Por baixo da pele
estamos todos sonhando.
Por cima dela
só de vez em quando.
para saciar o vício dos pés.
Barco e porto são iluminuras
gravadas no livro das marés.
Cedo ou tarde a gente descobre
que toda alma é um oceano,
E todo corpo,
um convés.
A sombra
mesmo quando iluminada
é sombra ainda.
Quando há luz sobre ela
sua forma se esconde
mas não finda.
Haviam rios e riachos estragados por milhares de flores mortas
escorrendo pelos cachos pétreos das serras que mordem o horizonte.
Pássaros coloridos voavam direto do ontem pousando nos galhos do agora
e a sua algazarra, ecoando no vão das horas, acordava os velhos para a vida.
Os escribas afiam a pena entre as coxas magnânimas das suas feias amantes.
Os ricos param de contar moedas, os pobres param de contar suas mágoas,
os tímidos param de contar segredos, os mansos param de buscar sossego.
Macacos de espécies variadas, azulados, pretos, marrons, côr-de-fogo e bronze
apinhavam-se nas ventanelas dos baobás milenares para ver o mundo imenso ruir.
O orvalho acrescia pétalas de cristal nas costas verde-alaranjadas das salamandras
enquanto a gosma lenta da madrugada borbulhava serena e brutal nos pântanos:
a vitória-régia e o nenúfar soçobram nos charcos, o tempo é a baba dos sapos,
o risco dourado que marca o caminho das lesmas, o visgo seboso das avantesmas.
O baile das ipupiaras na espuma das ondas frias, o canto das harpias nos penhascos,
os frascos de amarume derramados nos travesseiros das matronas de seios caídos,
o gemido lânguido de prazer e têso de dor dos moços deflorados nos conventos,
a gargalhada poderosa (mas não ruidosa) das moças de sardas ruivas nas cidades.
A maldade das crianças, o sangue dos culpados,
os heróis ignorados, o pão já muito amassado pelos sapatos dos bons,
os brioches sovados entre os dedos dos maus, as naus capitânias
desbravando as águas tranquilas dos paraísos tropicais, e o perfume
das milhões de vulvas túrgidas das bananeiras incendiadas em pleno verão.
Meninos, conto porque sei e não vi.
Digo porque já não me podem silenciar.
Escrevam na rocha e na carne, rabisquem nos ossos, no cerne
dos vossos peitos esses versos para dizer em voz alta e fazer o infinito cantar.
Este nosso imenso e ruidoso planeta,
que se arrepia em vagalhões de gozo e pavor
ao mais tímido balido dos cervos na campina
canta alto, muito mais alto, ao nascer (ou morrer) de um poeta.
O cego-ancião Borromeu acordava todos os dias às quatro e quinze da manhã, fazia um café forte com seis colheres de leite e uma pitada de canela. Tateava os pergaminhos com os dedos como se tivesse olhos nas mãos, balbuciando as leis e os códigos, passeando pelas alegorias e epopéias, avançando e retrocedendo na história do mundo, na aventura dos homens sobre a terra. Em certo momento, como se um cuco interno o avisasse, Borromeu levantava, vestia o capote e seguia para cumprir sua rotina. Subia lentamente as escadarias da torre mais alta da cidade e se sentava frente à única janela que havia ali. Na verdade não era uma janela, mas uma abertura em forma de meia lua, por onde o cego-ancião gritava as primeiras preces do dia, exatamente ao nascer do sol, que ninguém sabe como ele percebia com exatidão, mas que jamais havia falhado. A prece durava exatos oito minutos e podia ser ouvida na cidade inteira, desde os palácios do governo até os becos escuros do subúrbio, desde as colinas verdejantes do leste com suas mansões de mármore até as baixadas fétidas onde as palafitas se equilibravam sobre as marés de sargaço.
Borromeu subia a almádena com uma chama acesa sobre um pires branco. Deixava a vela sentar no chão e se acoxambrava na esteira ao lado, mãos nas coxas, o rosto recebendo a brisa e esperando a primeira luz de cada dia. Era um espetáculo belíssimo, que ninguém jamais presenciaria, quando a luz da primeira hora descia como uma poeira etérea, de um rosa-azulado que evoluía para um cinza-dourado sobre a pele de papiro cor de azeitona do mestre do canto.
