino-deus, travesso, atravessa meus versos com amor.
Fui um bom cristão, trafiquei meu sangue azul entre as princesas e as putas do cais.
Grito o nome de Deus no deserto, mas meu eco é esperto, e não reverbera meus ais.

Quem sou eu debaixo deste véu? Quem é o homem que vejo no espelho?
Quando eu era criança tocava o céu. Hoje me resta o pó: estou ficando velho!
Mas o que farei com tantos carinhos ainda não gastos? Voarei para outro planeta?
Aos palhaços cabe esse destino, envelhecer, ver o circo pegar fogo, e rebatizar-se de poeta!


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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

REFORMA SIDERAL




[Poesia colaborativa de Matheus Torreão, Thauan Raposo e Marcelo Sousa]


Quando a gravidade 
dos que mandam tanto
for uma força completamente nula
os povos poderão, sem espanto,
saber que bobo é quem só acumula.

Quem junta moedas 
debaixo do colchão
ou quem espera deixar para a posteridade
o fruto do seu trabalho muito suado
está muito enganado, é bobo
porque a falta de gravidade
é o inevitável roubo.

Os casarões voarão como papel
e as palafitas e barracos coloridos
flutuarão como nuvens no céu.
Os que vivem nos abrigos atômicos
serão arrancados como árvores 
indo pelos ares com raiz e tudo
e os profetas da era digital 
estarão todos mudos.

Sem moedas, sem medos,
as vaquinhas voando para Saturno
e no dia das eleições municipais, 
estaduais ou federais
os candidatos, tão fleumáticos, 
estarão no mundo da lua
e o povo vai sambar a ausência 
de um segundo turno 
no meio da rua.

Não vamos ter que escolher 
patrões nem políticos
nem vamos depender mais 
de deuses cansados, raquíticos.
Cada homem sem terra terá enfim 
seu quinhão de céu, de ar
e às crianças desde cedo 
será natural aprender a voar.

Reforma agrária? Essa precária forma 
de dividir o que já é nosso?
De que vale repartir a carne, 
se não nos pertencem os ossos?
Quando o mundo acabar, 
crianças e velhos vão rir demais
vendo como fogem como baratas 
os nossos líderes mundiais.

Ninguém vai precisar botar cerca no quintal
porque tem espaço de sobra no espaço sideral.
Ninguém vai precisar fazer guerra por novos domínios
porque todos seremos sem-terra, seremos meninos.
Se não tem gravidade, acabou a confusão
porque nunca mais ninguém vai brigar
por um triste pedaço de chão.



SONHOS




Desci as escadarias da madrugada com uma pergunta colada entre as sobrancelhas.
Por que motivo construí tantos labirintos entre uma palavra e outra, se no verso todas são iguais?
Eu mesmo não me entendi quando a resposta chegou abrupta, sístole e diástole em um só golpe.
Engoli a seco, parei acuado num desses becos onde a filosofia e a religião são dois cães raivosos
latindo e babando, presos a uma fina corrente que pode arrebentar a qualquer hora.
Deus pede que nós o amemos, mas na verdade Ele implora, cheio de medo e mágoa.
Este homem que anda sobre as águas fomos nós mesmos que o inventamos.
Mas justamente por ser nossa cria, é preciso que o cuidemos com carinho.
Deus, sozinho, não existe, não anda. Deus implora fazendo a mímica de quem manda!
E nós, criadores dessa história, acreditamos que é verdade a verdade que acabamos de inventar.
Ah, se o homem pudesse entender o que canta o imenso mar! Mas olha para estrelas mortas
que muito brilham, mas na verdade já não podem cantar!
Madrugada adentro sonhei com portas que não levavam a nenhum lugar.
Sonhei que entendia o oceano com seu fastidioso canto,
e esperei sereias que não vieram afogar-me com seu sexo
e dividir, em pleno mar, o sal de Netuno do sal do meu pranto.
Sonhei que estava acordado, para meu espanto.
Parei, trágico, presumindo furacões vindos do fundo da minha garganta.
Queria gritar, mas percebi que meu cenho desanuviou-se
e eu deixei-me deitar no chão frio como em uma cama de flores.
Não sei se morri ou simplesmente voltei a dormir,
mas no outro dia tudo era igual, amando as mesmas pessoas
e sentindo as mesmíssimas dores.



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SORRIR




Sorrir é um exercício matutino
como escovar os dentes, fazer a barba
e apertar o nó da gravata para enfrentar o dia.

