Ask Google Guru:

domingo, 28 de abril de 2013

FIM DE CASO







Asco.

Num frasco pequeno.
Veneno.
Borrifado como perfume.
Amor.
Confundido com estrume.
Da terra adubada
Pode nascer uma flor
Ou pode não brotar nada.

Asco.
Numa botija muito grande.
Veneno.
E seu insidioso lume.
Amor.
Dor que aduba a vida: relume.
Caco de vidro enterrado, luz apagada.
Amantes se olham nos olhos
E não enxergam nada.

terça-feira, 23 de abril de 2013

HUMANO







Tem fome?
Tem sede?
Tem culpa?
Tem medo?
Tem segredos?
Tem uma chaga queimando
Logo abaixo da cintura
Por baixo de todos os panos?
Parabéns, pobre criatura
Pois acabastes de descobrir
Que és humano, demasiadamente humano.

PISANDO EM OVOS







Nega.
Nega de novo.
Três vezes negarás.
E depois, pisando em ovos
Faça uma omelete, e durma em paz.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A CRÔNICA DE TODO DIA COMUM








Dia engraçado. Acordei cedo, sem dor de cabeça. Assisti o noticiário da manhã, nada novo, os homens sempre com suas mesmas manias. E eu aqui sobrevivendo, observando como criança que tenta entender o que acontece.

Corri na praia, tomei banho no mar geladíssimo da Barra. Plantei flores novas no meu jardim. Escrevi muito. Li bastante. Revirei a biblioteca só pelo prazer de folhear as páginas dos livros grandes e pesados, sentir-lhes o perfume do papel bordado pelas traças, as encadernações costuradas com linha forte e capa de couro, que delícia!

Fiz compras, vinhos e peixes na maioria. Achei nozes e sorri feito menino. Há tempos estava com desejos. Farei algo interessante com elas no domingo, pensei em voz alta no meio do supermercado.

Caminhei demais, e nem sempre foi por prazer, mas por ter o que fazer mesmo. Não tenho carro. Abdiquei dessa vida faz tempo. Adoro a carona dos amigos, mas pagar gasolina, impostos, perder a paciência no trânsito... Isso não é vida pra mim. Não ostentaria uma Ferrari nem se me dessem. Trocaria por uma casa com jardins, bibliotecas amplas, uma adega, uma figueira com um balanço gostoso para as tardinhas de outono... Ah, isso sim eu queria! E se tenho um desejo de ostentação, ei-lo, meu pecado declarado.

Por isso ando. Às vezes depressa, desviando das pessoas como um velocista de maratona. Mas no geral ando. Aprendi a andar de chapéu panamá e chinelos de couro, como Jobim e Vinícius. E acho que logo vou usar bengala, uma daquelas bonitas de mogno com um brasão. Acho charmoso o homem de bengala, principalmente quando não precisa dela! Ela é como um símbolo fálico ali, à mostra, que o sujeito empunha como se fosse gozar a qualquer momento, um gozo violento e ao mesmo tempo gentil, tenro mas varonil, de quem viveu muito e sabe das coisas, principalmente essas, ditas ocultas, ou as de alcova.

Andar na rua é um hábito de poetas, de sábios e bons canalhas. Os bons malandros. E olhar as meninas passando, as saias esvoaçantes, a curva bonita dos seios que brotam, a nuca... Ah, a nuca com aqueles pelinhos finos. E andar pela beira da lagoa com a namorada, segurando sua mão como se ela pudesse voar dali a qualquer momento, e puxá-la num repente pra beijar-lhe a boca, rápido, pra deixar o bom gosto do querer mais.

Quem anda de carro não vê essas coisas. Deve viver triste, pensando em contas, respirando fumaça.

Gosto de ver o burburinho da vida no metrô, no ônibus, e quando é preciso ser veloz ou não amassar a roupa, pego um taxi. E todo taxista tem sempre uma ótima conversa. São cronistas da vida urbana e enxergam tudo, sabem da vida de todos, e contam com gosto, com um deleite contagiante.

No fim do dia vi o por do sol na nossa ilha, com o barquinho deslizando sem pressa rumo ao cais. Então montei o aquário novamente, e vim passear nessas planícies virtuais, ver o que o povo anda falando e fazendo, na maioria fingindo que diz e faz enquanto a gente finge que acredita e diz amém...

Enfim, lá se foi mais um dia comum, que de corriqueiro não teve nada, porque cada pequeníssima tarefa desse dia foi um milagre, e a noite é ainda uma criança divertida, insone, hiperativa!

