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domingo, 3 de fevereiro de 2013

CARTAS DE ALCATRAZ



Um tronco bordado pelo limo do tempo passa flutuando.
O vento do fim da tarde faz cócegas na barriga da lagoa.
O sol põe fogo no mar mergulhando num horizonte distante.
As chalanas passam cheias de olhos curiosos.
Nuvens bojudas adernam como caramujos de algodão.
A lua escorrega por trás das montanhas.
Estrelas cadentes saltam dos olhos dos gatos.
Bêbados caminham como dândis esfarrapados.
Urubus observam atentos em voos que sujam o céu de carvão.
Há corvos por todos os lados, entre outros rapineiros alados.
Nada é por acaso, nem despido de segundas intenções.
Quem atou-me a esses nós? Quem calou-me a voz?
Em mim, nós desatados. Em nós os laços a se afrouxar.
Os minutos passam com uma tranquilidade de túmulo faminto.
As tintas descascam das paredes, dos olhos, dos hábitos.
Pelas arestas percebemos olhinhos pretos e miúdos.
E os porcos com seus focinhos àvidos nunca param de farejar.
Viver é praxe, a rotina dolorida, dourada, uma eterna festa,
Com ares de comédia burlesca ou dramática farsa
Numa penitenciária ensolarada com vista para o mar.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

OS PÉS DA SEREIA




Fazer do mar
A cama que transborda,
Canto, manto,
Pranto e chão.
Paisagem
De azul cobalto
E pedraria vulgar.
Mata-borrão.
No olhar a teia
Dos dias idos
E dos vindouros.
Armistício.
Entrego o ouro
Por memórias de bem-querer.
Ser ou não ser?
Respirar na água, morta.
Tão distante de ser sereia,
Com sua cauda equilibrista,
Cabelo de ondas,
E olhos de encanto.
Abrir comportas
E deixar-se levar
E lavar com palavra
Os retalhos do existir.
Nas mãos a calmaria.
No peito maremoto.
Inútil
Rosa-dos-Ventos.
Navegar: moto-perpétuo.
Mas posso, ainda, fazer
Da alga desgarrada
Sargaço boiando em espuma
Talvez um poema
Sol refletido no quartzo
Vidrado na tez da praia.
Ao invés da cauda,
pé humano.
Invencível
Por todos os caminhos.
Água salgada
E sangue agridoce.
Bordados de escama prateada
E telas de arminho.
Pelo e pelúcia.
Minúcias do não-querer.
Deixo entornar meu cálice
E peco, peço
Mais um vinho.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

MARTELO DE AÇO EM SINOS DE CRISTAL





O que sabemos um do outro
Além do pouco de luz
Que nossos olhos escuros
Deixam escapar?

O jeito de conhecer bem rente
Como peixe agarrado num anzol
Ou gado marcado a ferro quente.
Os riscos, os discos, os carinhos
Como navalha em corpo arfante.

Sabe-me humano, finito, sozinho
Neste sinuoso caminho que atravesso 
Sobre as águas, mirando horizontes
Entre alegrias e mágoas
Como timoneiro-palhaço-equilibrista 
A vencer essas margens sem pontes. 

Meu texto calejado
Auscuta, inquire e sonda.
Torna-se carne-viva, resultado 
Do vai-e-vem das ondas, 
Da fluidez do existir,
Ato-efeito de insistir
Em ser, apenas ser
Às vezes água
Torpor oceânico
Noutras vezes magma
Terror vulcânico.

Lâmina, líquido, álcool, navalha,
Sou, somos, para o bem e para o mal
Estátuas de sal que ousaram
Na fuga, olhar para trás.
Sobre o mármore do mundo,
Para além do bem e do mal
Somos filhos do absurdo,
Estátuas de puro sal.

Somos, seremos, sempre meninos,
Ou coisa que o valha, talvez algo mais,
A badalar linda e perigosamente
Com martelo de aço
Estes sinos de cristal.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

THE ASHES OF ROBERT FROST





Purple silverlinnings.
Golden leaves at dawn.
Blue sparkles of light.
Grey eyes beholding.
Dark thoughts unfolding.
The sun is a rusted dime.
Birds of fire hide on heavy clouds.
The thunder roars a lulabby.
Times are changing.
But not passing by.

