Ask Google Guru:

domingo, 6 de julho de 2014

CORPO



[uma breve aventura pós-orgânica]


O corpo, esse tótem, tesouro e lixo.

Bicho alado, ao solo atado sem força.


Prezado, pesado, utensílio banal e maravilhoso.

Carrego-o no bolso, num fosso, num silêncio prolixo

em que o gozo é o martírio, e a dissonância dá sentido

a todo som.


Pra quê mostrar o homem pelado

se é na alma que ele está mais bem armado?


Por quê mostrar da mulher o peito, nádega e vulva

se é sua alma que nos afronta e nos cabe como luva?


Tenha calma, 

muita calma nesta hora.


As palmas se acabam,

O espanto logo vai-se embora.


Sobram células-espelho

mirando o infinito de joelhos.


E o resto

presta-se aos trâmites, à praxe,

ao àxis involuntário da tua psiquê.


A aventura transhumana

da máquina que sonhou ser gente

e acordou poeta, não finda, não cessa:

substituímos em pressa a letra orgânica

por sintaxes de plástico, vidro, nióbio, cobre,

desenrola os cabos de fibra óptica pelas entranhas,

chamando a carne, outrora divina, agora apenas um sonho,

descartado pelo caminho da irreversível singularidade.


Em algum lugar de um futuro nem tão distante

uma nova Eva entregará aos desavisados filhos de Adão

aquela bendita fruta, rubra como um útero entumescido,

suculenta e perfumada, a linda maçã de metal.


O corpo é banal.

É comezinho, pobrezinho.

Dono do mundo, nosso primo pobre,

nosso nobre salvador, redentor moribundo.


Meu corpo é meu mundo.

Mas todo mundo ainda que vasto mundo

cabe num grão de areia, barquinho de aventureiro

navegando no turbilhão de nossas veias.


Todo santo dia o corpo

se transmuta da água para o vinho.


Todo corpo é porto de partida

e fim de caminho.


Tanto zelo

com o que dorme entre os pêlos.


Tanto pudor

com o que só traz a dor.


Mas, pra quê, Senhor?


Há artistas pelados na praça

como quem traz tomates para vender.

A pele rubra e brilhante atrai que por ali passa

mas, aos poucos, seu viço sucumbe, murcha,

o corpo exposto já não é arte, não é novidade,

os dias de feira-livre já se foram longe.


No mercado negro

está ficando difícil encontrar cicatrizes.

Uma pinta, uma marca de nescença, então...

Ser humano, só humano, está pela hora da morte.


Ou nem tanto,

pois de outra sorte não nos deixaríamos partir

sem antes pagar o equipamento: o corpo mais deles que nosso,

os rolos de ligamentos, os cabos e tubos, o coração sobressalente,

as peças de reposição, os upgrades no sistema, o titânio dos ossos.


Não há saída.


Mas se um santo 

desabilitasse o firewall do Éden

poderiamos invadir para sempre 

esses latifúndios divinos.


As palmas se acabam,

O espanto logo vai-se embora.


Sobram células-espelho

mirando o infinito de joelhos.


O avesso do avesso

é o lado certo, ou

a sua negação.


Pedra é pão.

Só que não.


Em algum lugar 

de um futuro nem tão distante

uma nova Eva entregará aos desavisados filhos de Adão

aquela bendita fruta, rubra como um útero entumescido,

suculenta e perfumada, a linda maçã de metal.




terça-feira, 1 de julho de 2014

OS SONHADORES




Por baixo da pele

estamos todos sonhando.

Por cima dela

só de vez em quando.

SEXTANTE


Os caminhos só existem

para saciar o vício dos pés.

Barco e porto são iluminuras

gravadas no livro das marés.


Cedo ou tarde a gente descobre

que toda alma é um oceano,

E todo corpo,

um convés.



LUCIDEZ




A sombra

mesmo quando iluminada

é sombra ainda.


Quando há luz sobre ela

sua forma se esconde

mas não finda.


segunda-feira, 30 de junho de 2014

QUANDO O INFINITO CANTA MAIS ALTO




Haviam rios e riachos estragados por milhares de flores mortas

escorrendo pelos cachos pétreos das serras que mordem o horizonte.

Pássaros coloridos voavam direto do ontem pousando nos galhos do agora

e a sua algazarra, ecoando no vão das horas, acordava os velhos para a vida.


Os escribas afiam a pena entre as coxas magnânimas das suas feias amantes.

Os ricos param de contar moedas, os pobres param de contar suas mágoas,

os tímidos param de contar segredos, os mansos param de buscar sossego.

Macacos de espécies variadas, azulados, pretos, marrons, côr-de-fogo e bronze

apinhavam-se nas ventanelas dos baobás milenares para ver o mundo imenso ruir.


O orvalho acrescia pétalas de cristal nas costas verde-alaranjadas das salamandras

enquanto a gosma lenta da madrugada borbulhava serena e brutal nos pântanos:

a vitória-régia e o nenúfar soçobram nos charcos, o tempo é a baba dos sapos, 

o risco dourado que marca o caminho das lesmas, o visgo seboso das avantesmas.


O baile das ipupiaras na espuma das ondas frias, o canto das harpias nos penhascos,

os frascos de amarume derramados nos travesseiros das matronas de seios caídos,

o gemido lânguido de prazer e têso de dor dos moços deflorados nos conventos, 

a gargalhada poderosa (mas não ruidosa) das moças de sardas ruivas nas cidades.


