Ask Google Guru:

sábado, 19 de julho de 2014

PARA TODOS


Para uns, pedra e tijolo.
Para outros, palavra e nuvem.

Para os espertos, a multidão.
Para os sábios, a solidão.

Para as esposas ricas 
e jovens, que enviúvem.

Para o aniversariante, 
paz e mil estrelas 
para assoprar
no bolo.

Para a superfície, 
o poder.
Para as profundezas, 
poder também.

Para o que espera, 
um trem.
Para as quimeras, 
o que vem mas não
vem.

Para todos,
quem?
Para qualquer um,
ninguém.

Para o sonhador, o bem-
querer, e o viver para sempre 
sem medo.

Para o trovador, quem
quiser ouvir, aplaudir, 
jogar moeda.

Para os sinos, 
um dobrado.
Para os meninos, 
o recado.

Para o sucesso,
aplauso.
Para o tropeço,
também.

Para a rima
o descompasso.
Para a canção
a dissonância.

Para as quiálteras, dedos 
correndo sobre o marfim
e os olhos no horizonte 
de uma partitura
que não tem fim.

Para os de baixo, faço
um poema-exaltação.
Para os de cima
talvez eu peça perdão.

Para todo sim
um não.

Para mim, o céu
ou melhor, um pedaço 
de chão.

Para os pequenos, o futuro.
Para os grandes demais, 
os muros.

Para a república, opinião.
Para a vontade, a questão.

Para as vírgulas,
interrogação.
Para os pontos, 
continuação.

Para toda a vida
as pedras no caminho.
Para as estradas mais longas,
não estar sempre sozinho.

Par quem ama para sempre,
não amar todos os dias.
Para os cientistas,
poesia.

Para todos, jamais
apenas o que merecerem.
Para o mundo, 
o que os olhos não virem.

Para quem vem,
os devires.
Para quem tem,
os quereres.

Para os vãos,
os deveres.
Para os que nada podem,
os poderes.

Para a superfície,
os vícios.

Para os dias difíceis,
pipoca doce, refrigerante
e fogos de artifício.

Para poucos, 
o que cada um valer.
Para ninguém, 
o que se escolher.


A questão é
(e não é ) 
simplesmente ser

ou não ser.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

ANTES A ENXADA




Antes o martelo,

talvez a foice,

decerto uma espada,

creio ainda

melhor a enxada

que a flauta.


Na luta

que minha voz mansa

seja a mais forte

ainda que não

a mais alta.


[Antes a enxada

que a flauta...]

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A OUTRA MARGEM



Quantas margens tem um rio sem foz, 

cujas águas apenas imaginadas 

rugem quase sem voz? 


Quantas margens tem um rio 

que corre lentamente em vão 

sobre um esteio sem chão?


Quantas margens subsistem

sob o karma de múltiplas e múltiplas existências

gastas numa alegria melancólica e num gozar tão triste?


Quantas margens tem 

este curso d'água evaporada,

como mágoa que dói, e não mais existe?


Quantas margens tem

o córrego rubro que segue em artéria ignorada

se não houver amor, dor, paixão, ilusão ou nada?


[Água que não sacia, nem afoga,

não vale pra nada.]

UMA CANÇÃO DE NINAR PRA ME ACORDAR



Vivo num mundo onde posso e sobretudo devo me reinventar a cada minuto, e isso é questão de sobrevivência. Sobretudo sobrevivência, com toda ternura e brutalidade que isso envolve. 


Falta pão, terás champanhe. Sorria, não se acanhe.


Sem 'mimimi', porque o braço do mundo é forte, e só por isso o meu deve ser mais forte ainda, para empunhar a espada e a caneta com forças diferentes, às vezes antagônicas, às vezes complementares, sempre com sabedoria, algumas vezes com a gota necessária de cólera e loucura, simplesmente. 