Sabe-se que na madrugada do octogésimo oitavo ano de vida do cego-ancião, o café estava igualmente acre, as paredes igualmente frias, pegajosas de limo e silêncio, e a vela sebosa queimava igualmente, sem pressa. O cego mestre do canto subiu devagar, mas com passos certos e firmes, as escadas da velha torre. Lá no alto esperou a primeira réstia da estrela maior, já limpando a garganta para a prece lânguida e clara que tomaria a cidade, chamando a vida para desenrolar-se sobre todos os mortais.
Mas, não naquele dia.
Naquela manhã, quando a primeira luz banhou a face de Borromeu, o cego enxergou. As pregas de suas pálpebras, como sacos de estopa dourada, esticaram-se de terror. O cego viu o sol nascer.
Desejou gritar, mas calou-se. Desejou olhar a cidade, mas fechou rapidamente os olhos, com força. Despejou uma única lágrima pelo canto do olho esquerdo, soprou a vela, pigarreou brevemente, e despejou a prece no ar vidrado da cidade. Aquela fora a única vez que o canto atrasou, ainda que ninguém tivesse notado. O canto-mestre da alvorada foi atrasado em exatos vinte e três segundos.
Borromeu enxergou naquele dia. Depois lembrou-se de sua tarefa, seu ofício, seu lugar no mundo, e cantou. Ao fim do canto, sem esperar aplauso ou louvor, e sem ter a quem contar o milagre daquela manhã, desceu as escadas de olhos fechados, lentamente, mas com passos certos e firmes.
O cego-ancião sorriu ao cabo da escadaria, de olhos fechados. Borromeu decidiu que era feliz, e nunca mais abriu os olhos.
A melancolia bonita do fosso negro desses olhos.
O sorriso velado, a sombra de um sorriso de mel e mágoa.
A boca silente, que diz tanto. E o pranto já engolido, a seco.
O queixo moldado à faca. O corte exato da perfeita inexatidão.
O coração de papel na tempestade, pulsando revoluto.
A bruta resposta do teu grito, menor que quando te calas.
O tempo gasto com o que jamais foi possível.
A força incrível de todas as sutilezas, tudo o que nos falta.
O maralto, onde todas as vozes soçobram, naufragam.
O último gole, um trago, uma baforada, o teu arpejo.
O ensejo propício, mas não necessário. Tudo é lindo, e precário.
A legenda na foto, que não faz jus a todos os fatos.
O que não se diz e muito se entende, gravado no retrato.
A traição do corpo, mantendo ao espírito lealdade.
Tudo aconteceu, mas nem tudo é verdade.
Corpo
meu querido fardo
tens sido infiel companheiro
já faz mais mais de trinta anos,
e ainda não nos entendemos.
Tuas curvas me iludem,
teus maciços vão se esfarelando no vão das horas
como as cordilheiras que se desfazem em pó
ao sabor do vento de qualquer monção.
Corpo
não me deixes ainda, pois estou ereto
tocando partes recém-descobertas
do meu eu-poeta.
Sei que erramos o caminho
mas só por isso encontramos contento
(pedindo paz, pedindo guerra, pedindo nuvem, pedindo terra)
todo corpo foi feito tanto para o gozo quanto para o lamento.
Corpo
amado amigo e carrasco
tens o peso exato das minhas vontades
e a leveza paquidérmica de todas verdades.
Teus sinuosos engenhos
jamais foram menos pungentes que o restante
de vida que me sobra em cada sonho não sonhado:
és ao mesmo tempo porto e navio naufragado.
Corpo
que de moços e moças fartou-se, faltou-se
na doce ausência de quem está mas não é:
és trovão e orvalho, corpo é chuva - corre deitado
e cai de pé -
No turbilhão da vida
seu tempo medido em ânforas de carbono animal
desenhou destinos variados, desdenhou recados
dados por deuses tolos e demônios sem pecado.
Corpo
logo chegaremos numa esquina qualquer
onde quiçá a morte, ou quem sabe outra sorte
nos colocará na gostosa presença da extinção
disfarçada num beijo de mulher.
No fim de tudo
saberei recomeçar, aceitar o divino convite
para não ser mais corpo, como faz a cigarra
que explode em mil cores (casulo-corpo-segredo)
para a incerta renovação do eu, mas não do ego.
[Todo corpo é uma guerra.
Só fora do corpo há sossego.]
DO NOT GO GENTLE INTO THAT GOOD NIGHT
NÃO TE ACOVARDES AO CAIR DA NOITE
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Não te acovardes ao cair da noite.
