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terça-feira, 1 de novembro de 2011

DEIXAI CRESCER AS ROSAS



Homens circunspectos.
Homens de negócios.
Homens importantes.
Longe de mim!
Deixem-me quieto!
Protegei meu ócio!

Não quero ser amigo ou amante.
Não quero tirar a sorte grande.
Quero apenas ser poeta
E viver num eterno rompante.
Quero não ter que ser mais nada
Além de uma criatura calada, 
Uma caricatura do seu deus alado
Ou simplesmente um bobo sentado
perdendo tempo e ganhando a vida!

Estou incompleto, silente.
Os que se julgam grandes, perfeitos,
Esse já estão prontos para morrer.
Eu sou grão, e tenho muito o que crescer!
No seio da terra sou semente.
Deixai-me brotar devagar.
Deixai-me ser apenas um feto.
Deixai-me ser poeta!

Essas horinhas da manhã precisam ser protegidas.
Essas horinhas de masturbação, de oração, de ação e sossego.
Deixai-me sozinho nessas horinhas malditas e milagrosas.
Por que só quando o jardineiro não está olhando
é que crescem as rosas!

domingo, 30 de outubro de 2011

EPOPÉIA



Vem! Desce do teu esconderijo nas alturas
e vem ver como é lindo aquele que não tem face
e procura com mão forte e sem carinho
alguém que lhe faça um ninho, que o abrace.
Vem! Desce do teu esconderijo de nuvens
e vem ver aquele que faz sombra na terra
apagando a chama do sol com seu polegar
e bebe rios inteiros em um gole só
e sopra vulcões fazendo bochecha de fole
apagando-os como quem faz aniversário.
Vem! Desce do teu trono assentado no infinito
e vem ver como é bonito o nosso gigante
que cata estrelas aos punhados e as engole
pensando que são confeitos de açúcar
e pisa a terra deixando pegadas fundas como abismos
e quando dança estremece as montanhas
provocando os mais violentos cataclismos.
Vem! Desce do teu esconderijo nas alturas
e vem ver como é lindo aquele que te procura
querendo saber quem foi que inventou os deuses
e teceu tantas histórias de heróis para enganar as crianças
esquecendo ele mesmo de deixar de ser criança.
Vem, desce logo antes que tu estejas muito velho
para poder reconhecer o nosso gigante desengonçado
que faz bolinhas de barro e joga para o alto criando planetas
e que te espera com calma, para que enfim te olhes nos olhos de espelho
e lembre como é bela e estranha essa criatura que te procura
só para te perguntar, humilde, como é ser poeta!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

MEU CÁLICE TRANSBORDA



Saudade, fazes-me sentir tão pequeno
que o néctar que gentilmente traz-me para beber
não tenho idéia se é a cura ou é um veneno.


Bebo febril um cálice de agridoces lembranças
e só mesmo um ébrio para ver claramente
que o último a morrer é o amor, não a esperança!

domingo, 23 de outubro de 2011

A FLAUTA DE PAN



Eis que do aço e do concreto
pode brotar uma semente de nuvem, de éter,
que por um milagre oculto, discreto, seja
o nascimento de algo terrível e lindo
que vira carne, e em seu cerne te beija
e te segura pela crina e te cavalga
e te chama pelo teu nome secreto
aquele que só tua alma conhece
aquele que aparece quando você geme
no mais safado prazer ou na mais dolorosa prece
e que funciona como os axiomas
como os ditames da Filosofia
como a flauta de Pan
que com ou sem rima
do fundo do abismo onde habita
chega, te toca, esfrega na tua cara
as mais raras verdades e as mais puras putarias
a música mais esquisita, as mais dissonantes notas
e as mais doces iguarias que a tua língua e teus ouvidos
poderiam ouvir. Pobre e afortunada alma:
um poeta tocou em ti!

sábado, 22 de outubro de 2011

MAGRITTE, RIMBAUD





As baforadas esbaforidas das estrelas
bufando a cantilena fria e torpe da lua
que se esvaziava por entre os prédios 
deixando apenas o tédio das entre-horas
que pintam os céus de apocalipses falsos
espantavam os bêbados e os trêbados
porque seu baile de luzes abafadas e belas
pareciam um código Morse contando segredos
que ninguém quer ouvir, ninguém pode contar
e por isso como soldados convocados pelo sol
marchamos perfilados rumo ao terrível destino
de meninos obrigados a acordar!