Minha sanidade é posta em segundo plano quando meu (nosso) amor e minha (nossa) arte estão em jogo. Meu (nosso) modo de vida depende de coisas que estão além da compreensão de muita gente, mas são os poucos, os pouquíssimos que restam, que dão sentido a este fio tênue que me segura, lindo e terrível, atado ao pêndulo da existência.


É possível que tudo isso acabe como uma vertigem, como o bulbo incandescente de uma lâmpada que se parte e escurece para sempre, como é certo que o sol, essa estrela distante, vai se apagar algum dia, descendo do seu trono resplandescente, jogando a Via Láctea numa nova idade de trevas, onde as almas cessarão de brilhar, como estrelas do mar sem o oceano que as nutria.


Quem sabe?


Estou tão pleno de interrogações, que em nenhum espelho me reconheço. Nessa noite longa e bonita qualquer abismo me servirá de berço.

O CETRO CAÍDO



O rei e eu

do alto da torre vimos

centenas de milhares de espelhos partidos

mas de longe não percebemos que apenas um

apenas um reluzia, apenas um existia, apenas um 

espelho partido em centenas de milhares 

de estrelas prateadas

que com suas pontas afiadas 

machucavam o olhar

dos cegos do castelo, 

que choravam de alegria

de alegria, de alegria, 

de uma desabalada 

alegria.


O breu

nos olhos do rei

apenas os cegos do castelo

percebiam, sabiam, viam 

no céu, no véu rasgado, no meu

gesto de menino velho, o teu

filho, porto, ilha, semente e raiz, feliz

resumido em centenas de milhares de olhares

vazados por um espelho partido em estrelas

cadentes, cometas, gametas, suspiros

no giro do cetro caído e no clamor singelo

do cristal quebrado, que na noite mais bela

anuncia: está morto, está posto, está dado

o toque do clarim, reina em mim, enfim,

o herói que jamais fostes, filho, pai, posto

no alto de uma torre de marfim

para a alegria dos olhos vazados

dos cegos que hoje choram

de alegria, de alegria, 

de uma desabalada 

alegria.


sexta-feira, 11 de julho de 2014

A CERIMÔNIA DO CHÁ PRETO





- Não temos xícaras bonitas para todos, vamos variar, tomem aqui, o que interessa é o conteúdo.


- Mas as xicaras mais bonitas deveriam estar guardadas, nós estávamos sendo esperados, não é?


- Até mesmo os anunciados trazem consigo alguma surpresa.


- Que surpresa?


- O chá. Beba.


- Srta. Pritcher, tem alguma coisa errada com o seu chá.


- Não, pequero Yuri, o chá está como deve ser.


- Mas é este o famoso Chá Preto dos Cárpatos?


- Isso. Tome enquanto está quente.


- Srta. Pritcher, este chá é muito perfumado, mas tem um perfume estranho. O líquido escuro e envolvente parecia me acolher, mas queimou-me os lábios. Depois desceu bem gostoso, levou fogo às minhas entranhas, senti-me revigorado, animado... Mas no fim, acho que não estou suportando o seu fim. Que final amargo insuportável! Preciso de mais, e mais, preciso continuar bebendo pra evitar o triste fim que virá, digo, a amargura do último gole... Traga mais chá, por favor!


- Pequeno Yuri, agora chega! Isto que você está provando é a vida, e o final amargo é inevitável. Aproveite, portanto, o caminho, a aventura. O bom da vida (o melhor da cerimônia do chá) é o por enquanto!

domingo, 6 de julho de 2014

CORPO



[uma breve aventura pós-orgânica]


O corpo, esse tótem, tesouro e lixo.

Bicho alado, ao solo atado sem força.


Prezado, pesado, utensílio banal e maravilhoso.

Carrego-o no bolso, num fosso, num silêncio prolixo

em que o gozo é o martírio, e a dissonância dá sentido

a todo som.


Pra quê mostrar o homem pelado

se é na alma que ele está mais bem armado?


Por quê mostrar da mulher o peito, nádega e vulva

se é sua alma que nos afronta e nos cabe como luva?


Tenha calma, 

muita calma nesta hora.