A maldade das crianças, o sangue dos culpados, 

os heróis ignorados, o pão já muito amassado pelos sapatos dos bons,

os brioches sovados entre os dedos dos maus, as naus capitânias

desbravando as águas tranquilas dos paraísos tropicais, e o perfume 

das milhões de vulvas túrgidas das bananeiras incendiadas em pleno verão.


Meninos, conto porque sei e não vi. 

Digo porque já não me podem silenciar.

Escrevam na rocha e na carne, rabisquem nos ossos, no cerne 

dos vossos peitos esses versos para dizer em voz alta e fazer o infinito cantar. 


Este nosso imenso e ruidoso planeta, 

que se arrepia em vagalhões de gozo e pavor

ao mais tímido balido dos cervos na campina

canta alto, muito mais alto, ao nascer (ou morrer) de um poeta.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

MAS ONDE ENCONTRAR MARGARIDAS MAIS MORENAS E PALMEIRAS ASSIM INVENCÍVEIS




Naquela manhã em Vladivostok perdi mais do que tinha, 
e desde então segui adiante em vertiginosa carreira: 
descalço, leve, levíssimo das coisas deste mundo, 
mas com o peso de universos interiores 
sobre minhas costas marcadas.

Vi outonos coloridos rastejando sobre montes calvos.
Surpreendi verões irascíveis escalando a crista de ondas geladas.
Mas as primaveras e os invernos, trago-os dentro de mim.

As rosas de Salamanca, tímidas e murchas,
espalhadas por todos os canteiros que ladeiam a metrópole
ainda são infinitamente mais vermelhas que as daqui.

Nas coxas das negritas de Havana
enrolei o fumo de uma utopia perfumada
com Cravo da Índia, Alecrim de Lyon, Lima da Pérsia
e o mel de vulvas noviças molhadas pelo orvalho do Caribe.

Mas onde encontrar 
margaridas mais morenas
e palmeiras assim invencíveis?

Entre os carros pretos de Dublin
vi passar as bicicletas vermelhas mais bonitas
emolduradas pela crueza dos rastros de pólvora
sob estilhaços de vida e neve, de vida e neve,
de vida e neve.

As olivas gigantes da Grécia, 
na planície salpicada de verdes de todos os tons
azeitam o fim da tarde com seu perfume agridoce.

Os olhos azuis das loirinhas de Praga
refletem casarios velhos como o bem e o mal do mundo
sob telhados ungidos de prata, lápis-lazúli e ocre.

E o sexo perfumado de âmbar-gris
numa viela onde os gatos reinavam absolutos:
pretos, brancos, cor de mostarda, sal-e-pimenta,
todos devidamente pardos sobre os telhados de Turim.

Mas onde encontrar 
margaridas mais morenas
e palmeiras assim invencíveis?

No Zaire contei sementes coloridas
em cordões cheirando a primavera e suor
no colo nu de matronas de peitos murchos
e virgens com pele de seda e petróleo.

Ouvi o mestre do canto
chamar a alvorada sobre os casebres mouriscos
onde a meia-lua de pedra vigiava atenta e pesarosa
os mendigos invisíveis da bela Marrakesh.

Pisei descalço as tábuas de madeira rosada
do templo onde dezenove mil Budas sorriam displicentemente
e serenamente balbuciavam verdades há muito tempo ignoradas
que os monges de olhos riscados e pele de pergaminho liso em Kyoto
guardavam entre as sobrancelhas pretas desgrenhadas.

Nas festas do Soho conheci línguas de ácido
que me lamberam a alma com os carinhos mais vorazes
e sob as luzes que piscam velozes no céu de Manhattan
perdi meus primeiros anos de maturidade, como um menino.

Mas onde encontrar 
margaridas mais morenas
e palmeiras assim invencíveis?

Não planejo resistir a todos os vícios, 
nem enfrentar todos os demônios de cara limpa 
e mãos vazias.

Não conto os giros da terra.
Mas devia ter contado moedas e medos.
Sua falta hoje me condena, e eu sorrio.
Todo abismo merece um sorriso.

Os círculos de poesia no Leblon.
As rodas de samba em Madureira.
O peixe com molho de côco no Vietnam.
A aguardente cheirosa com larvas de cor fucsia
numa esquina de Tegucigalpa, debaixo da goiabeira.
A moça feia de Zurich, a boca vermelha, as coxas tectônicas,
a forma biônica dos seios pequenos sob a rubra sombra das macieiras.

Volto
sem perceber pertencimento.

- Em algum lugar no tempo
a minha terra não-prometida aguarda
esses meus ossos cansados de vagar. -

Nada lembrado pode ser mais cruel
que as memórias que inventamos.

[Mas onde encontrar 
margaridas mais morenas
e palmeiras assim invencíveis?]

segunda-feira, 23 de junho de 2014

ALVORADA


O cego-ancião Borromeu acordava todos os dias às quatro e quinze da manhã, fazia um café forte com seis colheres de leite e uma pitada de canela. Tateava os pergaminhos com os dedos como se tivesse olhos nas mãos, balbuciando as leis e os códigos, passeando pelas alegorias e epopéias, avançando e retrocedendo na história do mundo, na aventura dos homens sobre a terra. Em certo momento, como se um cuco interno o avisasse, Borromeu levantava, vestia o capote e seguia para cumprir sua rotina. Subia lentamente as escadarias da torre mais alta da cidade e se sentava frente à única janela que havia ali. Na verdade não era uma janela, mas uma abertura em forma de meia lua, por onde o cego-ancião gritava as primeiras preces do dia, exatamente ao nascer do sol, que ninguém sabe como ele percebia com exatidão, mas que jamais havia falhado. A prece durava exatos oito minutos e podia ser ouvida na cidade inteira, desde os palácios do governo até os becos escuros do subúrbio, desde as colinas verdejantes do leste com suas mansões de mármore até as baixadas fétidas onde as palafitas se equilibravam sobre as marés de sargaço. 

