Ask Google Guru:

quinta-feira, 26 de maio de 2011

domingo, 22 de maio de 2011

UM ABISMO PRATEADO





Há um abismo prateado no limiar deste horizonte que só vejo quando fecho os olhos com força pensando em você. Cada letra do teu nome é um pecado, e parece que mil flores morrem a cada suspiro que deixo escapar ao lembrar o cheiro mofado da nossa intimidade.


Não quero escapar, não quero voar livremente para um suicídio grandioso e doce, como um novo messias entregando a alma a um deus que não está nem aí:"Eli, Eli, lamna sabactani?" Porque não confio mais na redenção que não seja cínica, cênica, cômica, a única forma de poesia que não pede esmolas a corações de pedra, nem lambe as botas dos generais do amor, esses que sabem tudo sobre paixão, sobre o cerne da carne, sobre o espírito e a alma, confundindo o cú com o coração, misturando mel e lama, chafurdando como porcos na cama.


Há um abismo prateado no limiar deste horizonte que só vejo quando fechos os olhos com força pra poder enxergar essa tua cara de puta, esse teu riso irônico de quem mente como quem ama, com a deliciosa calma dos anjos caídos que aparecem sorrateiramente nas noites mais frias como uma lembrança corriqueira que balbucia versos melosos que duram até o nascer do sol.


Não quero escapar, não quero voar livremente para uma vida após essa vida, para uma existência além desta essência tão maravilhosamente sem graça. Que a desgraça divina e cotidiana de cada amanhecer seja para mim a lembrança de que você está por aí, linda demais para ser humana, humana demais para ser tão linda, perfeita demais para estar nos braços de outro, tão perfeitamente minha que uma vida inteira te amando seria pouco!


Há um abismo prateado no limiar deste horizonte que só vejo quando fecho os olhos com força. Um vulto estranho brilha no canto dos meus olhos, e voa como uma mariposa em chamas, flanando sem destino para sempre em seu fosso negro como uma sinistra masmorra, enquanto suporto com um sorriso essa dor imensa quando alguém diz serem lindos esses olhos iluminados de dentro para fora, essa estranha claridade que só eu, em segredo, sei que é saudade da verdadeira luz que foi embora.

domingo, 15 de maio de 2011

ALELUIA





"De corde exeunt cogitationes malae" - Matheus XV, 19.




PEQUENOS DILEMAS DOMINICAIS






Eu poderia ser feroz, pois tenho músculos e astúcia,
mas meu juízo me faz sempre parecer um bicho de pelúcia.
Meu corpo pede, minha alma refuta.
Doar aos pobres ou gastar com as putas?

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A BORBOLETA

E repentinamente você pára de gritar à toa, e descobre como é bonito e ao mesmo tempo embaraçoso ouvir seu coração batendo alto, fazendo eco, como o barulho das asas de uma borboleta que não sabe onde pousar...

PEQUENOS DILEMAS DOMINICAIS (2)





Quero, mas não posso.
De espuma são feitos meus ossos.
Pra sempre, pra mim, é sempre muito pouco.
Jamais me passei por gênio nem precisei fingir-me de louco.


Tenho mãos que sabem os mais perfeitos carinhos,
mas meus gestos dizem ao mundo que quero estar sozinho.
Toda dissonância me alivia. Toda confusão me anima.
Mesmo assim teimo em perseguir a correta rima.


Eu poderia ser feroz, pois tenho músculos e astúcia,
mas meu juízo me faz sempre parecer um bicho de pelúcia.
Meu corpo pede, minha alma refuta.
Doar aos pobres ou gastar com as putas?


Não vou à missa; jamais provei uma hóstia.
Mas Deus nunca deixou-me com perguntas sem resposta.
Certo filósofo disse que ter angústias é ser inteligente.
Mas o poeta tem o peito em chamas e o coração dormente.