As palmas se acabam,

O espanto logo vai-se embora.


Sobram células-espelho

mirando o infinito de joelhos.


E o resto

presta-se aos trâmites, à praxe,

ao àxis involuntário da tua psiquê.


A aventura transhumana

da máquina que sonhou ser gente

e acordou poeta, não finda, não cessa:

substituímos em pressa a letra orgânica

por sintaxes de plástico, vidro, nióbio, cobre,

desenrola os cabos de fibra óptica pelas entranhas,

chamando a carne, outrora divina, agora apenas um sonho,

descartado pelo caminho da irreversível singularidade.


Em algum lugar de um futuro nem tão distante

uma nova Eva entregará aos desavisados filhos de Adão

aquela bendita fruta, rubra como um útero entumescido,

suculenta e perfumada, a linda maçã de metal.


O corpo é banal.

É comezinho, pobrezinho.

Dono do mundo, nosso primo pobre,

nosso nobre salvador, redentor moribundo.


Meu corpo é meu mundo.

Mas todo mundo ainda que vasto mundo

cabe num grão de areia, barquinho de aventureiro

navegando no turbilhão de nossas veias.


Todo santo dia o corpo

se transmuta da água para o vinho.


Todo corpo é porto de partida

e fim de caminho.


Tanto zelo

com o que dorme entre os pêlos.


Tanto pudor

com o que só traz a dor.


Mas, pra quê, Senhor?


Há artistas pelados na praça

como quem traz tomates para vender.

A pele rubra e brilhante atrai que por ali passa

mas, aos poucos, seu viço sucumbe, murcha,

o corpo exposto já não é arte, não é novidade,

os dias de feira-livre já se foram longe.


No mercado negro

está ficando difícil encontrar cicatrizes.

Uma pinta, uma marca de nescença, então...

Ser humano, só humano, está pela hora da morte.


Ou nem tanto,

pois de outra sorte não nos deixaríamos partir

sem antes pagar o equipamento: o corpo mais deles que nosso,

os rolos de ligamentos, os cabos e tubos, o coração sobressalente,

as peças de reposição, os upgrades no sistema, o titânio dos ossos.


Não há saída.


Mas se um santo 

desabilitasse o firewall do Éden

poderiamos invadir para sempre 

esses latifúndios divinos.


As palmas se acabam,

O espanto logo vai-se embora.


Sobram células-espelho

mirando o infinito de joelhos.


O avesso do avesso

é o lado certo, ou

a sua negação.


Pedra é pão.

Só que não.


Em algum lugar 

de um futuro nem tão distante

uma nova Eva entregará aos desavisados filhos de Adão

aquela bendita fruta, rubra como um útero entumescido,

suculenta e perfumada, a linda maçã de metal.




terça-feira, 1 de julho de 2014

OS SONHADORES




Por baixo da pele

estamos todos sonhando.

Por cima dela

só de vez em quando.

SEXTANTE


Os caminhos só existem

para saciar o vício dos pés.

Barco e porto são iluminuras

gravadas no livro das marés.


Cedo ou tarde a gente descobre

que toda alma é um oceano,

E todo corpo,

um convés.



LUCIDEZ




A sombra

mesmo quando iluminada

é sombra ainda.


Quando há luz sobre ela

sua forma se esconde

mas não finda.


segunda-feira, 30 de junho de 2014

QUANDO O INFINITO CANTA MAIS ALTO




Haviam rios e riachos estragados por milhares de flores mortas

escorrendo pelos cachos pétreos das serras que mordem o horizonte.

Pássaros coloridos voavam direto do ontem pousando nos galhos do agora

e a sua algazarra, ecoando no vão das horas, acordava os velhos para a vida.


Os escribas afiam a pena entre as coxas magnânimas das suas feias amantes.

Os ricos param de contar moedas, os pobres param de contar suas mágoas,

os tímidos param de contar segredos, os mansos param de buscar sossego.

