Ask Google Guru:

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

GÊNESIS







Percebo o corpo das coisas
e debaixo da sua casca os portos
onde se ancoram os seus signos.

As paixões, tumores benignos.
Os humores segregados pela bile.
As esponjas de lipídios e libido.
A rubra musculatura involuntária
e a lisa carne, o aço esticado, 
precário.

Eu mesmo sou corpo: o veludo da voz
e o concreto armado pelo seu significado,
o cetim dourado das palavras mais redondas
e o arame farpado dos versinhos bobos, simples.

Independente do que deseja o poema
Eu sou carne. E no cerne disso há tantas palavras
que é melhor calar, comê-las ou deixar que se fartem.

Vou-me percebendo enquanto corpo, 
notando o quanto há de carne e sangue
nos espaços ainda não preenchidos
pelo espírito do verbo.

As palavras não são minhas
tampouco este corpo.
Mas tudo o que percebo
é meu: céu, inferno, verão, inverno,
tudo o que minha voz vestir de palavra
será meu.

A moça do tempo anunciando dias ensolarados.
A moça triste, que no ônibus senta ao meu lado.
A moça linda que perfumada vem deitar-se comigo.

A moça quase loira, quase ruiva, quase morena, 
quase-poema, mulher de um quase-bom amigo.

A moça invisível, cuja mão doce resvala em minha testa
secando meus suores quando meu corpo quer batalha
e minha alma pede abrigo.

Tudo o que pretendo nomear
será sempre meu.

Tropeço no mar
e ele me grita seu nome, seu cantar,
seu ruflar de tambores oceânicos, seu gozar
de mil virgens afogadas, este hurrar de pescadores
que saíram pra o mar, o mar, o mar, o ar, ar, ar, ar, 
o cantar de quem se afoga, o respiro de quem roga
por mais ar, ar, a procurar os cabelos das sereias
por onde se segurar, no mar, o ar, no mar, este mar
que vai e vem em ondas e ondas e ondas, e uma semi-pausa
com mais ondas e ondas a contar, a cantar, a dizer, 
a falar, que seu nome é só e tão somente 
o mar, o mar, o mar...

Tomo posse, não para o uso diário,
Mas para o solitário hábito de contar moedas,
contar conchinhas coloridas, contar meus medos.

O corpo das coisas
pertence a quem os nomeia.

Assim mesmo, quem diz que me ama
reclama para si o sangue de minhas veias
e bebe comigo deste cálice
e aceita o quinhão de dor
e amor, que virá.

O nome das coisas é sua alma.
O corpo delas é a palma
da mão de Deus, que não existe
mas cujo gesto potente faz nascer o sol
e tremer os ossos dos nossos campeões.

Tudo o que não tem nome 
está morto.

Assim o evangelista desvendou o segredo
em seus testamentos escritos em pedra
e medo.

No início era o verbo
(note que ainda sem rima)
e da primeira palavra se fez a carne
e do tutano das vontades fez-se o nosso
desejo por consumir pele, pêlo, carne e ossos
aos que nos prostramos hoje com orgulho e mágoa
pois nosso choro verteu os mais belos oceanos 
e o espírito de deus, quase naufragando, 
seguiu sorrindo, boiando
sobre as águas.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

QUIMERA



As flores já nascem murchas
quando não acreditamos na primavera.
Ainda assim, elas nascem, e ainda assim são flores
porque no peito de todo homem triste e descrente
queima secretamente uma florida quimera.

domingo, 5 de outubro de 2014

RELÓGIO







Todo homem precisa de um relógio. 

De pulso, 
principalmente.

Pois os de correntinha 
para o bolso da casaca 
já não se encontram mais, 
estão fora de moda: 

o tempo engolindo as casacas 
mastigou junto os relógios, 
nem a correntinha sobrou... 

Mas voltemos ao pulso, 
que a hora vige (urge) 
cortando os pulsos, digo,
fatiando as horas como se quer

e é preciso contar as coisas, 
antes que elas - as coisas -
 se esfarelem no tempo. 