Escrevo sem rumo, como quem caminha certo por vias tortas.
Somente os espinhos podem garantir que minha carne não está morta.
Creio que é possível sofrer no paraíso, entre anjos e flores.
A você dedico esses versos, alimentando tuas alegrias com as minhas dores.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

HOJE EU ACORDEI ANTES DE MIM





Tem dias em que você acorda antes de você mesmo, e fica ali se olhando como um pai olha um filho como se visse uma fotografia muito antiga, reconhecendo a própria figura num ser estranho que ficou petrificado no papel. Um inspira, outro expira. Um se vai, outro se esvai. 


O que dorme é sempre mais bonito, mais simples, mais feliz, enquanto este que segue acordado apenas contempla, muitas vezes com inveja, outras com ciúmes. De olhos bem abertos vemos o tempo correr veloz, sentimos o tempo fluindo como um rio de águas turvas dentro das nossas veias. 


Algo nos corrói, nos come pelas beiradas, devagar e sem pressa, mas só pra nos enganar. De repente você acorda antes de você mesmo e vê que deixou na cama um menino, e fica com medo de acordá-lo e interromper a beleza daquele sono. Com o que sonha esse menino? Que vida ele vive nas altas nuvens que o carregam para tão longe deste que olha e não crê? 


Como pais e filhos em uma fotografia, estranhamente nossas cores se distanciam. Uns ficam mais escuros, outros mais claros, uns perdem os cabelos, outros ganham pelos onde não suspeitavam. Uns enrijecem, outros esmorecem. Uns correm, outros claudicam, uns engatinham, outros reivindicam. E nunca se sabe qual dessas realidades é a mais certa ou a mais desejável. Acho que elas se misturam em diferentes tempos, e nós só percebemos as diferenças quando, de repente, no meio da noite, um acorda sobressaltado e encontra a si mesmo ainda dormindo ao seu lado.


A foto está lá. Estamos amarelando, descascando, as tintas que os olhos pintam de dentro pra fora começam a secar, a rarear, nos obrigando a cada dia usar aqueles tubos ainda não gastos, as tintas que menos gostávamos de usar vão se transformando em nossa matéria comum do dia-a-dia.


O tempo olha as horas, as horas olham os minutos, e todos se perdem num eterno olhar e não ver. Assim, nesses dias em que acordo antes de mim, evito contemplar aquele que ficou na cama, sorrindo, sonhando. Visto paletó e gravata e vou encarar a vida, sangrando.

sábado, 30 de abril de 2011

SENHORA



Como o oceano imenso
abraça as terras todas de uma só vez
e embala o mundo no berço ritmado de suas marés
assim eu, pequeno perante a tua lenda, sou acolhido
por esta presença firme e doce resumida num abraço de mulher.

Num instante que poderia se prolongar pela eternidade
sinto todos os meus átomos desejando experimentar o teu corpo:
sou uma criança excitada por trovões que ressoam nos confins da noite
e sob o açoite das impreteríveis vontades que me assombram eu me deixo acolher
pela tua presença firme e doce resumida num abraço de mulher.

Mas num lampejo a realidade nos afeta
e teu olhar repreende o poeta dizendo "sim"
enquanto teu corpo aceita o homem dizendo "não"
separando-nos devagar, deixando-me flutuar para longe
da tua presença firme e doce resumida num abraço de mulher.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

NOTAS PARTICULARES




Notas particulares de quem sou agora para aquele que serei no minuto seguinte:


- Alegria, mas contida.

- Confiança, mas prudente.

- Amizade, mas à uma distância segura.

- Paciência, sobretudo consigo mesmo.

- Gentileza, mesmo com os que não merecem.

- Se perder a paciência, não se esqueça de manter a educação.

- Entre os ignorantes, seja elegante.

- Imite os bons hábitos, mas não perca sua personalidade.

- Seja original, mas controle as polêmicas.

- Diga sempre a verdade... para aqueles que se importam com ela.

- Não minta jamais, mas se esquive de compromissos impossíveis.