What rest is fire.
Under the skin, no pain.
Pain, poetry, no more.
No memory of yore.
No shinning secrets.
Nothing to keep warm or cold.
At the bottom of a rainy night.
On the top of a sunny day.
The poet is gone.
Gold is just a mere stone.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

NA MANHÃ DE UM DOMINGO COR DE LARANJA






Na manhã cor de laranja desse domingo
Contar moedas cunhadas em terra estranha
Rasgar antigas cartas de amor e ódio
Adivinhar os pássaros que habitam o céu de cobre 
Inventar palavras de ordem contra os deuses
Lavar o chão do quintal como quem lava a alma
Com calma arrancar as ervas das frestas do dia
Espantar os gatos que fazem amor sobre os jasmins
Plantar pimenteiras que jamais irão vingar
Furar o dedo nas roseiras murchas do jardim.

Na manhã cor de laranja deste domingo
Perder-se nos olhos dos caranguejos do mangue
Pitar um cachimbo imaginário à beira da lagoa
Beber o sangue de Cristo na missa dos pobres
Achar uns cobres no bolso furado de um casaco
Sugar os seios de uma bailarina (eu menino, ela me nina)
Chorar uma única lágrima de uma torturada alegria
Acreditar novamente nos irremediáveis lances da sorte
Catar aos pés do coqueiro seus braços pretos, murchos
Mastigar promessas e preces trazidas pelo vento do norte.

Na manhã cor de laranja desse domingo
Ler notícias antigas no jornal recém chegado
Raspar com paciência a casca podre da vida
Beber devagar o fel gostoso da esperança
Desfazer os nós dos hábitos, quebrar cadeados
Sacudir a poeira dos livros, dos discos, dos ossos
Beijar a mão de fantasmas de cara risonha
Aceitar desconfiadamente os milagres dessa vida medonha
Lutar contra angústias enormes, em favor das pequenas
E seguir cospindo marimbondos como se fossem poemas.

SENHORA




Como o oceano imenso
abraça as terras todas de uma só vez
embalando o mundo no berço ritmado de suas marés
assim eu, pequeno perante a tua lenda, 
sou acolhido por esta presença firme e doce 
resumida num abraço de mulher.

Num instante que facilmente
eu poderia chamar de eternidade
sinto todos os meus átomos 
desejando experimentar o teu corpo:
sou uma criança excitada por trovões 
que ressoam nos confins da noite
e sob o açoite das impreteríveis vontades 
que me assombram, deixo-me acolher
pela tua presença firme e doce 
resumida num abraço de mulher.

Mas num lampejo a realidade nos afeta
e teu olhar repreende o poeta dizendo "sim"
enquanto teu corpo aceita o homem dizendo "não"
separando-nos devagar, deixando-me flutuar para longe
da tua presença firme e doce resumida num abraço de mulher.

sábado, 26 de janeiro de 2013

O MOMENTO CERTO




Nada é. 
Tudo está sempre
Sendo ou tentando ser.
E se você está parado, muito atento
Esperando o inesperado te dizer "oi"
num piscar de olhos você vai estar atônito,
Percebendo que o que era pra ser... já foi!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A MELHOR FLOR DOS PIORES TEMPOS





[ou... Cavando Abismos, Construindo Pontes]


Acostumei-me ao rebuscados meneios da poesia. Mal costume, devo dizer. Porque a cada dia que passa tenho que ser mais homem, mais humano, e subverter toda lira, e não pensar mais em ramos floridos bailando entre os dedos da brisa matutina, nem nas ondas de chumbo líquido que se descabelam ao encontrar a terra, bordando de brancas espumas os lábios do continente. Não, não cabe rimar. Contemplar a poesia não cabe, nessas horas de ferro e fogo que exigem da gente a palavra dura e a atitude medida dos homens de verdade.

Mas o que é ser um homem de verdade? Ser rude? Mentir? Acordar cedo e sair para a vida com a gravata apertada no colarinho, com o tempo nos estrangulando, com contas a pagar, com as mãos secas para machucar os outros, com o corpo esperando o sexo sem carinho, a agulha, o vício, a morte?