Sorrir é a maldita rotina muscular
que me faz forte aos olhos dos outros
ainda que com ele eu engane a poucos.

Mas sorrio, e mantenho sorrisos diversos
para as mais diferentes ocasiões e eventos
que transcreverei aqui, mais tarde, sob enviesados versos.

Sorrio e vivo, ato contínuo mas sem vontade. A vida é bela.
O que tem mais calor, o Sol, sentado em seu trono há milhares de quilômetros
ou sua lembrança, que dentro de mim brilha mais que a maior das estrelas?

Ah… sorrir! Se me olhasses de repente, jurarias que meu riso é verdade.
Estranho pensar nisso, imaginar que há tantos anos vivo esta mentira.
Mas Deus é bom, mesmo em Sua divina maldade. Deus dá, mesmo quando tira!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

CITAÇÕES BÍBLICAS



Tinha que ser poeta o cristão (ou cafetão)
que com bíblicas palavras teve uma epifania
e com pureza de alma e de coração
mandou gravar em uma tábua de madeira:
"Deus ama a que dá com alegria!"
e colou isso na porta de um puteiro!

( Inspirado em II Coríntios 9:6-10)


O SEMEADOR DE ESTRELAS



Quando velhinho
e todos pensarem
e aceitarem
que estou louco
vou pegar verso a verso,
pouco a pouco
e como uma criancinha
salpicarei estrelinhas
nas entrelinhas!

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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

AVE DE RAPINA




Não serei como Ferreira Gullar
poetando lentamente dentro da noite veloz.
Nem poderia ser como Nina Simone
que cantava dores colossais com a mais doce voz.

Não serei vitimado pela má sorte
mantendo a fleuma, engolindo o choro.
Não consigo ser como o que descobre a pólvora negra
e na madrugada escura a enterra como ouro.

Às vezes acho bom estar sofrendo tanto
porque aos malvados o pranto convém.
Nunca disse que sou santo,
mas quero amor, sexo, carinho, dinheiro… e quem tudo quer nada tem.

Sou o que murmura os mesmos versos
em diferentes poemas.
Escrevo com sangue, esperma, fezes, fel, urina…
para o público horror e secreto gozo das almas pequenas.

Sou maldito por escolha e vocação
e solitário porque assim ordenou-me o destino.
Mas algumas vezes escondo meu imundo coração
atrás desses meus olhos tristes de menino.

Não creia na minha dor
não te comovas com as minhas rimas.
Já não sinto mais amor:
sou ave de rapina!

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

EXISTIR É UM ETERNO POR ENQUANTO




Esse é o tempo de deixar escorrer entre os dedos
os segundos, os minutos, as horas, os medos
porque o tempo dentro de mim é muito precário
uma vez que conto ele sempre ao contrário!

O quanto me falta pra nascer de novo
se o melhor é advinhar o que há dentro do ovo?
E se eu cair, quem estará lá para aparar o tombo?
Eu salto abismos sem paraquedas só para experimentar o assombro!

Ser assim não me revolta,
pois já me acostumei ás alturas e á queda.
Nem mesmo o amor faz-me tanta falta:
compra-se disso hoje por aí com apenas algumas moedas.

Mas se eu olhar debaixo das minhas saias
e descobrir que aquela metade não sou eu?
E se de repente me volta o tal Messias
cantando um samba pra me levar pro céu?

Será que eu vou querer partir desse mundo
podendo-querendo-sabendo, eu poeta,
roubar dele, com papel e caneta,
mais um segundo?

Viver um segundo, de repente
nos braços de quem nos quer bem
é melhor que passar uma eternidade como crente
sozinho, sentado em uma nuvem, dizendo amém!

Todos julgam-me como tendo um juízo muito precário
mas eu prefiro ser assim mesmo, melhor que ser esperto ao contrário.
Não vou contar o tempo que me falta pra nascer de novo
porque pra mim esse corpo, essa existência, é só a casca do ovo!



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terça-feira, 5 de outubro de 2010

JOAQUIM, O PADEIRO




 Tive um avô postiço, vizinho de apartamento e amigo da família desde que o mundo era mundo, bom português de pele branquíssima e bigodes negros como as noites dos contos de fadas. Excelente padeiro e confeiteiro, que fez todos os lindos e imensos bolos de aniversário da minha infância, dos quais lembro-me apenas pelas fotografias em sépia guardadas num álbum antigo, esquecido numa dessas gavetas da nossa alma onde a gente pouco mexe.