EU QUERO É SANGRAR





Não sou santo, nem banto, nem canto em latim o pranto gregoriano nem o ponto yorubá! Tenho em mim um pouco de Abel, um pouco de Caim, um pouco de pedra, um pouco de cetim, um pouco de tristeza, outro tanto de alegria. Não me interessam as etnias. Também não vou gastar um dia inteiro para explicar meu sangue ateu, meu sangue de Príamo, de Perseu, de Hades, de Prometeu, de Perséfone, meu sangue de Áfricas, Ásias e Europas... sangue que brota como lava quente para transformar-se num braseiro que é este sangue brasileiro!


Não sou discípulo de deuses, de entidades, de fórmulas sub-atômicas, de pedras vulcânicas, de bruxas esdrúxulas, de damas que moram no mar, de malandros que habitam as esquinas, de pastores de ovelhas negras, de magos que enganam a gente com suas cantigas de sedutoras rimas.


Não sou bem educado, não ouvi os doutores falando merdas solenes para uma platéia de idiotas, apenas desfruto a farsa de ser poeta, palhaço e puto, e se eu pedir para chupar sua fruta em mais de cinco idiomas: nunca se sabe quando será preciso dizer em bom francês que tudo o que quero é que alguém me coma! Ou saber distinguir quando uma húngara está falando de filosofia, da Escola de Frankfurt, ou tecendo comentários sobre Zaratustra com suas idéias de um 'super-homem' ou simplesmente me olhando nos olhos e dizendo 'cala a boca e me come!'


Não sou poeta de cantar as efêmeras epifanias, nem de usar as rimas burocráticas feitas para agradar as gordas senhoras que freqüentam um sarau qualquer. Não vou usar minhas rimas ricas com qualquer mulher. Não vou poetar em vão! Não! Meus versos são pra ser ditos baixinho, de preferência entre as coxas de uma bela mulher, como quem come um manjar com calma: de prata pura e reluzente é a minha colher.


Não vou fazer concessões a ninguém que se ache dono da poesia. Barqueiro exigindo moedas para que passemos ao outro lado. De mim não receberás nem alguns trocados! Escrevo para aplacar a fome de um demiurgo particular, minha baleia branca, o meu leviatã!


Acordei muito cedo essa manhã pra poetar sozinho, só eu, minha alma escura e uma taça de vinho... e sozinho ficaria tecendo carinhos solitários e cantando odes ao meu juízo precário se possível fosse, mas o gozo das almas solitárias nem sempre é tão doce! Por isso, quando o desejo de poetar não me sai da idéia, e saio à noite com cara de santo, e subo ao palco como quem chega de fininho, e já cansado de poetar sozinho coloco pra fora meu negro e ereto dom de poeta, abelha operária das letras, guardião desta colméia: vim de longe, sangrar e gozar na cara da platéia!

O ABRAÇO DE UM FANTASMA DE PELE MORNA







Eu ocupo apenas e tão somente o espaço de um abraço
que precisa sempre ter a urgência deste minuto, deste tempo chamado de 'agora'
porque se você pensar duas vezes, pode ser que meu corpo exíguo ainda esteja ali
mas certamente o abraço, meu amigo, já foi-se embora!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

CANTO AOS FODIDOS



Estou bêbado de promessas vãs
por que até hoje nenhuma Eva mostrou-me a maçã
tampouco houve Adão com atitude canalha ou bela
que me oferecesse sua carne, quiçá uma costela!


Estou bêbado de namashtês, de axés e de salamaleques
porque aos meus pés todos os deuses são meninos, são moleques
que jogam bola de gude no tapete estrelado do infinito
enquanto eu envelheço sem saber se fico mais feio ou mais bonito.
Estou bêbado da baba cósmica que escorre da boca dos crentes
que me despejam pelos ouvidos os seus lânguidos gemidos
como se todo culto fosse uma celebração às bacantes!


Estou bêbado do leite cáustico das pias madres
e porque estou bêbado posso chorar meu canto desvalido
que não serve à deus nenhum, porque meu canto não encherá os odres
dos altares que esperam igualmente de inocentes e bandidos
o seu santo ouro, sua santa prata, sem deixar para trás os seus bons cobres!


Estou bêbado, e canto, e não me causa espanto 
se quem me ouve agora, finge não me ver, e vira a cara
e bebe seu copo de cólera como se sorvesse coisa rara
a você eu dedico meus bêbados versos doloridos
e gozo sabendo que meu poema te fode pelos ouvidos!

domingo, 9 de outubro de 2011

A FRUTA




Se no meio da noite eu acordar com olhos famintos e te chamar de puta
saiba que é porque não conheço nome melhor para tão deliciosa fruta!