- Admire a beleza das flores, mas aceite a utilidade de um machado.

- Admire um bom sorriso, mas não creia em todos eles.

- Que tua voz seja firme, mas mansa.

- Seja bom, mas não pusilânime.

- Seja bravo, mas nunca impiedoso.

- Viva como se fosse o último dia, mas esteja ciente das consequências do amanhã.

- Que tuas mãos sejam fortes, mas carinhosas.

- Que teu coração não se deixe enganar, mas também não perca jamais a vontade de amar!




[Tenho a leve impressão de que metade disso já havia sido anotado antes. "Ignorance is bliss?"]

[CARPE DIEM]


domingo, 17 de abril de 2011

SABER NADAR





Ser profundo não vem ao caso
quando você precisa falar
com quem só sabe nadar no raso.


#haikai

sábado, 9 de abril de 2011

O DESTINO DE ÍCARO






Eu não sabia mais olhar o nascer do dia com inocência.
Fazer a barba era um momento de epifanias cinzentas
e dedos trêmulos prometendo pequenas tragédias cotidianas
como cortes de navalha de dentro para fora, como mágoas
que correm sob a pele na calada das horas...
Eu não poderia contemplar o vôo tímido dos pardais
sem pensar nos poetas suicidas que tinham como único amigo
uma ave negra como a noite que beija os seus umbrais
lembrando que ali o amor não entraria... nunca mais!
Eu não sabia mais sorrir sem que por baixo daquela máscara
uma criatura de pele fria perguntasse "porquê?", "porquê?"
e o menino que eu ainda poderia ser desistisse da brincadeira
e fugisse entre as brumas de ocre-esverdeadas dos meus olhos.
Eu sou um homem feliz que esqueceu-se como sorrir.
Eu sou um homem bom que esqueceu-se de como rezar.
Eu sou um eterno amante que já não sabe amar.
Aos trinta anos de idade exauri todo açúcar do universo
mas continuo fingindo carinhos deliciosos
e sorrisos lindos como portas abertas de par em par.
Aos trinta anos troquei minha alma por um punhado de versos
e desde então sigo sozinho: 
um coração de pedra, 
que mesmo jogado no oceano
ainda insiste em flutuar.

MARE TRANQUILITATIS






Sigo em frente
na foz nas das gentes
ouvindo vozes antigas
e o marulho solfejante das ondas.


Tiro fotografias instantâneas
não daquilo que está á margem
mas das coisas sucedâneas, subcutâneas,
aquelas que trazem calma e vertigem.


Ando com passos de bêbado na corda bamba:
esse é meu compasso, passear por bossas e sambas.
Esse corpo nasceu comigo, mas descolou-se da alma logo cedo:
certas partes de mim são infinitas, outras quebram fácil como brinquedos.


Mar... teu latim de pedras azuis que cantam para mim
as canções de ninar que minha mãezinha no céu já se esqueceu.
Ouço, oceano, e transbordo de poemas que jamais virão á luz.
O Gólgota está vazio. Não fará mal jogar pedras na cruz.


Teço sem pressa a salmodia das madrugadas que se vão em gestos sem pudor.
Deus está morto. Mas o menino-deus, travesso, atravessa meus versos com amor.
Fui um bom cristão, trafiquei meu sangue azul entre as princesas e as putas do cais.
Grito o nome de Deus no deserto, mas meu eco é esperto, e não reverbera meus ais.


Quem sou eu debaixo deste véu? Quem é o homem que vejo no espelho?
Quando eu era criança tocava o céu. Hoje me resta o pó: estou ficando velho!
Mas o que farei com tantos carinhos ainda não gastos? Voarei para outro planeta?
Aos palhaços cabe esse destino, ver o circo pegar fogo, e rebatizar-se de poeta!

quarta-feira, 30 de março de 2011

A MAGOADA FELICIDADE





A Magoada Felicidade


Sempre que essa tal felicidade bate à minha porta, fico como uma criança que estivesse sozinha em casa e fosse surpreendida por algum estranho visitante, que subitamente batesse com mão de pedra ou de aço, e fizesse todo mísero cotidiano transformar-se em novidade. Eis o dilema: abrir ou não abrir a porta?