Minha mulher chegará do aeroporto com novidades, coisas pra contar, malas pra desfazer, beijos e carinhos de menina boba, e esses são os melhores. Já separei os vinhos da noite, e daqui há pouco vou temperar os camarões para o risoto, pois estaremos famintos, principalmente um do outro.

Enfim, lá vai o dia com suas matizes de negro e azul, e púrpura, cinza, magenta, fucsia e até estrelas de neon. A noite está bonita, meio fria para uma noite carioca. É o mar soprando aquele ventinho gostoso que faz os casais se abraçarem. O mar é sábio sempre. Guarde isso contigo, fale baixinho pra você entender melhor: o mar é sábio sempre, e viver é um oceano. Viver é um oceano.

Vou chegando ao fim da crônica sem saber como foi o dia, posto que não acabou ainda. Há milagres escondidos sob cada pedra do nosso caminho. E no meio do caminho, meu amigo, tem sempre uma pedra!

domingo, 14 de abril de 2013

OBSERVO ESTRELAS





Observo estrelas.
Fico feliz em tê-las
Ao alcance das mãos.

Toco o vértice agudo e brilhante
E deixo-lhe roçar a carne dura
Escavando como quem procura
Algum tesouro enterrado.

Observo estrelas.
Fico feliz em sabê-las
Mortas como estou agora.

Toco o vértice, a ponta reluzente
Que pende na escuridão
Perante meus olhos cansados
Que em breve estarão, para sempre, cerrados.

Observo estrelas.
Sei que poderei tocá-las.
Em breve serei uma delas.

Toco a pontiaguda extremidade
Que fere meu dedo sem dor
E com o sangue que brota nesta hora
Faço versos sem culpa, sem pudor.

Observo estrelas.
Digo adeus sem ir embora
Misturando o hoje com o outrora.

Toco o vértice iluminado.
A luz morta que emana delas,
Essa luz que vemos hoje no firmamento,
Brilha morta, mas linda, sem lamentos.

Observo estrelas.
Brilham, mas são finadas.
Sua luz vem de longe,
Da fonte do vazio e do nada.

Toco-lhes as pontas de diamante.
As arestas afiadas, mortais e belas.
Logo, logo, serei brilhante como elas.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

OS PERDEDORES








Nós, os perdedores, 
Os tristes, os fracassados,
Tomamos champagne
E comemos foie-gras
Em plena segunda-feira.

Nós, os perdedores,
Os tristes, os fracassados,
Vivemos fingindo que vencemos
E somos felizes demais, 
Só de brincadeira.



OFÍCIO



Sua paleta de cores.
Minha paleta de dores.
Os quadros pintados na carne.
Os riscos e rabiscos no cerne.
O asco dos que nos amam por obrigação.
Os frascos de fel, perfume de ruína e redenção.
Os odores do dia comum.
Os olores do corpo: mais um.
Corpos, tortos, pagantes.
Demandam amores plásticos.
Querem, pedem, desejam, arfantes.
Seus rompantes de quase-morte nos assustam.
Escolhem-nos na feira livre, tristes frutas.
Somos artistas, uma nova e mais 
(ou menos) articulada categoria
De prostitutas.
Somos todos filhos da mesma
Sempre desejando ser filhos da outra!

ERRA AGORA






Erra agora.
E mesmo que erre sempre
Nunca será o bastante.

Tudo é rascunho.
Só morrer é definitivo.
(Por enquanto.)

quinta-feira, 11 de abril de 2013

PACIÊNCIA





A paciência dos gestos.
Mesmo os mais gastos precisam de esmero.
Os gostos do cotidiano refletem-se no rosto.
A delicadeza brava de toda espera.
A poesia contida nos erros.
A malvasia gostosa dos erros.
Tudo é porto, é perto, é corpo.
Tudo se resume ao lábio semiaberto.
A vida subterrânea dos deuses.
Os usos subcutâneos dos sentimentos.
Os malogrados edifícios de carne e cimento.
As sinfonias de martelos e serrotes.
O fogo apagado na sagrada pira.
E o semitom que dissona, assoma, retoma.
A alegria imoral dos totalmente inocentes.
A textura do sangue e seus rubros esquemas.
Certas harmonias só possíveis na ira, 
No sexo e no poema.

PERDER-SE



Acho
Que perdi.
Perdi-me achando
Que errava por caminhos certos.

