Ask Google Guru:
domingo, 5 de outubro de 2014
RELÓGIO
quinta-feira, 2 de outubro de 2014
GOMORRA
Corra pra gomorra!
Cena 03. Tomada 04.
Travelling.
Fade out to white.
Fade in from black.
What the fuck?
Plano iraniano. Plano japonês.
Plano sueco. Americano, não.
Plano pornô-gospel.
O diretor
não se decide.
Música.
Acordes interrompidos
em 00:13s.
Close up da boca. Dos olhos.
Das mãos. O toque nervoso.
Um seio borrado. Gemidos em off.
Uma nuca, os pêlos finos, negros,
muito nítidos, em primeiro plano.
Mulheres de olhinhos puxados.
Homens de olhinhos fechados.
Os anjos garotos
começando a ficar excitados.
E os deuses marotos,
olhando para o outro lado.
Corta!
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
PEDRA-DE-FOGO
percebo um tremor na arquitetura do teu corpo:
entre pele e pêlos passeia uma vontade indomável
que poreja em perfumes traficados por suas veias.
O açúcar da paciência se deposita devagar
no canto de cada hora descoberta pelo seu tato.
Teus olhos ladrilhados de espanto vertem o âmbar
que inaugura no horizonte a ópera do crepúsculo.
Teus seios, como ogivas de um róseo marfim,
desafiam a tessitura dos olhares alheios.
Coxas tectônicas se abalam sob o vestido de chita
criando a sinuosa verdade que assombra os moços
e os velhos.]
Os fracassos celebrados à flor da tua pele
são revogados em ata no teatro da memória.
Nada escapa de tuas mãos de neblina
ainda assim, libertas pássaros de perdão
no tumulto das horas.]
Se fosses bonita, haveríamos de cantar teu nome
à beira do cais, quando as naus partissem para guerrear
e os heróis, embriagados, lançassem seus corpos ao vento
traçando um risco prateado no ar, como estrelas cadentes
numa louca revoada por cima dos penhascos.]
Mas és como a torre branca onde o atalaia canta
o pregão lamentoso que acorda as cidades no oriente.
Os teus cabelos são labaredas fugidias que se levantam
na rubra sanha de um sonho interrompido, mas recorrente.
Haverão poetas traficando a tua sombra nos parques
e nos becos da imaginação dos meninos a tua silhueta
será pedra de toque, templo desfigurado por fiéis e ímpios
que te recebem como nova Babel, Constantinopla, Sodoma,
quem sabe uma Atlântida, talvez um novo Olimpo.
Mas tu, cidade partida, pouco sabes
dos cataclismas inspirados pela tua lenda.
A Via Láctea é o teu umbigo, e as constelações
mero adorno, contas miúdas que perolam teu colo
de assassina que tem a culpa, mas não o dolo.]
Distante do alcance da voz dos poetas
moram as palavras mais nobres, mais belas.
Nessas terras os menestréis são pássaros de rapina
à procura da mínima brisa que lhes dê sentido à rima.
Cidadela minha, onde habito sem morar,
peço-te apenas que me deixe pisar teu chão.
Há escombros por toda parte, mas a sorte deu-me um lar
onde a pedra que trago no peito queima voraz noite adentro
recusando ser diamante, preferindo ser carvão.]
sábado, 20 de setembro de 2014
SAL
A moça feia
é linda.
A moça linda
também.
O poema não.
Mas
olhando melhor,
é.
Finda a hora,
mas não o tempo.
Debaixo dos ponteiros
de qualquer relógio digital
Deus olha, ouve, escondido.
O poema não.
Note a lira
sob o lençol da rima fugidia
ritmando o verso torto
que mesmo morto
respira.
Desconstrua
um truísmo verdadeiro
e coloque suas verdades
(mesmo as inventadas)
no saleiro da mentira.
Faça um churrasco
de mil gatos pardos
na sagrada pira.
Ignore a carne.
Não o tempero.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
ULALUME
Por ter arame farpado na carne tenra
gozo devagar toda vez que a máquina do mundo repuxa
os fios, os liames, os nós de arame e sonho.
Minto
e sinto que um manto de realidades imaginárias
substitui o concreto armado por este corpo que habito.
Toda sentença revoga e revigora destinos possíveis e impassíveis.
Tese e antítese, preto no branco, o todo para um ou um para cada:
é assim que a serpente do bem e do mal morde a própria cauda.
Os deuses mais poderosos nascem do medo da morte.
