Ask Google Guru:

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O TOCADOR DE TUBA





Repito-me, chato como quem ensaia numa tarde de domingo um solo de tuba:
Tem certos dias em que tudo o que se pode fazer é ler Nietzsche e comer jujubas.

O SENHOR DO BONFIM




Pele negra. Pele branca. 
E mãos cegas na noite franca.
Tudo é cinza quando as luzes estão apagadas.
Pêlo e pelúcia tecem a colcha dos tempos.
A pele lambe a cor das almas. 
Exus e Budas batem palmas!
O atabaque excita o peito,
Lateja nos penduricalhos da virilha.
Os terreiros, as igrejas, os templos,
São apenas ilhas.

A cidade é cruel: 
Dá-te um 'bom dia' negando seu perdão
Mas sabemos que o dia bom será mesmo o do patrão!
O sol de cada um é diferente, e mente quem diz o contrário.
O sol que doura a pele do surfista
É o mesmo que machuca o operário?
A cidade te olha, mas ninguém nos vê. 
Deus tudo sabe, mas em nada crê.

O dia se contorce
Entre os dedos de um tempo mesquinho.
Acordamos já enlatados nos trens que vão e vem.
Acordamos já preparados pra viver pouco
E dizer amém.

Mendigo, sobrevivo catando nas ruas
O que a cloaca dos corações humanos despeja.
O vento beija com beiço duro e quente,
Amante feio e sem prática.
As moedas não pagam pão e sexo.
Meu bolso é inimigo de qualquer matemática.
Fome, homem, fome, homem, e sempre mais fome.
Você pensa que é malandro, mas nem sabe quem te come.

Pago-me com o que posso, 
Certas coceiras dão na pele, outras nos ossos.
Ando, sigo, persigo. Insisto nas ladeiras. 
Persisto em cavar nas lixeiras
Algum resto de lembrança que me vista, 
Chinelo velho, camisa rasgada, um livro,
Uma batalha, um perigo qualquer
Que me sirva de trincheira.

Sobram horizontes sem esperança, 
O tempo árido dos que esperam sem saber o quê.
As árvores observam, as estátuas gritam sem voz,
Na foz do dia os pobres se equilibram num ritmado balanço.
Quem será este que divide comigo a praça,
Este altivo e miserável herói
a quem o tempo e a ignorância corroem?

Todo deserto
Tem multidões que o habitam. 
A razão às vezes faz greve,
Mas nunca sabe o que reivindica.
O passo claudica, dança de solitários
Procurando um corpo para esbarrar.
Ando sozinho, olhando as moças,
Pisando poças, mirando o mar.

O azul muda de aspecto,
Muda de figura, muda de humor.
O oceano pode caber num copo d'água,
Tudo depende do sonhador.
Deram-me fitinhas coloridas
Para amarrar no tornozelo.
Disseram-me que ganharia fácil
O zelo do nosso Senhor.
Mas recusei laços, pedi cachaça, 
Fiz pirraça, cheirei vapor.

Evito olhar minhas mãos vazias,
Cheias de vontades desconstruídas.
Evito fazer de tudo pretexto para poesia. 
A palavra fácil só me traz rimas doloridas.
Tem dias em que tudo o que a gente quer
é ter mulher para amar, e ter o pão para comer.
Ou vice-versa. Tudo depende da hora
Em que a carne implora o verso.

Paciência!
As engrenagens precisam se mover, mas não para sempre.
Olha o mar como balança ritmado, mesmo magoado 
batendo-se contra as paredes do rochedo. 
Olha como os galeões se esfacelam na tempestade 
como barquinhos de brinquedo.

Talvez brancos, pretos, amarelos, vermelhos
façam suas preces com pressa, pra não machucar os joelhos
mas os deuses acharão tua reza sem sal, sem sabor, sem valor
porque no fim das contas quem paga a tua existência
é um outro Senhor.

Paciência!
Eis o feitiço
Dos que não tem outra ciência.
Mesmo nos dias de estranha paz,
Traga sempre o escudo, o macete,
E a adaga com cabo de marfim.
Ainda que a luta seja desigual
Não fará mal desejar a todos
Um bom fim.

Há os dias de luta
E os dias de beijo.
Há o ensejo de ir à igreja,
Há o tempo de visitar as putas.
Haverá sempre a Poesia,
Sobretudo a Poesia
E isso ninguém refuta.