Macacos de espécies variadas, azulados, pretos, marrons, côr-de-fogo e bronze

apinhavam-se nas ventanelas dos baobás milenares para ver o mundo imenso ruir.


O orvalho acrescia pétalas de cristal nas costas verde-alaranjadas das salamandras

enquanto a gosma lenta da madrugada borbulhava serena e brutal nos pântanos:

a vitória-régia e o nenúfar soçobram nos charcos, o tempo é a baba dos sapos, 

o risco dourado que marca o caminho das lesmas, o visgo seboso das avantesmas.


O baile das ipupiaras na espuma das ondas frias, o canto das harpias nos penhascos,

os frascos de amarume derramados nos travesseiros das matronas de seios caídos,

o gemido lânguido de prazer e têso de dor dos moços deflorados nos conventos, 

a gargalhada poderosa (mas não ruidosa) das moças de sardas ruivas nas cidades.


A maldade das crianças, o sangue dos culpados, 

os heróis ignorados, o pão já muito amassado pelos sapatos dos bons,

os brioches sovados entre os dedos dos maus, as naus capitânias

desbravando as águas tranquilas dos paraísos tropicais, e o perfume 

das milhões de vulvas túrgidas das bananeiras incendiadas em pleno verão.


Meninos, conto porque sei e não vi. 

Digo porque já não me podem silenciar.

Escrevam na rocha e na carne, rabisquem nos ossos, no cerne 

dos vossos peitos esses versos para dizer em voz alta e fazer o infinito cantar. 


Este nosso imenso e ruidoso planeta, 

que se arrepia em vagalhões de gozo e pavor

ao mais tímido balido dos cervos na campina

canta alto, muito mais alto, ao nascer (ou morrer) de um poeta.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

MAS ONDE ENCONTRAR MARGARIDAS MAIS MORENAS E PALMEIRAS ASSIM INVENCÍVEIS




Naquela manhã em Vladivostok perdi mais do que tinha, 
e desde então segui adiante em vertiginosa carreira: 
descalço, leve, levíssimo das coisas deste mundo, 
mas com o peso de universos interiores 
sobre minhas costas marcadas.

Vi outonos coloridos rastejando sobre montes calvos.
Surpreendi verões irascíveis escalando a crista de ondas geladas.
Mas as primaveras e os invernos, trago-os dentro de mim.

As rosas de Salamanca, tímidas e murchas,
espalhadas por todos os canteiros que ladeiam a metrópole
ainda são infinitamente mais vermelhas que as daqui.

Nas coxas das negritas de Havana
enrolei o fumo de uma utopia perfumada
com Cravo da Índia, Alecrim de Lyon, Lima da Pérsia
e o mel de vulvas noviças molhadas pelo orvalho do Caribe.

Mas onde encontrar 
margaridas mais morenas
e palmeiras assim invencíveis?

Entre os carros pretos de Dublin
vi passar as bicicletas vermelhas mais bonitas
emolduradas pela crueza dos rastros de pólvora
sob estilhaços de vida e neve, de vida e neve,
de vida e neve.

As olivas gigantes da Grécia, 
na planície salpicada de verdes de todos os tons
azeitam o fim da tarde com seu perfume agridoce.

Os olhos azuis das loirinhas de Praga
refletem casarios velhos como o bem e o mal do mundo
sob telhados ungidos de prata, lápis-lazúli e ocre.

E o sexo perfumado de âmbar-gris
numa viela onde os gatos reinavam absolutos:
pretos, brancos, cor de mostarda, sal-e-pimenta,
todos devidamente pardos sobre os telhados de Turim.

Mas onde encontrar 
margaridas mais morenas
e palmeiras assim invencíveis?

No Zaire contei sementes coloridas
em cordões cheirando a primavera e suor
no colo nu de matronas de peitos murchos
e virgens com pele de seda e petróleo.

Ouvi o mestre do canto
chamar a alvorada sobre os casebres mouriscos
onde a meia-lua de pedra vigiava atenta e pesarosa
os mendigos invisíveis da bela Marrakesh.

