Ask Google Guru:

quarta-feira, 22 de abril de 2015

PRIMAVERA







Observo pássaros invisíveis
afogados na prata líquida dos teus olhos.

Desço ao fundo de mim e espero
que chova punhais sobre nós.

Fluo
como um rio subterrâneo.

Os sedimentos
brilham dentro da ampulheta.

Poeta algum
poderia pensar versos mais tristes

que estes que não escrevo
agora que aprendi um riso

protocolar, bonito
como um contrato assinado,

moeda falsa cunhada
em ouro verdadeiro.

Há um cansaço imenso
em tudo o que não é rotina:

uma neblina
espêssa cobre os cantos

da tela. A dicção dos pássaros
imita sinos quebrados, enterrados

em florestas de vidro,
véus de pedra, orgias, missas,

lembranças, engenhos de sonho,
mágoa, cal, fel, bile, húmus, a baba fina

dos santos de barro
e dos anjos no espelho.

Ao meio-dia a lua ainda
está no céu, carimbo de breu
no firmamento.

Esses dias
que já nascem podres
ainda podem ser fantásticos.

Ânforas e odres
estarão quase cheios,
já estando quase vazios.

Ainda há tempo.
Manhãs vão se despetalando
numa ciranda que não cessa:

são rosas cancerosas, sujando
as horas com sua maravilhosa
e terrível sentença.

Teço uma prece
com a pressa pacífica
de quem sangra.

É tempo
de fruta madura
e eu estou em flor.

Senhor,
a ti eu rogo:
colha-me logo.

terça-feira, 21 de abril de 2015

ROTINA





Estrelas mortas brilham sem cessar.
Noites inventadas rolam no teatro do dia.

A salmodia dos pássaros envolve a manhã
com o celofane rosa-azulado da alvorada.

O mar - chumbo derretido - ronrona baixinho.
Oceanos dormem, não é necessário

marulhar demais, porque silêncios clamam por silêncios,
e fazem, sem pressa, uma sinfonia delicadamente terrível.

É preciso cantar. 
E cantar, e cantar, e cantar.

O tempo se assenta em finas camadas, inaugurando
todos os abismos guardados nos relicários da rotina.

A tez, os pelos, os cheiros da madrugada.
Tudo é muito perfeito, e por isso precário.

Aceitamos açoites imaginários
enquanto chicotes reais rodopiam no ar.

Queremos grunhir, cantar, 
sorrir, sofrer, gozar.

O versos se repetem,
vida ao avesso.

[Poesia é asa
e topeço.]

Tragam violões, 
mas não os toquem.

Há tanto o que dizer,
que é melhor calar.

Tudo o que não for poeira 
de estrada, é mar.

Sejamos fortes, 
sigamos o mestre do canto.

Há um sorriso guardado
em seu lamento.

Tudo é bom, e mal
percebemos isso.

No meio do lodo
é que nasce a flor-de-lis.

Note, a voz de um deus inexistente 
preenche todos os espaços

e suas cantigas vem como ondas, e mais
ondas, e mais ondas de mágoa clara e limpa.

Tudo é bom, e mal
percebemos isso.

E só o poema poderá achar fácil
o que com dificuldade a vida garimpa.

terça-feira, 14 de abril de 2015

PREGÃO





Não vou cantar aos meus irmãos
porque já amanheceu nos trópicos sujos e dourados
e nos planaltos boreais chove estrelas de sal na noite branca.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque há operários humanos engendrando o dia
enquanto a alma barulhenta das máquinas descansa.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque minhas musas perderam a cor, a doçura,
e o canto das sereias já não é novidade: pregão de putas tristes.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque é preciso cavar trincheiras, erguer muros,
e temer com fé e força um inimigo que não existe.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque perdi muito tempo ganhando a vida
enquanto as flores erguiam catedrais de poesia, em vão.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque há sementes de metal espalhadas nos pomares
onde festejamos porque hoje sobra o vinho, amanhã faltará o pão.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque hoje não vi o mar imenso ronronar ao sol
espraiando seu dorso azul que o horizonte devagar acaricia.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque é preciso estar alerta, esperto, maneiro, malandro,
e de vez em quando lembrar que a vida liberta, mas o viver policia.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque em todos os espelhos há estranhos mirando
os olhos negros que serviam de leito e abismo para os meus.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque nas assembleias dos grandes poetas
já não se encontram amantes, nem amados, só comerciantes, 
[valha-me deus!

domingo, 29 de março de 2015

VOO



Certo de que pão é pão
e pedra também, segui adiante
galopando os anos como quem
atravessa um planalto no escuro
fazendo pazes com inimigos 
presentes e futuros.