E a sorte dos homens é sempre lançada em dados viciados.
Por isso não há dor que resista a uma idéia fixa, um arquétipo inventado.
Tristes fados me enfadaram por demais.
Os olhos desejam a inconstância sedutora dos mares,
mas os pés logo se apaixonam pela maré cimentada no cais.
Ainda assim, rompendo as fragas, flagro
um sorriso digno, o signo forte
que projeta os milagres.
Há um lugar no mapa do mundo
onde nenhuma rima funciona.
Lá, as pessoas tem esperança.
Uma esperança de ferro fundido
urdida na densa tessitura de um espasmo:
um arrepio de fios de ouro na foz dos meus poros.
Auroras se consomem
no espelho de aço brilhante
das pupilas dilatadas dos cegos.
Negras luzes traduzem estrelas mudas.
E já não achamos absurdo, que os poetas berrem,
zurrem, hurrem, gritem para contar seus segredos.
domingo, 14 de setembro de 2014
SERPENTINA
Os platonismos, suculentos, à mesa.
Eu sem dentes pedindo a sobremesa.
As transferências saltando da tela.
Eu sem espelhos, mirando os olhos dele pensando nela.
Os falsos profetas e os erros de diagnóstico. As inferências
logo ali onde a carne faz governo e a mente não tem gerência.
O ódio no prelo, o dolo num átrio, a pátria da fala e do falo
existindo onde os signos se propugnam, e eu me calo, apenas me calo.
O amor no deserto; as mãos, espertas, chamam.
Decerto que um erro me acerta, brota no peito em ramas.
Perante a palavra não-dita, todas as escrituras sagradas
serão benditas, e por isso mesmo deverão ser apagadas.
Há um poema em algum lugar
onde oceano é lágrima, e uma gota é mar.
Esconder-se, apenas sob os holofotes.
Onde não se vê a serpente, ali é que ela dá o bote.
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
TENAZ
Escavam-me o peito de madeira sem lei
mil goivas desgovernadamente minuciosas:
o arrasto do gesto encalacrado no musgo dos hábitos
é o que determina a vontade dos objetos,
mas não o rumo das mãos.
As mãos seguem os utensílios,
a coisa resume a gente como os pais resumem os filhos.
O gosto do gesto apalavrado, pendurado na ponta da língua
ou tatuado na virilha, veloz como um espasmo, voraz como uma íngua:
oh, se todo homem fosse mesmo uma ilha o oceano já estaria à míngua.
Habitarei a derradeira interrogação
com a doçura rascante dos que já não crêem
que seja necessário haver respostas para qualquer coisa
pois toda redenção é fogo-fátuo crepitando no temporal.
Note, perceba, mire, veja: no arpejo desta hora vibra o canto
de um arauto cuja língua foi cortada, cauterizada, e engolida
por seus patrícios, compatriotas não de um lugar, mas de uma sina
fundada pelo poema primeiro, justificada pela derradeira rima.
Baixo a guarda, desvio o metal dos olhares
procurando dias melhores entre os despojos catados
numa esquina entre o amanhã e o outrora.
Espada e escudo são inúteis.
O verbo inventado resvala na foz de todos os signos:
não fui digno do poema de ontem, nem serei deste agora.
domingo, 24 de agosto de 2014
O BICHO
O m(eu) animal
não ruge.
Urge nele apenas
- por baixo de pele,
pêlo, pena e escamas -
uma imensa vontade
de não esconder
virtude ou vício.
O m(eu) animal
ereto na penumbra
dos seus próprios desejos
despeja o seu magma em vão.
Expirado o prazo do seu gozo
na expiação de todo pecado não cometido
o animal desdenha espelhos que não sejam
opacos, ou cacos de outros espelhos
onde sua alma feérica se partiu.
O membro potente como um arcabuz
reluz em suas mãos trêmulas que apontam
musas silentes, musas potentes, musas
que ousam ser apenas simples poemas
forma terrena de toda coisa-menina
declarar sua natureza oculta
e divina.
E há sobretudo o silêncio
de uma rima
errônea.
E há sobretudo o acaso
e a repetição de arquétipos
nada poéticos.
O m(eu) animal
não ruge.
Urge nele apenas
- por baixo de pele,
pêlo, pena e escamas -
uma imensa vontade
de não esconder
virtude ou vício.