Será o tempo o nosso vilão? Será o tempo a mão esquerda de Deus? Será que existe um Deus? Ou será que cada homem cria um álibi chamado Deus para cuidar do episódio humano como quem vive a podar uma árvore que só queria florescer?

Há algum tempo não encontro refúgio nas palavras. Elas que me acolheram nas horas mais difíceis, hoje me fogem como cavalos selvagens, e são ariscas, brutas, e jogam poeira nos meus olhos e me fazem chorar um choro abafado e envergonhado. Homem não chora, menino!  E as palavras passam, cavalgam sem cuidado com as campinas floridas, e rima alguma me contempla, nem mesmo a mais dolorida. As palavras passam por meus olhos, mas por mais que eu as mire, não acredito mais na verdade dos seus nomes. Elas nascem de todos os lugares e de lugar nenhum; elas voam por todos os lados e se chocam contra o meu peito como aves cegas contra um rochedo à beira-mar. Como sorrir assim? Como cantar a paisagem se todas as janelas estão fechadas?

Tempo sem beijos. Tempo de apertos de mãos sem vontade. Tempo de dividir o cativeiro com o inimigo. E as palavras ao redor, paredes sujas, corredores escuros, os carinhos disfarçados de mal-querer, os maus-tratos adornados com fita cor-de-rosa e com cheiro de chocolate. É como se todos os ramos de flores escondessem venenos mortais, adagas, punhais. Onde foi que perdemos nossa delicadeza? Quando foi que amar ficou fora de moda? As pessoas caminham em círculos, mãos dadas com luvas cheias de espinhos.

Outro dia me encontrei olhando nos olhos de outra pessoa, e confesso que estremeci. Nos últimos anos chegar perto de qualquer ser humano era para mim como aproximar-se da beira de um abismo. Curiosidade, medo, náuseas, desconforto...  E por isso abracei as formas mais efêmeras de existência, e me tornei uma lenda pra mim mesmo. Mas de tempos em tempos eu me pego desafiando a perigosa distância da qual me fiz refém, e a despeito do perigo de perder-me nos abismos da alma alheia, deixo-me apaixonar pela mais banal da criaturas, por aquela que passa sem me notar, por aquela que sorri sem terceiras intenções (porque das segundas ninguém escapa) e que me estende a mão desnuda, sem as luvas cotidianas a que todos nos acostumamos a usar.

Esta criatura em construção sempre me surpreende com a força da sua poesia. Poesia que eu não acreditava existir mais! 

Engraçado como nosso pensamento caminha pelas mesmas trilhas, ás vezes ensolaradas, ás vezes obscuras. A vida continua dura, ríspida, mas há quem resista. Há quem resista!

Meus nós desataram-se há muito tempo, e nem lembro mais o que é ter um porto seguro, ou uma corda que me prenda a alguma coisa, alguém, algum lugar. Mas quanto mais eu conheci do mundo, mas percebi o quanto todos nós somos parecidos, as mesmas vontades, os mesmos pecados, as mesmas forças e fraquezas. Tanto que vejo gente por demais apegada ao carcomido mantra do "eu-meu-eu-meu" e não entendo como pode haver tantos cegos neste castelo em ruínas. 

Somos como pessoas que caminham no escuro, uma ao lado da outra, mas sem se ver, sem se tocar, e por isso seguindo sempre em frente, com uma imensa impressão de estar só. Faltaria só um gesto na direção oposta para que o milagre acontecesse, mas já é tarde para acreditar em milagres, e caminhar é preciso.

Mas um milagre pode acontecer, e que seja a poesia o seu veículo. Como uma criança deixa sua mão registrada no cimento fresco, sem saber que aquele toque ficará ali para sempre, assim quero ser, chegando de leve e arrebatando meu semelhante, como uma pena bonita e colorida que vem flutuando e nos toca o ombro, e a gente guarda com um carinho sem explicação, numa caixinha que talvez fique esquecida em alguma gaveta, lembrança única de que um dia nos apaixonamos por um pássaro que nem vimos nem ouvimos, pois passou voando veloz em direção ao seu destino de liberdade.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O SEMEADOR DE ESTRELAS





Quando já for um velhinho
e todos nesse mundo perverso
pensarem que estou louco
vou pegar verso a verso,
e então pouco a pouco
como fazem as criancinhas
salpicarei estrelinhas
nas entrelinhas.