Borromeu subia a almádena com uma chama acesa sobre um pires branco. Deixava a vela sentar no chão e se acoxambrava na esteira ao lado, mãos nas coxas, o rosto recebendo a brisa e esperando a primeira luz de cada dia. Era um espetáculo belíssimo, que ninguém jamais presenciaria, quando a luz da primeira hora descia como uma poeira etérea, de um rosa-azulado que evoluía para um cinza-dourado sobre a pele de papiro cor de azeitona do mestre do canto.

Sabe-se que na madrugada do octogésimo oitavo ano de vida do cego-ancião, o café estava igualmente acre, as paredes igualmente frias, pegajosas de limo e silêncio, e a vela sebosa queimava igualmente, sem pressa. O cego mestre do canto subiu devagar, mas com passos certos e firmes, as escadas da velha torre. Lá no alto esperou a primeira réstia da estrela maior, já limpando a garganta para a prece lânguida e clara que tomaria a cidade, chamando a vida para desenrolar-se sobre todos os mortais. 

Mas, não naquele dia. 

Naquela manhã, quando a primeira luz banhou a face de Borromeu, o cego enxergou. As pregas de suas pálpebras, como sacos de estopa dourada, esticaram-se de terror. O cego viu o sol nascer. 

Desejou gritar, mas calou-se. Desejou olhar a cidade, mas fechou rapidamente os olhos, com força. Despejou uma única lágrima pelo canto do olho esquerdo, soprou a vela, pigarreou brevemente, e despejou a prece no ar vidrado da cidade. Aquela fora a única vez que o canto atrasou, ainda que ninguém tivesse notado. O canto-mestre da alvorada foi atrasado em exatos vinte e três segundos. 

Borromeu enxergou naquele dia. Depois lembrou-se de sua tarefa, seu ofício, seu lugar no mundo, e cantou. Ao fim do canto, sem esperar aplauso ou louvor, e sem ter a quem contar o milagre daquela manhã, desceu as escadas de olhos fechados, lentamente, mas com passos certos e firmes. 

O cego-ancião sorriu ao cabo da escadaria, de olhos fechados. Borromeu decidiu que era feliz, e nunca mais abriu os olhos.

RETRATO




A melancolia bonita do fosso negro desses olhos. 

O sorriso velado, a sombra de um sorriso de mel e mágoa.

A boca silente, que diz tanto. E o pranto já engolido, a seco.

O queixo moldado à faca. O corte exato da perfeita inexatidão.

O coração de papel na tempestade, pulsando revoluto.

A bruta resposta do teu grito, menor que quando te calas.

O tempo gasto com o que jamais foi possível.

A força incrível de todas as sutilezas, tudo o que nos falta.

O maralto, onde todas as vozes soçobram, naufragam.

O último gole, um trago, uma baforada, o teu arpejo.

O ensejo propício, mas não necessário. Tudo é lindo, e precário.

A legenda na foto, que não faz jus a todos os fatos.

O que não se diz e muito se entende, gravado no retrato.

A traição do corpo, mantendo ao espírito lealdade.

Tudo aconteceu, mas nem tudo é verdade.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

TODO CORPO É UMA GUERRA






Corpo

meu querido fardo

tens sido infiel companheiro 

já faz mais mais de trinta anos, 

e ainda não nos entendemos. 


Tuas curvas me iludem, 

teus maciços vão se esfarelando no vão das horas

como as cordilheiras que se desfazem em pó 

ao sabor do vento de qualquer monção.


Corpo

não me deixes ainda, pois estou ereto

tocando partes recém-descobertas 

do meu eu-poeta.


Sei que erramos o caminho

mas só por isso encontramos contento

(pedindo paz, pedindo guerra, pedindo nuvem, pedindo terra)

todo corpo foi feito tanto para o gozo quanto para o lamento.


Corpo

amado amigo e carrasco

tens o peso exato das minhas vontades

e a leveza paquidérmica de todas verdades.


Teus sinuosos engenhos

jamais foram menos pungentes que o restante

de vida que me sobra em cada sonho não sonhado:

és ao mesmo tempo porto e navio naufragado.


Corpo

que de moços e moças fartou-se, faltou-se

na doce ausência de quem está mas não é:

és trovão e orvalho, corpo é chuva - corre deitado

e cai de pé -


No turbilhão da vida

seu tempo medido em ânforas de carbono animal

desenhou destinos variados, desdenhou recados

dados por deuses tolos e demônios sem pecado.


Corpo

logo chegaremos numa esquina qualquer

onde quiçá a morte, ou quem sabe outra sorte 

nos colocará na gostosa presença da extinção 

disfarçada num beijo de mulher.


No fim de tudo

saberei recomeçar, aceitar o divino convite 

para não ser mais corpo, como faz a cigarra

que explode em mil cores (casulo-corpo-segredo)

para a incerta renovação do eu, mas não do ego.


[Todo corpo é uma guerra.

Só fora do corpo há sossego.]