Desfiei rosários coloridos
enquanto ensaiava morrer
cruzando alvoradas em vão
pois havia sempre a promessa
de um sorriso à beira de qualquer
abismo, ou colo de mulher.

Era preciso revisitar
os mesmos versos para abrir
caminhos diferentes, como faz
o verme voraz na carne viva do animal
que morre aos poucos, mas pulsa ainda
nele algo que talvez você, inadvertidamente,
chamará esperança, asa quebrada, única,
esquerda, pendente, inútil ao voo, mas não
ao ofício imprescindível de sonhar.

Ao contrário do que muitos pensam
o fim não é um alçapão, um poço sombrio,
nem é fria a nossa extinção. Pelo vão
desta porta vejo - imagino - um sol
abrasador, porque a luz dourada
chama com labaredas que dançam
sinuosas como espadas
sacerdotais.

O que mais
haveria por trás dessa porta,
senão outras, milhares, num corredor
estreito, que não termina jamais?

O poema.
No fim, ao cabo,
ao longo, e sempre.
Mas
não importa:
abertas ou fechadas
creio que essas portas
já não levarão mais a nada.

O que digo?
Nenhum vinho acolherá
o torpor dessa noite em que estou
só, com minha sobriedade.

Há musgo entre os ossos
das figuras desenhadas
na parede.

Por baixo da pele das tintas
o concreto armado sonha ser nuvem
e todo edifício, por isso, pode um dia
desabar, vir abaixo, virar
pó, luz, névoa, mar.

Ontem mesmo
eu tinha vinte e três anos de idade
e as cidades da Europa eram flores
com nomes estranhos mas perfumes
já muito conhecidos: eu era imune
aos venenos trazidos pelos sorrisos
das mulheres, dos homens e das
crianças.

Hoje
um verso quebrado me completa
e a métrica dos meus dias futuros
perde fôlego sob a sombra das rimas
que já se cumpriram: minha história diz
o que a carne calada sente,
e por um triz não grita,
mas reverbera
sem saber.

Paro. Respiro.
Respire comigo.
Perceba: o verso divisa, revisa,
o verbo conjugado por tuas narinas.

Poesia é voo 
e tropeço.

Não há rima que não possa
- não deva - ser quebrada.
A asa perde as penas,
o ritmo do seu bater
é tudo, e nada
importa mais
que isso.

O poema.
No fim, ao cabo,
ao longo, e sempre.

O URSO POLAR



Eis ali um urso polar,
figura impávida, altiva.
Acena com a pata esquerda,
sentado na colina branca que se alonga
até além de onde nossos olhos podem divisar.

Sobre ele, no céu de prata branca,
brilha um sol igualmente branco, gigante
por trás das brancas nuvens que passam
velozes, fustigadas pelo vento bravio
que passa, passa
e não cessa.

Em certo momento,
a aurora boreal se desvela
coruscando fagulhas do éden
serpenteando a miríade colorida
que dança na atmosfera carregada
sobre a vasta moldura de seda branca
daquele horizonte imenso e eterno.

Nada se vê, além das cores diáfanas
que bailam lindas, sem testemunha.
O urso ali está, ou não está mais,
não se sabe, não mais o vemos.

Nem sabemos se olhamos
ou somos reflexo, resquício,
vício dos olhos cansados
de um deus que se distrai
mirando a tela enorme e brilhante
onde o tempo brinca de mostrar
o aceno singelo - e bonito -
daquele urso polar.

DEPOIS DA TEMPESTADE



Marulha na areia o barulho do mar menor,
o orgulho das marés, o perfume, a dor que o peixe
fisgado sente, o amor do pescador que o mata, enfim,
a prata das ondas resvalando no horizonte de hoje, o maruim
dançando na poça, as roças marinhas e as vinhas oceânicas,
o torpor, o vento alazão, o aragano, a monção, a reza boa, deixando o ontem
para a frente, o futuro para trás, a luz dura que reverbera na vaga avassaladora
traçando rimas de sal e sol sob o arrebol deste poeminha marejado, que sobeja,
rumoreja, beija a boca seca do poeta que morre afogado, afogado, afogado, talvez morto, talvez salvo, talvez banido, talvez falido por apostar todas as suas moedas num poema inacabado...

