Ask Google Guru:
sábado, 19 de julho de 2014
PARA TODOS
quinta-feira, 17 de julho de 2014
ANTES A ENXADA
Antes o martelo,
talvez a foice,
decerto uma espada,
creio ainda
melhor a enxada
que a flauta.
Na luta
que minha voz mansa
seja a mais forte
ainda que não
a mais alta.
[Antes a enxada
que a flauta...]
segunda-feira, 14 de julho de 2014
A OUTRA MARGEM
Quantas margens tem um rio sem foz,
cujas águas apenas imaginadas
rugem quase sem voz?
Quantas margens tem um rio
que corre lentamente em vão
sobre um esteio sem chão?
Quantas margens subsistem
sob o karma de múltiplas e múltiplas existências
gastas numa alegria melancólica e num gozar tão triste?
Quantas margens tem
este curso d'água evaporada,
como mágoa que dói, e não mais existe?
Quantas margens tem
o córrego rubro que segue em artéria ignorada
se não houver amor, dor, paixão, ilusão ou nada?
[Água que não sacia, nem afoga,
não vale pra nada.]
UMA CANÇÃO DE NINAR PRA ME ACORDAR
Vivo num mundo onde posso e sobretudo devo me reinventar a cada minuto, e isso é questão de sobrevivência. Sobretudo sobrevivência, com toda ternura e brutalidade que isso envolve.
Falta pão, terás champanhe. Sorria, não se acanhe.
Sem 'mimimi', porque o braço do mundo é forte, e só por isso o meu deve ser mais forte ainda, para empunhar a espada e a caneta com forças diferentes, às vezes antagônicas, às vezes complementares, sempre com sabedoria, algumas vezes com a gota necessária de cólera e loucura, simplesmente.
Minha sanidade é posta em segundo plano quando meu (nosso) amor e minha (nossa) arte estão em jogo. Meu (nosso) modo de vida depende de coisas que estão além da compreensão de muita gente, mas são os poucos, os pouquíssimos que restam, que dão sentido a este fio tênue que me segura, lindo e terrível, atado ao pêndulo da existência.
É possível que tudo isso acabe como uma vertigem, como o bulbo incandescente de uma lâmpada que se parte e escurece para sempre, como é certo que o sol, essa estrela distante, vai se apagar algum dia, descendo do seu trono resplandescente, jogando a Via Láctea numa nova idade de trevas, onde as almas cessarão de brilhar, como estrelas do mar sem o oceano que as nutria.
Quem sabe?
Estou tão pleno de interrogações, que em nenhum espelho me reconheço. Nessa noite longa e bonita qualquer abismo me servirá de berço.
O CETRO CAÍDO
O rei e eu
do alto da torre vimos
centenas de milhares de espelhos partidos
mas de longe não percebemos que apenas um
apenas um reluzia, apenas um existia, apenas um
espelho partido em centenas de milhares
de estrelas prateadas
que com suas pontas afiadas
machucavam o olhar
dos cegos do castelo,
que choravam de alegria
de alegria, de alegria,
de uma desabalada
alegria.
O breu
nos olhos do rei
apenas os cegos do castelo
percebiam, sabiam, viam
no céu, no véu rasgado, no meu
gesto de menino velho, o teu
filho, porto, ilha, semente e raiz, feliz
resumido em centenas de milhares de olhares
vazados por um espelho partido em estrelas
cadentes, cometas, gametas, suspiros
no giro do cetro caído e no clamor singelo
do cristal quebrado, que na noite mais bela
anuncia: está morto, está posto, está dado
o toque do clarim, reina em mim, enfim,
o herói que jamais fostes, filho, pai, posto
no alto de uma torre de marfim
para a alegria dos olhos vazados
dos cegos que hoje choram
de alegria, de alegria,
de uma desabalada
alegria.
sexta-feira, 11 de julho de 2014
A CERIMÔNIA DO CHÁ PRETO
- Não temos xícaras bonitas para todos, vamos variar, tomem aqui, o que interessa é o conteúdo.
- Mas as xicaras mais bonitas deveriam estar guardadas, nós estávamos sendo esperados, não é?
- Até mesmo os anunciados trazem consigo alguma surpresa.
- Que surpresa?
- O chá. Beba.
- Srta. Pritcher, tem alguma coisa errada com o seu chá.