 








sábado, 14 de junho de 2014

A SOLIDÃO DOS VENCEDORES




O pêlo dos ratos mortos era raspado com navalha, e queimado sobre uma lâmina de papel laminado. Aquelas cinzas, esfareladas entre os dedos dos meninos no escuro, tinham cheiro de morte, mas colocadas sobre a língua causavam o desconforto gostoso e angustiante do ópio. Alguns as cheiravam, o que aumentava o poder da convulsão. As pupilas dilatavam, pela boca dormente escorria a baba dos desvalidos, reis de terras distantes, onde apenas os moribundos poderiam pisar.
Raspávamos a cabeça dos fósforos não-deflagrados que encontrávamos no lixo ou roubávamos nos armazéns da cidade velha. Aquelas raspas eram o ouro vermelho do submundo. Uma pitada para cada copo de uísque, e tudo ficava melhor, a dor de cabeça mais forte, as pontas dos dedos sangrando por baixo das unhas e um peso de uma tonelada na nuca, por onde nasciam fios de prata indo direto aos céus.

As batatas doces esquecidas nas feiras e os talos de funcho eram guardados em latões de ferro. Eram antigas latas de querosene, que agora serviam para fazer o néctar do inferno. O líquido com cheiro forte, doce, enjoativo, vertido por um buraco no fundo do latão, era coado, depois fervido, o vapor capturado num pano de camisa, que era torcido após resfriado... Ah, vodka de batatas podres, quantos santos não foram convertidos por teu sabor de trovão e vulva, de ilusão e chuva?

Todos os dias nossas vassouras passeavam pelo teto das casas, pelos cantos entre as calhas, pelas esquinas dos móveis, por trás das penteadeiras dos patrões à procura das valiosas teias. Aquelas aranhas silenciosas, quase invisíveis, eram trabalhadoras incansáveis, graças a Deus. Suas teias, recolhidas com minúcia, valiam dois centavos por dia. Não gastávamos o dinheiro. Usávamos o níquel numa deliciosa sopa de teias, servida quentíssima, com um pouco de terra ou fezes secas de gato, para dar sabor. O comichão na boca descia até o estômago, e era possível sentir por onde o líquido passava em nosso corpo, causando tremores e febres, e saindo quase imediatamente pela uretra em chamas, a sensação deliciosa de gozo, a completude dos bastardos mais alegres do mundo.

De tempos em tempos, pegávamos uma pedra grande e martelávamos o mindinho do pé de quem perdesse alguma aposta. Não tanto por exigir o pagamento da mesma, mas porque o órgão gangrenado vertia líquidos preciosos, guardados para ocasiões especiais. Em dia de aniversário (ou de morte) bebíamos o suco dos dedinhos com a água do arroz lavado pela Srta. Piy, nossa benfeitora. Era nutritivo, refrescante, apesar de um visco renitente que durava dias grudado nas gengivas de todos.

Eram dias fabulosos, fantásticos, porque ninguém esperava nada além de um minuto após o outro, com o enorme talvez de um sol no dia seguinte. Olhávamos a aurora boreal através das frestas dos bueiros, e escondíamos nosso rosto com medo de ser a felicidade à nossa procura, talvez a esperança, quem sabe a fraqueza de imaginar outro presente, quem sabe a insensatez de pensar que haveria um futuro. As bocas banguelas sorriam, esperando que mais dentes caíssem. Os olhos secos miravam o chão, ignorando as promessas falsas do horizonte. Éramos os donos do mundo.

Alguns de nós sobrevivemos, escapamos, seguimos em frente, aprendemos a dormir em lençóis de seda, comer vitela, apertar no pescoço o nó da gravata, sorrir na foto.

Quão miseráveis são estes dias de opulência, meu Deus!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O IMPÉRIO DOS SENTIDOS


O dedo indicador 
toca levemente aquela porção 
entre a orelha e o cabelo
na cartilagem ondulada, tenra,
por onde escorre o som 
do ouvido ao cerebelo.

Deve-se fazer pressão,
mas sem força, e sobretudo 
sem pressa.

É preciso ser 
sorrateiro como a raposa
e carinhoso como a serpente.

Tua mão esquerda desliza silente 
e respeitosa, toca a cintura, e procura
a protuberância do osso na lateral da bacia.

Há muita técnica, muita ciência,
no que deve parecer poesia.

O tremor das mãos
sobre as ancas aflitas
como o rolar de placas tectônicas
nas profundezas da terra:
o amante perfeito 
mostra que faz mira
mas de propósito
erra.

Passa-se alguns séculos
dentro desses poucos segundos.
Não tenha pressa.

Pousa o polegar ali,
mas por pouco tempo.
Depois, acolha a nuca, firme
porém sem jamais parecer 
que seguras como quem agarra.
Existem outros tipos de nós
e seguramente outras amarras.

Não, não agarre. 
Mas teus olhos devem prender, 
perceba o fio de ouro que se estende 
entre as pupilas dos amantes que se vêem 
tão de perto que se perdem um dentro do outro.

Tocar é pouco,
muito pouco!

De repente,
displicentemente a mão direita
desce pela face, ladeando o rosto
e pinga o dedo anelar como uma gota de magma, 
o tato líquido caindo sobre o colo, escorrendo pelas costelas
e parando ali, sobre a flutuante, não mais baixo nem mais alto.

Há muita técnica, muita ciência,
no que deve parecer poesia.

Olha o lábio inferior.
Mira. Espia. Deixa que ela saiba
o quanto o teu olho já beijou-lhe a boca
nesta premonição do encontro inevitável
dos vossos lábios.

O beijo 
já vem acontecendo,
antes mesmo que os lábios 
se encontrem.

Passa-se alguns séculos
dentro desses poucos segundos.
Não tenha pressa.

Beija de leve.
Não peça. Faça,
mas como quem não tem certeza.

Escape, 
mas com toda leveza.

És uma sépia, 
o camaleão dos mares. 

Olha-a nos olhos.
Segura-lhe a mão,
quase deixando escapar. 