BOM DIA



Os deuses olham
e sorriem.
A treva é vária
e colorida.

Acendo uma vela
imaginária.
Faz tempo bom
entre os seios dela.

As coxas guardam
um magma que descansa
perfumes de tragédias abissais
entre o riso nervoso de poetas
que pedem mais
e mais.

Mas ela dorme
e a noite enorme se faz dia
sem que os anjos digam amém.
É domingo, em algum lugar
dentro dela.

Ouço.
Há um cicio.
O lábio ousa
falar de coisas cujo som
não se reduz em palavra.
O poema não diz
mas respira no hiato
deste fôlego imenso.

Penso em tocá-la
mas calo o gesto
ao sentir na boca
o gosto da sua sombra
- centelha negra
no quarto gris -
que me alumbra
a vontade de ser
apenas só
carne e osso
alma
e pó.

Os séculos que ela traz
numa vírgula, entre
as sobrancelhas,
reduzem a fogueira
dos meus dias futuros
a brasas dormidas
e tranquilas.

Observo, olho.
Ela me vê.
Tu, mulher
és um tótem.
Tu, que parada,
estás sempre
vindo.

Olho.
Observo.
Não vejo nada.
Estou calado,
sorrindo.

Passa o tempo.
Nada se move.

De repente,
ela acorda, e fere
como quem cura
lançando dos olhos negros
um único punhal de prata
que me acerta em cheio
como um sorriso de
bom dia.

Bom dia,
meu amor.

SOB A ESPADA




Vivo,
via de regra
sob a espada.

Não peço trégua.
Cada dia, cada
hora vivida
um fulgor:

moeda de prata
deixada, escorregada
entre os dedos,
rolada, caída

no poço escuro
para onde vão esses tempos
que são meus, que são nossos
e que são pó e purpurina
caco de vidro, névoa, ossos,

magma, neve, neblina
ferro, linho, pedra, semente,
tudo o que é maravilhoso
e ao mesmo tempo
sem valor

como o esplendor
de cada dia, cada
moeda prateada
atirada sem medo
neste fosso negro

onde guerra e sossego
são gumes do mesmo punhal
tudo ao mesmo tempo, tudo, tudo,
o bem, o mal, e nós no meio,

sangue nos olhos,
ferro nas veias,
cada um, cada qual
cumprindo seu destino
de enfim tornar-se
nada

um vazio vivo,
um rio parado,
a montanha fluindo,
a vida seguindo

sem trégua
via de regra
sob a espada.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Beirute, 2007





Certamente a cidade de Beirute era uma das minhas preferidas nos meses de abril e maio. O perfume do mar penteando as palmeiras é algo a ser lembrado para sempre, assim como a voz miúda e rouca das mulheres que conversam e sorriem umas para as outras do lado de fora do Zonta Club nas noites de sexta-feira, algumas fumando Marlboro e tomando Veuve Clicquot escondido em copos de vidro opaco, quase sempre colorido. Não posso dizer que algum dia estive lá, nem que não estive. Não digo que foram bons todos aqueles dias, nem que foram ruins, nem que houve carinhos, ou que deixei um único tiro pousar como um besouro de metal negro entre as sobrancelhas mais-que-negras d´um pobre coitado não-tão-pobre e nem-tão-coitado assim. Mas posso te dar a certeza de que ali pela Rua do Mercado 67 há um café chamado Flor-de-Lis, onde há apenas uma garçonete com cara de debutante (que escondia com um band-aid um cavalo-marinho tatuado no pescoço do lado esquerdo perto da orelha, e tinha os seios mais perfeitos que já imaginei sob uma profusão de camisas e aventais) que falava francês sem sotaque e desdenhava de quem lhe dirigisse a palavra em qualquer outro idioma - o seu próprio, inclusive - e o dono já muito velho operando o caixa - mas sem jamais errar no troco em favor do cliente - e que debaixo da mesinha (que um dia foi amarelo-mostarda) do canto esquerdo há uma chave de cobre com laço de fita azul e uma folha de bloco pautado, presa com fita forte (que é como chamam por lá o equivalente da nossa fita durex) com um poema, em língua estranha, dizem que em português. É preciso entrar, pedir um café ou uma coca-cola, que é o que se pode pedir por lá, fora a torta de banana com gengibre e canela ou, no almoço, os miúdos de carneiro com arroz branco no leite de coco, pra se comer sem talher, fazendo montinhos com as pontas dos dedos, regando com azeite ou molho de pimenta e cominho, abanando moscas platinadas que vez em quando dão o ar da graça entre a poeira verde-gris e a cantilena indecifrável - mas doce, quase uma cantiga de ninar em pleno dia - que entra pelas janelas. Não posso dizer que algum dia estive lá, nem que não estive, e é justamente por isso que acho aquele poema tão bom.