Pisei descalço as tábuas de madeira rosada
do templo onde dezenove mil Budas sorriam displicentemente
e serenamente balbuciavam verdades há muito tempo ignoradas
que os monges de olhos riscados e pele de pergaminho liso em Kyoto
guardavam entre as sobrancelhas pretas desgrenhadas.

Nas festas do Soho conheci línguas de ácido
que me lamberam a alma com os carinhos mais vorazes
e sob as luzes que piscam velozes no céu de Manhattan
perdi meus primeiros anos de maturidade, como um menino.

Mas onde encontrar 
margaridas mais morenas
e palmeiras assim invencíveis?

Não planejo resistir a todos os vícios, 
nem enfrentar todos os demônios de cara limpa 
e mãos vazias.

Não conto os giros da terra.
Mas devia ter contado moedas e medos.
Sua falta hoje me condena, e eu sorrio.
Todo abismo merece um sorriso.

Os círculos de poesia no Leblon.
As rodas de samba em Madureira.
O peixe com molho de côco no Vietnam.
A aguardente cheirosa com larvas de cor fucsia
numa esquina de Tegucigalpa, debaixo da goiabeira.
A moça feia de Zurich, a boca vermelha, as coxas tectônicas,
a forma biônica dos seios pequenos sob a rubra sombra das macieiras.

Volto
sem perceber pertencimento.

- Em algum lugar no tempo
a minha terra não-prometida aguarda
esses meus ossos cansados de vagar. -

Nada lembrado pode ser mais cruel
que as memórias que inventamos.

[Mas onde encontrar 
margaridas mais morenas
e palmeiras assim invencíveis?]

segunda-feira, 23 de junho de 2014

ALVORADA


O cego-ancião Borromeu acordava todos os dias às quatro e quinze da manhã, fazia um café forte com seis colheres de leite e uma pitada de canela. Tateava os pergaminhos com os dedos como se tivesse olhos nas mãos, balbuciando as leis e os códigos, passeando pelas alegorias e epopéias, avançando e retrocedendo na história do mundo, na aventura dos homens sobre a terra. Em certo momento, como se um cuco interno o avisasse, Borromeu levantava, vestia o capote e seguia para cumprir sua rotina. Subia lentamente as escadarias da torre mais alta da cidade e se sentava frente à única janela que havia ali. Na verdade não era uma janela, mas uma abertura em forma de meia lua, por onde o cego-ancião gritava as primeiras preces do dia, exatamente ao nascer do sol, que ninguém sabe como ele percebia com exatidão, mas que jamais havia falhado. A prece durava exatos oito minutos e podia ser ouvida na cidade inteira, desde os palácios do governo até os becos escuros do subúrbio, desde as colinas verdejantes do leste com suas mansões de mármore até as baixadas fétidas onde as palafitas se equilibravam sobre as marés de sargaço. 

Borromeu subia a almádena com uma chama acesa sobre um pires branco. Deixava a vela sentar no chão e se acoxambrava na esteira ao lado, mãos nas coxas, o rosto recebendo a brisa e esperando a primeira luz de cada dia. Era um espetáculo belíssimo, que ninguém jamais presenciaria, quando a luz da primeira hora descia como uma poeira etérea, de um rosa-azulado que evoluía para um cinza-dourado sobre a pele de papiro cor de azeitona do mestre do canto.

Sabe-se que na madrugada do octogésimo oitavo ano de vida do cego-ancião, o café estava igualmente acre, as paredes igualmente frias, pegajosas de limo e silêncio, e a vela sebosa queimava igualmente, sem pressa. O cego mestre do canto subiu devagar, mas com passos certos e firmes, as escadas da velha torre. Lá no alto esperou a primeira réstia da estrela maior, já limpando a garganta para a prece lânguida e clara que tomaria a cidade, chamando a vida para desenrolar-se sobre todos os mortais. 

Mas, não naquele dia. 

Naquela manhã, quando a primeira luz banhou a face de Borromeu, o cego enxergou. As pregas de suas pálpebras, como sacos de estopa dourada, esticaram-se de terror. O cego viu o sol nascer. 

