Ask Google Guru:
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Á BEIRA DE MIM
Havia um chão inquieto sob nós
Como se toda a estrutura bruta, a rocha, os seixos,
De repente fosse um oceano, um não-estar seguro,
Como se todas as descobertas abrissem em seu seio uma procura,
Um desejo de chegar muito próximo aos abismos
E dizer, gritar: 'Ei, você! Estou aqui! Agora é a sua vez!'
sábado, 30 de julho de 2011
O PRESENTE INESPERADO
“I wondered what happened when you offered yourself to someone, and they opened you, only to discover you were not the gift they expected and they had to smile and nod and say thank you all the same.”
— Jodi Picoult, trecho do seu livro "My Sister’s Keeper" de 2004.
"Ás vezes fico imaginando como seria se você se entregasse a alguém, e essa pessoa te abrisse como um embrulho de presente, somente para descobrir que o presente esperado não era bem aquele que ele esperava, e ele se visse obrigado a dar um sorriso amarelo e agradecer assim mesmo."
— Marcelo Sousa, tradução livre. Numa tarde silenciosa de sábado.
domingo, 24 de julho de 2011
JOGOS PERIGOSOS
Sou ateu, mas jogo Xadrez com os deuses todos os domingos.
Buda perde no Poker, Javé rouba nos Dados, Shiva ganha no Bingo!
Meu lado negro cintila, faísca, brilha!
O mundo é um oceano. Eu sou uma ilha!
sexta-feira, 22 de julho de 2011
ÍMPAR
Onde guardarei meu desejo de solidão?
Em que gavetas deixarei bem guardado o meu silêncio?
Com carinho, laço de fita e papel colorido faço um embrulho.
Os versos não rimam, meu corpo não se acomoda, sou um estranho dentro de mim.
O que fazer com essa outra figura colada à minha sombra?
O que fazer com minha vontade de não ser ninguém, nem que seja por apenas alguns minutos?
Queria não pertencer a nada, não ter nada, não ser obrigado a sentir a mim e ao outro.
Queria poder dizer que uma eternidade, para minha solitude, ainda é pouco!
Não rimar é uma necessidade. Talvez seja até um dever algumas vezes.
Tenho desejos ímpares, mas as pessoas querem que tudo se resolva de par em par.
Qual é o problema em ser um só, um número ímpar?
Qual é o problema em não saber rimar?
Sem rumo, sem rum.
Sem prumo, sem fumo, sem poder nem pudor algum.
Deixo-me estar na multidão, este oceano de gente. Eu, uma ilha!
Entre o 'ser' e o 'estar' haverá sempre um alçapão, um laço, uma armadilha.
sábado, 16 de julho de 2011
PLEASE BE A BITCH TONIGHT
Por uma noite apenas, esqueça os poemas de amor
e com olhinhos submissos e sacanas diga somente isso: "Sim, por favor!"
Forget all poems, all love spells, all that crap that lovers want to believe at ease
and come to me with those nasty little eyes, and just say: "Yes, please!"
LA PATAGÓNIA
Num instante azul de silenciosa solidão
Todos os seus átomos vibram em atônita contemplação
De onde se pode ver a Patagonia cinzenta e dourada
Molhada de perfumes etéreos de neve e magma.
Sou pequeno e torpe, numa cama de hotel
Limpando os olhos maravilhados pelo espetáculo
De ter o irmão-Sol dizendo "bom dia" de um lado da janela
E a irmã-Lua dizendo "boa noite" no outro extremo da tela.
domingo, 10 de julho de 2011
ANTROPOFAGIA
No jardim do teu púbis
nascem e morrem os mitos, os deuses:
Javé, Odin, Shiva, Buda, Anúbis!
Sem pressa recolherei o mel
oferecido por esta colméia
pois sei onde encontrar a melhor geléia.
Porém mil vezes preferirei sorver o fel
escondido entre as fibras caóticas do teu cerebelo
do que procurar redenção nas tuas coxas, entre os seus pêlos!
sábado, 25 de junho de 2011
MOÇA
Um poema feito a quatro mãos...
Por Thauan Raposo e Marcelo Sousa
Rio de Janeiro, Junho de 2011.
Moça, mesmo que eu vá agora
Saiba que não vou embora
Por enquanto, por espanto,
Petrifico nuvens, ponho fogo no mar
E o silêncio estrondoso do meu canto
É uma prece que teço sem pressa
Olhando teu vôo de ave-moça
Cheia de graça se despedindo
Dando adeus como quem quer ficar.
Moça, essa tua bossa
Parece chuva fina, água em poças,
Areia movediça, floresta de rimas
Que não rimam com verso algum
Porque teu vôo de ave-menina
Não deixa rastro no céu
Só o perfume de saudade
De quem ficou só na vontade
De capturar o que foi feito pra voar
Voar sem limite, sem véu,
Ao léu.
Moça, essa tua prosa, toda prosa
Esconde o mesmo que todas as rosas
Semeando cores e odores pelo caminho
Sem contar onde guardou seus espinhos.