SUPERFÍCIE


Não se importem
Com as firulas do cérebro
Nem com as sutilezas da alma.
Sem mais delongas eu vos digo:
É à flor da pele que mora o perigo!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O AMANHECER NA ILHA DOS TORTOS

  



Naquela noite de Natal ouvi sinos tocarem e achei que estava tendo um pesadelo. Acordei brevemente, olhei o céu ainda escuro e imaginei que Deus estava dormindo debaixo d'uma colcha rosada de nuvens. Eu podia ver passar os cummulus nimbus cor-de-rosa em plena noite sem estrelas, e sabia que alguma tragédia estava sendo engendrada no porvir, como teia de aranha armada com zelo e requintes de crueldade. Teia: ninho e armadilha. Encanto! Eis a palavra: encanto. Talvez o amor brotasse como flor noturna, de um perfume enjoativo e inebriante, como a tragédia que liberta. Talvez. Não confio em remédios que não sejam muito amargos ou doces demais. Viver é curar-se sempre e constantemente da mesma doença; rolar pedras ladeira acima, só para vê-las despencarem novamente para o fosso, e depois voltar, respirar, e recomeçar todo o trabalho. Novamente, e de novo, e sempre. 


Recorto memórias do que não houve. É tudo verdade, mas nem tudo aconteceu.

  Lábios vorazes desenharam flores negras no ar, e foram as palavras mais doces que um anjo caído poderia proferir em hora de tamanha calma. Manhã lodosa, lenta, os patos e as garças fazendo algazarra na lagoa, os caranguejos costurando sua baba silenciosa entre as raízes do mangue, e o sol sem convicção a mirar o mundo por trás da montanha, qual menino envergonhado, talvez com medo dos olhares cinzentos da cidade. 

  Eu era todo vírgulas, e reticente já nos começos, mastigava sem pressa o cuscuz das primeiras palavras do dia, ouvindo e imitando os que já estavam acordados, parlapatões. Cantilena, poesia: mil sapos pustulentos a coaxar a dor dos homens, e a lagoa fervilhando de serpentes cegas, que seguiam essas correntes que não levam a lugar algum. Pescadores com rostos enferrujados passaram com seus arpões brilhantes e suas redes de malha grossa. Desejaram-me um bom dia. Promessas resmungadas como quem diz a missa num latim inventado, a ver se um deus qualquer, zangado, poderia fazer mover-se para um lado ou para o outro a montanha de mágoas que puseram em meu caminho.

  Tudo há de se duvidar. Esmola em dia santo. Palavra de ternura no calor do sexo. Favor oferecido por mãos branquinhas e muito limpas. Camisa lavada e perfumada com pétalas de rosa. A luz do sol refletida nas águas pouco remexidas. As nuvens escondendo o granito imemorial das montanhas. As fossas abissais e as valas de verde-musgo salpicadas nas encostas da cordilheira. As cavernas onde morcegos dormitam com um olho aberto e outro fechado. O cheiro das jacas, mangas e goiabas que caíram de maduras na noite anterior. O perfume do luar ainda persistente sobre a pele das ervas orvalhadas de pérolas reluzentes. A voz das sereias, o ronco do mar que mastiga as rochas do litoral, os deuses-anões que moram debaixo dos cogumelos cor-de-abóbora e dentro dos troncos ocos, apodrecidos pelo nosso esquecimento. Os fachos de luz lilás que irradiam dos olhos das carpas no aquário da nossa memória. A inglória virtude de ser você, só você, sobretudo você, para além da casca humana e dos trovões do Olimpo. 

  Fiz do outrora meu descanso, refúgio e bálsamo. Morri para os detalhes do agora, vivendo como bruta caricatura, eficiente nos atos e econômico nos fatos. Fogo-fátuo. Eu. E minh'alma sem norte. E para além do mundo jazem as alminhas que esperam para nascer. Ah, ouvir e não entender! Palavras de ordem. Salves e vivas! Meus gametas gritando augúrios enquanto ânforas de afeto deságuam-me dos olhos. Oh, rubor! Oh, desmesurada pequenez! O amor pediu passagem já passando, pisando girassóis no caminho. E eu sozinho deixando-me levar: amar é vasto como o mar. 

