Ask Google Guru:

quarta-feira, 6 de maio de 2015

OS PÉS DA SEREIA



Fazer do mar
a cama que transborda,
o ânimo, o vento certo,
o aperto de mão,
o hálito de bom
dia e adeus.

Canto. Manto.
Pranto e chão.

Paisagem
de azul cobalto
e pedraria impura,
falso ouro.

No olhar
a teia dos dias idos
e dos vindouros.

O ouro, repito,
o bonito ouro que cada
folha nova não fixa em vida
mas, por sorte, volta
a fixar na morte.

Armistício.

Entrego meus tesouros
por memórias de bem-querer.

Ser
ou não ser?

Mesmo que a lua
- minha irmã - não volte,
meus astrolábios cantarão
as notas possíveis
e as outras
também.

Há um norte
para onde ir, mas
não ainda, não hoje.

Hoje quero 
entreter os marinheiros
com a sombra dos meus seios
e a curva das minhas coxas
no entardecer, quando
não se vêem

as penhas,
e os engenhos fatais
guardados na ponta colorida
dos corais.

Navegar. Preciso me entender.

Saberei
respirar na água?

Guardo
sorrisos magoados
em relicários de laca.

Tão distante
de ser sereia ou talvez
já transfigurada na criatura
que elabora o canto mais bonito
- som de cristal quebrado nas poças
da retina - como quem implora

ao mundo que não ouça
esse riso-lamento, e dança
com sua cauda equilibrista
cabelo de ondas negras
e olhos de encanto.

É possível
perder-se na rotina
e se encontrar no labirinto.

É possível?

Abrir comportas,
deixar-se levar.
Lavar com palavra
os retalhos do existir.

No peito maremoto.
A inútil rosa-dos-ventos.
O astrolábio a beijar
mapas imaginários.

A cartografia do afeto.
O retrato sem luz.
A chaga aberta
mas sem pus.

Navegar:
moto-perpétuo.
Perder-se é preciso,
precioso.

Talvez eu tropece
e não saiba distinguir
a queda e o voo.

Mas posso, ainda,
fazer da alga desgarrada
- sargaço boiando na espuma -
talvez um poema
sol refletido na bruma
olho que flutua no quartzo
vidrado na tez da praia.

Meus cabelos
negros, negam nada ao vento.
Digo sim, mas com ressalvas:
por favor, me salve,
mas não agora.

No lugar da cauda,
pé humano: invencível
para todos os caminhos.

Já não será preciso
pôr pedras nos casacos.
Sou linda. Linda!

Foi o mar
quem disse.
Fosse outro
eu também creria.

Mas
a água salgada
não sacia.

Pele, pêlo,
escama, sou cada uma
de minhas vontades.

Maresia
e sangue agridoce.

Fosse
eu outra
estaria perdida.

Talvez eu seja
o peixe brilhante
que inaugura o arco-íris
na ponta de um anzol.

Talvez o sol
diga que sou a palmeira
que mira invencível
sobre as marés.

Canto: meu herói
há de vir.

O escudo, a espada
prateada e as telas
de arminho.

Meu herói
há de chegar sozinho
no devir do esperado dia

trazendo anel bonito
com a pedra mais vulgar
e num cálice que transborda
o sangue encarnado (não
azul) de suas veias.

Ele virá,
e eu, quase
inocente, fá-lo-ei beijar,
devagar, esses meus lindos
pés de sereia.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

ONLINE





Hoje 
todos os meus temores matutinos 
chegaram lentamente, sorrateiros, 

procurando plugs na base do meu cerebelo, 
na linha entre o pescoço e os cabelos, 
onde Javé beijou e Shiva encostou a orelha esquerda 

para ouvir os estalos da máquina pós-humana, 
milagre maior, inesperada forma de pôr norma ao caos, 
fôrma de canoa para todos os gravetos e paus. 

Versos de madeira, 
à formão e fórceps 
viram naus.

Navego. 

O oceano não existe, mas está lá. 
Estamos num beco. Pontos de fuga 
são tomadas na parede. 
A rede não quer peixes, 
quer gente. 

Navego. 

O poema é apenas pretexto. 
O hiperlink, o supertexto, o ultracontexto, nada faz sentido. 
Mas o que o texto traz, não se pode negar: 
biomáquinas choram, sentem mais que nós. 

A casca grossa, 
o exoesqueleto todo tatuado de sonetos, 
o poeta jaz no disco rígido de coração mole, 
a morte engole em seco, viver já não é uma dádiva, 
senão um trabalho, um continuum de cabos e senhas.