THEORBA





No alto daquela torre de cabeça quebrada, quando o sol pede paz atrás da campina grande onde os urubus parecem noivas de renda negra, por trás da pardacenta copa de uma figueira brava, o mestre do canto dedilha a sua theorba. Suas barbas não são pretas nem brancas, e seus olhos já dispensaram a necessidade da cor. Os dedos cegos acariciam o tempo escondido entre as cordas de metal, fazendo vibrar o vento do meio-dia, que é o seu jeito de fazer cócegas na rotunda pança de deus.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

CARNAVAL

O dia amanheceu
doendo.

Não era eu,
não poderia ser.

No bolso do pijama
trago sempre um sorriso amassado

para ser vestido logo cedo
e crer no bem que vence o mal.

Ainda assim, senti doer
os ossos quebradiços dessa manhã.

Fingi que não era comigo.
Levei o lixo para fora, varri dejetos.

Arrumei objetos no escritório
e tirei o pó de certas lembranças.

Mas doía, a dor roía
o dia pelas suas beiradas douradas.

Ouvi ritos de festa,
lembrei que era carnaval.

Recusei qualquer unguento,
não teci lamento.

Era a alvorada que doía,
chorando sua mágoa boreal

dos confins coloridos
da dolorida alma de deus.

Dolorido, cansado, alquebrado,
assim o dia amanheceu.

Repito,
era o dia que doía.

Era ele,
não eu.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

CANSAÇO




Na corola da manhã o azul ultramarino de ontem
escorre líquido por entre as montanhas.
Há paz e medo na íris embaçada
que vê outros olhares
alhures.

Dísticos se desencaixam com sôfrega beleza:
os ritmos não rimam, os poemas são pomares
de frutos roxos, que não justificam nem perdoam
o açúcar desperdiçado pelos sonhos
dos infantes.

Prossigo encarando minha finitude
como quem espera uma ave matutina
que vem de longe trinando seu canto de cristal quebrado
e sóbria pousa antes do enquadramento perfeito da foto.

Minha palmeira invencível dorme, mas está atenta.
Em seu sono os ventos passam alisando-lhe os cabelos
que a noite tingiu com as mais bonitas chagas e broquéis
como quem salpica estrelas num céu nublado.

É preciso arar entre os versos
para compreender que não há beleza neles
e ainda assim encher os olhos de águas claras
lavando o azulejo colorido das almas restantes
dos teus delírios mais perfeitos.

Não entender é essencial nessa hora.
Só com as mãos de quem ignora é possível reter
a paz que vigia de dentro desse turbilhão, e dormir
o sono dos bobos, com a firmeza rubra dos inconstantes.

Divago, cansado de estar certo em vão.
Errar por certos lugares tornou-se o pão de cada dia.
Há algo ameaçadoramente bom no horizonte, convém,
por isso, quebrar as pernas de qualquer ave branca

e com isso fazer com que voe sem pouso
e sem uso para o chão, faça tensa a pena leve,
e breve a cena imensa, desfazendo a aliança
entre o que é e o que deveria ser.

É possível que o tempo faça sentido
desfazendo meu corpo de areia como faz o vento
soprando as dunas para onde não se pode vê-las
grão a grão, para dentro do oceano.

Que as aves não pousem jamais, nem usem o horizonte
como faz o poeta, que ara horas acesas enquanto sonha:
na corola da manhã o azul ultramarino de ontem
escorre líquido por entre as montanhas.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O CAVALEIRO DA ARMADURA NEGRA




A armadura negra do homem nu
brilha sob o sol pesado de janeiro.
A carapaça luzidia do bicho pelado
protege do carinho, não do chicote.
Sob o açoite de cada hora que passa
ele precisa cumprir deveres, suportar olhares
e cumprimentar com a cara boa dos fodidos.
A boca beiçuda ri, os olhos vermelhos choram,
mas a cabeça não baixa, e as mãos não imploram.