  E de esperar ninguém se cansa. Esperança brava, dolorida. E viver é um cozer de trapos rotos, com linha de ouro e botões de marfim. E todo fim é no tempo certo. Com um recomeço encrustrado na palma da mão, entre signos e linhas mestras, cordames de outros destinos, deixados para trás. Mesura e medida que se tem em conta: horinhas boas pra viver e morrer, o que é sempre a mesma coisa, mudando apenas o sentido de quem vem e vai. 

   Eu esperava. Cansado. Olhos fechados pra enxergar melhor. E pedindo que Deus não me entenda: sou, mas nunca deveria. E de dizer amém ninguém perde o senso. Incenso, velas, pra quê? Há o sol que já perdeu o medo de castigar os pobres, e a lua cheia de mandingas pra confundir os tolos.

  Tudo é planície para quem espera. O peso das horas verga os galhos dos baobás entumecidos, grávidos de perguntas sem resposta. O tempo esperou passar a fúria das marés para que pudessem crescer espinhos sob meus pés descalços e me ensinar dores mais gostosas, e maus-tratos saborosos à carne curtida e salgada nos maremotos e tempestades que todos fazemos em copos d'água. 

  Esperamos. O tempo germinou a hera, a mandrágora, o heléboro negro, a sálvia e o alecrim. Enfeitei meu corpo com cicatrizes vistosas e fui ao baile, dançar a valsa com minhas sombras, inquilinas da minha alma. E tudo resolveu dar certo, por vias tortas. E fez-se de pedra o momento breve em que tudo é deserto e todo caminho leva ao inevitável acidente de um final feliz.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

ENGOLINDO O CHORO



No meio da tarde
Há uma pedra que arde
E não se pode pôr a mão.
Não é magma, carvão, 
Nem prata, nem ouro.
Queima de dentro para fora, 
O coração.
Faz a gente tentar apagá-lo
Em vão, tentando
Engolir o choro.

domingo, 16 de dezembro de 2012

ALEGRIA, ALEGRIA!




Não.
Não há o choro.
Nem ouro escondido.
Nem poema-pranto, nem espanto.
Ninguém terá fome de pão nem da carne do outro.
Ninguém terá sede daquilo que corre em minhas veias.
Os carrancudos, que se desarmem.
Os sedentos de lágrimas, que esperem.
Os ávidos pelo sofrimento performático, que aguardem.
As matronas carpideiras que engulam o momento de sofrer.
Hoje não haverão versos de dor, nem cantares do amor desvalido.
Não virão fantasmas me assombrar. O ectoplasma da morte não virá.
Ninguém hoje pode morrer. Eu decreto! Está decidido!

Que todos sejam imortais, ao menos por um dia.
E que hajam sorrisos, de velhos e crianças.
Que os pobres paguem seus impostos.
Que os ricos doem suas posses.
Que os medianos tenham a medida certa da verdade.
Que os miseráveis se regozijem na própria fossa.
Que os maltrapilhos vistam cartolas.
Que a polícia prenda os bandidos.
Que os bandidos encontrem um tesouro.
Que todo ouro do mundo vire purpurina.
E que os unicórnios habitem as cidades.

Que haja alegria e esperança.
Que seja domingo.
Hoje é domingo.
Mas a missa não virá.
Nenhum salvador está pregado na cruz.
Hoje o poeta é deus. E o evangelho escrito é o meu!
Hoje a poesia canta alegria, alegria!
E que das trevas se faça a luz.



O MENINO OBSERVA O HOMEM





O menino observa o homem.
Menino-tempo, olhar tanto é o que resume
a paisagem que se mostra nova a cada dia.

Todo ser vivente é sua própria semente!
Paisagem de florestas desfolhadas com paciência.
O vivo morre, o morto germina outro tipo de existência.

O menino observa o homem.
E de tanto olhar e amar, 
devagar o consome.

Eis o milagre e mistério absoluto: 
o filho em seu amor é bruto,
precisa ser solvente, e seu pai soluto.