A gente se acostuma a viver em um mundo previsível, onde a única certeza é a perda. Nada é completo, perfeito. E perfeição, aqui, nada tem a ver com beleza ou poder. Perfeito é aquilo que é completo. Veja só a nossa vida: é totalmente imperfeita. É incompleta. Temos alegrias momentâneas, uma alegria diáfana, efêmera, escrita a ferro e fogo nos cânones, delimitada por todas as religiões: a vida tem alegrias, porque seu Criador assim deseja, mas o sofrer é humano, necessário, indispensável, insofismável. Somente no pós-vida é que existe a possibilidade da redenção, que é disfrutar do sentimento de eternidade, a existência enfim completa e por isso perfeita, e por consequência, a felicidade.


Então quer dizer que ninguém é feliz nessa vida? Sim, a felicidade, muitas vezes, se apresenta em nossa vida, mais de uma vez a cada pessoa, mas nós não acreditamos nela. Não conseguimos entender o que ela pretente. Recebemos a felicidade como uma visita muito suspeita: ninguém pode ser realmente feliz, plenamente, para sempre! Se vemos alguém feliz, ou suspeitamos que está fingindo, ou cremos que está obtendo sua felicidade às custas da tristeza de outro, ou que, em última instância, não é a felicidade verdadeira, visto que essa felicidade demanda um contentamento sem medida e sem motivo, ou sem motivo aparente ou explícito, visto que tudo é tão perfeito que fica difícil definir qual é a fonte daquela felicidade.


Chega até ser deselegante, ofensivo, dizer que é feliz, andar sorrindo por aí, dizendo que a vida é boa, dizendo que está tudo bem!  Gente que vive assim é tida como boba ou como mal-intensionada, gente que finge o impossível só para nos deixar 'pra baixo', pra mostrar que está obtendo mais vantagens que nós, que está sendo favorecida por alguma entidade suprema que só distribui benesses a uma pequena parcela da humanidade.


Estava me sentindo tão pleno ultimamente, tão feliz, que não entendi o motivo, apesar de suspeitar de vários. Poderia achar que é o trabalho, o amor, as finanças, a política... poderia ser simplesmente por ter achado uma moeda no bolso de um paletó, ou ter recebido um sorriso de um estranho na rua, ou ter conseguido comprar aquele carro, aquele tênis, o último gadget da moda, uma gravata bonita...  É claro que a vida possui as suas mazelas, os seus problemas, os pequenos descontentamentos, as lágrimas que furtivamente irrompem quando vemos uma cena triste no noticiário ou na tela do cinema... mas essas dores, essas lágrimas, estavam, por assim dizer, no "script". É esperado certo tipo de empatia e simpatia, para o riso e para o choro. Mas a felicidade sobrepuja a tudo isso, e no fim do dia o sujeito feliz sente-se realizado, completo, ainda que suspeite que haja algo de errado.


O fato é que nossa felicidade é uma senhora acostumada a não ser correspondida por qualquer pretendente. Ela nos sorri, flerta conosco, e nós fazemos pouco caso. Ficamos com medo, e, humanos e bobos como somos, aceitamos a felicidade como algo que não pudesse durar, e por isso ansiamos tolamente pela volta ao 'mundo normal' sem toda aquela euforia, aquela felicidade, aqueles sorrisos e aquela alegria.


Como eu disse, estava me sentindo feliz com tudo o que estava vivendo ultimamente, sem ligar para os pequenos problemas do dia a dia. Mas, de repente, lembrei da minha condição humana, lembrei de como me contavam que a felicidade não existia, que era apenas uma palavra usada para designar o inatingível, mas lembrei, sobretudo, de como a filosofia e a ciência pouco contribuem para o entendimento da felicidade, que, muito magoada, não quer mais papo com cientistas, filósofos e, cada dia mais, com os poetas!