Por baixo
de tudo isso
somos todos
bichos.
terça-feira, 19 de agosto de 2014
SALAMANDRA
A pele morna
das bonecas de plástico moreno
e o bocejo frio dos mortos que observam
de dentro do marulho dos tambores oceânicos
entre os poros de um tempo cuja derme se descama
em fatias de vaga lembrança, em descoradas escamas
que se esfacelam ao primeiro vibrato da canção da alvorada.
A pele morna
das princesas de ancas grandes
e seios pequenos, negritas vorazes
cujo tépido rumor de mil gárrulas nas praças
ainda posso ouvir dentro da concha de cada domingo
oxigenado pelo riso e pela mágoa dos santos de barro
sobre o ouro traficado pelas mãos macias dos profetas
encantados pelo sopro da monção desse outono dourado.
A pele morena
dos negros que habitam os palácios
e penetram carnes brancas, pretas, vermelhas
ao som do velho tambor de senzalas inventadas
e terreiros onde poetas vertem champagne e cachaça
e comem o fubá dos ímpios, a farinha dos infiéis, o cará,
o inhame, a batata, os liames da cozinha das vaidades alheias
cantadas em prosa poética nas catedrais que ardem em chamas
e em labaredas azuis cintilam constelações de almas despudoradas.
A pele morena
dos taróis cuja voz tropical de guerra e paz
posso ouvir ainda, no eco rebatido nos umbrais
dos casarões dos bairros onde o sol demora a chegar
e onde a lua não vê o mar imenso a cantar serenatas vulgares
mas apesar dos pesares há o amor, e o poema de mil estrofes
multiplica os caminhos por onde meus dedos podem passear
e sem pressa deflorar todas as folhas brancas e vulvas róseas
que se perfilam diante de meus olhos cansados porém sequiosos
da velha novidade que é o amor, o amor, o insidioso milagre do amor.
domingo, 17 de agosto de 2014
AJNA
Lavo meus pés de açúcar
no orvalho frio que a alvorada chora.
Sorrio, pois agora desfaz-se em pó
o caminho traçado pelo teu olhar.
Obedeço o pio de pássaros ignorados
e guardo entre as sobrancelhas cansadas
uma pergunta que não precisa ser respondida
pois flutua silente à margem do ribeirão da vida.
O bojo de um sol ainda menino
cavalga campinas que meditam em paz
na foz de um tempo que não tem dono
onde a lua-moça esconde meu sono.
Enterro as mãos pretas na seiva de um nenúfar
que desabrocha cedo na testa franzida da manhã.
O canto breve da esperança inaugura o dia de par em par.
Geleiras frigem cacos de luz:
os primeiros azuis beijam
as pálpebras pesadas do mar.
Que o primeiro poema deste dia seja
um canto feliz para dizer adeus
aos que ainda estão para chegar.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
VIBRATO
domingo, 10 de agosto de 2014
SOBRE A NOITE EM QUE DECIDÍ NÃO SALTAR
O quê sou eu, além deste corpo que sobrevive?
Sou a reunião de células e vontades, sou gametas e verdades.
Sou todas as impossibilidades desmentidas, o fato, o feto, a vida.
O quê sou eu, além deste exilado, este que não saltou de um décimo andar qualquer
ao provar num dia primeiro, num ano novo, o veneno de um velho perfume de mulher?
Digo, sou a estrela cadente que se recusou a ser finada
e prosseguiu voando, num arco eterno, oriente a ocidente, do tudo ao nada.
O quê sou eu, além deste corpo que sobrevive?
Sou todos os amores que tive e não tive, e sou ainda muito mais
pois trago em mim todos os brilhantes segredos ocultos nas fossas abissais.
O quê sou eu, além deste banido, este que não voou entre os artifícios de fogo
que emolduravam a cena tranquila desta corte onde sempre fomos os bobos?
Digo, sou a mais bela equação, o romance épico numa versão jamais publicada:
o poema do amor perfeito, que não existe, mas resiste, no ventre do vento, no seio do nada.
sábado, 9 de agosto de 2014
SENTENÇA
Para além do horizonte que borda de vermelho-marinho
a linha curva deste oceano de chumbo e sonho...
Para além das torres de marfim que se erguem das ilhotas que bocejam
grávidas de caranguejos tristes neste fim de tarde...
Para além dos guardanapos onde o bardo sem nome depositou
seu último verbo voraz, sua pérola de papel amassado...
Para além dos casarios do Méier, descendo a Dias da Cruz
sob aplausos das amendoeiras que teimam em sobreviver...