#haikai

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A SEDE



Luz alta, era meio-dia, mas não víamos o Sol. Dia branco demais, quente demais. Carregávamos o peso da nossa existência, e era mais do que podíamos suportar sozinhos. Dei a mão á Julia sem olhar sua figura. Senti o suor entre os dedos magros. Ela era feia mesmo sem se ver. Não precisava olhá-la para saber disso. Mas ainda assim passava por nós uma corrente elétrica, um tremor atávico, algo animalesco mesmo. E caminhávamos, sobretudo. Tínhamos de caminhar! Lembro até hoje daqueles dias brilhantes e miseráveis. Fizemos fogueira e mastigamos a carcaça de um cachorro morto à beira da estrada. Vomitamos maldizendo a vida e olhando para o céu como quem procura um culpado.

Andamos muitas léguas, as roupas fedendo, a cara suja, as palavras escassas, um ou outro grunhido de dor, e mais nada. O mundo não tem fim, ela disse. - Cala a boca, mulher! Anda! Eu já não tinha paciência nem elegância. Estava faminto e com febre, e começava a olhar para aquelas coxas magras como a hiena mira uma gazela machucada. Eu tinha fome. Tinha fomes diversas, todas muito pungentes, todas muito urgentes, todas muito cruéis.

Num poço esquecido nos debruçamos para o de beber. Ela primeiro, ávida, bruta, magricela, os seios pequenos com bicos desafiantes, os cabelos pretos desgrenhados, caindo sobre o rosto. Aquela água derramada sobre o vestido me dava ânsias, ódios. Desperdício. Sede! Tenho sede! Gritei sem ouvir minha própria voz. E peguei-a pela nuca, bebí o último gole diretamente daquela boca triste. O beijo. E as mãos correndo, rasgando roupas. O sexo. Ela muito querendo, dizendo não. Eu muito negando, dizendo sim. Vem! E ela vinha, dava-se. Cavalgamos sem sair do lugar, e foram muitas léguas assim. Cansamos. Entregamos o corpo ao solo. Ela disse que tinha sede. Pediu gozo, que dei-lhe na boca com minúcia. Morremos ali, saciados, e nossa alma seguiu adiante.

CIRANDA



Ela chegou sorridente, dona do mundo. Era a primeira vez que eu a via, mas já conhecia aquela de quem meus amigos tanto falavam. Era linda mesmo, cada detalhe minuciosamente perfeito. Ví, ou imaginei, seios pequenos e duros, e nádegas convidativas, sob o vestido de seda. Cumprimentei-a olhando nos olhos, e nosso aperto de mãos pareceu mais longo que o necessário. Estava apaixonado. 

A noite foi sendo povoada por diversas faces, confundidas entre as luzes brilhantes e coloridas da pista. Senti-lhe um seio com meu cotovelo na confusão de uma dança. Fiquei ereto demais. Mas havia o marido, um burocrata gordo e rico. E o amante, surfista, moreno, animal atroz. Eu era o mais improvável candidato àquele paraíso. Mas ela sorria para mim, entre uma taça de prosecco e um beijo no marido tagarela. Falavam de viagens à Europa e de carros luxuosos. Eu calado pensando em carinhos rudes e palavras agridoces. 

Noite estranha. Bebí um pouco de scotch, fiquei alerta. Ví o burguês sorrindo, fingindo-se de cego. Ví o gatuno encoxar a donzela e falar vilanias ao pé do ouvido. Todos dançavam aquela ciranda maldita. Todos sabiam, e aprovavam. Asco! Olhei-a fundo nos olhos azuis, como quem olha um abismo e sente a mórbida e excitante vontade de saltar. Esperei, pensando e querendo muito. Na despedida declarei-lhe amor. Ela sorriu, magistral. Beijou-me no rosto e foi-se embora para sempre, como um sonho ruim ou um pesadelo bom demais.

ADEUS RABI



Ele tocou minha mão naquela noite, e chorou. Todos sabíamos que estávamos vivendo os últimos dias. Eu disse a ele, Rabi, ainda podemos fugir, ensinar a outros, formar um exército, precisamos resistir! Mas ele não me respondeu. Os outros esperavam palavras de ordem, de espada em punho, mas nada aconteceu. Apenas olhou-nos, como quem vê muitos caminhos, e deu a bênção. 

O pão tremia em suas mãos. Derramamos o vinho, cantamos nossa dor e nossa frustração. Horas tristes, lentas, amarguradas. Aos poucos os homens se retiravam, buscando suas tendas. Ele saiu para caminhar. Sabíamos o que queria. Queria ela. Era assim sempre. Esperava na tenda, armada longe de todas as outras. Fizeram o sexo mais brutal que homem e mulher poderiam fazer com todo o amor que escritor algum poderá descrever neste ou no outro mundo. Por fim beijou-a no ventre e mandou-a embora, levando sua semente. 