Os navios negreiros
Ainda trazem às nossas praias
Os novos brasileiros, filhos da dor 
(Todo tipo de herói furta-cor)
Que convertidos à força,
Pedem apenas uma boa morte
Em versos que não seriam de outra sorte
Pois cabe a nós lutar o bom combate
Esperando sempre um bom fim
Nos braços do nosso Senhor.



MÁSCARAS







Esse personagem já muito conhecido, muito gasto e já sem graça, quem é ele?
Tentei tirar sua máscara, mas descobri que ela estava vestida por baixo da pele!

ANOITEÇO





Whisky e chocolates. 
Acato o açoite do vento.
O coração aceita o bom combate.
Estreito a distância com o copo.
Nele cabe apenas um gole de tempo.
A mente quer brincar: eu topo!
Talvez um dia eterno brilhe mundo afora.
Mas eu já me anoiteço. Logo fecharei os olhos
e flutuando no éter terei ido embora...

PRIMAVERAS PARTICULARES







Teus olhinhos de menina
confundem o que é carne
e o que é rima.

Teu perfume, teus bálsamos secretos
podem ser a cura para os sensatos
ou a perdição para os poetas.

Toca em mim, deixa eu te tocar
e por um instante que não tem fim
o tempo e o espaço ficam fora do lugar.

Toca em mim, mas tocar-te não posso:
és ainda muito menina para saber de tudo
mas teus gestos mudos sabem dominar a alma, a carne e os ossos.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

CALA-TE E OUÇA




A sua colcha de hábitos.
A sua pele de hábitos.
Este seu cobertor de cicatrizes.
Este seu jeito de aceitar somente as coisas possíveis.
De onde vem esta vontade de não-ser?
De onde vem esta sentença de não-viver?
Você resiste, você insiste, você existe... pra quê?
Teu peito guarda uma máquina burocrática, que trabalha em vão.
Você já não sabe desenhar flechas e asinhas no seu coração.
Você olha o horizonte e segue em frente pisando flores.
Não vê mais os pardais, os caracóis, as joaninhas, as mariposas.
Não sabe mais o que é a surpresa de ganhar uma rosa.
Mas ainda há tempo. O vento sopra uma doce cantiga.
Cala-te e ouça! Bem baixinho falará contigo a verdadeira vida!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

DEIXAI CRESCER AS ROSAS



Homens circunspectos.
Homens de negócios.
Homens importantes.
Longe de mim!
Deixem-me quieto!
Protegei meu ócio!

Não quero ser amigo ou amante.
Não quero tirar a sorte grande.
Quero apenas ser poeta
E viver num eterno rompante.
Quero não ter que ser mais nada
Além de uma criatura calada, 
Uma caricatura do seu deus alado
Ou simplesmente um bobo sentado
perdendo tempo e ganhando a vida!

Estou incompleto, silente.
Os que se julgam grandes, perfeitos,
Esse já estão prontos para morrer.
Eu sou grão, e tenho muito o que crescer!
No seio da terra sou semente.
Deixai-me brotar devagar.
Deixai-me ser apenas um feto.
Deixai-me ser poeta!

Essas horinhas da manhã precisam ser protegidas.
Essas horinhas de masturbação, de oração, de ação e sossego.
Deixai-me sozinho nessas horinhas malditas e milagrosas.
Por que só quando o jardineiro não está olhando
é que crescem as rosas!

domingo, 30 de outubro de 2011

EPOPÉIA



Vem! Desce do teu esconderijo nas alturas
e vem ver como é lindo aquele que não tem face
e procura com mão forte e sem carinho
alguém que lhe faça um ninho, que o abrace.
Vem! Desce do teu esconderijo de nuvens
e vem ver aquele que faz sombra na terra
apagando a chama do sol com seu polegar
e bebe rios inteiros em um gole só
e sopra vulcões fazendo bochecha de fole
apagando-os como quem faz aniversário.
Vem! Desce do teu trono assentado no infinito
e vem ver como é bonito o nosso gigante
que cata estrelas aos punhados e as engole
pensando que são confeitos de açúcar
e pisa a terra deixando pegadas fundas como abismos
e quando dança estremece as montanhas
provocando os mais violentos cataclismos.
Vem! Desce do teu esconderijo nas alturas
e vem ver como é lindo aquele que te procura
querendo saber quem foi que inventou os deuses
e teceu tantas histórias de heróis para enganar as crianças
esquecendo ele mesmo de deixar de ser criança.
Vem, desce logo antes que tu estejas muito velho
para poder reconhecer o nosso gigante desengonçado
que faz bolinhas de barro e joga para o alto criando planetas
e que te espera com calma, para que enfim te olhes nos olhos de espelho
e lembre como é bela e estranha essa criatura que te procura
só para te perguntar, humilde, como é ser poeta!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

MEU CÁLICE TRANSBORDA



Saudade, fazes-me sentir tão pequeno
que o néctar que gentilmente traz-me para beber
não tenho idéia se é a cura ou é um veneno.