Desejou gritar, mas calou-se. Desejou olhar a cidade, mas fechou rapidamente os olhos, com força. Despejou uma única lágrima pelo canto do olho esquerdo, soprou a vela, pigarreou brevemente, e despejou a prece no ar vidrado da cidade. Aquela fora a única vez que o canto atrasou, ainda que ninguém tivesse notado. O canto-mestre da alvorada foi atrasado em exatos vinte e três segundos. 

Borromeu enxergou naquele dia. Depois lembrou-se de sua tarefa, seu ofício, seu lugar no mundo, e cantou. Ao fim do canto, sem esperar aplauso ou louvor, e sem ter a quem contar o milagre daquela manhã, desceu as escadas de olhos fechados, lentamente, mas com passos certos e firmes. 

O cego-ancião sorriu ao cabo da escadaria, de olhos fechados. Borromeu decidiu que era feliz, e nunca mais abriu os olhos.

RETRATO




A melancolia bonita do fosso negro desses olhos. 

O sorriso velado, a sombra de um sorriso de mel e mágoa.

A boca silente, que diz tanto. E o pranto já engolido, a seco.

O queixo moldado à faca. O corte exato da perfeita inexatidão.

O coração de papel na tempestade, pulsando revoluto.

A bruta resposta do teu grito, menor que quando te calas.

O tempo gasto com o que jamais foi possível.

A força incrível de todas as sutilezas, tudo o que nos falta.

O maralto, onde todas as vozes soçobram, naufragam.

O último gole, um trago, uma baforada, o teu arpejo.

O ensejo propício, mas não necessário. Tudo é lindo, e precário.

A legenda na foto, que não faz jus a todos os fatos.

O que não se diz e muito se entende, gravado no retrato.

A traição do corpo, mantendo ao espírito lealdade.

Tudo aconteceu, mas nem tudo é verdade.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

TODO CORPO É UMA GUERRA






Corpo

meu querido fardo

tens sido infiel companheiro 

já faz mais mais de trinta anos, 

e ainda não nos entendemos. 


Tuas curvas me iludem, 

teus maciços vão se esfarelando no vão das horas

como as cordilheiras que se desfazem em pó 

ao sabor do vento de qualquer monção.


Corpo

não me deixes ainda, pois estou ereto

tocando partes recém-descobertas 

do meu eu-poeta.


Sei que erramos o caminho

mas só por isso encontramos contento

(pedindo paz, pedindo guerra, pedindo nuvem, pedindo terra)

todo corpo foi feito tanto para o gozo quanto para o lamento.


Corpo

amado amigo e carrasco

tens o peso exato das minhas vontades

e a leveza paquidérmica de todas verdades.


Teus sinuosos engenhos

jamais foram menos pungentes que o restante

de vida que me sobra em cada sonho não sonhado:

és ao mesmo tempo porto e navio naufragado.


Corpo

que de moços e moças fartou-se, faltou-se

na doce ausência de quem está mas não é:

és trovão e orvalho, corpo é chuva - corre deitado

e cai de pé -


No turbilhão da vida

seu tempo medido em ânforas de carbono animal

desenhou destinos variados, desdenhou recados

dados por deuses tolos e demônios sem pecado.


Corpo

logo chegaremos numa esquina qualquer

onde quiçá a morte, ou quem sabe outra sorte 

nos colocará na gostosa presença da extinção 

disfarçada num beijo de mulher.


No fim de tudo

saberei recomeçar, aceitar o divino convite 

para não ser mais corpo, como faz a cigarra

que explode em mil cores (casulo-corpo-segredo)

para a incerta renovação do eu, mas não do ego.


[Todo corpo é uma guerra.

Só fora do corpo há sossego.]