Eu dizia que todo homem precisa 
de um relógio, de pulso. 

Não pelo relógio, nem pelo tempo perdido 
em tentar contar as horas, intermináveis.

Não, o relógio de pulso 
não servirá para absolutamente nada 
além de estar ali, no pulso, sentindo ele mesmo - o relógio - 
que ele não é nada, mas sob ele pulsa um milagre, um homem, 

cuja consciência do tempo inventou palavras 
como finito e infinito, perene e fugaz. 

Sim, embaixo da caixa do relógio, 
utensílio que em vão marca as horas, 
há pele e pêlo, e vontade, e coragem, e medo,
tudo muito bem organizado nesta máquina delicada, 
finita, bonita, cuja consciência do eterno 
é o princípio e fim de todos os tempos, 

e enfim a suprema justificativa 
para que o homem use o relógio, 
e não o contrário.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

GOMORRA



Corra pra gomorra!

Cena 03. Tomada 04.


Travelling. 

Fade out to white.

Fade in from black.

What the fuck?


Plano iraniano. Plano japonês.

Plano sueco. Americano, não.

Plano pornô-gospel. 


O diretor 

não se decide.


Música.

Acordes interrompidos 

em 00:13s.


Close up da boca. Dos olhos. 

Das mãos. O toque nervoso.

Um seio borrado. Gemidos em off.

Uma nuca, os pêlos finos, negros,

muito nítidos, em primeiro plano.


Mulheres de olhinhos puxados.

Homens de olhinhos fechados.


Os anjos garotos

começando a ficar excitados.


E os deuses marotos, 

olhando para o outro lado.


Corta!

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

PEDRA-DE-FOGO





Na foz de uma alvorada intranquila

percebo um tremor na arquitetura do teu corpo:

entre pele e pêlos passeia uma vontade indomável

que poreja em perfumes traficados por suas veias.


O açúcar da paciência se deposita devagar

no canto de cada hora descoberta pelo seu tato.

Teus olhos ladrilhados de espanto vertem o âmbar

que inaugura no horizonte a ópera do crepúsculo.


Teus seios, como ogivas de um róseo marfim,

desafiam a tessitura dos olhares alheios.

Coxas tectônicas se abalam sob o vestido de chita

criando a sinuosa verdade que assombra os moços

e os velhos.]


Os fracassos celebrados à flor da tua pele

são revogados em ata no teatro da memória.

Nada escapa de tuas mãos de neblina

ainda assim, libertas pássaros de perdão

no tumulto das horas.]


Se fosses bonita, haveríamos de cantar teu nome

à beira do cais, quando as naus partissem para guerrear

e os heróis, embriagados, lançassem seus corpos ao vento

traçando um risco prateado no ar, como estrelas cadentes

numa louca revoada por cima dos penhascos.]


Mas és como a torre branca onde o atalaia canta

o pregão lamentoso que acorda as cidades no oriente.

Os teus cabelos são labaredas fugidias que se levantam

na rubra sanha de um sonho interrompido, mas recorrente.


Haverão poetas traficando a tua sombra nos parques

e nos becos da imaginação dos meninos a tua silhueta

será pedra de toque, templo desfigurado por fiéis e ímpios

que te recebem como nova Babel, Constantinopla, Sodoma,

quem sabe uma Atlântida, talvez um novo Olimpo.


Mas tu, cidade partida, pouco sabes

dos cataclismas inspirados pela tua lenda.

A Via Láctea é o teu umbigo, e as constelações

mero adorno, contas miúdas que perolam teu colo

de assassina que tem a culpa, mas não o dolo.]


Distante do alcance da voz dos poetas

moram as palavras mais nobres, mais belas.

Nessas terras os menestréis são pássaros de rapina

à procura da mínima brisa que lhes dê sentido à rima.


Cidadela minha, onde habito sem morar,

peço-te apenas que me deixe pisar teu chão.

Há escombros por toda parte, mas a sorte deu-me um lar

onde a pedra que trago no peito queima voraz noite adentro

recusando ser diamante, preferindo ser carvão.]



sábado, 20 de setembro de 2014

SAL






A moça feia
é linda.
A moça linda
também.