Homem preto de alma cor de chumbo,
na lama do mundo procuras teus tesouros.
Arrancando suas últimas penas, o bicho alado
sorri olhando para o alto, para os deuses,
para as luzes azuis dos olhos do mestre
que promete vida, e vida em abundância
quando ele, o guerreiro negro sem sorte
só queria descansar a mão (que já não traz a espada)
e o corpo feio e forte, nos braços dourados
de uma boa morte.

O HOMEM GENTIL






O homem genial e gentil existe, mas não o vemos. Não somos nós, não é ninguém que eu conheça, mas sei (tenho essa vã esperança) que ele existe, resiste, n'algum lugar distante. Este homem pouco sabe de si, pouco vive e morre muito, aos poucos, todo santo dia.

Nem mesmo ele se vê, porque em todos os espelhos ele usa uniforme, e se acostuma a dizer "sim senhor" às pessoas e principalmente aos relógios. Em casa diz que sim, e pede perdão, no trabalho diz que está pronto, sempre alerta, no sonho finge que está acordado, está desperto, o peito aberto sempre para o bem e o mal do mundo, as mãos mais velhas que seus olhos, os olhos mais cansados que o corpo, o corpo mais torto que a alma, a alma escondida como um gato preto em noite sem lua.

O homem bom é criminoso, não vítima. Ele existe quando não deveria, ama quando não poderia, responde quando precisaria silenciar, respira mesmo sabendo que seus pulmões já não suportam o perfume cotidiano desse ar. Este homem, que não vai à missa aos domingos, acorda com dor, mas sorrindo. Seus carinhos, guardados na ponta dos dedos, são inúteis, porque dele se espera que seja forte, que seja fiel ao mundo, que seja o primeiro da fila, e gire a roleta russa com a certeza de que qualquer resultado o fará feliz.

O homem genial, gigante, é para o mundo um anão que diz sempre sim, que não ouve as flautas, os bandolins, as harpas, o bocejo do mar, o arpejo das aves que voam para longe, a algazarra dos gatos nos telhados, o homem bom não pode se matar de amor, de tiro ou vício. Cabe a ele viver sua doce maldição, e esperar qualquer bala perdida ou qualquer paixão errada, encontrada numa esquina qualquer, sua mulher, sua princesa, certa como a luz de mil vaga-lumes à margem da alvorada.

Este homem que poderia ser genial e gentil, este homem que poderia ser bom, precisa na verdade ser forte e pequeno, caber nos anseios do outro, dos outros, de muitos que vigiam solenemente com um sorriso no rosto. Ele precisa cumprir suas obrigações frente ao mundo com a maestria comedida de quem já não espera nada além do momento do estouro, o trovão, o fogo que lhe queimará as carnes curtidas pelo sal da vida, pelo sol dourado e dolorido, ah este homem (que já não existe) vez em quando aparece, sorri - sem ênfase - e obedece como quem diz uma prece, ama como quem padece, dorme sujo e sozinho, e esquece que tem que acordar limpo, descansar de pé, engolir o café amargo da vida e o pão pisado pelo tempo. 

Este homem precisa ser genial e gentil sempre, sem mostrá-lo nunca, nunca, jamais. Eis o segredo de toda a sua tristeza, e também da sua paz.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

SOB A PELE DO METAL




No meio da tarde retirei meu sabre da bainha
e a rainha de todas as lâminas - minha alma - 
tremeu ao ver brilhar a luz do metal frio
ávido por abrir sulcos em carne alheia
e ver das veias partidas nascerem rios.

No meio da tarde retirei da bainha o meu sabre
e uma febre imensa arrebatou meu momento de calma
tendo nas palmas trêmulas o corpo sagaz e sereno
de uma criatura que vigia com olhos de faca cega:
em sua sabedoria, o dragão ignora o bem, e tampouco sabe 
o que é o mal.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A VÊNUS TATUADA