Para além dos sobrados da Gamboa, onde as putas e os poetas sonham
com dias melhores numa terra sempre ruim...
Para além do sol rascante de Bangu e das coxas magras das raparigas
espremidas num bólido lotado em Marechal Hermes...
Para além dos cassinos (jamais clandestinos) da Rua Holanda, ao lado
da antiga Mesbla, uma quadra depois da Banca do Osório...
Para além dos tiros da Maré e dos profetas do Sapê, entre os nenúfares
que do mangue despontam como ogivas de celofane...
Para além das janelas fechadas dos apartamentos do Jardim Botânico,
das arcadas defloradas e das balaustradas leoninas da Fonte da Saudade...
Para além das ruivas que gastam tristes cobres nas boutiques do Leblon
e das negras sorridentes que dobram os joelhos na Igreja da Penha...
Para além dos dezoito silenciosos torcedores fanáticos do América
e das minhas vinte e três ex-namoradas delicadamente histéricas...
Para além das bundas empinadas dos mordomos sexagenários do Cosme Velho
e das carteiradas infantis dos promotores públicos de pênis flácido da Barra da Tijuca...
Para além das mesas de sinuca da Lapa e do pastel com garapa em Xerém,
e mais distante ainda que as lindas colinas para onde vão os trens de Machambomba...
Para além dos falsos sabres de luz dos black blocs de Laranjeiras,
e dos jambeiros floridos nas doridas calçadas da Sulacap...
Para além das pitombas raioativas colhidas nas ravinas do Joá
e das saias de tergal das freias feias e fortes que caminham na Usina...
Para além das rimas desbocadas das nove poetas muito mal comidas
que juram ter oito amantes virtuais que, dizem as más línguas, são caras muito legais...
Para além do papo cabeça dos feirantes num domingo em Osvaldo Cruz,
e das homéricas festas de suingue com senadores e pugilistas do Alto da Boa Vista...
Para além das entrevistas de emprego frustradas no estranho bairro da Abolição,
e os malogrados amores biônicos nascidos ao meio-dia na Praça Saenz Peña...
Para além das treze novenas rezadas pelas matronas de Padre Miguel,
sob um céu cáqui entre nuvens de uma poeira chamada pirlimpimpim...
Para além das mãos velozes das debutantes que nos abriram os zíperes
numa noite fria, de sangue quente, num inverno tropical...
Para além das palmas que desembolsamos nos saraus do Catete
louvando a falácia bêbada dos nossos heróis de meia tigela...
Para além da brancura das mãos dos candidados a suplente de vereador
que beijam a mão preta das madames desdentadas da festiva Madureira...
Para além dessas tardes inteiras em que os desempregados sonham
com qualquer coisa que não seja essa imobilidade vertiginosa e causticante...
Para além dos xiliques e dos rompantes das filhas ricas dos incas venuzianos
que acham difícil escolher entre murta e linho, sangue e porra, tequila ou vinho...
Para além dos seios empinados das estudantes do Colégio Santo Antônio dos Três Olhos
que tentam escapar do nosso olhar de lobo impotente mas feliz...
Para além da raiz morena dos cabelos loiros das vilãs da televisão
e dos perfumados pùbis das filhas do pastor Leonel, do Itanhangá...
E para além dos vidros fumê da funerária Monte Carmelo, onde há uma roleta
onde a gente pode confiar, e jogar entre os caixões, e ter fé no número vinte e três...
E para além dos porões dos quartéis do Realengo, onde o coronel Vilaça
devora rapazes depenados e vendidos por doze reais e cinquenta centavos o kilo...
Para além dos dias em que comemos sopa de ostras com tomate, sem as ostras
e tomamos o suco de vulvas virgens com limão siciliano, sem os limões...
Para além dos salmos que cantamos escondidos para não despertar os crentes
que entre cercas de arame farpado observam com olhos de pardal...
Para além dos sonetos portugueses da minha adolescência
e de todos os discos do Bob Dylan que não comprei quando podia...
Para além das fantasias de carnaval e dos trajes ecumênicos
que se confumdem na Quaresma incerta e linda, imaginada por nós, infiéis...
Para além de todas as almádenas de cabeça quebrada
e todos os atalaias vencidos pelas mágoas da noite anterior...
Para além do rumor dos computadores e dos estertores da lei
dos ídolos com braços de fibra óptica...