Solve, resolve. 
No ventre da vontade esconde-se um poema.
"Solve et Coagula" é nosso teorema.

Brinca o menino.
Com algodão faz barba longa e branca.
É o tempo imitando o tempo, panela sem tampa.

Cozidos em banho-maria.
Cozidos no fogo baixo de cada dia, somos.
Tempo, patrão. Deus, patrono.

Logo será homem este menino.
Todos os meninos, homens serão.
Um dentro do outro, um "sim" dentro de um "não". 

O menino só quer viver.
O homem só precisa morrer. 
A vida apenas cumpre seu dever.

Quer crescer, ser homem também.
De mãos dadas com seu pai o menino
canta para a morte: vem!

E de outra sorte não sabemos. 
O homem vira menino.
O menino diz amém.

O som do sorriso e a fisgada de dor se parecem.
Angústia e prazer são gemidos quase no mesmo tom.
São todos partes diferentes da mesma prece.

São iguais na foto, note a semelhança
entre a gargalhada senil de um ancião
e o berreiro pueril de uma criança.

Um dia as pernas fraquejam
e o homem, cansado, engatinha.
Note o menino: cedo já levanta e caminha.

Um percebe-se no outro.
Descobrem juntos, perante Deus, de joelhos
que viver é um constante quebrar de espelhos.



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

MAGMA





No meio da tarde

há uma pedra que arde

e não se pode pôr a mão.

Não é lápis lazuli, carvão, prata, 

nem os tesouros perdidos outrora.

Queima de dentro para fora: 

coração.


Pedra de fogo, palavra em chama

que machuca fundo enquanto não falo

o verbo tórrido que me toma 

assim de repente, num estouro

que me faz tentar apagá-lo

rabiscando um poema

e engolindo o choro.


[Num silêncio de magma

garimpo versos de ouro.]

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

COM UMA PEDRA NO BOLSO



Mirei à frente
furioso querendo vingança
com uma pedra na mão:
cruel como todas as crianças!
Queria acertar um pássaro qualquer
mas a pedra pulsou, de repente, 
e eu não soube mais o que fazer.

Mirei à frente
com o coração a pulsar entre os dedos.
A ave abatida já formava em minha cabeça um esboço.
E se eu errasse o alvo, ou se acertasse, Deus, que medo!
Guardei a pedra no bolso
como se para sempre guardasse um segredo.

AS CORES DO MEU POEMA





Sonho, sou pintor.
Carrego a mão com azul cobalto
e com amarelo ocre teço minha dor.
Uso cinza grafite, palha, prata, lilás,
e outras luzes que vingam no teto alto
quando de mercúrio os trovões se pintam
e quando a calmaria vira maralto,
onde as borboletas criam tufões
sem que ninguém perceba ou sinta.
Hoje eu trocaria o papel por qualquer tela
onde eu pudesse sangrar colorido, 
e trocar as palavras pelas tintas.

MENINOS, EU VI UM DRAGÃO




Meninos, eu vi um dragão!
Encarei-o bem de perto,
e reparei em seu peito uma ferida aberta.

Meninos, eu vi mesmo um dragão.
Era silencioso, seus músculos tensos ficando flácidos.
Suas lágrimas, contidas, queimavam como ácido.

Meninos, eu vi um dragão.
Não parecia com nenhum daqueles dos contos de fada.
Era um bicho acuado, temia guerreiros de capa e espada.

Meninos, aquele dragão
já não voava nem cospia fogo.
Gostava de flores, de poesia. Era um bobo.

Meninos, eu juro que vi um dragão!
Seus olhos faiscavam um tímido fulgor vermelho.
Meninos, eu achei um espelho.

domingo, 9 de dezembro de 2012

POEMINHA





Cada dia menores
são meus versos.
Espero que tu
não me repreendas.
É que ao ficar nu
(usar palavras poucas,
rasgar todas as roupas)
livro-me de todas as vendas.
Já não faço versos para ser entendido
mas para que eu mesmo me compreenda!

PÃO E VINHO



Siga-me, 
não.
Que os caminhos meus
teu coração de passarinho 
pode nem suportar
de tanto espinho.
 
Siga-me, não.
É que certos dias
sou pão, mas quase
sempre sozinho
sou só vinho.