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sábado, 22 de outubro de 2011

EU QUERO É SANGRAR





Não sou santo, nem banto, nem canto em latim o pranto gregoriano nem o ponto yorubá! Tenho em mim um pouco de Abel, um pouco de Caim, um pouco de pedra, um pouco de cetim, um pouco de tristeza, outro tanto de alegria. Não me interessam as etnias. Também não vou gastar um dia inteiro para explicar meu sangue ateu, meu sangue de Príamo, de Perseu, de Hades, de Prometeu, de Perséfone, meu sangue de Áfricas, Ásias e Europas... sangue que brota como lava quente para transformar-se num braseiro que é este sangue brasileiro!


Não sou discípulo de deuses, de entidades, de fórmulas sub-atômicas, de pedras vulcânicas, de bruxas esdrúxulas, de damas que moram no mar, de malandros que habitam as esquinas, de pastores de ovelhas negras, de magos que enganam a gente com suas cantigas de sedutoras rimas.


Não sou bem educado, não ouvi os doutores falando merdas solenes para uma platéia de idiotas, apenas desfruto a farsa de ser poeta, palhaço e puto, e se eu pedir para chupar sua fruta em mais de cinco idiomas: nunca se sabe quando será preciso dizer em bom francês que tudo o que quero é que alguém me coma! Ou saber distinguir quando uma húngara está falando de filosofia, da Escola de Frankfurt, ou tecendo comentários sobre Zaratustra com suas idéias de um 'super-homem' ou simplesmente me olhando nos olhos e dizendo 'cala a boca e me come!'


Não sou poeta de cantar as efêmeras epifanias, nem de usar as rimas burocráticas feitas para agradar as gordas senhoras que freqüentam um sarau qualquer. Não vou usar minhas rimas ricas com qualquer mulher. Não vou poetar em vão! Não! Meus versos são pra ser ditos baixinho, de preferência entre as coxas de uma bela mulher, como quem come um manjar com calma: de prata pura e reluzente é a minha colher.


Não vou fazer concessões a ninguém que se ache dono da poesia. Barqueiro exigindo moedas para que passemos ao outro lado. De mim não receberás nem alguns trocados! Escrevo para aplacar a fome de um demiurgo particular, minha baleia branca, o meu leviatã!


Acordei muito cedo essa manhã pra poetar sozinho, só eu, minha alma escura e uma taça de vinho... e sozinho ficaria tecendo carinhos solitários e cantando odes ao meu juízo precário se possível fosse, mas o gozo das almas solitárias nem sempre é tão doce! Por isso, quando o desejo de poetar não me sai da idéia, e saio à noite com cara de santo, e subo ao palco como quem chega de fininho, e já cansado de poetar sozinho coloco pra fora meu negro e ereto dom de poeta, abelha operária das letras, guardião desta colméia: vim de longe, sangrar e gozar na cara da platéia!

O ABRAÇO DE UM FANTASMA DE PELE MORNA







Eu ocupo apenas e tão somente o espaço de um abraço
que precisa sempre ter a urgência deste minuto, deste tempo chamado de 'agora'
porque se você pensar duas vezes, pode ser que meu corpo exíguo ainda esteja ali
mas certamente o abraço, meu amigo, já foi-se embora!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

CANTO AOS FODIDOS



Estou bêbado de promessas vãs
por que até hoje nenhuma Eva mostrou-me a maçã
tampouco houve Adão com atitude canalha ou bela
que me oferecesse sua carne, quiçá uma costela!


Estou bêbado de namashtês, de axés e de salamaleques
porque aos meus pés todos os deuses são meninos, são moleques
que jogam bola de gude no tapete estrelado do infinito
enquanto eu envelheço sem saber se fico mais feio ou mais bonito.
Estou bêbado da baba cósmica que escorre da boca dos crentes
que me despejam pelos ouvidos os seus lânguidos gemidos
como se todo culto fosse uma celebração às bacantes!


Estou bêbado do leite cáustico das pias madres
e porque estou bêbado posso chorar meu canto desvalido
que não serve à deus nenhum, porque meu canto não encherá os odres
dos altares que esperam igualmente de inocentes e bandidos
o seu santo ouro, sua santa prata, sem deixar para trás os seus bons cobres!


Estou bêbado, e canto, e não me causa espanto 
se quem me ouve agora, finge não me ver, e vira a cara
e bebe seu copo de cólera como se sorvesse coisa rara
a você eu dedico meus bêbados versos doloridos
e gozo sabendo que meu poema te fode pelos ouvidos!

domingo, 9 de outubro de 2011

A FRUTA




Se no meio da noite eu acordar com olhos famintos e te chamar de puta
saiba que é porque não conheço nome melhor para tão deliciosa fruta!