O poema não.

Mas
olhando melhor,
é.

Finda a hora,
mas não o tempo.
Debaixo dos ponteiros
de qualquer relógio digital
Deus olha, ouve, escondido.

O poema não.

Note a lira
sob o lençol da rima fugidia
ritmando o verso torto
que mesmo morto
respira.

Desconstrua 
um truísmo verdadeiro
e coloque suas verdades 
(mesmo as inventadas)
no saleiro da mentira.

Faça um churrasco
de mil gatos pardos
na sagrada pira.

Ignore a carne.
Não o tempero.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

ULALUME



Por ter arame farpado na carne tenra
gozo devagar toda vez que a máquina do mundo repuxa
os fios, os liames, os nós de arame e sonho.

Minto 
e sinto que um manto de realidades imaginárias
substitui o concreto armado por este corpo que habito.

Toda sentença revoga e revigora destinos possíveis e impassíveis.
Tese e antítese, preto no branco, o todo para um ou um para cada:
é assim que a serpente do bem e do mal morde a própria cauda.

Os deuses mais poderosos nascem do medo da morte.
E a sorte dos homens é sempre lançada em dados viciados.
Por isso não há dor que resista a uma idéia fixa, um arquétipo inventado.

Tristes fados me enfadaram por demais.
Os olhos desejam a inconstância sedutora dos mares,
mas os pés logo se apaixonam pela maré cimentada no cais.

Ainda assim, rompendo as fragas, flagro
um sorriso digno, o signo forte 
que projeta os milagres.

Há um lugar no mapa do mundo 
onde nenhuma rima funciona.
Lá, as pessoas tem esperança. 

Uma esperança de ferro fundido
urdida na densa tessitura de um espasmo:
um arrepio de fios de ouro na foz dos meus poros.

Auroras se consomem 
no espelho de aço brilhante
das pupilas dilatadas dos cegos.

Negras luzes traduzem estrelas mudas.
E já não achamos absurdo, que os poetas berrem,
zurrem, hurrem, gritem para contar seus segredos.

domingo, 14 de setembro de 2014

SERPENTINA



Os platonismos, suculentos, à mesa.
Eu sem dentes pedindo a sobremesa.

As transferências saltando da tela.
Eu sem espelhos, mirando os olhos dele pensando nela.

Os falsos profetas e os erros de diagnóstico. As inferências
logo ali onde a carne faz governo e a mente não tem gerência.

O ódio no prelo, o dolo num átrio, a pátria da fala e do falo
existindo onde os signos se propugnam, e eu me calo, apenas me calo.

O amor no deserto; as mãos, espertas, chamam.
Decerto que um erro me acerta, brota no peito em ramas.

Perante a palavra não-dita, todas as escrituras sagradas
serão benditas, e por isso mesmo deverão ser apagadas.

Há um poema em algum lugar
onde oceano é lágrima, e uma gota é mar.

Esconder-se, apenas sob os holofotes.
Onde não se vê a serpente, ali é que ela dá o bote.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

TENAZ



Escavam-me o peito de madeira sem lei

mil goivas desgovernadamente minuciosas:

o arrasto do gesto encalacrado no musgo dos hábitos

é o que determina a vontade dos objetos, 

mas não o rumo das mãos.


As mãos seguem os utensílios,

a coisa resume a gente como os pais resumem os filhos.

O gosto do gesto apalavrado, pendurado na ponta da língua

ou tatuado na virilha, veloz como um espasmo, voraz como uma íngua:

oh, se todo homem fosse mesmo uma ilha o oceano já estaria à míngua.


Habitarei a derradeira interrogação

com a doçura rascante dos que já não crêem

que seja necessário haver respostas para qualquer coisa

pois toda redenção é fogo-fátuo crepitando no temporal.


Note, perceba, mire, veja: no arpejo desta hora vibra o canto

de um arauto cuja língua foi cortada, cauterizada, e engolida

por seus patrícios, compatriotas não de um lugar, mas de uma sina

fundada pelo poema primeiro, justificada pela derradeira rima.