Eu miro de olhos fechados e vejo fatalmente declarada
a sentença entre as sobrancelhas brancas deste mundo:
para além, muito além de toda a vã poesia,
amanhã, definitivamente, vai ser outro dia!
sábado, 2 de agosto de 2014
VOCÊ VAI QUERER UM FÍSICO NO SEU FUNERAL
quinta-feira, 24 de julho de 2014
JOAQUIM, MEU FILHO
Joaquim, meu filho, tu que jamais irás nascer
sabe o quanto trabalhei por engendrar as potências do teu corpo
e pela doce consolação desta alminha de pássaro que não existe.
As bombas caem cegas no oriente e tu de nada sabes, nem saberás.
Os aviões desaparecem sobre os oceanos e tu não vês, nem nunca verá.
Nas grandes cidades há o engano, o crime, a solidão, o torpor, a malvasia.
Manifestantes protestam jogando bombas incendiárias por toda cidade,
derrubando as estátuas dos escritores que poderiam ser teus favoritos,
mas tu, meu filho, que jamais leu os clássicos, nem jamais os lerá,
não pode hoje derramar lágrima alguma por estes nossos heróis
nem poderás tomar partido na luta das hienas e dos chacais
que entre cervos e ovelhas levantam bandeiras coloridas
e pisam canteiros de rosas em sua marcha
em favor de poderes ocultos
e deuses mesquinhos.
Joaquim, meu filho, tu que jamais irás nascer
sabe o quanto sonhei com tuas mãos pequeninas
tocando meu rosto apagado, ouvindo minha voz indecisa
e ainda assim encontrando em mim o herói necessário
e o vilão precário que no fim da tarde te rouba o peito arfante
do calor de tua mãe, nossa palmeira invencível, que entre madeixas negras
olha e não nos vê, posto que somos muitos em um só, um nascido e outro apenas sonhado,
desesperado, ignorado, ambos interrompidos, dispersos, magoados
por palavras que ninguém disse, mas que mesmo assim ouvimos,
percebemos entre as rimas de um poema
que ninguém escreveu.
Joaquim, meu filho,
as flores que não colhemos no jardim do vizinho
e os caminhos espinhosos onde jamais pisaremos,
os barcos a remo sob o luar desses trópicos de veraneio,
o recreio no pátio com meninos de gravata e meninas com laço de fita
nos cabelos com perfume de lilás e saias passadas com goma e minúcia
e os anúncios dos brinquedos japoneses na televisão no sábado
e os parques de diversão do subúrbio, o milho cozido,
a pipoca salgada, o algodão doce, o amendoim torrado,
o primeiro beijo no cinema, as fórmulas que resolvem
os teoremas inúteis, os livros de filosofia,
as economias escassas, o trabalho,
o casamento, os filhos, teus filhos,
meus netos, o círculo completo
que nunca se fechará.
Joaquim, meu filho,
o poema épico, os grandes versos que jamais escreverei,
entre as palmas que não me destinaram nestes salões imensos
sob holofotes apagados num domingo assentado fora do tempo,
meu filho, este poema não celebrado é o que te deixo por herança
junto com as contas que não pagarei, os carros que não dirigi,
as mulheres que não deflorei, os vícios jamais domados,
com o gosto dos beijos roubados em outonos vorazes
e as luzes das cidades enormes e pequenas
por onde passei e tu jamais passarás
meu filho, minha ilha, minha raiz,
meu tão aguardado fim,
meu bom Joaquim.
quarta-feira, 23 de julho de 2014
A MAÇÃ
Algo fora de mim
emerge das margens disto que sou
e entre a origem e o fim de todos nós
sussurra um poema em alto e bom som.
Através do espelho, ele mira, vigia, respira.
Exala pelos poros sons de atabaques eletrônicos.
Seus grafemas versejam sobre antigas tecnologias,
o espírito ruminando sobre despojos sub-atômicos,
sua carne é forte, o tecido é virtual, virulento, violento,
mas desliza docemente entre os gametas das ovelhas.
Uma nova Eva para um velho Adão repetem sonhando
toda a tragicômica epopéia do animal pós-humano.
Os cabos tesos, a boca entreaberta, o cerebelo ereto,
o gozo de mil yottabytes entre as coxas do bem e do mal
e finalmente o riso histriônico (biônico) do último poeta,
desvairado profeta de um armagedom de flores de plástico
às portas das catedrais iluminadas com luz neon
chamando os homens de todos os povos,
declamando sua loucura aos berros:
mordam comigo, mordam comigo
esta bendita maçã de ferro!