- Não, pequero Yuri, o chá está como deve ser.
- Mas é este o famoso Chá Preto dos Cárpatos?
- Isso. Tome enquanto está quente.
- Srta. Pritcher, este chá é muito perfumado, mas tem um perfume estranho. O líquido escuro e envolvente parecia me acolher, mas queimou-me os lábios. Depois desceu bem gostoso, levou fogo às minhas entranhas, senti-me revigorado, animado... Mas no fim, acho que não estou suportando o seu fim. Que final amargo insuportável! Preciso de mais, e mais, preciso continuar bebendo pra evitar o triste fim que virá, digo, a amargura do último gole... Traga mais chá, por favor!
- Pequeno Yuri, agora chega! Isto que você está provando é a vida, e o final amargo é inevitável. Aproveite, portanto, o caminho, a aventura. O bom da vida (o melhor da cerimônia do chá) é o por enquanto!
domingo, 6 de julho de 2014
CORPO
[uma breve aventura pós-orgânica]
O corpo, esse tótem, tesouro e lixo.
Bicho alado, ao solo atado sem força.
Prezado, pesado, utensílio banal e maravilhoso.
Carrego-o no bolso, num fosso, num silêncio prolixo
em que o gozo é o martírio, e a dissonância dá sentido
a todo som.
Pra quê mostrar o homem pelado
se é na alma que ele está mais bem armado?
Por quê mostrar da mulher o peito, nádega e vulva
se é sua alma que nos afronta e nos cabe como luva?
Tenha calma,
muita calma nesta hora.
As palmas se acabam,
O espanto logo vai-se embora.
Sobram células-espelho
mirando o infinito de joelhos.
E o resto
presta-se aos trâmites, à praxe,
ao àxis involuntário da tua psiquê.
A aventura transhumana
da máquina que sonhou ser gente
e acordou poeta, não finda, não cessa:
substituímos em pressa a letra orgânica
por sintaxes de plástico, vidro, nióbio, cobre,
desenrola os cabos de fibra óptica pelas entranhas,
chamando a carne, outrora divina, agora apenas um sonho,
descartado pelo caminho da irreversível singularidade.
Em algum lugar de um futuro nem tão distante
uma nova Eva entregará aos desavisados filhos de Adão
aquela bendita fruta, rubra como um útero entumescido,
suculenta e perfumada, a linda maçã de metal.
O corpo é banal.
É comezinho, pobrezinho.
Dono do mundo, nosso primo pobre,
nosso nobre salvador, redentor moribundo.
Meu corpo é meu mundo.
Mas todo mundo ainda que vasto mundo
cabe num grão de areia, barquinho de aventureiro
navegando no turbilhão de nossas veias.
Todo santo dia o corpo
se transmuta da água para o vinho.
Todo corpo é porto de partida
e fim de caminho.
Tanto zelo
com o que dorme entre os pêlos.
Tanto pudor
com o que só traz a dor.
Mas, pra quê, Senhor?
Há artistas pelados na praça
como quem traz tomates para vender.
A pele rubra e brilhante atrai que por ali passa
mas, aos poucos, seu viço sucumbe, murcha,
o corpo exposto já não é arte, não é novidade,
os dias de feira-livre já se foram longe.
No mercado negro
está ficando difícil encontrar cicatrizes.
Uma pinta, uma marca de nescença, então...
Ser humano, só humano, está pela hora da morte.
Ou nem tanto,
pois de outra sorte não nos deixaríamos partir
sem antes pagar o equipamento: o corpo mais deles que nosso,
os rolos de ligamentos, os cabos e tubos, o coração sobressalente,
as peças de reposição, os upgrades no sistema, o titânio dos ossos.
Não há saída.
Mas se um santo
desabilitasse o firewall do Éden
poderiamos invadir para sempre
esses latifúndios divinos.
As palmas se acabam,
O espanto logo vai-se embora.
Sobram células-espelho
mirando o infinito de joelhos.
O avesso do avesso
é o lado certo, ou
a sua negação.
Pedra é pão.
Só que não.
Em algum lugar
de um futuro nem tão distante
uma nova Eva entregará aos desavisados filhos de Adão
aquela bendita fruta, rubra como um útero entumescido,
suculenta e perfumada, a linda maçã de metal.
terça-feira, 1 de julho de 2014
SEXTANTE
para saciar o vício dos pés.