Baixo a guarda, desvio o metal dos olhares

procurando dias melhores entre os despojos catados

numa esquina entre o amanhã e o outrora.


Espada e escudo são inúteis.

O verbo inventado resvala na foz de todos os signos:

não fui digno do poema de ontem, nem serei deste agora.

domingo, 24 de agosto de 2014

O BICHO




O m(eu) animal 
não ruge.

Urge nele apenas
- por baixo de pele,
pêlo, pena e escamas -
uma imensa vontade
de não esconder 
virtude ou vício. 

O m(eu) animal
ereto na penumbra
dos seus próprios desejos
despeja o seu magma em vão.

Expirado o prazo do seu gozo
na expiação de todo pecado não cometido
o animal desdenha espelhos que não sejam
opacos, ou cacos de outros espelhos
onde sua alma feérica se partiu.

O membro potente como um arcabuz
reluz em suas mãos trêmulas que apontam
musas silentes, musas potentes, musas
que ousam ser apenas simples poemas
forma terrena de toda coisa-menina
declarar sua natureza oculta
e divina.

E há sobretudo o silêncio
de uma rima 
errônea.

E há sobretudo o acaso
e a repetição de arquétipos
nada poéticos.

O m(eu) animal 
não ruge.

Urge nele apenas
- por baixo de pele,
pêlo, pena e escamas -
uma imensa vontade
de não esconder 
virtude ou vício. 

Por baixo
de tudo isso
somos todos
bichos.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

SALAMANDRA







A pele morna 
das bonecas de plástico moreno
e o bocejo frio dos mortos que observam
de dentro do marulho dos tambores oceânicos
entre os poros de um tempo cuja derme se descama
em fatias de vaga lembrança, em descoradas escamas
que se esfacelam ao primeiro vibrato da canção da alvorada.

A pele morna 
das princesas de ancas grandes
e seios pequenos, negritas vorazes
cujo tépido rumor de mil gárrulas nas praças
ainda posso ouvir dentro da concha de cada domingo
oxigenado pelo riso e pela mágoa dos santos de barro
sobre o ouro traficado pelas mãos macias dos profetas
encantados pelo sopro da monção desse outono dourado.

A pele morena
dos negros que habitam os palácios
e penetram carnes brancas, pretas, vermelhas
ao som do velho tambor de senzalas inventadas
e terreiros onde poetas vertem champagne e cachaça
e comem o fubá dos ímpios, a farinha dos infiéis, o cará,
o inhame, a batata, os liames da cozinha das vaidades alheias
cantadas em prosa poética nas catedrais que ardem em chamas
e em labaredas azuis cintilam constelações de almas despudoradas.

A pele morena
dos taróis cuja voz tropical de guerra e paz
posso ouvir ainda, no eco rebatido nos umbrais
dos casarões dos bairros onde o sol demora a chegar
e onde a lua não vê o mar imenso a cantar serenatas vulgares
mas apesar dos pesares há o amor, e o poema de mil estrofes
multiplica os caminhos por onde meus dedos podem passear 
e sem pressa deflorar todas as folhas brancas e vulvas róseas
que se perfilam diante de meus olhos cansados porém sequiosos
da velha novidade que é o amor, o amor, o insidioso milagre do amor.

domingo, 17 de agosto de 2014

AJNA





Lavo meus pés de açúcar
no orvalho frio que a alvorada chora.
Sorrio, pois agora desfaz-se em pó
o caminho traçado pelo teu olhar.

Obedeço o pio de pássaros ignorados

e guardo entre as sobrancelhas cansadas
uma pergunta que não precisa ser respondida
pois flutua silente à margem do ribeirão da vida.

O bojo de um sol ainda menino

cavalga campinas que meditam em paz
na foz de um tempo que não tem dono
onde a lua-moça esconde meu sono.

Enterro as mãos pretas na seiva de um nenúfar

que desabrocha cedo na testa franzida da manhã.
O canto breve da esperança inaugura o dia de par em par.