Esperto ao contrário.
Joguei a pedra e escondi a mão.
Estou perdido, sem voz.
O vazio na casca de noz.
O universo na casca de nós.

Acho
Que perdi.
E essa perdição
Amigo, cá entre nós:
É minha única redenção.

[Para Estamira, a bruxa.]

terça-feira, 9 de abril de 2013

O CASULO


Não me chamem de poeta.
Não me coloquem no seu balaio.
Não batam palmas, nem gritem bravo!

Eu sou rasteiro.
Eu ando cabisbaixo.
Eu não canto a lira fácil.
Eu não canto a modinha dócil.

Não me chamem de poeta.
Não me convidem para qualquer sarau.
Não me venham com sorrisos.

Eu sou lagarta.
Estou nulo em meu casulo.
Não sou poeta. 

Mas qualquer dia
Eu me livro de vocês:
Vou virar borboleta!

quarta-feira, 3 de abril de 2013

TODAS AS FLORES DESTE MUNDO




As migrantes sorridentes
Com sua arcada amarela
Seus dentes políticos
Seus sorrisos raquíticos
Sempre prontos para os holofotes
Como no sorriso da cobra e do lagarto
Sempre sensuais, prontas para o bote.

As balzaquianas ruivas
Afinando a voz, recatando os modos
Batalhando segurança e redenção
Deliciosas matriarcas hiperativas
Com seu corpo enrugado e tatuado
Aprendendo gírias adolescentes
Encantando incautos príncipes
Burocratas envelhecidos e flácidos
Timoneiros desencantados
Procurando qualquer canoa furada.

As mal amadas, abandonadas,
Que costuram bandeiras contra tudo e contra todos
Arrebanhando sectárias para sua causa mesquinha
Onde todos os homens são vilões, nunca prestam
Mas todas as noites esgueiram-se pelas arestas
Dos seus sonhos vulcânicos, tirânicos,
Rasgando-se em terríveis rompantes
Procurando os quintos dos infernos
Dos poemas de Dante.

Essas donzelas tão lindas
Pedem, imploram
Com sofreguidão
Que seus homens dos sonhos
Chamem-lhes de putas
Batendo-lhes com força
E uma delicadeza rara
De mão calejada
Estapeando-lhes
Não o rosto:
A cara!

As atrizes fracassadas
Que roubam candelabros
Nos saraus de Copacabana
E afanam jóias de família
Juntando lixo e luxo na mesma pilha
Prestidigitadoras performáticas
Pintam corpo, enfumaçam ambientes
E enquanto os crentes esperam
Seus comparsas engendram quimeras.

Vendem riso, verso e vulva
E o olhar cândido (porém vigilante)
Cabe-lhes como uma luva.
Negam o fel que lhes escorre pelas coxas.
Adaga encondida entre os seios murchos
E adornando os cabelos sujos
Trazem a mais bela flor roxa.

São todas necessárias
Cactos que um dia esperamos florir
Como a flor solitária no meio da encruzilhada.
Passe por ela, contemple, e siga adiante
Porque se colhê-la, terás dias de incríveis
De uma felicidade imensa e inesperada
Efêmera como a vida, hoje radiante,
Amanhã murcha, despetalada.

[...]

Pouco sabem vocês,
Benditas camponesas
Que passamos a vida interia
Perseguindo um conto de fadas
Só que às avessas.

Nosso final feliz
Não exige uma princesa.
Sabemos que, na vida real,
A carne hoje rija
Amanhã estará murcha
Por isso bem mais interessantes
São as bruxas!

quarta-feira, 6 de março de 2013

RASANTE




Aprendi novos acenos
Com as asas das gaivotas.

[Amor Vincit Omina.]

A TEMPESTADE




Minhas ânforas de paciência.
Minha ciência das coisas simples.
Meus olhos marejados.

Minhas secretas vontades.
Minhas verdades dissimuladas.
Meus dias de ressaca.

Chove.
Há centenas de anos.
Dentro de mim.

Chove.
E eu aqui, engolindo sóis inventados.
Estou pleno de vazios ensolarados.

[Memento Vivere.]