Barco e porto são iluminuras
gravadas no livro das marés.
Cedo ou tarde a gente descobre
que toda alma é um oceano,
E todo corpo,
um convés.
LUCIDEZ
A sombra
mesmo quando iluminada
é sombra ainda.
Quando há luz sobre ela
sua forma se esconde
mas não finda.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
QUANDO O INFINITO CANTA MAIS ALTO
Haviam rios e riachos estragados por milhares de flores mortas
escorrendo pelos cachos pétreos das serras que mordem o horizonte.
Pássaros coloridos voavam direto do ontem pousando nos galhos do agora
e a sua algazarra, ecoando no vão das horas, acordava os velhos para a vida.
Os escribas afiam a pena entre as coxas magnânimas das suas feias amantes.
Os ricos param de contar moedas, os pobres param de contar suas mágoas,
os tímidos param de contar segredos, os mansos param de buscar sossego.
Macacos de espécies variadas, azulados, pretos, marrons, côr-de-fogo e bronze
apinhavam-se nas ventanelas dos baobás milenares para ver o mundo imenso ruir.
O orvalho acrescia pétalas de cristal nas costas verde-alaranjadas das salamandras
enquanto a gosma lenta da madrugada borbulhava serena e brutal nos pântanos:
a vitória-régia e o nenúfar soçobram nos charcos, o tempo é a baba dos sapos,
o risco dourado que marca o caminho das lesmas, o visgo seboso das avantesmas.
O baile das ipupiaras na espuma das ondas frias, o canto das harpias nos penhascos,
os frascos de amarume derramados nos travesseiros das matronas de seios caídos,
o gemido lânguido de prazer e têso de dor dos moços deflorados nos conventos,
a gargalhada poderosa (mas não ruidosa) das moças de sardas ruivas nas cidades.
A maldade das crianças, o sangue dos culpados,
os heróis ignorados, o pão já muito amassado pelos sapatos dos bons,
os brioches sovados entre os dedos dos maus, as naus capitânias
desbravando as águas tranquilas dos paraísos tropicais, e o perfume
das milhões de vulvas túrgidas das bananeiras incendiadas em pleno verão.
Meninos, conto porque sei e não vi.
Digo porque já não me podem silenciar.
Escrevam na rocha e na carne, rabisquem nos ossos, no cerne
dos vossos peitos esses versos para dizer em voz alta e fazer o infinito cantar.
Este nosso imenso e ruidoso planeta,
que se arrepia em vagalhões de gozo e pavor
ao mais tímido balido dos cervos na campina
canta alto, muito mais alto, ao nascer (ou morrer) de um poeta.
sexta-feira, 27 de junho de 2014
MAS ONDE ENCONTRAR MARGARIDAS MAIS MORENAS E PALMEIRAS ASSIM INVENCÍVEIS
segunda-feira, 23 de junho de 2014
ALVORADA
O cego-ancião Borromeu acordava todos os dias às quatro e quinze da manhã, fazia um café forte com seis colheres de leite e uma pitada de canela. Tateava os pergaminhos com os dedos como se tivesse olhos nas mãos, balbuciando as leis e os códigos, passeando pelas alegorias e epopéias, avançando e retrocedendo na história do mundo, na aventura dos homens sobre a terra. Em certo momento, como se um cuco interno o avisasse, Borromeu levantava, vestia o capote e seguia para cumprir sua rotina. Subia lentamente as escadarias da torre mais alta da cidade e se sentava frente à única janela que havia ali. Na verdade não era uma janela, mas uma abertura em forma de meia lua, por onde o cego-ancião gritava as primeiras preces do dia, exatamente ao nascer do sol, que ninguém sabe como ele percebia com exatidão, mas que jamais havia falhado. A prece durava exatos oito minutos e podia ser ouvida na cidade inteira, desde os palácios do governo até os becos escuros do subúrbio, desde as colinas verdejantes do leste com suas mansões de mármore até as baixadas fétidas onde as palafitas se equilibravam sobre as marés de sargaço.