Geleiras frigem cacos de luz: 

os primeiros azuis beijam
as pálpebras pesadas do mar.

Que o primeiro poema deste dia seja

um canto feliz para dizer adeus 
aos que ainda estão para chegar.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

VIBRATO




Madrugada adentro
leio vorazmente a minha sina
em palavras alheias.

Faço poemas
como quem corta com faca
e expõe da palavra o tutano.

Mas do nervo posto
mantenho intacto o seu vibrato.
Toda punção de vida e morte
procura na esperança o seu contrato.

Palco iluminado.
Panos coloridos, dourados,
sob a rima dolorida, adorada.

Lavro termos incongruentes.
Dísticos rolam sem a beleza dos cordéis.
Tudo o que tenho são cacos de vidro
sob as unhas.

Um baixio de bestas no peito.
Toda melodia expira antes do fim.
Ouça, a canção estaca
no oco da gente.

Inspiro, escrevo.
Um arfar que na noite longa
ainda canta.

Respiro.
Há pausas inconfessadas
nas entrelinhas.

Minha espada
escava sulcos no verbo.

O metal passeia
por baixo da pele inerte:
artes de um fauno sem floresta.

Que ninguém me entenda.
Vendo barato este ouro
que não é meu.

Maremotos perpétuos
aprisionados numa concha
ainda podem afogar os sonhadores.

Trago agmas enferrujadas
nessas cordas vocais onde eu quis me enforcar.

Canto.

Povoo de vento a boca desdentada
desta alvorada veloz.

Na coxia anasalada de uma sílaba forte
talvez haja redenção, talvez não.

domingo, 10 de agosto de 2014

SOBRE A NOITE EM QUE DECIDÍ NÃO SALTAR




O quê sou eu, além deste corpo que sobrevive?

Sou a reunião de células e vontades, sou gametas e verdades.

Sou todas as impossibilidades desmentidas, o fato, o feto, a vida.


O quê sou eu, além deste exilado, este que não saltou de um décimo andar qualquer

ao provar num dia primeiro, num ano novo, o veneno de um velho perfume de mulher?


Digo, sou a estrela cadente que se recusou a ser finada

e prosseguiu voando, num arco eterno, oriente a ocidente, do tudo ao nada.


O quê sou eu, além deste corpo que sobrevive?

Sou todos os amores que tive e não tive, e sou ainda muito mais

pois trago em mim todos os brilhantes segredos ocultos nas fossas abissais.


O quê sou eu, além deste banido, este que não voou entre os artifícios de fogo

que emolduravam a cena tranquila desta corte onde sempre fomos os bobos?


Digo, sou a mais bela equação, o romance épico numa versão jamais publicada:

o poema do amor perfeito, que não existe, mas resiste, no ventre do vento, no seio do nada.


sábado, 9 de agosto de 2014

SENTENÇA


Para além do horizonte que borda de vermelho-marinho 
a linha curva deste oceano de chumbo e sonho...
Para além das torres de marfim que se erguem das ilhotas que bocejam
grávidas de caranguejos tristes neste fim de tarde...

Para além dos guardanapos onde o bardo sem nome depositou
seu último verbo voraz, sua pérola de papel amassado...
Para além dos casarios do Méier, descendo a Dias da Cruz
sob aplausos das amendoeiras que teimam em sobreviver...

Para além dos sobrados da Gamboa, onde as putas e os poetas sonham
com dias melhores numa terra sempre ruim...
Para além do sol rascante de Bangu e das coxas magras das raparigas
espremidas num bólido lotado em Marechal Hermes...

Para além dos cassinos (jamais clandestinos) da Rua Holanda, ao lado
da antiga Mesbla, uma quadra depois da Banca do Osório...
Para além dos tiros da Maré e dos profetas do Sapê, entre os nenúfares
que do mangue despontam como ogivas de celofane...