- impossível,
pois o laço tênue dos teus dedos 
não pode ser quebrado jamais -

E volta, 
és um polvo!

Tens mãos suficientes,
mas não demais.

Quantos carinhos cabem
num gesto que ainda nem foi feito?

Há muita técnica, muita ciência,
no que deve parecer poesia.

Sê cuidadoso
para que ela não desfaleça agora.

Respira com ela. 
Por ela.

Olha, mira, espia, 
escuta, ausculta.

Tens dois olhos e duzentos olhares,
e são todos dela, mas alguns
escapam pelas frestas
e ela os persegue:
- Pra onde vão esses olhos
que já eram tão meus?

Passa-se alguns séculos
dentro desses poucos segundos.
Não tenha pressa.

Assente este rosto em tuas mãos:
o queixo levemente inclinado 
recebe um beijo levíssimo, 
silencioso, meio de lado, 
insinuado.

O dedo anelar penteia a sobrancelha,
outro beijo, agora no olho, depois
naquela fenda entre o nariz e o lábio, 
descendo para a mordida voraz
mas jamais com força, antes
com uma delicadeza furiosa
no lábio superior.

Prossiga sempre
como quem vai parando.

Há tanta vontade 
e verdade no tato:
o contrato das vozes num semitom,
o som dos corpos se procurando,
as línguas indomadas se encontrando,
as coxas que colidem gentilmente
e de vez em quando um certo encaixe
uma fruição, a divina fricção 
que causa incêndios 
em tuas florestas...

Tudo isso caberá num aceno,
num átimo em que se diz bom dia,
ou numa palavra apenas, 
enviada como um abracadabra
dentro de um poema.

Aceite a fúria tranquila desta hora
e lembre-se de queimar todos os manuais
do amor (incluindo estas breves notas)
antes de amar de fato.

O amante perfeito
sabe tocar a pele
antes do corpo.

Sua mão firme e gentil chega
antes do pensamento,
num tempo que não passa, 
não pára, não se move
e também não cessa.

Passa-se alguns séculos
dentro desses poucos segundos:
não tenha pressa.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

NÃO TE ACOVARDES AO CAIR DA NOITE






DO NOT GO GENTLE INTO THAT GOOD NIGHT

NÃO TE ACOVARDES AO CAIR DA NOITE


Do not go gentle into that good night,

Old age should burn and rave at close of day;

Rage, rage against the dying of the light.


Não te acovardes ao cair da noite.

Que tu saibas envelhecer como o sol ao findar o dia:

Bravo, belo, forte, vivo, mesmo em face a própria morte.


Though wise men at their end know dark is right,

Because their words had forked no lightning they

Do not go gentle into that good night.


Sábios fizeram poemas lindos sobre este último açoite.

Suas palavras brilhantes são palavras apenas, mas ainda brilhantes:

Bravas, belas, fortes, vivas, mesmo em face a própria morte.


Good men, the last wave by, crying how bright

Their frail deeds might have danced in a green bay,

Rage, rage against the dying of the light.


Homens bons, cujo aceno de despedida foi breve, mas fulgurante,

Seja em verdes pastos ou escuros desertos, mantiveram a alma límpida

E o espírito indomável, bravo, belo, forte, vivo, mesmo em face a própria morte.


Wild men who caught and sang the sun in flight,

And learn, too late, they grieved it on its way,

Do not go gentle into that good night.


E vós corajosos, selvagens, guerreiros, heróis, mesmo os imprudentes

Cuja mão rija se adianta ao pensamento, que seu derradeiro lamento

Seja bravo, belo, forte, vivo, mesmo em face a própria morte.


Grave men, near death, who see with blinding sight

Blind eyes could blaze like meteors and be gay,

Rage, rage against the dying of the light.


Que vós moribundos, cujos olhos se enevoam perante a grave senhora,

Encontrem a consolação no espetáculo cósmico desta última hora

E sigam em frente, bravos, belos, fortes, vivos, mesmo em face 

a própria morte.


And you, my father, there on that sad height,

Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.

Do not go gentle into that good night.

Rage, rage against the dying of the light. 


E tu meu pai, que para o mundo definha enquanto para mim se agiganta,

Ouve este poema, esta maldita bênção que nasce miúda, mas logo se levanta

Chamando-te para comigo, de mãos dadas, enfrentar o terror e a maravilha desta noite:

Sigamos em frente, bravos, belos, fortes, vivos, mesmo em face a própria morte.



[Poema original de Dylan Thomas, versão de Marcelo Sousa.]



A GREVE GERAL





Naquela madrugada, Florêncio não foi trabalhar. Era outono, uma ventania mordia o cocoruto das campinas onde as rosas e os lírios, mastigados, choravam lindamente, orvalhados por aquela lua gigante que teimava em não ir embora. O homem na janela observou e chorou, sozinho. Não tinha mulher nem filhos, nem cão, nem gato, nem ratos havia em sua casa, ninguém sorria ou chorava por sua causa. Era florista, filho de florista, neto de não se sabe quem, porque os floristas jamais foram bons em cultivar árvores genealógicas. Florêncio, filho de Florisvaldo, era um trocadilho vivo e infame, um clichê feliz em sua limitada e florida vida. E naquele dia, não foi trabalhar. Mariano, pequeno fazendeiro, passou com a caminhonete na frente da casa de Florêncio. Iriam juntos para o Mercado Municipal, um vender flores, o outro, pão, leite e café. Mas o florista estava ainda em camisola, as mangas brancas esfarrapadas manchadas de amarelo, o tempo traçando bordados que a gente só percebe na morte, ou num dia desses de sorte, em que se decide olhar a vida e não fazer nada. 