Bebo febril um cálice de agridoces lembranças
e só mesmo um ébrio para ver claramente
que o último a morrer é o amor, não a esperança!

domingo, 23 de outubro de 2011

A FLAUTA DE PAN



Eis que do aço e do concreto
pode brotar uma semente de nuvem, de éter,
que por um milagre oculto, discreto, seja
o nascimento de algo terrível e lindo
que vira carne, e em seu cerne te beija
e te segura pela crina e te cavalga
e te chama pelo teu nome secreto
aquele que só tua alma conhece
aquele que aparece quando você geme
no mais safado prazer ou na mais dolorosa prece
e que funciona como os axiomas
como os ditames da Filosofia
como a flauta de Pan
que com ou sem rima
do fundo do abismo onde habita
chega, te toca, esfrega na tua cara
as mais raras verdades e as mais puras putarias
a música mais esquisita, as mais dissonantes notas
e as mais doces iguarias que a tua língua e teus ouvidos
poderiam ouvir. Pobre e afortunada alma:
um poeta tocou em ti!

sábado, 22 de outubro de 2011

MAGRITTE, RIMBAUD





As baforadas esbaforidas das estrelas
bufando a cantilena fria e torpe da lua
que se esvaziava por entre os prédios 
deixando apenas o tédio das entre-horas
que pintam os céus de apocalipses falsos
espantavam os bêbados e os trêbados
porque seu baile de luzes abafadas e belas
pareciam um código Morse contando segredos
que ninguém quer ouvir, ninguém pode contar
e por isso como soldados convocados pelo sol
marchamos perfilados rumo ao terrível destino
de meninos obrigados a acordar!

EU QUERO É SANGRAR





Não sou santo, nem banto, nem canto em latim o pranto gregoriano nem o ponto yorubá! Tenho em mim um pouco de Abel, um pouco de Caim, um pouco de pedra, um pouco de cetim, um pouco de tristeza, outro tanto de alegria. Não me interessam as etnias. Também não vou gastar um dia inteiro para explicar meu sangue ateu, meu sangue de Príamo, de Perseu, de Hades, de Prometeu, de Perséfone, meu sangue de Áfricas, Ásias e Europas... sangue que brota como lava quente para transformar-se num braseiro que é este sangue brasileiro!


Não sou discípulo de deuses, de entidades, de fórmulas sub-atômicas, de pedras vulcânicas, de bruxas esdrúxulas, de damas que moram no mar, de malandros que habitam as esquinas, de pastores de ovelhas negras, de magos que enganam a gente com suas cantigas de sedutoras rimas.


Não sou bem educado, não ouvi os doutores falando merdas solenes para uma platéia de idiotas, apenas desfruto a farsa de ser poeta, palhaço e puto, e se eu pedir para chupar sua fruta em mais de cinco idiomas: nunca se sabe quando será preciso dizer em bom francês que tudo o que quero é que alguém me coma! Ou saber distinguir quando uma húngara está falando de filosofia, da Escola de Frankfurt, ou tecendo comentários sobre Zaratustra com suas idéias de um 'super-homem' ou simplesmente me olhando nos olhos e dizendo 'cala a boca e me come!'


Não sou poeta de cantar as efêmeras epifanias, nem de usar as rimas burocráticas feitas para agradar as gordas senhoras que freqüentam um sarau qualquer. Não vou usar minhas rimas ricas com qualquer mulher. Não vou poetar em vão! Não! Meus versos são pra ser ditos baixinho, de preferência entre as coxas de uma bela mulher, como quem come um manjar com calma: de prata pura e reluzente é a minha colher.