Na primeira vez em que o eclipse da tua presença
assombrou a passagem do meu corpo sobre a terra
e os signos brutais que trazias como cicatrizes tatuadas 
por um prazer feito apenas de culpa e mágoa

me fizeram novamente menino em labirintos de pele alheia
com as veias secando o magma tranquilo que num repente
agalopadamente denso atreveu-se a reverter meu tempo
em escamas de uma insidiosa, porém doce memória,

achei que teus olhos eram uma clara fúria verde
que se dissipava nas marés de uma voz rouca de mulher
mas quando já seguia longe o manto dourado dos teus pêlos
e o perfume nauseante da tua existência se acalmou em minhas narinas

percebi que eram negros os teus olhos, eternamente negros
como uma noite sem lua, como um segredo desvendado antes da hora,
como a luz negra que na hora da morte a alma persegue em transe
sem saber se voa ou se cai, se chega ou se vai, se ri ou se chora,

como uma rua dentro de uma caverna, como o signo da sorte
que entre as pernas da sereia os homens, tolos, procuram
e procurarão para todo o sempre, como eu que em ti
procuro um fim para uma dor que sinto mas não reconheço,

como eu que pago as parcelas da tua companhia
com as migalhas platinadas do meu próprio espírito
algo que nem o divino fiador de minha alma 
saberá dizer o preço.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

ASSIM É SE LHE PARECE





Nada é.
Mas tudo continua sendo
um eterno vir-a-ser.

Até mesmo eu
poderia ser, amanhã,
você.

Porém, aquilo que já foi
contém a semente do que, não existindo,
espera em qualquer esquina, 

para te olhar nos olhos,
e com um riso sarcástico
dizer apenas "oi"!

O pássaro bonito
que você não vê no céu agora
jamais existiu, ou passou voando n'outra hora?

A mulher perfeita, a que mais te amou
não existe, ainda está por vir, ou
foi aquela que tu deixastes ir embora?

Saber 
não é ter certeza.

Perfeição
nem sempre é beleza.

Toda chama queima
mas nem toda aquece.

Todo vício é ruim.
Mas nem sempre a gente
por causa do vício adoece.

Tem remédio que trata.
Mas pra quem não está doente,
qualquer remédio mata.

Todo poema é só um poema.
Ou assim é se lhe parece.

[Na pressa, 
qualquer 'deus me livre'
vale como boa prece.]

domingo, 4 de janeiro de 2015

POMPÉIA





Há flores novas crescendo no solo negro e quebradiço.
Algumas casas resistiram, os lares, mesmo os menores, 
são maiores que qualquer mero edifício.

Quando o Vesúvio acordou de um sono intranquilo
o sol envergonhado cobriu sua face dourada
e a lua chorou lágrimas de sal sobre o mar.

Marés de condenados assomaram sobre as campinas
que amarelavam em labaredas de um inútil desespero
enquanto os deuses se fartavam de gargalhar.

Em alguns cantos da cidade desolada, 
mãos frágeis, humanas, se procuravam
na escuridão fria que precedeu o inferno.

Quando as cinzas faiscantes cimentaram a paz de Pompéia
o mundo calou, desfeito em chamas que lamberam do cais às montanhas
varrendo poemas, evangelhos, jornais, homens, crianças, e tudo mais.

N'alguns cantos da metrópole que ruía,
restaram estátuas eternamente abraçadas, lindas, 
que venceram as brasas do grande Vesúvio.

A tola montanha, hoje apagada, é apenas a sombra
de algo maior, mais belo, mais forte, 
porque o vulcão, dono da morte,

não conseguiu apagar a chama voraz 
que violentamente ainda queima no peito 
daquelas estátuas de cinza e esperança.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

INVICTUS (tradução)

INVICTUS

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

- William Ernest Henley [“Invictus” is a lyric poem in four quatrains (four-line stanzas). Henley wrote it in 1875 but did not publish it until 1892 in a collection entitled 'Echoes'.


INVICTUS

Por sobre a noite que a tudo encobre
Negra como um covil de torpes criaturas
Agradeço aos deuses por salvar est'alma pobre
Guardando nela a chama que perdura.

Fui tragado pelo remoinho das circunstâncias
Mas não deixei que ouvissem meu choro.
Honrei meus ancestrais, mesmo à distância
Guardei a cabeça erguida como um busto de ouro.

O tempo cruel sempre cura machucando
Onde toda existência se resume a sombras.
Resisti ao tempo, à torrente dos anos passando
Com o olhar impávido e forte que a tudo alumbra.

Não importa quão estreitos sejam os portões
Tampouco quantas vezes desça o chicote ao badalar o sino:
Eu, e somente eu, sou de minha alma o capitão
E único mestre do meu destino.

- Marcelo Sousa, poeta e tradutor. Versão livre, de 18 de dezembro de 2013, Rio de Janeiro, Brasil.