Borromeu subia a almádena com uma chama acesa sobre um pires branco. Deixava a vela sentar no chão e se acoxambrava na esteira ao lado, mãos nas coxas, o rosto recebendo a brisa e esperando a primeira luz de cada dia. Era um espetáculo belíssimo, que ninguém jamais presenciaria, quando a luz da primeira hora descia como uma poeira etérea, de um rosa-azulado que evoluía para um cinza-dourado sobre a pele de papiro cor de azeitona do mestre do canto.
Sabe-se que na madrugada do octogésimo oitavo ano de vida do cego-ancião, o café estava igualmente acre, as paredes igualmente frias, pegajosas de limo e silêncio, e a vela sebosa queimava igualmente, sem pressa. O cego mestre do canto subiu devagar, mas com passos certos e firmes, as escadas da velha torre. Lá no alto esperou a primeira réstia da estrela maior, já limpando a garganta para a prece lânguida e clara que tomaria a cidade, chamando a vida para desenrolar-se sobre todos os mortais.
Mas, não naquele dia.
Naquela manhã, quando a primeira luz banhou a face de Borromeu, o cego enxergou. As pregas de suas pálpebras, como sacos de estopa dourada, esticaram-se de terror. O cego viu o sol nascer.
Desejou gritar, mas calou-se. Desejou olhar a cidade, mas fechou rapidamente os olhos, com força. Despejou uma única lágrima pelo canto do olho esquerdo, soprou a vela, pigarreou brevemente, e despejou a prece no ar vidrado da cidade. Aquela fora a única vez que o canto atrasou, ainda que ninguém tivesse notado. O canto-mestre da alvorada foi atrasado em exatos vinte e três segundos.
Borromeu enxergou naquele dia. Depois lembrou-se de sua tarefa, seu ofício, seu lugar no mundo, e cantou. Ao fim do canto, sem esperar aplauso ou louvor, e sem ter a quem contar o milagre daquela manhã, desceu as escadas de olhos fechados, lentamente, mas com passos certos e firmes.
O cego-ancião sorriu ao cabo da escadaria, de olhos fechados. Borromeu decidiu que era feliz, e nunca mais abriu os olhos.
RETRATO
A melancolia bonita do fosso negro desses olhos.
O sorriso velado, a sombra de um sorriso de mel e mágoa.
A boca silente, que diz tanto. E o pranto já engolido, a seco.
O queixo moldado à faca. O corte exato da perfeita inexatidão.
O coração de papel na tempestade, pulsando revoluto.
A bruta resposta do teu grito, menor que quando te calas.
O tempo gasto com o que jamais foi possível.
A força incrível de todas as sutilezas, tudo o que nos falta.
O maralto, onde todas as vozes soçobram, naufragam.
O último gole, um trago, uma baforada, o teu arpejo.
O ensejo propício, mas não necessário. Tudo é lindo, e precário.
A legenda na foto, que não faz jus a todos os fatos.
O que não se diz e muito se entende, gravado no retrato.
A traição do corpo, mantendo ao espírito lealdade.
Tudo aconteceu, mas nem tudo é verdade.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
TODO CORPO É UMA GUERRA
Corpo
meu querido fardo
tens sido infiel companheiro
já faz mais mais de trinta anos,
e ainda não nos entendemos.
Tuas curvas me iludem,
teus maciços vão se esfarelando no vão das horas
como as cordilheiras que se desfazem em pó
ao sabor do vento de qualquer monção.
Corpo
não me deixes ainda, pois estou ereto
tocando partes recém-descobertas
do meu eu-poeta.
Sei que erramos o caminho
mas só por isso encontramos contento
(pedindo paz, pedindo guerra, pedindo nuvem, pedindo terra)
todo corpo foi feito tanto para o gozo quanto para o lamento.
Corpo
amado amigo e carrasco
tens o peso exato das minhas vontades
e a leveza paquidérmica de todas verdades.
Teus sinuosos engenhos
jamais foram menos pungentes que o restante
de vida que me sobra em cada sonho não sonhado:
és ao mesmo tempo porto e navio naufragado.
Corpo
que de moços e moças fartou-se, faltou-se
na doce ausência de quem está mas não é:
és trovão e orvalho, corpo é chuva - corre deitado
e cai de pé -
No turbilhão da vida
seu tempo medido em ânforas de carbono animal
desenhou destinos variados, desdenhou recados
dados por deuses tolos e demônios sem pecado.