Mariano chamou, chamou, e nada. Então desceu do velho chevrolet azul e foi ver o que acontecia. Pisou o caminho de pedrinhas lisas, ladeadas por mais flores, de tantas cores que pareciam potes de tinta derramados sobre a relva. Andou pouco até a casa, onde surpreendeu Florêncio bocejando na janela, o aspecto sonolento e contente, a caneca de folha de alumínio ainda vazia: no caminho da cozinha o florista havia parado pra olhar a campina e ali ficou.

- Ô de casa, Sêu Flor!
- Mariano, homem, venha chegando...
- Mas já cheguei.
- Então entre, vem olhar pela janela comigo.
- Mas entrar pra olhar pra fora, Sêu Flor?
- Pois sim, então fique. Tomou café?
- No mercado a gente toma, estamos atrasados, homem!
- Não vou.
- Hein?
- Não vou. Estou em greve.
- Greve?
- Pois é. Tenho o direito.
- Mas que idéia é essa? Vendedor de flor não tem greve!
- Tem sim! E eu sou florista. Planto, cuido, faço os ramalhetes, e vendo.
- Florista não faz greve.
- Por quê não?
- Porque não.
- Vou reclamar no sindicato.
- Não tem sindicato.
- Mas, e os meus direitos, o meu salário, as minhas férias?
- Tens o direito de passar a flor a quem gostar de flor.
- Isso, e o quê mais?
- E vais receber o quanto quiser cobrar, se tiver alguém pra pagar.
- É, e tem os pechincheiros engravatados dos escritórios, e as moças bonitas, e os jovens namorados, e as velhinhas...
- O quê tem?
- Cada um paga um preço, uns não pagam nada, outros pagam quando dá.
- Mas aí é um problema seu, meu amigo.
- E tem as estações em que as flores estão arredias, não crescem direito, exigem mais água, até música, querem que eu toque serenata a noite inteira, e acordam bonitas, mas eu fico um farrapo.
- É a vida. Eu com as vaquinhas sou meio assim também. E tem dia que não querem me dar uma gotinha de leite.
- Então façamos greve!
- Contra quem, o quê?
- Tem que ser do contra?
- Não tem?
- Não sei. Acho que não.
- Vamos tomar um cafézinho?
- Só se for com leite.
- Dia bonito, não é?
- Belíssimo!
- Vamos pra janela.

E sentaram os dois perto da janela, á beira de campos floridos de todas as cores. Agora tinham café com leite, pão quentinho, e flores por todos os lados. Estava declarada a greve dos floristas e dos fazendeiros daquela cidadezinha. Os moradores logo perceberam algo de errado. Não tinha pão e leite na padaria. O cafézinho do bar era velho, da véspera. As casas dos ricos e dos pobres tinham flores murchando, que não foram substituídas. No terceiro dia o delegado foi à fazenda, preocupado, buscar Sêu Mariano, que não estava lá. No quinto dia os três policiais da cidade, mais um bombeiro e o delegado, procuravam o fazendeiro. No sexto dia uma moça notificou a falta do florista. Seu namorado chegara pra pedir a sua mão, conforme ensaiaram, ele de terno branco (o mesmo que seu pai usou duas décadas antes) ajoelhando perante o sogro, bigode grosso e preto, pintado dois dias antes, já sabendo da surpresa... Mas sem flor! Sem flor! Um disparate, uma falta de consideração! Ou seja, não teve noivado. Não teve beijinhos e mãe chorosa. E quase teve briga com cunhados de calças curtas e pavio menor ainda. Deu polícia! E por isso lembraram do florista.

- Ô de casa! Sêu Flor!?
- Carneiro, homem, venha chegando!
- Bom dia! Está doente?
- Não.
- Tem faltado à banca...
- Estou em greve. Não vai ter flor.
- Greve?

Mariano chega à janela e faz côro:

- Greve, Sêu Delegado! Estamos em greve!
- Homem de Deus, estás vivo!?
- Estou aqui com meu amigo...
- E estão os dois em greve?
- Isso.
- Mas que disparate. Vocês não podem...
- Podemos! 
- Mas contra quem?
- E tem que ser contra alguém?
- Não, mas, vocês vão reclamar do quê? Com quem?
- E se a gente não reclamar?
- Mas não é greve?
- É.
- Não estou entendendo.
- Entre, Sêu Carneiro, digo, Sêu Delegado. Tome um café...

E foi assim que o delegado, depois os três praças e o bombeiro, foram entrando, cada um ganhando uma caneca de folha de alumínio cheia de café com leite, e uma rosa (cada uma de uma cor) na lapela. E sentaram pra conversar, mas a verdade é que não falavam nada, apenas ficaram ali sorrindo, aproveitando o café e as flores.

A cidade estava estranha. As pessoas notavam um ar de desconfiança, uns ventos soturnos de descrença. Os turistas deixaram de ir pra lá, achando aquela cidade sinistra demais. Algo estranho estava acontecendo, e ninguém sabia o que era. Aos poucos, as pessoas iam desaparecendo: no sétimo dia o padre sumiu, junto com a moça que vende chocolates, o fazedor de pipas, o tocador de sanfona e o chinês da pastelaria. Aos dez dias já tinham sumido os mendigos, os vendedores de milho pra pombo, a velhinha do quebra-queixo, o garoto que engraxa sapatos na esquina da prefeitura, o lanterninha do cinema...