#haikai

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A SEDE



Luz alta, era meio-dia, mas não víamos o Sol. Dia branco demais, quente demais. Carregávamos o peso da nossa existência, e era mais do que podíamos suportar sozinhos. Dei a mão á Julia sem olhar sua figura. Senti o suor entre os dedos magros. Ela era feia mesmo sem se ver. Não precisava olhá-la para saber disso. Mas ainda assim passava por nós uma corrente elétrica, um tremor atávico, algo animalesco mesmo. E caminhávamos, sobretudo. Tínhamos de caminhar! Lembro até hoje daqueles dias brilhantes e miseráveis. Fizemos fogueira e mastigamos a carcaça de um cachorro morto à beira da estrada. Vomitamos maldizendo a vida e olhando para o céu como quem procura um culpado.

Andamos muitas léguas, as roupas fedendo, a cara suja, as palavras escassas, um ou outro grunhido de dor, e mais nada. O mundo não tem fim, ela disse. - Cala a boca, mulher! Anda! Eu já não tinha paciência nem elegância. Estava faminto e com febre, e começava a olhar para aquelas coxas magras como a hiena mira uma gazela machucada. Eu tinha fome. Tinha fomes diversas, todas muito pungentes, todas muito urgentes, todas muito cruéis.

Num poço esquecido nos debruçamos para o de beber. Ela primeiro, ávida, bruta, magricela, os seios pequenos com bicos desafiantes, os cabelos pretos desgrenhados, caindo sobre o rosto. Aquela água derramada sobre o vestido me dava ânsias, ódios. Desperdício. Sede! Tenho sede! Gritei sem ouvir minha própria voz. E peguei-a pela nuca, bebí o último gole diretamente daquela boca triste. O beijo. E as mãos correndo, rasgando roupas. O sexo. Ela muito querendo, dizendo não. Eu muito negando, dizendo sim. Vem! E ela vinha, dava-se. Cavalgamos sem sair do lugar, e foram muitas léguas assim. Cansamos. Entregamos o corpo ao solo. Ela disse que tinha sede. Pediu gozo, que dei-lhe na boca com minúcia. Morremos ali, saciados, e nossa alma seguiu adiante.

CIRANDA



Ela chegou sorridente, dona do mundo. Era a primeira vez que eu a via, mas já conhecia aquela de quem meus amigos tanto falavam. Era linda mesmo, cada detalhe minuciosamente perfeito. Ví, ou imaginei, seios pequenos e duros, e nádegas convidativas, sob o vestido de seda. Cumprimentei-a olhando nos olhos, e nosso aperto de mãos pareceu mais longo que o necessário. Estava apaixonado. 

A noite foi sendo povoada por diversas faces, confundidas entre as luzes brilhantes e coloridas da pista. Senti-lhe um seio com meu cotovelo na confusão de uma dança. Fiquei ereto demais. Mas havia o marido, um burocrata gordo e rico. E o amante, surfista, moreno, animal atroz. Eu era o mais improvável candidato àquele paraíso. Mas ela sorria para mim, entre uma taça de prosecco e um beijo no marido tagarela. Falavam de viagens à Europa e de carros luxuosos. Eu calado pensando em carinhos rudes e palavras agridoces. 

Noite estranha. Bebí um pouco de scotch, fiquei alerta. Ví o burguês sorrindo, fingindo-se de cego. Ví o gatuno encoxar a donzela e falar vilanias ao pé do ouvido. Todos dançavam aquela ciranda maldita. Todos sabiam, e aprovavam. Asco! Olhei-a fundo nos olhos azuis, como quem olha um abismo e sente a mórbida e excitante vontade de saltar. Esperei, pensando e querendo muito. Na despedida declarei-lhe amor. Ela sorriu, magistral. Beijou-me no rosto e foi-se embora para sempre, como um sonho ruim ou um pesadelo bom demais.

ADEUS RABI



Ele tocou minha mão naquela noite, e chorou. Todos sabíamos que estávamos vivendo os últimos dias. Eu disse a ele, Rabi, ainda podemos fugir, ensinar a outros, formar um exército, precisamos resistir! Mas ele não me respondeu. Os outros esperavam palavras de ordem, de espada em punho, mas nada aconteceu. Apenas olhou-nos, como quem vê muitos caminhos, e deu a bênção. 

O pão tremia em suas mãos. Derramamos o vinho, cantamos nossa dor e nossa frustração. Horas tristes, lentas, amarguradas. Aos poucos os homens se retiravam, buscando suas tendas. Ele saiu para caminhar. Sabíamos o que queria. Queria ela. Era assim sempre. Esperava na tenda, armada longe de todas as outras. Fizeram o sexo mais brutal que homem e mulher poderiam fazer com todo o amor que escritor algum poderá descrever neste ou no outro mundo. Por fim beijou-a no ventre e mandou-a embora, levando sua semente. 