 Bom cristão, católico apostólico romano, torcedor do América, conhecedor dos palavrões mais cabeludos, e dos descabelados também. Nos dias de semana levava-me para a escola, eu de calças curtas de cor marrom, a camisa cáqui engomada e perfumada, a gravatinha também marrom no mesmo tom da calça e os sapatos pretos bem engraxados; minha irmã, dois anos mais nova, vestida com o mesmo esmero e nos mesmos trajes, trocando as calças curtas por uma saia de pregas, e laços de fita nas duas trancinhas. Uma criança em cada mão, e um sorriso triunfante na boca, mas principalmente nos olhos. Vovô Quincas nos levava pelo caminho mais longo, por onde poderíamos ver o comércio, as pracinhas... e colher rosas para a professora mais querida e comprar jujubas para a hora do recreio.


 Meu avô era um gigante doce como as margaridas e os gatos da rua, um herói da estatura daqueles que eu via na enorme versão ilustrada da Bíblia Sagrada que uma tia nos mostrava para contar as estranhas histórias de como Jeová mandava e desmandava em seu povo, os tais escolhidos, que viviam tendo que sacrificar ovelhinhas para o seu Deus exigente, petulante e inseguro, pois fazia questão de lembrar que deveríamos amar somente a Ele, e a nenhum outro deus. Mas meu avô era dos heróis bonzinhos, como o Noé que já tão velhinho construiu a arca com a qual salvaria todos os bichinhos do planeta, em pares de namorados, até que passassem os tempos de tempestade que seu malvado deus mandou para maltratar seu povo que, com um simples gesto de amor do tal onipotente, poderia ter sido admoestado e reabilitado para uma vida melhor e mais justa.


 Aos domingos, enquanto os demais estavam na missa, ele sentava-se na varanda comum aos dois apartamentos, que era na verdade um hall de entrada para cada residência, uma artéria comum aos apartamentos 105 e 107, a certeza física de que aquelas famílias viveriam sua sina comum sempre juntas. Sentava-se impávido com seu pijama de algodão, com um bolso á altura do peito e o brasão da sua família bordado com capricho. Passava a manhã sentado na cadeira-do-papai, móvel muito comum na época, destinado aos chefes da família… e tomava o seu café-com-leite quentíssimo, comia pão caseiro com manteiga e folheava o 'Jornal do Brasil' e depois o 'Meia Hora' com uma alegria circunspecta, escolhendo notícias felizes (sim, haviam notícias felizes no mundo de outrora) e passando a folha para minha leitura. Enquanto eu lia o jornal ele aplaudia, rindo da minha pronúncia claudicante e me animando a prosseguir: 


- Isso mesmo, meu preto! Muito bem! Vá mostrar ao teu pai que tu já sabes ler, que tu já és um homem!


E eu ia feliz contar a novidade, enquanto minha irmãzinha enchia meu avô de carinhos, e depois o colocava como um brinquedo: 


- Vovô, fica quietinho que eu vou fazer um penteado bonito!


E ele deixava-se pentear por longas sessões, e minha irmãzinha experimentava nele os mesmos penteados que fazia nas bonecas, com lacinhos de fita vermelha, amarela, azul, verde.


 Meu avô dava-nos presentes demais, miudezas, é verdade, mas eram com tanto carinho que nunca ninguém conseguiu superá-lo. Dava-nos dinheiro e ensinava a gastar, levava-nos á escola, apresentava-nos aos outros velhos e nos ensinava a dar boa tarde, e deixava-nos brincar com os cães e os gatos da rua, e ensinou-me a jogar milho aos pombos e iniciou-me nos primeiros rudimentos da Política, da Filosofia e da boa arte de xingar com e sem precisão, desvendando para mim certas palavras portuguesas cujo significado mágico eu aprendia e contava aos meus amigos como quem conta um segredo ou perfaz um número circense, um prestidigitador do vernáculo.


 Meu avô postiço morreu nos braços de minha mãe enfermeira numa tarde fria de outono, e deixou um vazio enorme na rua onde morávamos. Ele era o Vovô Quincas de todas as crianças do bairro, era meu Vô Joaquim, velhinho rabugento de mentirinha, cuja companhia eu preferia á das outras crianças da rua, meu mestre e meu amigo, que me deixou cedo demais, o primeiro ser humano próximo de mim que morria e me dava aquela derradeira lição, de lidar com a finitude dos corpos e com a imortalidade dos exemplos, das almas, das lembranças.