A Felicidade, magoada, tem evitado constantemente o nosso convívio. Culpa nossa!


Ao perceber que a minha felicidade já estava me olhando desconfiada, querendo ir embora, observando meu comportamento estranho, decidi chamá-la para uma conversa, dizer que não me importava de onde vinha ou o que fazia aqui. Decidi não interpelar mais a quem me batesse na porta com um sorriso no rosto e uma promessa de perfeição. Simplesmente abriria portas e janelas, deixaria entrar quem quisesse, e deixaria a porta aberta para que a brisa de cada dia e cada noite viesse arejar os cômodos dessa vida, sem que eu chegasse a perguntar quem sopra esses ventos na minha face, simplesmente aceitando seu cheiro de "bom dia" e de "boa noite" como quem aceita um sonho bom, e embarca em suas aventuras sem nem perceber que já está navegando em águas profundas. 


Ser feliz é exatamente isso, um exercício consciente para perder a consciência. Perder-se com minúcia, com toda a técnica e experiência daqueles que não tem a mínima idéia do que estão fazendo! Como disse o velho bardo: "Navegar é preciso, viver não é preciso!"



sábado, 26 de março de 2011

SOLITUDE

Me dá sua mão?
E se eu precisar de um abraço, como eu faço?
Me conta qualquer mentira gostosa!
Os meus versos só se alegram com a tua prosa!

sábado, 19 de março de 2011

AS COISAS MAIS DOLORIDAS





Vim de longe derrubando ânforas de espanto
enquanto meu tempo transformava  o eterno em por enquanto
e ao ouvir meu próprio canto, abafado pela noite lenta e mágica
achei que fosse outro, menos parecido comigo, menos carente de abrigo,
talvez alguém que não parecesse tão velho
ou cujos olhos já cansados de tanto brilhar
não fugissem ao encontro de qualquer espelho.


Vim fugindo da minha sombra
porque depois de certas horas qualquer companhia incomoda
e qualquer fio de esperança é visto como a corda
de uma forca que ao balançar dos ventos me convida
ao último salto, para além do meu próprio tempo,
para o voo mais alto e absurdo, a deliciosa vertigem
de enfim livrar-se de roupas, carnes, ossos... de toda casca
que nos impede de gritar ao mundo: Já chega! Já basta!


Vim até aqui e estaquei diante da folha branca
como quem chega à beira de um abismo 
com a certeza do próximo passo
mas interrompe a marcha diante do sinismo
que trazemos guardado com minúcia e paciência
para usar nessas horinhas tristes e calmas
quando a vida e a morte unidas batem palmas
aguardando terminar o espetáculo da nossa existência.


Tinha ganas de poetar violentamente, de gozar de todos,
de jogar na cara dos meus amores fracassados essa dor imensa,
de perder os bons modos e ditar nomes de santas e putas
pois são todas elas filhas da mesma Eva
que jogou o homem nas trevas usando uma fruta.
Mas seria fácil demais fazer versos de pura mágoa
enquanto o espírito de um Deus sonso flutua sobre as águas
sabendo que a carne é fraca e não deve ser esquecida
nem recusada, nem abolida, nem refutada, 
porque na carne moram as coisas mais gostosas
e só no espírito residem as coisas mais doloridas!

domingo, 6 de março de 2011

A MELHOR FLOR DOS PIORES TEMPOS





A Melhor Flor dos Piores Tempos


[ou... Cavando Abismos, Construindo Pontes]


Acostumei-me ao rebuscados meneios da poesia. Mal costume, devo dizer. Porque a cada dia que passa tenho que ser mais homem, mais humano, e subverter toda lira, e não pensar mais em ramos floridos bailando entre os dedos da brisa matutina, nem nas ondas de chumbo líquido que se descabelam ao encontrar a terra, bordando de brancas espumas os lábios do continente. Não, não cabe rimar. Contemplar a poesia não cabe, nessas horas de ferro e fogo que exigem da gente a palavra dura e a atitude medida dos homens de verdade.