Os homens estavam agitados. Percebiam dúvidas. Ele passou por nós, descalço, quase flutuando, sem olhar em nossos olhos. Passou entre nós como um pássaro ferido, mas ainda elegante em seu voo dolorido. Sentimos o peso daquela alma. Morrer, partir. Ele decidira. Quando os soldados chegaram, encontraram apenas a nós, pescadores, camponeses, tolos, revoltosos, bandidos. Fomos presos, chicoteados, humilhados. Mas quando o Sol surgiu, uma cruz vazia restava no monte, sem um mártir para dar-lhe um nome.

sábado, 13 de agosto de 2011

NÁUFRAGO



Acordei no meio de um oceano de terrores noturnos 
sentindo que algo em mim havia se apagado.
Eu era todo meia-noite, escuridão, um pedaço de carne 
cercado de dúvidas por todos os lados.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Á BEIRA DE MIM




Havia um chão inquieto sob nós
Como se toda a estrutura bruta, a rocha, os seixos,
De repente fosse um oceano, um não-estar seguro,
Como se todas as descobertas abrissem em seu seio uma procura,
Um desejo de chegar muito próximo aos abismos
E dizer, gritar: 'Ei, você! Estou aqui! Agora é a sua vez!'

sábado, 30 de julho de 2011

O PRESENTE INESPERADO


“I wondered what happened when you offered yourself to someone, and they opened you, only to discover you were not the gift they expected and they had to smile and nod and say thank you all the same.”

— Jodi Picoult, trecho do seu livro "My Sister’s Keeper" de 2004.


"Ás vezes fico imaginando como seria se você se entregasse a alguém, e essa pessoa te abrisse como um embrulho de presente, somente para descobrir que o presente esperado não era bem aquele que ele esperava, e ele se visse obrigado a dar um sorriso amarelo e agradecer assim mesmo."

— Marcelo Sousa, tradução livre. Numa tarde silenciosa de sábado.

domingo, 24 de julho de 2011

JOGOS PERIGOSOS



Sou ateu, mas jogo Xadrez com os deuses todos os domingos.
Buda perde no Poker, Javé rouba nos Dados, Shiva ganha no Bingo!
Meu lado negro cintila, faísca, brilha!
O mundo é um oceano. Eu sou uma ilha!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

ÍMPAR



Onde guardarei meu desejo de solidão?
Em que gavetas deixarei bem guardado o meu silêncio?
Com carinho, laço de fita e papel colorido faço um embrulho.
Os versos não rimam, meu corpo não se acomoda, sou um estranho dentro de mim.


O que fazer com essa outra figura colada à minha sombra?
O que fazer com minha vontade de não ser ninguém, nem que seja por apenas alguns minutos?
Queria não pertencer a nada, não ter nada, não ser obrigado a sentir a mim e ao outro.
Queria poder dizer que uma eternidade, para minha solitude, ainda é pouco!


Não rimar é uma necessidade. Talvez seja até um dever algumas vezes.
Tenho desejos ímpares, mas as pessoas querem que tudo se resolva de par em par.
Qual é o problema em ser um só, um número ímpar?
Qual é o problema em não saber rimar?


Sem rumo, sem rum.
Sem prumo, sem fumo, sem poder nem pudor algum.
Deixo-me estar na multidão, este oceano de gente. Eu, uma ilha!
Entre o 'ser' e o 'estar' haverá sempre um alçapão, um laço, uma armadilha.

sábado, 16 de julho de 2011

PLEASE BE A BITCH TONIGHT





Por uma noite apenas, esqueça os poemas de amor
e com olhinhos submissos e sacanas diga somente isso: "Sim, por favor!"


Forget all poems, all love spells, all that crap that lovers want to believe at ease
and come to me with those nasty little eyes, and just say: "Yes, please!"

LA PATAGÓNIA



Num instante azul de silenciosa solidão
Todos os seus átomos vibram em atônita contemplação
De onde se pode ver a Patagonia cinzenta e dourada
Molhada de perfumes etéreos de neve e magma.


Sou pequeno e torpe, numa cama de hotel
Limpando os olhos maravilhados pelo espetáculo
De ter o irmão-Sol dizendo "bom dia" de um lado da janela
E a irmã-Lua dizendo "boa noite" no outro extremo da tela.

domingo, 10 de julho de 2011

ANTROPOFAGIA







No jardim do teu púbis
nascem e morrem os mitos, os deuses:
Javé, Odin, Shiva, Buda, Anúbis!