Que tu saibas envelhecer como o sol ao findar o dia:
Bravo, belo, forte, vivo, mesmo em face a própria morte.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Sábios fizeram poemas lindos sobre este último açoite.
Suas palavras brilhantes são palavras apenas, mas ainda brilhantes:
Bravas, belas, fortes, vivas, mesmo em face a própria morte.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Homens bons, cujo aceno de despedida foi breve, mas fulgurante,
Seja em verdes pastos ou escuros desertos, mantiveram a alma límpida
E o espírito indomável, bravo, belo, forte, vivo, mesmo em face a própria morte.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
E vós corajosos, selvagens, guerreiros, heróis, mesmo os imprudentes
Cuja mão rija se adianta ao pensamento, que seu derradeiro lamento
Seja bravo, belo, forte, vivo, mesmo em face a própria morte.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
Que vós moribundos, cujos olhos se enevoam perante a grave senhora,
Encontrem a consolação no espetáculo cósmico desta última hora
E sigam em frente, bravos, belos, fortes, vivos, mesmo em face
a própria morte.
And you, my father, there on that sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.
E tu meu pai, que para o mundo definha enquanto para mim se agiganta,
Ouve este poema, esta maldita bênção que nasce miúda, mas logo se levanta
Chamando-te para comigo, de mãos dadas, enfrentar o terror e a maravilha desta noite:
Sigamos em frente, bravos, belos, fortes, vivos, mesmo em face a própria morte.
[Poema original de Dylan Thomas, versão de Marcelo Sousa.]
Silêncio.
Houve uma ilha de silêncio no oceano da cidade. As marés vagavam intranquilas à nossa volta. A algazarra fazia hiato. Os gritos se estilhaçavam contra a muralha de calma que se levantou entre nós.
Lembro que tudo era gris. O mar, os prédios, a montanha, até as árvores e as pessoas pareciam cinzentas. Mas naquele instante sem nome, sem foto, sem dono, naquele instante o firmamento rasgou-se devagar, e do tecido roído brotou o azul. E era desesperadamente azul aquele pedaço do cosmos sobre nossas cabeças.
Nossos dedos se tocaram, daquele jeito que fazemos sem notar, formando uma corrente de carne e aço. Nossos ossos tremeram, mas nossos olhos não se turvaram, o mundo fez uma pausa de mais de mil compassos, como se entre sístole e diástole houvesse tempo para contar uma história inteira.
De repente, estávamos dançando. Ela sorria com olhos e boca, e seus cabelos negros davam inveja à noite, e sua pele branquinha desdenhava do dia. Éramos os últimos habitantes do planeta, e todas as palavras não ditas faziam inveja aos poetas.
Lembro que o mundo parou para ver a bailarina sambar aquele miudinho cheio de bossa. A curva bonita de suas ancas e os seios de romã brincando de esconde-esconde entre as flâmulas de seda, o vestido roçando a pele feito nuvem que faz carinho nos topetes das montanhas.
Silêncio.
Aquele silêncio tinha cor, perfume, e era tátil como as teclas de um piano. E convidava. Não era preciso saber qual, como, onde e quando. O convite era para um silêncio salpicado de melismas assombrosos, com espaços perspontados de gemidos de sôfrega alegria, dessas que a gente não sai contando por aí, com medo de gastar a lembrança.
Recordo, houve uma ilha de silêncio no oceano da cidade. Palco perfeito, sem holofotes. O dia foi ficando castanho, os pardais entre as palmeiras chamando o sol para dormir... Foi assim que acordei, numa dessas varandas perdidas numa lembrança talvez vivida, talvez inventada, talvez - o que é mais certo - simplesmente sonhada.
Acordei naquela varanda, o pêndulo da rede fazendo cócegas nos meus sonhos, o ar pulverizado de música, a silhueta de uma ninfa dedilhando no piano as melodias que eu ouvia muito antes de nascer.
As folhas caíam como dias passados. Eu lembro. Eu estava lá quando um azul imenso abriu uma cicatriz na pele morna do dia.
Uma ninfa tocou aquela canção de ninar a tarde inteira, e eu imaginei claves de sol brilhando no céu cinzento.
Uma ninfa. E uma canção de ninar.
Sempre que lembro aquele momento, posso jurar que enxerguei seus dedos cantando. Foi a primeira vez que a vi dedilhar o clavinote como quem faz festa com o próprio corpo, instigando o tempo a parar, sentar e ouvir.
Uma ninfa reinventou o silêncio.
E os acordes que ela tocava faziam cachinhos nas madeixas do vento.