Para além das janelas fechadas dos apartamentos do Jardim Botânico,
das arcadas defloradas e das balaustradas leoninas da Fonte da Saudade...
Para além das ruivas que gastam tristes cobres nas boutiques do Leblon
e das negras sorridentes que dobram os joelhos na Igreja da Penha...

Para além dos dezoito silenciosos torcedores fanáticos do América
e das minhas vinte e três ex-namoradas delicadamente histéricas...
Para além das bundas empinadas dos mordomos sexagenários do Cosme Velho
e das carteiradas infantis dos promotores públicos de pênis flácido da Barra da Tijuca...

Para além das mesas de sinuca da Lapa e do pastel com garapa em Xerém,
e mais distante ainda que as lindas colinas para onde vão os trens de Machambomba...
Para além dos falsos sabres de luz dos black blocs de Laranjeiras,
e dos jambeiros floridos nas doridas calçadas da Sulacap...

Para além das pitombas raioativas colhidas nas ravinas do Joá
e das saias de tergal das freias feias e fortes que caminham na Usina...
Para além das rimas desbocadas das nove poetas muito mal comidas
que juram ter oito amantes virtuais que, dizem as más línguas, são caras muito legais...

Para além do papo cabeça dos feirantes num domingo em Osvaldo Cruz,
e das homéricas festas de suingue com senadores e pugilistas do Alto da Boa Vista...
Para além das entrevistas de emprego frustradas no estranho bairro da Abolição,
e os malogrados amores biônicos nascidos ao meio-dia na Praça Saenz Peña...

Para além das treze novenas rezadas pelas matronas de Padre Miguel,
sob um céu cáqui entre nuvens de uma poeira chamada pirlimpimpim...
Para além das mãos velozes das debutantes que nos abriram os zíperes
numa noite fria, de sangue quente, num inverno tropical...

Para além das palmas que desembolsamos nos saraus do Catete
louvando a falácia bêbada dos nossos heróis de meia tigela...
Para além da brancura das mãos dos candidados a suplente de vereador 
que beijam a mão preta das madames desdentadas da festiva Madureira...

Para além dessas tardes inteiras em que os desempregados sonham 
com qualquer coisa que não seja essa imobilidade vertiginosa e causticante...
Para além dos xiliques e dos rompantes das filhas ricas dos incas venuzianos
que acham difícil escolher entre murta e linho, sangue e porra, tequila ou vinho...

Para além dos seios empinados das estudantes do Colégio Santo Antônio dos Três Olhos
que tentam escapar do nosso olhar de lobo impotente mas feliz...
Para além da raiz morena dos cabelos loiros das vilãs da televisão
e dos perfumados pùbis das filhas do pastor Leonel, do Itanhangá...

E para além dos vidros fumê da funerária Monte Carmelo, onde há uma roleta
onde a gente pode confiar, e jogar entre os caixões, e ter fé no número vinte e três...
E para além dos porões dos quartéis do Realengo, onde o coronel Vilaça
devora rapazes depenados e vendidos por doze reais e cinquenta centavos o kilo...

Para além dos dias em que comemos sopa de ostras com tomate, sem as ostras
e tomamos o suco de vulvas virgens com limão siciliano, sem os limões...
Para além dos salmos que cantamos escondidos para não despertar os crentes
que entre cercas de arame farpado observam com olhos de pardal...

Para além dos sonetos portugueses da minha adolescência
e de todos os discos do Bob Dylan que não comprei quando podia...
Para além das fantasias de carnaval e dos trajes ecumênicos
que se confumdem na Quaresma incerta e linda, imaginada por nós, infiéis...

Para além de todas as almádenas de cabeça quebrada
e todos os atalaias vencidos pelas mágoas da noite anterior...
Para além do rumor dos computadores e dos estertores da lei
dos ídolos com braços de fibra óptica...

Eu miro de olhos fechados e vejo fatalmente declarada 
a sentença entre as sobrancelhas brancas deste mundo: 
para além, muito além de toda a vã poesia,
amanhã, definitivamente, vai ser outro dia!

sábado, 2 de agosto de 2014

VOCÊ VAI QUERER UM FÍSICO NO SEU FUNERAL




Aqui vai uma tradução livre, muito livre, com algumas adições poéticas minhas (peço licença) do excelente texto "You Want A Physicist To Speak At Your Funeral" do jornalista americano Aaron Freeman. 