 Hoje tenho mais fantasmas para chorar: minha mãe, minha avó, alguns tios, outros amigos... mas meu bom Joaquim foi o primeiro a aventurar-se naquelas terras longínquas de onde jamais se volta nem se dá notícia, e por isso escrevo sobre ele, meu primeiro exemplo de vida e de morte. Meu avô, cuja lembrança me dói demais nessas manhãs de domingo e principalmente no Natal, deixou em mim uma herança feita de aço e algodão doce, e uma saudade imensa e vontade eterna de que alguém aparecesse hoje e me batesse no ombro e dissesse sorrindo: 


- Isso, meu preto! Muito bem, muito bem!


SUPERFÍCIE




Não te importes com as firulas do cérebro
nem com as sutilezas da alma, meu amigo.
Saiba que é à flor da pele que mora o perigo!

OLHOS NEGROS




Uma vez apaixonei-me primeiro por teus neurônios
e só mais tarde meu cerebelo entendeu-se com meus hormônios
mas então já estávamos nos separando e eu, desonrado, fui para o fim da fila:
tornei-me o último homem do mundo a ser focalizado por suas negras pupilas.


QUANTO VALE



Tudo tem seu preço
registrado e tabelado na praça.
Aquele que não souber vender na hora certa
mais tarde acabará tendo que dar de graça.

sábado, 2 de outubro de 2010

MAL SECRETO



Queria descer à fonte impura
como quem vai à pia batismal,
queria tua boca, tua língua à procura
da seiva escondida, do secreto animal!

Queria não ter que escolher
entre ser poeta ou estar ereto.
Queria que “homem” ou “mulher”
não limitassem as almas a um mal secreto.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

UM VILÃO



Já amei demais, já sorrí demais, já saltei sobre montanhas

mas hoje tenho pés cansados, e um coração que não sonha.


Mas ainda sei rimar, e dizer coisas bonitas e fáceis

para as raposinhas que me cercam, rapineiras tão dóceis.


Sei dizer “tu és linda” para outras meninas neste mundo virtual

esperando provocar este seu coração feito de água e sal.


Não faço mais poemas para chorar as mágoas.

Meus amores, meus amigos, meus inimigos, são passadas águas.


Te vejo por aí, muito bela, mas pouco humana.

E outras meninas continuam indo e vindo, borboletas insanas.


Tenho pequenas alegrias, compradas a preço de ouro.

Não quero mais ser bom. Não desejo receber seus tristes louros.


Caminho sorrindo na multidão.

Sou mentiroso, sou vilão.


Poesia e diazepan sustentam minha sanidade.

E o que parece dor, às vezes é pura vaidade.


No domingo ouço mentiras gostosas na igreja, e meu peito em chamas arde.

Deus joga xadrez comigo todos os dias, e algumas vezes Ele perde!


A MUSA DO MEU FADO




A musa do meu triste fado
nunca teve a culpa completa.
Nunca fui de fato seu namorado
mas hoje sou seu poeta.
Em todas as meninas na rua vejo tua face
e me escondo, ou a persigo, ou apenas choro sozinho.
Se de todo sofrimento um anjo em sonhos me contasse
mesmo assim eu escolheria cruzar o teu caminho.
Oh musa do meu fado
sempre tão educada e gentil…
nas tuas mãos sou gado marcado
sou lobo vestido de ovelha no covil.
Maldita foi minha sorte
na hora mais feliz da minha vida.
Desejei ser o príncipe consorte
mas fui apenas uma criança aborrecida.
Tantas vezes já te disse adeus
e de longas despedidas tecí meus poemas…
desculpe, mas é que lembrar dos olhos teus
faz-me amar essas dores maiores por lembranças tão pequenas.
Se hoje te atormento
é com sinceridade que mil vezes te peço desculpas.
Compartilho com Adão os mesmos lamentos
após ter provado de Eva a deliciosa fruta.

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O SORRISO DO VÔ VICENTE




Vô Vicente morreu num domingo
sentado na cadeira de balanço
olhando brincar ao longe na campina
suas netinhas, belíssimas meninas.

Vô Vicente morreu dormindo
dizem até que estava sonhando.
Colocaram-lhe o terno branco
como manda a tradição.
A algibeira, a bíblia velha e o facão
foram juntos com o corpo no caixão.

Vô Vicente morreu sonhando
olhando de olhos fechados
aquelas terras beijadas de orvalho
e aqueles campos abençoados
por anos do mais duro trabalho.