No décimo dia o prefeito decretou estado de calamidade pública. As pessoas andavam tristes, a cidade não produzia, o noticiário culpava as autoridades. A notícia da cidade que definhava ganhou as manchetes estaduais, depois as nacionais. O prefeito percorria a cidade e o campo, mas não encontrava motivo. Até que um dia, passando nas campinas floridas do Sêu Florisvaldo, viu pessoas sentadas no quintal, umas na varanda, tantas e tantas entrando e saindo da casa, uma cara boba, sonolenta, parecia um semi-sorriso sarcástico, meio lunático, uma cara de santo de igreja, mas sem martírio.

- Ô de casa! Sêu Flor!?
- Ô seu Praxedes, venha chegando!
- Mas já cheguei!
- Então entre e tome um café!
- Venho como prefeito da cidade.
- Pois tome aqui a sua caneca, seu prefeito.
- Mas o quê está acontecendo por aqui?
- Estamos em greve.
- Greve? Sêu Flor! 

Daí chega o padre com a caneca quentinha nas duas mãos, como se entregasse a hóstia ao prefeito. Aquela fumacinha gostosa perto do rosto do Praxedes era irresistível, e quando a garota dos chocolates chegou com aquela rosa vermelha, o coração do prefeito virou manteiga...

- Aliás, alguém tem um pãozinho aí?
- Sêu Praxedes, tó!
- Obrigado, Sêu Mariano.

O florista, que já nem conseguia entrar na própria casa, passou os dias no alto da campina. A vida passava devagar sobre aqueles montes floridos. A cidade, cada vez mais vazia, preocupava a nação. Três meses depois, um destacamento do exército passou por lá, e como era de se esperar, os milicos chegaram com suas patentes. Tenentes jovens com botas lustradas pediam explicações. Confusos, chegaram os mais graduados, com tanques e fuzis. 

Um general sentou pra conversar com o Florisvaldo. 
Nunca mais voltou.

Nesse ponto, até mesmo quem contava a história desapareceu na multidão, a caneca de folha na mão, uma flor roxa na lapela. Mas dizem que trezentos dias depois do início da greve do Sêu Flor, o presidente do país chegou naquelas campinas com uma tropa de ajuda internacional, líderes do mundo, cientistas e políticos seguiram pra lá também.

- Ô de casa! Sêu Flor?
- Ô de fora, venha chegando...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

SUBTERRÂNEO



Não serei o poeta-espetáculo.
Não trarei lantejoulas bordadas na alma. 
Tenho em mim a necessidade do silêncio.
As explosões subterrâneas. A palavra-magma. 
Dos abismos. Das fossas abissais.
Da rocha líquida dos vulcões.
Dos minutos contados para trás.

Não serei o poeta-picadeiro.
Não trarei um riso nervoso ensaiado para deleite da plateia.
Tenho a voz mansa dos que se acostumaram ao grito interrompido. 
As expressões vociferantes dos que comedidamente perdem a calma. 
Das cismas. Dos sismos. Da concha do batismo. 
Das piras sacerdotais. Da sentença derretida no céu da boca.
E nada mais.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

EQUAÇÃO






Papai chegou de visita em nossa ilha, como que tem agenda de ir e voltar, mas seus olhos queriam ficar.

Foi recebido no cais por mãos carinhosas, firmes, e vontades despidas de cuidados plásticos: apenas os gestos despretensiosos de quem ama, sem nota promissória, sem cálculo para o futuro ou mesuras para outras histórias.

Viu um lar, marido e mulher, amor e dor. E o gato, na cama.

Percebeu as mazelas, viu as flores, o jardim. Agradou-se ao sentar no lounge aberto para um azul insano. Correu olhos de menino por todos os lados, nossa biblioteca, o computador, o quadrado japonês - no chão, deck de madeira e almofadas - com o tabuleiro de xadrêz, e o piano ao lado.

Paredes brancas. O calor. O azul, o azul, o azul. As araras, o bem-te-vi, o martim-pescador, o tucano, os marimbondos, as borboletas, morcegos e muriçocas. A montanha chamando monções de um verão indulgente. Inteligente. A voz muída das gentes, pescadores que passam. Pra onde? Nem eles sabem.

Papai provou carpaccio conosco, pela primeira vez em sua vida. E provou do nosso vinho, degustou a doçura dos olhos do gatinho que, da cama, cumprimentou a nobreza daquele avô que trazia sobre a carapinha negra a fuligem cinza e branca de tempos imemoriais.

Papai sentou com Thamar naquela tarde iluminada (havia uma chama acolhedora nos olhares) e conversou a prosa miúda dos que vem lá das Gerais, aquele jeito de trazer lonjuras na fala, aquele vagar cavalheiresco que tapa mais do que descobre, enquanto, no andar de baixo, eu cozinhava. E ouvia. Ouvia. E como era bom ouvir.

Papai voltou a ser papai, passou a tarde despindo-se de ser pai, tornando-se só homem: o que é ser mais pai que tudo neste mundo.

Foi o homem que eu precisava, na hora propícia, no tempo certo, quando eu mesmo haveria de ser homem também.

Papai viu que nossas sementes, secas, ainda poderiam brotar.

Não deu conselho, não ensinou, não deixou ordem nem pedido.

Deu-nos a bênção. Despediu-se.

De mãos dadas comigo (um hiato de décadas ditongou naquele momento) foi embora, e naquela hora, o menino era maior que o homem, mas o mito do homem, o pai eterno, esse ficou, fixado, cravado no sílex, no quartzo afiado dessas retinas que ditam este ensaio de poema.

A visita de papai, hoje, solucionou o mais complexo de todos os nossos teoremas.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O QUE EU QUERO







O que eu quero
Não tem tamanho.
Não cabe na mala,
Tampouco no sonho.