Tua presença arrasta olhares para alhures
Brincando no céu como faz a gaivota
Fazendo seu ninho lá nas alturas
Onde minha alma de menino te procura.
Moça, teu olhar de quem perdeu o mapa
É puro charme, porque tua presença sem pressa
Traz nos gestos descomplicados e incontidos
Uma paz estranha, uma sabedoria enorme
de séculos sonhados mas não vividos
De risos precisos, preciosos, poderosos,
Que jamais deveriam ser interrompidos.
Moça, ave-menina cheia de graça,
Toda classuda, teu olhar nem disfarça
Que quando o sol aparece
Ou quando o vento muda
É você que manda, comanda, exige
Que as leis da Física te obedeçam
Enquanto você vai para além do tempo e do espaço
Deixando secretas vontades tatuadas nos meus ossos.
Moça, teus modos de ave marinha
São meu farol, minha bússola, estrela sobre o mar.
Não é preciso viver, só é preciso navegar.
Eu, bucaneiro sem rumo e sem rum
Sigo a navegar pra lugar nenhum.
Persigo teu vôo sem mapa, eu pirata
Traficando desejos tranqüilos como uma tormenta
Ouço trovões como se fossem uma fina bossa
E lembro que sou barco, e meu mar é você, moça!
quarta-feira, 15 de junho de 2011
AS SUTILEZAS DO AMOR
De todas as esperanças o amor é a última;
ele é o acidente à espera de uma vítima.
É o bater das asas da borboleta
que vira furacão do outro lado do planeta.
Amor é o símbolo estranho tatuado nas costas da mariposa,
é o espinho colocado por Deus pra não deixar ser perfeita a rosa.
O amor é sempre contrário do juízo,
porém há de se ter cuidado, pois navegar é preciso.
E neste oceano de possibilidades sem fim
o amor é agulha escondida em bolinhas de algodão
ou pedra pontuda embrulhada em fita de cetim.
O amor é o fogo que abrasa cérebro e coração
como sacrifícios idênticos na sagrada pira.
O bom e velho amor só sabe dar um pouco
quando muito mais de nós ele tira!
sábado, 4 de junho de 2011
JÁ ERA! NÃO É?
Nada é. Tudo está sempre sendo ou tentando ser.
E se você está parado, muito atento, esperando o inesperado te dizer "oi"
num piscar de olhos você vai estar atônito, percebendo que o que era pra ser... já foi!
UM SÁBADO DO MEU JEITO
A Neosaldina em dose tripla fazendo efeito agora, uma delícia.
Eu no meu quarto, barulhinho de chuva lá fora,
aqui dentro, a luz apagada, o notebook no colo,
metade do corpo embaixo de um edredom sujo dos sonhos de outrora.
Mais tarde vou me masturbar pensando em meninos e meninas.
E antes de dormir, tocar "Claire de Lune" no piano virtual do iPad.
Modernidades que acompanham a velha solidão.
Sem poesia, sem delicadas epifanias, sem rimas espertinhas.
Só eu, meu corpo sem alma, e a calma de morrer aos poucos
aproveitando a vida como um louco, do meu jeito:
com mil adagas saindo do meu peito.
CASACO MOLHADO
Na maioria das vezes o sentimento de "ser bom" ou "ser do bem" me parece como caminhar milhas e milhas contra o vento, com um cardigã molhado, numa noite fria de inverno.
terça-feira, 31 de maio de 2011
INDELÉVEL
O amor não é figura que se rabisque na pele em momento de ócio.
Amor é um dragão que a gente traz tatuado nos ossos!
quinta-feira, 26 de maio de 2011
domingo, 22 de maio de 2011
UM ABISMO PRATEADO
Há um abismo prateado no limiar deste horizonte que só vejo quando fecho os olhos com força pensando em você. Cada letra do teu nome é um pecado, e parece que mil flores morrem a cada suspiro que deixo escapar ao lembrar o cheiro mofado da nossa intimidade.
Não quero escapar, não quero voar livremente para um suicídio grandioso e doce, como um novo messias entregando a alma a um deus que não está nem aí:"Eli, Eli, lamna sabactani?" Porque não confio mais na redenção que não seja cínica, cênica, cômica, a única forma de poesia que não pede esmolas a corações de pedra, nem lambe as botas dos generais do amor, esses que sabem tudo sobre paixão, sobre o cerne da carne, sobre o espírito e a alma, confundindo o cú com o coração, misturando mel e lama, chafurdando como porcos na cama.
Há um abismo prateado no limiar deste horizonte que só vejo quando fechos os olhos com força pra poder enxergar essa tua cara de puta, esse teu riso irônico de quem mente como quem ama, com a deliciosa calma dos anjos caídos que aparecem sorrateiramente nas noites mais frias como uma lembrança corriqueira que balbucia versos melosos que duram até o nascer do sol.