Sem pressa recolherei o mel
oferecido por esta colméia
pois sei onde encontrar a melhor geléia.

Porém mil vezes preferirei sorver o fel
escondido entre as fibras caóticas do teu cerebelo
do que procurar  redenção nas tuas coxas, entre os seus pêlos!

sábado, 25 de junho de 2011

MOÇA

Um poema feito a quatro mãos...
Por Thauan Raposo e Marcelo Sousa
Rio de Janeiro, Junho de 2011.





Moça, mesmo que eu vá agora
Saiba que não vou embora
Por enquanto, por espanto,
Petrifico nuvens, ponho fogo no mar
E o silêncio estrondoso do meu canto
É uma prece que teço sem pressa
Olhando teu vôo de ave-moça
Cheia de graça se despedindo
Dando adeus como quem quer ficar.


Moça, essa tua bossa
Parece chuva fina, água em poças,
Areia movediça, floresta de rimas
Que não rimam com verso algum
Porque teu vôo de ave-menina
Não deixa rastro no céu
Só o perfume de saudade
De quem ficou só na vontade
De capturar o que foi feito pra voar
Voar sem limite, sem véu,
Ao léu.


Moça, essa tua prosa, toda prosa
Esconde o mesmo que todas as rosas
Semeando cores e odores pelo caminho
Sem contar onde guardou seus espinhos.
Tua presença arrasta olhares para alhures
Brincando no céu como faz a gaivota
Fazendo seu ninho lá nas alturas
Onde minha alma de menino te procura.


Moça, teu olhar de quem perdeu o mapa
É puro charme, porque tua presença sem pressa
Traz nos gestos descomplicados e incontidos
Uma paz estranha, uma sabedoria enorme
de séculos sonhados mas não vividos
De risos precisos, preciosos, poderosos,
Que jamais deveriam ser interrompidos.


Moça, ave-menina cheia de graça,
Toda classuda, teu olhar nem disfarça
Que quando o sol aparece
Ou quando o vento muda
É você que manda, comanda, exige
Que as leis da Física te obedeçam
Enquanto você vai para além do tempo e do espaço
Deixando secretas vontades tatuadas nos meus ossos.


Moça, teus modos de ave marinha
São meu farol, minha bússola, estrela sobre o mar.
Não é preciso viver, só é preciso navegar.
Eu, bucaneiro sem rumo e sem rum
Sigo a navegar pra lugar nenhum.
Persigo teu vôo sem mapa, eu pirata
Traficando desejos tranqüilos como uma tormenta
Ouço trovões como se fossem uma fina bossa
E lembro que sou barco, e meu mar é você, moça!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

AS SUTILEZAS DO AMOR





De todas as esperanças o amor é a última;
ele é o acidente à espera de uma vítima.
É o bater das asas da borboleta
que vira furacão do outro lado do planeta.
Amor é o símbolo estranho tatuado nas costas da mariposa,
é o espinho colocado por Deus pra não deixar ser perfeita a rosa.
O amor é sempre contrário do juízo,
porém há de se ter cuidado, pois navegar é preciso.
E neste oceano de possibilidades sem fim
o amor é agulha escondida em bolinhas de algodão
ou pedra pontuda embrulhada em fita de cetim.
O amor é o fogo que abrasa cérebro e coração
como sacrifícios idênticos na sagrada pira.
O bom e velho amor só sabe dar um pouco
quando muito mais de nós ele tira!

sábado, 4 de junho de 2011

JÁ ERA! NÃO É?





Nada é. Tudo está sempre sendo ou tentando ser.
E se você está parado, muito atento, esperando o inesperado te dizer "oi"
num piscar de olhos você vai estar atônito, percebendo que o que era pra ser... já foi!

UM SÁBADO DO MEU JEITO





A Neosaldina em dose tripla fazendo efeito agora, uma delícia.
Eu no meu quarto, barulhinho de chuva lá fora, 
aqui dentro, a luz apagada, o notebook no colo, 
metade do corpo embaixo de um edredom sujo dos sonhos de outrora.
Mais tarde vou me masturbar pensando em meninos e meninas.
E antes de dormir, tocar "Claire de Lune" no piano virtual do iPad.
Modernidades que acompanham a velha solidão.
Sem poesia, sem delicadas epifanias, sem rimas espertinhas.
Só eu, meu corpo sem alma, e a calma de morrer aos poucos
aproveitando a vida como um louco, do meu jeito:
com mil adagas saindo do meu peito.

CASACO MOLHADO





Na maioria das vezes o sentimento de "ser bom" ou "ser do bem" me parece como caminhar milhas e milhas contra o vento, com um cardigã molhado, numa noite fria de inverno.