Vô Vicente morreu num domingo
ereto como um coronel na cadeira de balanço
e com mão firme pra não deixar cair a xícara de café
porque era homem cristão, sério e forte
e não se deixaria envergonhar pelos truques da morte.

Vô Vicente morreu dormindo.
Vestiram-lhe o terno branco
como era de costume naquelas terras
vestir o morto com roupa de ir á missa
e pendurar-lhe no peito medalhinhas de santos
e medalhões de guerra.

Vô Vicente morreu segurando
a caneca de café quentinho e amargo.
Os homens da casa o banharam e vestiram
como era devido ao seu cargo.
Rasparam-lhe a barba centenária
para melhor apresentar a figura mortuária.

Vô Vicente morreu num domingo
e a família grande veio da capital
já engolindo soluços e lágrimas de sal.
Vinham carpindo o morto sem nem tê-lo visto
(cantavam o Birim-Birim como previsto)
prontas para bater seus bens em revista.

Mas ao ver o velho ali deitado
o povo todo se calou consternado.
Depois de banhado, barbeado e arrumado
puderam ver que com a cara limpa
sob as saudações de tiros e sinos
Vô Vicente estava era sorrindo
e tinha o sorriso bonito de um menino.



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O FOGO OLÍMPICO






Empenhados numa procura infinita
pelo centímetro certo da carne mais aflita
os amantes esquecem o ar que lhes falta
quando os lençóis num festim de ribalta
tramam um espetáculo de sons sustenidos
por arpejos feitos de etéreas sílabas tônicas
e quiméricas delícias agônicas.
Neste concerto de gemidos sinfônicos
ouvem-se sons como os de um violino agônico
compassado pelos movimentos subterrâneos de um magma
que pesseia por caminhos tortos - nossas veias -
irrompendo odores e sabores subcutâneos
que não cabem em poemas feitos em qualquer língua
pois o fogo daquele momento, se descrito em palavras
perde a força, e inevitavelmente se apaga
porque o que só o corpo entende
o intelecto quando apreende
deixa morrer à míngua!


LA DERNIÉRE MINUTE





"La Derniére Minute"

No meio de um sonho contado em Francês
Carla Bruni cantava "La Derniére Minute" pra mim.
Neste ponto, sem pudor, confesso a vocês:
não sei como o sonho terminou porque gozei antes do fim!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

TEZ


Ando a tatear os fatos
e o eco dos meus dedos
em segredo no oco da noite
reverbera o verbo açodado do açoite
dessas palavras não ditas
mas sempre aflitas
malditas
como fetos
que ficaram
só na vontade
na palavra ereta
mas imperfeita, incompleta
porque certos poetas
ao chegar aos pés da sua musa
não lhes defloram
não rasgam-lhes a blusa:
com uma idéia na cabeça
e na mão uma flor roxa
não consumam o ato
porque de fato sua prosa
erra o alvo
e goza na coxa.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O SEMEADOR DE ABISMOS





Sentei-me à beira de cordilheiras imaginárias
procurando coragem para um voo desesperadamente resignado.
Sentei-me e chorei um choro miúdo e precário
como quem sabe-se ser um vilão e não um coitado.

Mas lembrei-me de tantos outros poços sem fundo que construí
jogando pétalas de saudade até que eles transbordassem sob meus pés.
As horas de apaixonada cólera que vivi
como as estátuas de bronze sozinhas nas madrugadas geladas e sombrias.

Perdi a capacidade de mostrar meu choro,
e mesmo meu silêncio e minha rima, que antes eram de ouro,
hoje são metais corrompidos por um sentimento de banalidade
e pelo manuseio descuidado de mãos sem paixão: só a impura vontade!

Já não entendo minhas ereções tardias, nem olho os seios das musas
sob seus vestidos de transparências tão propícias...
Aos poucos perco o delicioso e infantil vício de desvendar o recheio de suas blusas.
Já não olho pernas, olhos, pulsos, pescoços, coxas...
e toda mulher que se insinua me parece a morte a cortejar-me com uma flor roxa!

Abri com uma faca enferrujada um sorriso de sangue no meu peito
e de cada gargalhada escarlate pinga fogo na terra,
abrindo nela um leito tão profundo
que parece escavado pelo próprio arquiteto do mundo.

Pelos caminhos onde passo deixando meu rastro de amor e cinismo
aos poucos vou-me esgotando, e quem vem atrás não suspeita de nada:
cada gota do meu sangue ainda apaixonado, é derramado como poderoso magma
que jamais semeia rosas mentirosas, preferindo os mais sinceros abismos.


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