Deus, 
esta grande consciência armazenada nas nuvens.

Nós, 
filhos e espírito santificado, seremos engendrados 
por proto-genes em berços de realidade aumentada.

Como são lindos seus embriões
equipados com chips de memória eterna,
mas sem força nos punhos
e sem comichão nas pernas.

Quem 
olhará por sobre os muros?
Quem 
derrubará o firewall do status quo?

Robôs com lágrimas nos olhos sorriem,
observando Sirius a olho nu, no horizonte.
Robôs com mãos tenras e pele morena sambam nas feiras livres,
belos filhos de Prometheus, torpes afilhados de Creonte.

Mas 
haverá sempre uma saída, 
mesmo que inesperada.

No palco onde as cortinas jamais fecham,
a platéia e os atores aguardam com aflição
por qualquer luz queimada.

(O show tem que continuar.)

Trans-humano, pós-biológico,
é lógico navegar neste pós-eu,
pós-nós, além-mar.

Navegar é preciso.
Viver, precioso.

O espetáculo da existência 
é um oceano lotado de sereias biônicas, peixes eletrônicos, 
onde planta e plâncton alimentam homem e máquina, que se afogam, 
mas não morrem, e soçobram inúteis nas praias.

Vida eterna. 

Os ossos quebrados se trocam.
Os órgãos falidos se regeneram. 

Já não nos importamos com os aplausos,
nem com as vaias.

Vida eterna.
Até que a conexão caia.

PRETO-E-BRANCO



Na desiluminura de mil sóis poentes
desfloram-se retinas e palatos: o som
decide ser cor, e a cor decide ser fato.

São manhãs de lua e noites de sol.
Os arrebóis sem cor, ainda assim, gritam
sons de arco-íris, auroras boreais, supernovas.

Mas note, mire, veja
o quanto a palavra pinta
só com palavra este seu retrato.

Palavra sobre papel.
Palavra sobre a tela vazia.
E só.

Palavra após palavra.
Miríades delas, terríveis e belas,
como nós, estrelas em pó.

De repente o poema brota
nessas refazendas de palavras inventadas
por uma esperança que na página franca se aninha.

Poesia é paisagem:
fotografia em preto e branco
com um universo de cores nas entrelinhas.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

PRIMAVERA







Observo pássaros invisíveis
afogados na prata líquida dos teus olhos.

Desço ao fundo de mim e espero
que chova punhais sobre nós.

Fluo
como um rio subterrâneo.

Os sedimentos
brilham dentro da ampulheta.

Poeta algum
poderia pensar versos mais tristes

que estes que não escrevo
agora que aprendi um riso

protocolar, bonito
como um contrato assinado,

moeda falsa cunhada
em ouro verdadeiro.

Há um cansaço imenso
em tudo o que não é rotina:

uma neblina
espêssa cobre os cantos

da tela. A dicção dos pássaros
imita sinos quebrados, enterrados

em florestas de vidro,
véus de pedra, orgias, missas,

lembranças, engenhos de sonho,
mágoa, cal, fel, bile, húmus, a baba fina

dos santos de barro
e dos anjos no espelho.

Ao meio-dia a lua ainda
está no céu, carimbo de breu
no firmamento.

Esses dias
que já nascem podres
ainda podem ser fantásticos.

Ânforas e odres
estarão quase cheios,
já estando quase vazios.

Ainda há tempo.
Manhãs vão se despetalando
numa ciranda que não cessa:

são rosas cancerosas, sujando
as horas com sua maravilhosa
e terrível sentença.

Teço uma prece
com a pressa pacífica
de quem sangra.

É tempo
de fruta madura
e eu estou em flor.

Senhor,
a ti eu rogo:
colha-me logo.

terça-feira, 21 de abril de 2015

ROTINA





Estrelas mortas brilham sem cessar.
Noites inventadas rolam no teatro do dia.

A salmodia dos pássaros envolve a manhã
com o celofane rosa-azulado da alvorada.

O mar - chumbo derretido - ronrona baixinho.
Oceanos dormem, não é necessário

marulhar demais, porque silêncios clamam por silêncios,
e fazem, sem pressa, uma sinfonia delicadamente terrível.

É preciso cantar. 
E cantar, e cantar, e cantar.

O tempo se assenta em finas camadas, inaugurando
todos os abismos guardados nos relicários da rotina.

A tez, os pelos, os cheiros da madrugada.
Tudo é muito perfeito, e por isso precário.

Aceitamos açoites imaginários
enquanto chicotes reais rodopiam no ar.