Mas o que é ser um homem de verdade? Ser rude? Mentir? Acordar cedo e sair para a vida com a gravata apertada no colarinho, com o tempo nos estrangulando, com contas a pagar, com as mãos secas para machucar os outros, com o corpo esperando o sexo sem carinho, a agulha, o vício, a morte?


Será o tempo o nosso vilão? Será o tempo a mão esquerda de Deus? Será que existe um Deus? Ou será que cada homem cria um álibi chamado Deus para cuidar do episódio humano como quem vive a podar uma árvore que só queria florescer?


Há algum tempo não encontro refúgio nas palavras. Elas que me acolheram nas horas mais difíceis, hoje me fogem como cavalos selvagens, e são ariscas, brutas, e jogam poeira nos meus olhos e me fazem chorar um choro abafado e envergonhado. Homem não chora, menino!  E as palavras passam, cavalgam sem cuidado com as campinas floridas, e rima alguma me contempla, nem mesmo a mais dolorida. As palavras passam por meus olhos, mas por mais que eu as mire, não acredito mais na verdade dos seus nomes. Elas nascem de todos os lugares e de lugar nenhum; elas voam por todos os lados e se chocam contra o meu peito como aves cegas contra um rochedo à beira-mar. Como sorrir assim? Como cantar a paisagem se todas as janelas estão fechadas?


Tempo sem beijos. Tempo de apertos de mãos sem vontade. Tempo de dividir o cativeiro com o inimigo. E as palavras ao redor, paredes sujas, corredores escuros, os carinhos disfarçados de mal-querer, os maus-tratos adornados com fita cor-de-rosa e com cheiro de chocolate. É como se todos os ramos de flores escondessem venenos mortais, adagas, punhais. Onde foi que perdemos nossa delicadeza? Quando foi que amar ficou fora de moda? As pessoas caminham em círculos, mãos dadas com luvas cheias de espinhos.


Outro dia me encontrei olhando nos olhos de outra pessoa, e confesso que estremeci. Nos últimos anos chegar perto de qualquer ser humano era para mim como aproximar-se da beira de um abismo. Curiosidade, medo, náuseas, desconforto...  E por isso abracei as formas mais efêmeras de existência, e me tornei uma lenda pra mim mesmo. Mas de tempos em tempos eu me pego desafiando a perigosa distância da qual me fiz refém, e a despeito do perigo de perder-me nos abismos da alma alheia, deixo-me apaixonar pela mais banal da criaturas, por aquela que passa sem me notar, por aquela que sorri sem terceiras intenções (porque das segundas ninguém escapa) e que me estende a mão desnuda, sem as luvas cotidianas a que todos nos acostumamos a usar.



Esta criatura em construção sempre me surpreende com a força da sua poesia. Poesia que eu não acreditava existir mais! 

Engraçado como nosso pensamento caminha pelas mesmas trilhas, ás vezes ensolaradas, ás vezes obscuras. a vida continua dura, ríspida, mas há quem resista. Há quem resista!

Meus nós desataram-se há muito tempo, e nem lembro mais o que é ter um porto seguro, ou uma corda que me prenda a alguma coisa, alguém, algum lugar. Mas quanto mais eu conheci do mundo, mas percebi o quanto todos nós somos parecidos, as mesmas vontades, os mesmos pecados, as mesmas forças e fraquezas.

Antes eu me privava do amor, porque eu sim fui abandonado e envelheci esperando ela voltar... e a dor do golpe me fez jamais querer aventurar-me por estes caminhos novamente.