 








sábado, 14 de junho de 2014

A SOLIDÃO DOS VENCEDORES




O pêlo dos ratos mortos era raspado com navalha, e queimado sobre uma lâmina de papel laminado. Aquelas cinzas, esfareladas entre os dedos dos meninos no escuro, tinham cheiro de morte, mas colocadas sobre a língua causavam o desconforto gostoso e angustiante do ópio. Alguns as cheiravam, o que aumentava o poder da convulsão. As pupilas dilatavam, pela boca dormente escorria a baba dos desvalidos, reis de terras distantes, onde apenas os moribundos poderiam pisar.
Raspávamos a cabeça dos fósforos não-deflagrados que encontrávamos no lixo ou roubávamos nos armazéns da cidade velha. Aquelas raspas eram o ouro vermelho do submundo. Uma pitada para cada copo de uísque, e tudo ficava melhor, a dor de cabeça mais forte, as pontas dos dedos sangrando por baixo das unhas e um peso de uma tonelada na nuca, por onde nasciam fios de prata indo direto aos céus.

As batatas doces esquecidas nas feiras e os talos de funcho eram guardados em latões de ferro. Eram antigas latas de querosene, que agora serviam para fazer o néctar do inferno. O líquido com cheiro forte, doce, enjoativo, vertido por um buraco no fundo do latão, era coado, depois fervido, o vapor capturado num pano de camisa, que era torcido após resfriado... Ah, vodka de batatas podres, quantos santos não foram convertidos por teu sabor de trovão e vulva, de ilusão e chuva?

Todos os dias nossas vassouras passeavam pelo teto das casas, pelos cantos entre as calhas, pelas esquinas dos móveis, por trás das penteadeiras dos patrões à procura das valiosas teias. Aquelas aranhas silenciosas, quase invisíveis, eram trabalhadoras incansáveis, graças a Deus. Suas teias, recolhidas com minúcia, valiam dois centavos por dia. Não gastávamos o dinheiro. Usávamos o níquel numa deliciosa sopa de teias, servida quentíssima, com um pouco de terra ou fezes secas de gato, para dar sabor. O comichão na boca descia até o estômago, e era possível sentir por onde o líquido passava em nosso corpo, causando tremores e febres, e saindo quase imediatamente pela uretra em chamas, a sensação deliciosa de gozo, a completude dos bastardos mais alegres do mundo.

De tempos em tempos, pegávamos uma pedra grande e martelávamos o mindinho do pé de quem perdesse alguma aposta. Não tanto por exigir o pagamento da mesma, mas porque o órgão gangrenado vertia líquidos preciosos, guardados para ocasiões especiais. Em dia de aniversário (ou de morte) bebíamos o suco dos dedinhos com a água do arroz lavado pela Srta. Piy, nossa benfeitora. Era nutritivo, refrescante, apesar de um visco renitente que durava dias grudado nas gengivas de todos.

Eram dias fabulosos, fantásticos, porque ninguém esperava nada além de um minuto após o outro, com o enorme talvez de um sol no dia seguinte. Olhávamos a aurora boreal através das frestas dos bueiros, e escondíamos nosso rosto com medo de ser a felicidade à nossa procura, talvez a esperança, quem sabe a fraqueza de imaginar outro presente, quem sabe a insensatez de pensar que haveria um futuro. As bocas banguelas sorriam, esperando que mais dentes caíssem. Os olhos secos miravam o chão, ignorando as promessas falsas do horizonte. Éramos os donos do mundo.

Alguns de nós sobrevivemos, escapamos, seguimos em frente, aprendemos a dormir em lençóis de seda, comer vitela, apertar no pescoço o nó da gravata, sorrir na foto.

Quão miseráveis são estes dias de opulência, meu Deus!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O IMPÉRIO DOS SENTIDOS


O dedo indicador 
toca levemente aquela porção 
entre a orelha e o cabelo
na cartilagem ondulada, tenra,
por onde escorre o som 
do ouvido ao cerebelo.

Deve-se fazer pressão,
mas sem força, e sobretudo 
sem pressa.

É preciso ser 
sorrateiro como a raposa
e carinhoso como a serpente.