Queremos grunhir, cantar, 
sorrir, sofrer, gozar.

O versos se repetem,
vida ao avesso.

[Poesia é asa
e topeço.]

Tragam violões, 
mas não os toquem.

Há tanto o que dizer,
que é melhor calar.

Tudo o que não for poeira 
de estrada, é mar.

Sejamos fortes, 
sigamos o mestre do canto.

Há um sorriso guardado
em seu lamento.

Tudo é bom, e mal
percebemos isso.

No meio do lodo
é que nasce a flor-de-lis.

Note, a voz de um deus inexistente 
preenche todos os espaços

e suas cantigas vem como ondas, e mais
ondas, e mais ondas de mágoa clara e limpa.

Tudo é bom, e mal
percebemos isso.

E só o poema poderá achar fácil
o que com dificuldade a vida garimpa.

terça-feira, 14 de abril de 2015

PREGÃO





Não vou cantar aos meus irmãos
porque já amanheceu nos trópicos sujos e dourados
e nos planaltos boreais chove estrelas de sal na noite branca.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque há operários humanos engendrando o dia
enquanto a alma barulhenta das máquinas descansa.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque minhas musas perderam a cor, a doçura,
e o canto das sereias já não é novidade: pregão de putas tristes.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque é preciso cavar trincheiras, erguer muros,
e temer com fé e força um inimigo que não existe.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque perdi muito tempo ganhando a vida
enquanto as flores erguiam catedrais de poesia, em vão.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque há sementes de metal espalhadas nos pomares
onde festejamos porque hoje sobra o vinho, amanhã faltará o pão.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque hoje não vi o mar imenso ronronar ao sol
espraiando seu dorso azul que o horizonte devagar acaricia.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque é preciso estar alerta, esperto, maneiro, malandro,
e de vez em quando lembrar que a vida liberta, mas o viver policia.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque em todos os espelhos há estranhos mirando
os olhos negros que serviam de leito e abismo para os meus.

Não vou cantar aos meus irmãos
porque nas assembleias dos grandes poetas
já não se encontram amantes, nem amados, só comerciantes, 
[valha-me deus!

domingo, 29 de março de 2015

VOO



Certo de que pão é pão
e pedra também, segui adiante
galopando os anos como quem
atravessa um planalto no escuro
fazendo pazes com inimigos 
presentes e futuros.

Desfiei rosários coloridos
enquanto ensaiava morrer
cruzando alvoradas em vão
pois havia sempre a promessa
de um sorriso à beira de qualquer
abismo, ou colo de mulher.

Era preciso revisitar
os mesmos versos para abrir
caminhos diferentes, como faz
o verme voraz na carne viva do animal
que morre aos poucos, mas pulsa ainda
nele algo que talvez você, inadvertidamente,
chamará esperança, asa quebrada, única,
esquerda, pendente, inútil ao voo, mas não
ao ofício imprescindível de sonhar.

Ao contrário do que muitos pensam
o fim não é um alçapão, um poço sombrio,
nem é fria a nossa extinção. Pelo vão
desta porta vejo - imagino - um sol
abrasador, porque a luz dourada
chama com labaredas que dançam
sinuosas como espadas
sacerdotais.

O que mais
haveria por trás dessa porta,
senão outras, milhares, num corredor
estreito, que não termina jamais?

O poema.
No fim, ao cabo,
ao longo, e sempre.
Mas
não importa:
abertas ou fechadas
creio que essas portas
já não levarão mais a nada.

O que digo?
Nenhum vinho acolherá
o torpor dessa noite em que estou
só, com minha sobriedade.

Há musgo entre os ossos
das figuras desenhadas
na parede.

Por baixo da pele das tintas
o concreto armado sonha ser nuvem
e todo edifício, por isso, pode um dia
desabar, vir abaixo, virar
pó, luz, névoa, mar.

Ontem mesmo
eu tinha vinte e três anos de idade
e as cidades da Europa eram flores
com nomes estranhos mas perfumes
já muito conhecidos: eu era imune
aos venenos trazidos pelos sorrisos
das mulheres, dos homens e das
crianças.

Hoje
um verso quebrado me completa
e a métrica dos meus dias futuros
perde fôlego sob a sombra das rimas
que já se cumpriram: minha história diz
o que a carne calada sente,
e por um triz não grita,
mas reverbera
sem saber.

Paro. Respiro.
Respire comigo.
Perceba: o verso divisa, revisa,
o verbo conjugado por tuas narinas.

Poesia é voo 
e tropeço.