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

POR UM TRIZ




- Um, dois, triz!
- Vale um bis?
- Não, isso a carta não diz.
- Vide o verso, a vida.
- Tarde demais.
- Já estás de partida?
- Tomei partido.
- Deixa rolar.
- Meu tempo é quadrado.
- Não me enrole.
- A luz, aqui, faz curva.
- É o tempo passando.
- É o tempo pesando.
- É o momento...
- Cabendo em nós...
- Como uma luva.
- Leve.
- Levíssimo.
- Como um paquiderme.
- Sobre a derme.
- Dorme.
- Agora.
- Ufa, passou!
- Passei?
- Quase morri.
- Isso se faz toda hora.
- Engoli um hiato.
- De fato?
- De novo.
- Mais gole?
- Um, dois, triz.
- Não esqueça de pedir...
- Bis!
- Mais uma?
- Perdi o tom.
- Que dó!
- Garçom!
- Ainda há tempo?
- Pra ser feliz?
- Pra aprender a só ser.
- Bem, isso a carta não diz.


domingo, 24 de fevereiro de 2013

A BAILARINA






A mecha de cabelo estratégicamente deixada ao léu, que a mais tímida brisa faz dançar sobre a moldura daquele rosto. A seda verde-pérola da segunda pele, essa camiseta cuja alça escorre displicentemente pelo ombro esquerdo. O seio convidativo, arrogantemente desafiador, inadvertidamente perfeito, semi-oculto, obtuso, docemente coberto por brumas de uma cotidiana poesia. O gesto afrancesado de pegar a taça, levar o néctar à boca, e sorrir com os olhos após um gole imperceptível de vinho e vida. O cruzar de pernas, o dedilhar do piano, o pincelar sem pressa em telas reais e imaginadas. A pele branquinha imitando as ondas de espuma que ultrapassam a fímbria do mar bordando todos os cantos do dia. A conversa boa em som miúdo, voz baixa, cantiga de paciência e paz... Tudo se resume a uma sábia simplicidade de desatar os mais complicados novelos, e saber de delícias que vão além de pele e pêlos: há certos dias em que o amor elide a carne, e brota como uma flor na base do cerebelo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

REQUIEM PARA UM SONHO






Visitou-me noutra noite o meu herói.
Meu avô-menino com suas barbas de algodão.
Purpurina nas bochechas, sua capa de cetim, a espada de jornal.
Uma tampa de panela, amassada e amarela, era o escudo em sua mão.

Cavei uma resposta em suas órbitas vazadas.
Procurei algum sentido em tuas mãos de pardal.
Nas bochechas purpurina, nas mãos a tampa amarelada.
E no gesto inesperado a agudeza inocente de uma espada de jornal.

Não ditou secretos mantras, não revelou segredos, não veio rasgar véus.
Não falou qualquer poema, mas trovejava com calma o seu olhar.
Senhor dos mil espelhos, vilão e redentor, velho inimigo meu.
Palhaço do circo místico chamando todos para brincar.

Nove círculos perfeitos desenhados na nuca.
Sete luas de prata suja, sete ventos poeirentos.
E as borboletas em chamas azuis tão lindas.

Quem é este que se desprende de minha sombra?
Quem alumbra meu lado escuro quando estou só?
Quem percebe o ponto negro na superfície do sol?

Velho inimigo dos meus dias, espelho de todas as noites.
Cava em mim o sentido alado e fugidio, triste ave de rapina.
Arranca de minhas órbitas esses olhos arregalados de arlequim.

Sete voltas de espinhos cravados em tua nuca.
Nove vidas empoleiradas numa gaiola de cristal.
E as chamas azuis faiscando nos teus olhos de pardal.

Quem é esse desdentado que tanto ri para o espelho?
Que sol de chumbo derretido joga sombras nos meus dias?
Quem perceberá a pele do outro sob as unhas da poesia?

AS 182 ESTÂNCIAS DO CÉU E DO INFERNO





Escadas inúteis.
Janelas exageradas.
Paredes limpas demais.
Olhos descascados.
Desejos contidos.
Mãos encarquilhadas.
Corredores brancos demais 
Geralmente não levam a nada.
A proximidade pode trazer carinho
Porém mais certo é que faça fricção.
O coração em sua rotina muscular
Não canta, nem pode falar.
O vinho não sacia.
As sedas envolvem
Mas não acariciam.
Haverá espinhos
Sob essas almofadas?
O cotidiano embaça
Os espelhos.
Verdades inauditas
Com pesar são respiradas.
Toda perfeição,
Cedo ou tarde,
Enfada.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

ÂMBAR-GRIS




Amanhecer em Praga.
Passar uma tarde no Rio 
E ver o sol poente em Paris.
Ou apenas trocar tudo isso
Por um mergulho infinito
No abismo mais bonito 
Do teu olhar âmbar-gris.

OCEANOS




Todas as miudezas me inundam.