O que eu quero
Não se paga com moeda.
Tem a consistência gostosa
Do cetim, palha, pêlo e pedra.

Quero o que é bom 
para o filósofo, para o burocrata, 
para o velho e o rapaz.

Mas se, qualquer dia sesses, 
um gaiato der nome e sobrenome 
a isso que eu quero,

Danou-se:
Morreu, perdeu a graça, 
e já não vou desejá-lo nunca mais.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

OSSOS DE BORBOLETA






Era pouco. 
Muito pouco.
Quase nada.
E só por isso,
Deu e sobrou.

[Não. Isso não é poesia.
Isso é vida, apelido do tempo.]

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

APOGIATURA



 


Silêncio. 


Houve uma ilha de silêncio no oceano da cidade. As marés vagavam intranquilas à nossa volta. A algazarra fazia hiato. Os gritos se estilhaçavam contra a muralha de calma que se levantou entre nós.


Lembro que tudo era gris. O mar, os prédios, a montanha, até as árvores e as pessoas pareciam cinzentas. Mas naquele instante sem nome, sem foto, sem dono, naquele instante o firmamento rasgou-se devagar, e do tecido roído brotou o azul. E era desesperadamente azul aquele pedaço do cosmos sobre nossas cabeças.


Nossos dedos se tocaram, daquele jeito que fazemos sem notar, formando uma corrente de carne e aço. Nossos ossos tremeram, mas nossos olhos não se turvaram, o mundo fez uma pausa de mais de mil compassos, como se entre sístole e diástole houvesse tempo para contar uma história inteira.


De repente, estávamos dançando. Ela sorria com olhos e boca, e seus cabelos negros davam inveja à noite, e sua pele branquinha desdenhava do dia. Éramos os últimos habitantes do planeta, e todas as palavras não ditas faziam inveja aos poetas.


Lembro que o mundo parou para ver a bailarina sambar aquele miudinho cheio de bossa. A curva bonita de suas ancas e os seios de romã brincando de esconde-esconde entre as flâmulas de seda, o vestido roçando a pele feito nuvem que faz carinho nos topetes das montanhas.


Silêncio.


Aquele silêncio tinha cor, perfume, e era tátil como as teclas de um piano. E convidava. Não era preciso saber qual, como, onde e quando. O convite era para um silêncio salpicado de melismas assombrosos, com espaços perspontados de gemidos de sôfrega alegria, dessas que a gente não sai contando por aí, com medo de gastar a lembrança.


Recordo, houve uma ilha de silêncio no oceano da cidade. Palco perfeito, sem holofotes. O dia foi ficando castanho, os pardais entre as palmeiras chamando o sol para dormir... Foi assim que acordei, numa dessas varandas perdidas numa lembrança talvez vivida, talvez inventada, talvez - o que é mais certo - simplesmente sonhada.


Acordei naquela varanda, o pêndulo da rede fazendo cócegas nos meus sonhos, o ar pulverizado de música, a silhueta de uma ninfa dedilhando no piano as melodias que eu ouvia muito antes de nascer.


Era outono. É sempre outono em meus sonhos. 


As folhas caíam como dias passados. Eu lembro. Eu estava lá quando um azul imenso abriu uma cicatriz na pele morna do dia.


Uma ninfa tocou aquela canção de ninar a tarde inteira, e eu imaginei claves de sol brilhando no céu cinzento.


Uma ninfa. E uma canção de ninar.


Sempre que lembro aquele momento, posso jurar que enxerguei seus dedos cantando. Foi a primeira vez que a vi dedilhar o clavinote como quem faz festa com o próprio corpo, instigando o tempo a parar, sentar e ouvir. 


Uma ninfa reinventou o silêncio. 


E os acordes que ela tocava faziam cachinhos nas madeixas do vento.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

SÓ DÓI QUANDO EU SORRIO





Há dias em que me lembro que existir dói. E dói muito - na maioria das vezes - ou fica naquela dorzinha chata, persistente.

Então percebo que todos os dias são assim. E sorrio por isso: algumas vezes o riso nervoso de quem não sabe ou não tem outra coisa a fazer; outras vezes o sorriso tranquilo e gostoso de quem aceita que enquanto estiver doendo, estamos existindo. E sei que existir não significa viver, não completamente, mas não há vida sem existência, por isso existir é um ato de resistência. 

Existo, logo, viverei. O que está, cedo ou tarde, será. Eis que a dialética de Shakespeare me assalta com seu "ser ou não ser" tão mastigado, porém nunca esvaziado. O chiclete do bardo continua doce e colorido, como um enigma entre os dentes de um menino-deus que se percebe gigante, enorme como a projeção das sombras que sua figura lança nas paredes azuis do Cosmo.

Há dias em que viver simplesmente dói. Nos outros, dói muito. Em todos esses dias, ao olhar meu rosto fisgado pela promessa de finitude refletida em cada átomo do meu corpo, tento sorrir. Tento contentar-me, porque ser contente é fundamental. Ser feliz é outra coisa, estar alegre também. Mas o contentamento, por princípio, é o fundamento de tudo o que nos anima, o que redunda, pois o alimento da alma é o ânimo, alento, seja pela brisa que acaricia ou pelo vento que fustiga.

Por isso, nesses dias em que tudo dói, tento sinceramente sorrir. E sorrindo sinto doer mais ainda. E quanto mais sinto mais me contento, e esse contentamento me alegra: estou vivo! Porque o fim da dor é o fim da vida. E toda alegria tem a obrigação ontológica - epistemológica - de ser dolorida.