Não quero escapar, não quero voar livremente para uma vida após essa vida, para uma existência além desta essência tão maravilhosamente sem graça. Que a desgraça divina e cotidiana de cada amanhecer seja para mim a lembrança de que você está por aí, linda demais para ser humana, humana demais para ser tão linda, perfeita demais para estar nos braços de outro, tão perfeitamente minha que uma vida inteira te amando seria pouco!
Há um abismo prateado no limiar deste horizonte que só vejo quando fecho os olhos com força. Um vulto estranho brilha no canto dos meus olhos, e voa como uma mariposa em chamas, flanando sem destino para sempre em seu fosso negro como uma sinistra masmorra, enquanto suporto com um sorriso essa dor imensa quando alguém diz serem lindos esses olhos iluminados de dentro para fora, essa estranha claridade que só eu, em segredo, sei que é saudade da verdadeira luz que foi embora.
domingo, 15 de maio de 2011
ALELUIA
"De corde exeunt cogitationes malae" - Matheus XV, 19.
Quando um ateu cita em Latim a Bíblia Sagrada
alguma coisa está muito certa ou muitíssimo errada!
#haikai
PEQUENOS DILEMAS DOMINICAIS
Eu poderia ser feroz, pois tenho músculos e astúcia,
mas meu juízo me faz sempre parecer um bicho de pelúcia.
Meu corpo pede, minha alma refuta.
Doar aos pobres ou gastar com as putas?
quarta-feira, 11 de maio de 2011
A BORBOLETA
E repentinamente você pára de gritar à toa, e descobre como é bonito e ao mesmo tempo embaraçoso ouvir seu coração batendo alto, fazendo eco, como o barulho das asas de uma borboleta que não sabe onde pousar...
PEQUENOS DILEMAS DOMINICAIS (2)
Quero, mas não posso.
De espuma são feitos meus ossos.
Pra sempre, pra mim, é sempre muito pouco.
Jamais me passei por gênio nem precisei fingir-me de louco.
Tenho mãos que sabem os mais perfeitos carinhos,
mas meus gestos dizem ao mundo que quero estar sozinho.
Toda dissonância me alivia. Toda confusão me anima.
Mesmo assim teimo em perseguir a correta rima.
Eu poderia ser feroz, pois tenho músculos e astúcia,
mas meu juízo me faz sempre parecer um bicho de pelúcia.
Meu corpo pede, minha alma refuta.
Doar aos pobres ou gastar com as putas?
Não vou à missa; jamais provei uma hóstia.
Mas Deus nunca deixou-me com perguntas sem resposta.
Certo filósofo disse que ter angústias é ser inteligente.
Mas o poeta tem o peito em chamas e o coração dormente.
Escrevo sem rumo, como quem caminha certo por vias tortas.
Somente os espinhos podem garantir que minha carne não está morta.
Creio que é possível sofrer no paraíso, entre anjos e flores.
A você dedico esses versos, alimentando tuas alegrias com as minhas dores.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
HOJE EU ACORDEI ANTES DE MIM
Tem dias em que você acorda antes de você mesmo, e fica ali se olhando como um pai olha um filho como se visse uma fotografia muito antiga, reconhecendo a própria figura num ser estranho que ficou petrificado no papel. Um inspira, outro expira. Um se vai, outro se esvai.
O que dorme é sempre mais bonito, mais simples, mais feliz, enquanto este que segue acordado apenas contempla, muitas vezes com inveja, outras com ciúmes. De olhos bem abertos vemos o tempo correr veloz, sentimos o tempo fluindo como um rio de águas turvas dentro das nossas veias.
Algo nos corrói, nos come pelas beiradas, devagar e sem pressa, mas só pra nos enganar. De repente você acorda antes de você mesmo e vê que deixou na cama um menino, e fica com medo de acordá-lo e interromper a beleza daquele sono. Com o que sonha esse menino? Que vida ele vive nas altas nuvens que o carregam para tão longe deste que olha e não crê?
Como pais e filhos em uma fotografia, estranhamente nossas cores se distanciam. Uns ficam mais escuros, outros mais claros, uns perdem os cabelos, outros ganham pelos onde não suspeitavam. Uns enrijecem, outros esmorecem. Uns correm, outros claudicam, uns engatinham, outros reivindicam. E nunca se sabe qual dessas realidades é a mais certa ou a mais desejável. Acho que elas se misturam em diferentes tempos, e nós só percebemos as diferenças quando, de repente, no meio da noite, um acorda sobressaltado e encontra a si mesmo ainda dormindo ao seu lado.
A foto está lá. Estamos amarelando, descascando, as tintas que os olhos pintam de dentro pra fora começam a secar, a rarear, nos obrigando a cada dia usar aqueles tubos ainda não gastos, as tintas que menos gostávamos de usar vão se transformando em nossa matéria comum do dia-a-dia.
O tempo olha as horas, as horas olham os minutos, e todos se perdem num eterno olhar e não ver. Assim, nesses dias em que acordo antes de mim, evito contemplar aquele que ficou na cama, sorrindo, sonhando. Visto paletó e gravata e vou encarar a vida, sangrando.
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