Mas hoje existe um mundo novo, virtual, e apaixonar-se tornou-se possível novamente, pois o muro de proteção (a telinha brilhante ) nos salvaguarda de tocar o outro e depois morrer de saudade por não poder tocar mais...

C'est la vie.

Pensando em nós... acho que somos como duas pessoas que caminham no escuro, uma ao lado da outra, mas sem se ver, sem se tocar, e por isso seguindo sempre em frente, com uma imensa impressão de estar só. Faltaria só um gesto na direção oposta para que o milagre acontecesse, mas já é tarde para acreditar em milagres, e caminhar é preciso...

Mas como uma criança deixa sua mão registrada no cimento fresco, sem saber que aquele toque ficará ali para sempre, você fez o mesmo comigo, chegando de leve, como uma pena bonita e colorida que vem flutuando e nos toca o ombro, e a gente guarda com um carinho sem explicação, numa caixinha que talvez fique esquecida em alguma gaveta, lembrança única de que um dia nos apaixonamos por um pássaro que nem vimos nem ouvimos, pois passou voando veloz em direção ao seu destino de liberdade!


domingo, 20 de fevereiro de 2011

KAFKA SORRI NA ETERNIDADE



Ontem de madrugada vi uma barata branca passeando pelos ladrilhos negros do meu banheiro. O pior é que eu não estava bêbado, aliás não sou do tipo que costuma ficar bêbado, porque uma dor-de-cabeça cruel me assalta antes que eu consiga passar do limite e ver o mundo rodando. E o mais curioso é que a barata era banca mesmo, e os ladrilhos do meu banheiro são de mármore negro, imagine o contraste!

Levei um susto, depois tive vontade de perseguí-la, mas o monstrinho desapareceu como por encanto, ou foi mais rápida que meus olhos míopes e astigmáticos ao mesmo tempo. Mais provável.

Fiquei lembrando da minha infância, em um momento em que eu morava com minhas tias, e lembrei do pânico das senhoras, misturado ao frenezi das crianças correndo com chinelos à mão... Mas depois lembrei também das histórias que me contavam:

" - A barata branca geralmente só aparece pra uma única pessoa. Ela é chamada de barata-noiva e significa que aquela pessoa vai se casar em breve!"

Essa era uma das histórias que eu ouvia em casa, você sabe, tias solteiras, família mineira, grande, cheia de crendices (e o texto redundando nos adjetivos) mas uma vizinha mais soturna, creio que uma viúva paulistana, filha de imigrantes búlgaros, gente muito tendenciosa a ver espíritos malignos até mesmo num belo arco-íris, um dia me disse assim:

" - A barata branca é chamada de barata-fantasma e traz sempre mau agouro! Quando ela aparece, é sinal de que alguém daquela casa ou algum conhecido de quem a viu irá morrer em breve!"

Considerando o imaginário popular e considerando que eu moro sozinho num prédio antigo, vocês já podem imaginar o resultado: não consegui dormir durante a noite. Primeiro esperei por mais de uma hora que a noiva-fantasma voltasse, depois passei o resto da madrugada no quarto, um calor infernal sem ar-condicionado, imaginando quem seria essa minha esposa tão inesperada ou como seria essa minha morte tão prematura... e com a barata-branca me convidando a escrever um samba pra ela!


O prognóstico é pouco animador: ou eu vou me casar muito em breve, ou vou morrer! Pra mim, está dando na mesma...



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A CARNE




A carne 
é o cerne
de tudo o que a gente gosta
mas também do arame farpado
que se enrosca na alma do coitado.

A carne da mulata
servida em baixelas de prata.
A carne da loirinha
degustada com os melhores vinhos.
A mulher do outro
um manjar para poucos.
O sexo igual ou diferente
a carne que ilude a gente...

Se os sábios, os santos, os ascetas

disserem que é na alma que reside
o fogo que dá vida aos poetas
chame-os de falsos, pois é tudo mentira!
É a carne que alimenta
o fogo da sagrada pira!