Não vou fazer concessões a ninguém que se ache dono da poesia. Barqueiro exigindo moedas para que passemos ao outro lado. De mim não receberás nem alguns trocados! Escrevo para aplacar a fome de um demiurgo particular, minha baleia branca, o meu leviatã!


Acordei muito cedo essa manhã pra poetar sozinho, só eu, minha alma escura e uma taça de vinho... e sozinho ficaria tecendo carinhos solitários e cantando odes ao meu juízo precário se possível fosse, mas o gozo das almas solitárias nem sempre é tão doce! Por isso, quando o desejo de poetar não me sai da idéia, e saio à noite com cara de santo, e subo ao palco como quem chega de fininho, e já cansado de poetar sozinho coloco pra fora meu negro e ereto dom de poeta, abelha operária das letras, guardião desta colméia: vim de longe, sangrar e gozar na cara da platéia!

O ABRAÇO DE UM FANTASMA DE PELE MORNA







Eu ocupo apenas e tão somente o espaço de um abraço
que precisa sempre ter a urgência deste minuto, deste tempo chamado de 'agora'
porque se você pensar duas vezes, pode ser que meu corpo exíguo ainda esteja ali
mas certamente o abraço, meu amigo, já foi-se embora!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

CANTO AOS FODIDOS



Estou bêbado de promessas vãs
por que até hoje nenhuma Eva mostrou-me a maçã
tampouco houve Adão com atitude canalha ou bela
que me oferecesse sua carne, quiçá uma costela!


Estou bêbado de namashtês, de axés e de salamaleques
porque aos meus pés todos os deuses são meninos, são moleques
que jogam bola de gude no tapete estrelado do infinito
enquanto eu envelheço sem saber se fico mais feio ou mais bonito.
Estou bêbado da baba cósmica que escorre da boca dos crentes
que me despejam pelos ouvidos os seus lânguidos gemidos
como se todo culto fosse uma celebração às bacantes!


Estou bêbado do leite cáustico das pias madres
e porque estou bêbado posso chorar meu canto desvalido
que não serve à deus nenhum, porque meu canto não encherá os odres
dos altares que esperam igualmente de inocentes e bandidos
o seu santo ouro, sua santa prata, sem deixar para trás os seus bons cobres!


Estou bêbado, e canto, e não me causa espanto 
se quem me ouve agora, finge não me ver, e vira a cara
e bebe seu copo de cólera como se sorvesse coisa rara
a você eu dedico meus bêbados versos doloridos
e gozo sabendo que meu poema te fode pelos ouvidos!

domingo, 9 de outubro de 2011

A FRUTA




Se no meio da noite eu acordar com olhos famintos e te chamar de puta
saiba que é porque não conheço nome melhor para tão deliciosa fruta!

#haikai

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A SEDE



Luz alta, era meio-dia, mas não víamos o Sol. Dia branco demais, quente demais. Carregávamos o peso da nossa existência, e era mais do que podíamos suportar sozinhos. Dei a mão á Julia sem olhar sua figura. Senti o suor entre os dedos magros. Ela era feia mesmo sem se ver. Não precisava olhá-la para saber disso. Mas ainda assim passava por nós uma corrente elétrica, um tremor atávico, algo animalesco mesmo. E caminhávamos, sobretudo. Tínhamos de caminhar! Lembro até hoje daqueles dias brilhantes e miseráveis. Fizemos fogueira e mastigamos a carcaça de um cachorro morto à beira da estrada. Vomitamos maldizendo a vida e olhando para o céu como quem procura um culpado.

Andamos muitas léguas, as roupas fedendo, a cara suja, as palavras escassas, um ou outro grunhido de dor, e mais nada. O mundo não tem fim, ela disse. - Cala a boca, mulher! Anda! Eu já não tinha paciência nem elegância. Estava faminto e com febre, e começava a olhar para aquelas coxas magras como a hiena mira uma gazela machucada. Eu tinha fome. Tinha fomes diversas, todas muito pungentes, todas muito urgentes, todas muito cruéis.

Num poço esquecido nos debruçamos para o de beber. Ela primeiro, ávida, bruta, magricela, os seios pequenos com bicos desafiantes, os cabelos pretos desgrenhados, caindo sobre o rosto. Aquela água derramada sobre o vestido me dava ânsias, ódios. Desperdício. Sede! Tenho sede! Gritei sem ouvir minha própria voz. E peguei-a pela nuca, bebí o último gole diretamente daquela boca triste. O beijo. E as mãos correndo, rasgando roupas. O sexo. Ela muito querendo, dizendo não. Eu muito negando, dizendo sim. Vem! E ela vinha, dava-se. Cavalgamos sem sair do lugar, e foram muitas léguas assim. Cansamos. Entregamos o corpo ao solo. Ela disse que tinha sede. Pediu gozo, que dei-lhe na boca com minúcia. Morremos ali, saciados, e nossa alma seguiu adiante.