VOCÊ VAI QUERER UM FÍSICO NO SEU FUNERAL 

No meio de tantas perdas e tantos questionamentos sobre o medo da perda, eu, perdido num mar de idéias e crenças, procuro o Cosmo, e espero que o Infinito me conceda senão sabedoria, ao menos conforto. E no meio de tantas perguntas, rascunho sobre os rascunhos de um jornalista que tinha as mesmas questões, eternas, perenes, sobre essa partida, que deve ser apenas um até logo.

A vida é um sopro. E o fôlego do universo não cessa.

Você vai querer um Físico no seu funeral, podes crer.  E sigo explicando (apostolando, advogando, tentando te convencer sobre) o motivo disso...

Você vai querer que ele explique aos seus familiares em luto sobre a 'Lei da Conservação da Energia', e então eles vão entender que sua energia não acabou quando você morreu. Você vai querer que o Físico lembre a sua mãe soluçante sobre a 'Primeira Lei da Termodinâmica', explicando que nenhuma energia é criada no universo, e nenhuma é destruída. Você vai querer que a sua mãe saiba que toda energia, cada vibração, cada BTU de calor, cada onda de cada partícula que constituía seu amado filho permanece com ela no mundo. Você vai querer que o físico lembre a seu triste pai que em meio a energia de todo o cosmos, você ainda existe. Você persiste, não sob a mesma forma, mas em diferentes espectros energéticos.

Em um certo momento, você esperará que o Físico desça do púlpito e caminhe em direção a seu marido desolado, ou sua esposa de coração partido, explicando a ele que todos os fótons que um dia saltaram do seu rosto, todas as partículas cujas trajetórias foram interrompidas pelo seu sorriso, ou pelo toque dos seus cabelos, centenas de trilhões de partículas que corriam por aí como crianças, tiveram seus caminhos modificados para sempre por sua causa. E quando o seu amor se atirar nos braços dos familiares procurando por conforto, que o Físico explique que todos os fótons emanados de você foram reunidos nesse belíssimo detector de partículas que são os olhos dele, e que esses fótons, criados dentro da constelação de neurônios eletromagneticamente carregados por dele, existirão para sempre. Para todo o sempre!

E o Físico lembrará a todos que muito da nossa energia é perdida na forma de calor. E enquanto ele explica isso, muitas pessoas estarão se abanando devido ao calor deste dia, ou se protegendo do frio, que seja. Então ele vai explicar que o calor que fluía através de você enquanto você vivia ainda está aqui e é parte do todo que nós somos. As trocas energéticas são isso mesmo: trocas. E todas as energias trocadas seguem se transfigurando infinitamente.

E você vai querer que o Físico explique àqueles que te amaram que eles não precisam ter fé ou religião. Mas eles podem ter, se quiserem, pois a fé é um conforto, também. E a fé com sabedoria é difícil, mas não impossível. E mesmo o impossível deveria ser desejável a todos nós, pois tudo é impossível até que alguém o faça. 

Ele vai explicar também que os cientistas conseguem medir e quantificar muitas coisas, e que eles já concluíram o quanto a 'Lei da Conservação da Energia' é acurada, verificável e consistente através do tempo e espaço. Então a sua família procurará pelas evidências e ficará satisfeita ao descobrir que a ciência é sólida e que eles podem, portanto, sentir um conforto enorme ao lembrar que a sua energia ainda está por aqui. De acordo com a 'Lei da Conversação da Energia', nem um pouquinho sequer de você vai embora com a morte; você apenas passa a existir de outra forma, uma forma menos organizada, porém mais livre. E isso, eu creio, é voltar ao seio do Universo, o que muitos chamarão de voltar ao 'Cosmos' ou a 'O Criador'.

Amém.

[Marcelo Sousa (Agosto de 2014) d'aprés Aaron Freeman (Junho de 2005)]