Não há rima que não possa
- não deva - ser quebrada.
A asa perde as penas,
o ritmo do seu bater
é tudo, e nada
importa mais
que isso.

O poema.
No fim, ao cabo,
ao longo, e sempre.

O URSO POLAR



Eis ali um urso polar,
figura impávida, altiva.
Acena com a pata esquerda,
sentado na colina branca que se alonga
até além de onde nossos olhos podem divisar.

Sobre ele, no céu de prata branca,
brilha um sol igualmente branco, gigante
por trás das brancas nuvens que passam
velozes, fustigadas pelo vento bravio
que passa, passa
e não cessa.

Em certo momento,
a aurora boreal se desvela
coruscando fagulhas do éden
serpenteando a miríade colorida
que dança na atmosfera carregada
sobre a vasta moldura de seda branca
daquele horizonte imenso e eterno.

Nada se vê, além das cores diáfanas
que bailam lindas, sem testemunha.
O urso ali está, ou não está mais,
não se sabe, não mais o vemos.

Nem sabemos se olhamos
ou somos reflexo, resquício,
vício dos olhos cansados
de um deus que se distrai
mirando a tela enorme e brilhante
onde o tempo brinca de mostrar
o aceno singelo - e bonito -
daquele urso polar.

DEPOIS DA TEMPESTADE



Marulha na areia o barulho do mar menor,
o orgulho das marés, o perfume, a dor que o peixe
fisgado sente, o amor do pescador que o mata, enfim,
a prata das ondas resvalando no horizonte de hoje, o maruim
dançando na poça, as roças marinhas e as vinhas oceânicas,
o torpor, o vento alazão, o aragano, a monção, a reza boa, deixando o ontem
para a frente, o futuro para trás, a luz dura que reverbera na vaga avassaladora
traçando rimas de sal e sol sob o arrebol deste poeminha marejado, que sobeja,
rumoreja, beija a boca seca do poeta que morre afogado, afogado, afogado, talvez morto, talvez salvo, talvez banido, talvez falido por apostar todas as suas moedas num poema inacabado...

BOM DIA



Os deuses olham
e sorriem.
A treva é vária
e colorida.

Acendo uma vela
imaginária.
Faz tempo bom
entre os seios dela.

As coxas guardam
um magma que descansa
perfumes de tragédias abissais
entre o riso nervoso de poetas
que pedem mais
e mais.

Mas ela dorme
e a noite enorme se faz dia
sem que os anjos digam amém.
É domingo, em algum lugar
dentro dela.

Ouço.
Há um cicio.
O lábio ousa
falar de coisas cujo som
não se reduz em palavra.
O poema não diz
mas respira no hiato
deste fôlego imenso.

Penso em tocá-la
mas calo o gesto
ao sentir na boca
o gosto da sua sombra
- centelha negra
no quarto gris -
que me alumbra
a vontade de ser
apenas só
carne e osso
alma
e pó.

Os séculos que ela traz
numa vírgula, entre
as sobrancelhas,
reduzem a fogueira
dos meus dias futuros
a brasas dormidas
e tranquilas.

Observo, olho.
Ela me vê.
Tu, mulher
és um tótem.
Tu, que parada,
estás sempre
vindo.

Olho.
Observo.
Não vejo nada.
Estou calado,
sorrindo.

Passa o tempo.
Nada se move.

De repente,
ela acorda, e fere
como quem cura
lançando dos olhos negros
um único punhal de prata
que me acerta em cheio
como um sorriso de
bom dia.

Bom dia,
meu amor.

SOB A ESPADA




Vivo,
via de regra
sob a espada.

Não peço trégua.
Cada dia, cada
hora vivida
um fulgor:

moeda de prata
deixada, escorregada
entre os dedos,
rolada, caída

no poço escuro
para onde vão esses tempos
que são meus, que são nossos
e que são pó e purpurina
caco de vidro, névoa, ossos,

magma, neve, neblina
ferro, linho, pedra, semente,
tudo o que é maravilhoso
e ao mesmo tempo
sem valor

como o esplendor
de cada dia, cada
moeda prateada
atirada sem medo
neste fosso negro

onde guerra e sossego
são gumes do mesmo punhal
tudo ao mesmo tempo, tudo, tudo,
o bem, o mal, e nós no meio,

sangue nos olhos,
ferro nas veias,
cada um, cada qual
cumprindo seu destino
de enfim tornar-se
nada

um vazio vivo,
um rio parado,
a montanha fluindo,
a vida seguindo

sem trégua
via de regra
sob a espada.