Tua mão esquerda desliza silente 
e respeitosa, toca a cintura, e procura
a protuberância do osso na lateral da bacia.

Há muita técnica, muita ciência,
no que deve parecer poesia.

O tremor das mãos
sobre as ancas aflitas
como o rolar de placas tectônicas
nas profundezas da terra:
o amante perfeito 
mostra que faz mira
mas de propósito
erra.

Passa-se alguns séculos
dentro desses poucos segundos.
Não tenha pressa.

Pousa o polegar ali,
mas por pouco tempo.
Depois, acolha a nuca, firme
porém sem jamais parecer 
que seguras como quem agarra.
Existem outros tipos de nós
e seguramente outras amarras.

Não, não agarre. 
Mas teus olhos devem prender, 
perceba o fio de ouro que se estende 
entre as pupilas dos amantes que se vêem 
tão de perto que se perdem um dentro do outro.

Tocar é pouco,
muito pouco!

De repente,
displicentemente a mão direita
desce pela face, ladeando o rosto
e pinga o dedo anelar como uma gota de magma, 
o tato líquido caindo sobre o colo, escorrendo pelas costelas
e parando ali, sobre a flutuante, não mais baixo nem mais alto.

Há muita técnica, muita ciência,
no que deve parecer poesia.

Olha o lábio inferior.
Mira. Espia. Deixa que ela saiba
o quanto o teu olho já beijou-lhe a boca
nesta premonição do encontro inevitável
dos vossos lábios.

O beijo 
já vem acontecendo,
antes mesmo que os lábios 
se encontrem.

Passa-se alguns séculos
dentro desses poucos segundos.
Não tenha pressa.

Beija de leve.
Não peça. Faça,
mas como quem não tem certeza.

Escape, 
mas com toda leveza.

És uma sépia, 
o camaleão dos mares. 

Olha-a nos olhos.
Segura-lhe a mão,
quase deixando escapar. 

- impossível,
pois o laço tênue dos teus dedos 
não pode ser quebrado jamais -

E volta, 
és um polvo!

Tens mãos suficientes,
mas não demais.

Quantos carinhos cabem
num gesto que ainda nem foi feito?

Há muita técnica, muita ciência,
no que deve parecer poesia.

Sê cuidadoso
para que ela não desfaleça agora.

Respira com ela. 
Por ela.

Olha, mira, espia, 
escuta, ausculta.

Tens dois olhos e duzentos olhares,
e são todos dela, mas alguns
escapam pelas frestas
e ela os persegue:
- Pra onde vão esses olhos
que já eram tão meus?

Passa-se alguns séculos
dentro desses poucos segundos.
Não tenha pressa.

Assente este rosto em tuas mãos:
o queixo levemente inclinado 
recebe um beijo levíssimo, 
silencioso, meio de lado, 
insinuado.

O dedo anelar penteia a sobrancelha,
outro beijo, agora no olho, depois
naquela fenda entre o nariz e o lábio, 
descendo para a mordida voraz
mas jamais com força, antes
com uma delicadeza furiosa
no lábio superior.

Prossiga sempre
como quem vai parando.

Há tanta vontade 
e verdade no tato:
o contrato das vozes num semitom,
o som dos corpos se procurando,
as línguas indomadas se encontrando,
as coxas que colidem gentilmente
e de vez em quando um certo encaixe
uma fruição, a divina fricção 
que causa incêndios 
em tuas florestas...

Tudo isso caberá num aceno,
num átimo em que se diz bom dia,
ou numa palavra apenas, 
enviada como um abracadabra
dentro de um poema.

Aceite a fúria tranquila desta hora
e lembre-se de queimar todos os manuais
do amor (incluindo estas breves notas)
antes de amar de fato.

O amante perfeito
sabe tocar a pele
antes do corpo.

Sua mão firme e gentil chega
antes do pensamento,
num tempo que não passa, 
não pára, não se move
e também não cessa.

Passa-se alguns séculos
dentro desses poucos segundos:
não tenha pressa.