CIRANDA



Ela chegou sorridente, dona do mundo. Era a primeira vez que eu a via, mas já conhecia aquela de quem meus amigos tanto falavam. Era linda mesmo, cada detalhe minuciosamente perfeito. Ví, ou imaginei, seios pequenos e duros, e nádegas convidativas, sob o vestido de seda. Cumprimentei-a olhando nos olhos, e nosso aperto de mãos pareceu mais longo que o necessário. Estava apaixonado. 

A noite foi sendo povoada por diversas faces, confundidas entre as luzes brilhantes e coloridas da pista. Senti-lhe um seio com meu cotovelo na confusão de uma dança. Fiquei ereto demais. Mas havia o marido, um burocrata gordo e rico. E o amante, surfista, moreno, animal atroz. Eu era o mais improvável candidato àquele paraíso. Mas ela sorria para mim, entre uma taça de prosecco e um beijo no marido tagarela. Falavam de viagens à Europa e de carros luxuosos. Eu calado pensando em carinhos rudes e palavras agridoces. 

Noite estranha. Bebí um pouco de scotch, fiquei alerta. Ví o burguês sorrindo, fingindo-se de cego. Ví o gatuno encoxar a donzela e falar vilanias ao pé do ouvido. Todos dançavam aquela ciranda maldita. Todos sabiam, e aprovavam. Asco! Olhei-a fundo nos olhos azuis, como quem olha um abismo e sente a mórbida e excitante vontade de saltar. Esperei, pensando e querendo muito. Na despedida declarei-lhe amor. Ela sorriu, magistral. Beijou-me no rosto e foi-se embora para sempre, como um sonho ruim ou um pesadelo bom demais.

ADEUS RABI



Ele tocou minha mão naquela noite, e chorou. Todos sabíamos que estávamos vivendo os últimos dias. Eu disse a ele, Rabi, ainda podemos fugir, ensinar a outros, formar um exército, precisamos resistir! Mas ele não me respondeu. Os outros esperavam palavras de ordem, de espada em punho, mas nada aconteceu. Apenas olhou-nos, como quem vê muitos caminhos, e deu a bênção. 

O pão tremia em suas mãos. Derramamos o vinho, cantamos nossa dor e nossa frustração. Horas tristes, lentas, amarguradas. Aos poucos os homens se retiravam, buscando suas tendas. Ele saiu para caminhar. Sabíamos o que queria. Queria ela. Era assim sempre. Esperava na tenda, armada longe de todas as outras. Fizeram o sexo mais brutal que homem e mulher poderiam fazer com todo o amor que escritor algum poderá descrever neste ou no outro mundo. Por fim beijou-a no ventre e mandou-a embora, levando sua semente. 

Os homens estavam agitados. Percebiam dúvidas. Ele passou por nós, descalço, quase flutuando, sem olhar em nossos olhos. Passou entre nós como um pássaro ferido, mas ainda elegante em seu voo dolorido. Sentimos o peso daquela alma. Morrer, partir. Ele decidira. Quando os soldados chegaram, encontraram apenas a nós, pescadores, camponeses, tolos, revoltosos, bandidos. Fomos presos, chicoteados, humilhados. Mas quando o Sol surgiu, uma cruz vazia restava no monte, sem um mártir para dar-lhe um nome.

sábado, 13 de agosto de 2011

NÁUFRAGO



Acordei no meio de um oceano de terrores noturnos 
sentindo que algo em mim havia se apagado.
Eu era todo meia-noite, escuridão, um pedaço de carne 
cercado de dúvidas por todos os lados.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Á BEIRA DE MIM




Havia um chão inquieto sob nós
Como se toda a estrutura bruta, a rocha, os seixos,
De repente fosse um oceano, um não-estar seguro,
Como se todas as descobertas abrissem em seu seio uma procura,
Um desejo de chegar muito próximo aos abismos
E dizer, gritar: 'Ei, você! Estou aqui! Agora é a sua vez!'