Corpo
logo chegaremos numa esquina qualquer
onde quiçá a morte, ou quem sabe outra sorte
nos colocará na gostosa presença da extinção
disfarçada num beijo de mulher.
No fim de tudo
saberei recomeçar, aceitar o divino convite
para não ser mais corpo, como faz a cigarra
que explode em mil cores (casulo-corpo-segredo)
para a incerta renovação do eu, mas não do ego.
[Todo corpo é uma guerra.
Só fora do corpo há sossego.]
sábado, 14 de junho de 2014
A SOLIDÃO DOS VENCEDORES
O pêlo dos ratos mortos era raspado com navalha, e queimado sobre uma lâmina de papel laminado. Aquelas cinzas, esfareladas entre os dedos dos meninos no escuro, tinham cheiro de morte, mas colocadas sobre a língua causavam o desconforto gostoso e angustiante do ópio. Alguns as cheiravam, o que aumentava o poder da convulsão. As pupilas dilatavam, pela boca dormente escorria a baba dos desvalidos, reis de terras distantes, onde apenas os moribundos poderiam pisar.
Raspávamos a cabeça dos fósforos não-deflagrados que encontrávamos no lixo ou roubávamos nos armazéns da cidade velha. Aquelas raspas eram o ouro vermelho do submundo. Uma pitada para cada copo de uísque, e tudo ficava melhor, a dor de cabeça mais forte, as pontas dos dedos sangrando por baixo das unhas e um peso de uma tonelada na nuca, por onde nasciam fios de prata indo direto aos céus.
As batatas doces esquecidas nas feiras e os talos de funcho eram guardados em latões de ferro. Eram antigas latas de querosene, que agora serviam para fazer o néctar do inferno. O líquido com cheiro forte, doce, enjoativo, vertido por um buraco no fundo do latão, era coado, depois fervido, o vapor capturado num pano de camisa, que era torcido após resfriado... Ah, vodka de batatas podres, quantos santos não foram convertidos por teu sabor de trovão e vulva, de ilusão e chuva?
Todos os dias nossas vassouras passeavam pelo teto das casas, pelos cantos entre as calhas, pelas esquinas dos móveis, por trás das penteadeiras dos patrões à procura das valiosas teias. Aquelas aranhas silenciosas, quase invisíveis, eram trabalhadoras incansáveis, graças a Deus. Suas teias, recolhidas com minúcia, valiam dois centavos por dia. Não gastávamos o dinheiro. Usávamos o níquel numa deliciosa sopa de teias, servida quentíssima, com um pouco de terra ou fezes secas de gato, para dar sabor. O comichão na boca descia até o estômago, e era possível sentir por onde o líquido passava em nosso corpo, causando tremores e febres, e saindo quase imediatamente pela uretra em chamas, a sensação deliciosa de gozo, a completude dos bastardos mais alegres do mundo.
De tempos em tempos, pegávamos uma pedra grande e martelávamos o mindinho do pé de quem perdesse alguma aposta. Não tanto por exigir o pagamento da mesma, mas porque o órgão gangrenado vertia líquidos preciosos, guardados para ocasiões especiais. Em dia de aniversário (ou de morte) bebíamos o suco dos dedinhos com a água do arroz lavado pela Srta. Piy, nossa benfeitora. Era nutritivo, refrescante, apesar de um visco renitente que durava dias grudado nas gengivas de todos.
Eram dias fabulosos, fantásticos, porque ninguém esperava nada além de um minuto após o outro, com o enorme talvez de um sol no dia seguinte. Olhávamos a aurora boreal através das frestas dos bueiros, e escondíamos nosso rosto com medo de ser a felicidade à nossa procura, talvez a esperança, quem sabe a fraqueza de imaginar outro presente, quem sabe a insensatez de pensar que haveria um futuro. As bocas banguelas sorriam, esperando que mais dentes caíssem. Os olhos secos miravam o chão, ignorando as promessas falsas do horizonte. Éramos os donos do mundo.
Alguns de nós sobrevivemos, escapamos, seguimos em frente, aprendemos a dormir em lençóis de seda, comer vitela, apertar no pescoço o nó da gravata, sorrir na foto.
Quão miseráveis são estes dias de opulência, meu Deus!
quinta-feira, 12 de junho de 2014
O IMPÉRIO DOS SENTIDOS
no que deve parecer poesia.
no que deve parecer poesia.