Os homens estavam agitados. Percebiam dúvidas. Ele passou por nós, descalço, quase flutuando, sem olhar em nossos olhos. Passou entre nós como um pássaro ferido, mas ainda elegante em seu voo dolorido. Sentimos o peso daquela alma. Morrer, partir. Ele decidira. Quando os soldados chegaram, encontraram apenas a nós, pescadores, camponeses, tolos, revoltosos, bandidos. Fomos presos, chicoteados, humilhados. Mas quando o Sol surgiu, uma cruz vazia restava no monte, sem um mártir para dar-lhe um nome.

sábado, 13 de agosto de 2011

NÁUFRAGO



Acordei no meio de um oceano de terrores noturnos 
sentindo que algo em mim havia se apagado.
Eu era todo meia-noite, escuridão, um pedaço de carne 
cercado de dúvidas por todos os lados.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Á BEIRA DE MIM




Havia um chão inquieto sob nós
Como se toda a estrutura bruta, a rocha, os seixos,
De repente fosse um oceano, um não-estar seguro,
Como se todas as descobertas abrissem em seu seio uma procura,
Um desejo de chegar muito próximo aos abismos
E dizer, gritar: 'Ei, você! Estou aqui! Agora é a sua vez!'

sábado, 30 de julho de 2011

O PRESENTE INESPERADO


“I wondered what happened when you offered yourself to someone, and they opened you, only to discover you were not the gift they expected and they had to smile and nod and say thank you all the same.”

— Jodi Picoult, trecho do seu livro "My Sister’s Keeper" de 2004.


"Ás vezes fico imaginando como seria se você se entregasse a alguém, e essa pessoa te abrisse como um embrulho de presente, somente para descobrir que o presente esperado não era bem aquele que ele esperava, e ele se visse obrigado a dar um sorriso amarelo e agradecer assim mesmo."

— Marcelo Sousa, tradução livre. Numa tarde silenciosa de sábado.

domingo, 24 de julho de 2011

JOGOS PERIGOSOS



Sou ateu, mas jogo Xadrez com os deuses todos os domingos.
Buda perde no Poker, Javé rouba nos Dados, Shiva ganha no Bingo!
Meu lado negro cintila, faísca, brilha!
O mundo é um oceano. Eu sou uma ilha!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

ÍMPAR



Onde guardarei meu desejo de solidão?
Em que gavetas deixarei bem guardado o meu silêncio?
Com carinho, laço de fita e papel colorido faço um embrulho.
Os versos não rimam, meu corpo não se acomoda, sou um estranho dentro de mim.


O que fazer com essa outra figura colada à minha sombra?
O que fazer com minha vontade de não ser ninguém, nem que seja por apenas alguns minutos?
Queria não pertencer a nada, não ter nada, não ser obrigado a sentir a mim e ao outro.
Queria poder dizer que uma eternidade, para minha solitude, ainda é pouco!


Não rimar é uma necessidade. Talvez seja até um dever algumas vezes.
Tenho desejos ímpares, mas as pessoas querem que tudo se resolva de par em par.
Qual é o problema em ser um só, um número ímpar?
Qual é o problema em não saber rimar?


Sem rumo, sem rum.
Sem prumo, sem fumo, sem poder nem pudor algum.
Deixo-me estar na multidão, este oceano de gente. Eu, uma ilha!
Entre o 'ser' e o 'estar' haverá sempre um alçapão, um laço, uma armadilha.

sábado, 16 de julho de 2011

PLEASE BE A BITCH TONIGHT





Por uma noite apenas, esqueça os poemas de amor
e com olhinhos submissos e sacanas diga somente isso: "Sim, por favor!"


Forget all poems, all love spells, all that crap that lovers want to believe at ease
and come to me with those nasty little eyes, and just say: "Yes, please!"

LA PATAGÓNIA



Num instante azul de silenciosa solidão
Todos os seus átomos vibram em atônita contemplação
De onde se pode ver a Patagonia cinzenta e dourada
Molhada de perfumes etéreos de neve e magma.


Sou pequeno e torpe, numa cama de hotel
Limpando os olhos maravilhados pelo espetáculo
De ter o irmão-Sol dizendo "bom dia" de um lado da janela
E a irmã-Lua dizendo "boa noite" no outro extremo da tela.

domingo, 10 de julho de 2011

ANTROPOFAGIA







No jardim do teu púbis
nascem e morrem os mitos, os deuses:
Javé, Odin, Shiva, Buda, Anúbis!


Sem pressa recolherei o mel
oferecido por esta colméia
pois sei onde encontrar a melhor geléia.

Porém mil vezes preferirei sorver o fel
escondido entre as fibras caóticas do teu cerebelo
do que procurar  redenção nas tuas coxas, entre os seus pêlos!