Ask Google Guru:

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

ANTES DO SONO




Não sou eu
mas meus olhos,
ventanelas semicerradas
segurando a hora última,
íntima, ínfima, antes
do sono.

Uma torre de marfim
queima esplendidamente
no horizonte crepuscular.

Os ratos cantam,
contam segredos,
fazem dos gatos seus
brinquedos, tocam jazz,
declamam poemas, oram, 
pedem a Deus que salve
suas almas pequenas,
e riem do seu próprio
destino.

Estou feliz
e finito.

Cada minuto
de calma, na fotografia,
parece uma festa de cegos
lambendo celulóides
de cromo.

Estou feliz
e finito.

Não sou eu
mas meus olhos,
ventanelas semicerradas
segurando a hora última,
íntima, ínfima, antes
do sono.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

BEIRA-MAR



Venho à beira de ti,
meu mar, testar meu canto,
resfolegar com que em prantos,
tentando, na verdade, tornar
imperceptível, impenetrável
a minha respiração, como
se morto eu pudesse
ainda, ao sabor
das marés
dançar.

Vim, meu mar,
dizer que cantar o azul
é voltar, e voltar, e voltar
sem sair do lugar: saber
que a gente acaba, e esquece
que as ondas vem, e voltam, e
vem, as ondas, as ondas, a gente
se vai, de repente morre, mas não
desaparece.

Venho à beira deste mar
deixar meu corpo fluir, pesar
sobre as águas, como se mágoa
alguma pudesse nos vencer, machucar,
porque é enorme, imensa a alma de quem
com calma souber viver, morrer, viver,
morrer, e com pés de sereia 
flutuar.

Basta saber
que tudo (e nada)
é definitivamente vigente:
a gente vive, sobrevive, cala
e canta, pranteia um ponteio
bonito, como o volteio do pescador
a pentear a rede que se irá lançar
- ter esperança, saber esperar
por outra vida, talvez melhor,
talvez diferente, um outro
canto, no mesmo mar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

ESPUMAS FLUTUANTES


Verdades 
líquidas escorrem 
das falas enquanto 
não é noite
nem dia.

Esperanças fugidias
fazem ninho em moitas
de silêncio e mágoa.

Estamos em estado de festa,
ou de luto, o que é, no fim
das contas, a mesma
coisa.

Estamos bem
como o cristal
à sombra do 
martelo.

Descubro cobras
e lagartos, de vidro
colorido, enterrados 
no peito d'uma palmeira
solitária.

Venta:
o mar arrebenta
contra meus rochedos
particulares, minhas verdades,
medos, minhas apostas, 
meus lances de fé
e sinismo.

Amar, fato
registrado em ata,
firmado em contratos
e lavrado nos autos
resvala, escapa
quando se tenta
retê-lo.

Amor,
monstro maldito
e belo!

Quanto custa
voltar atrás para
encontrar a mesma
história, renovada
em erros luminosos
e promessas frágeis
e lindas como as algas
que se desfazem todas
as manhãs, ao chegar 
à praia?

Há verdades firmes 
como a espuma branca
das marés.

Creio nelas 
e no poder de mil fadas 
afogadas, mortas, decompostas,
dentro de uma garrafa de vodka,
vinho, ou coisa que o valha.

Esses diabinhos
guardados nos odres
nunca falham.

O amor
rescinde à fruta
podre.

Fui romântico
em vão, como são
e serão todos os poetas
fracassados, mas aplaudidos
por hordas de paquidermes
que nunca dormem.

Enorme, 
o caminho de volta
some na poeira
do oceano.

A pé, à nado,
com remos ou braçadas
fortes, decididas, não importa,
já não posso voltar.

Inteira,
minha sombra
é maior que meu 
corpo.

Morto, 
valho menos,
mas sirvo ainda.

Servir e amar
é quase o mesmo
para muita gente.

É preciso
contar moedas
e garantir as incertas
vias do viver.

Cada vez mais raras
essas horas de paz e bem
precisam ser compradas
a peso de ouro e carvão
animal.

Assino promissórias.
Penhoro relicários
de prata suja.

O amor falha
mas não tarda.

Mesmo
em vão, não 
podemos desacreditar 
do seu poder.

Calar, amar,
seguir em frente,
rente à costa, cortando
a pele, a carne, nos corais, nos recifes, 
nos hábitos pontiagudos, nos costumes 
afiados, nas horas pesadas 
de descanso, no armistício 
do sono, na paz da 
ausência.

Só assim 
é possível, obrigatório, 
imperioso viver, sobreviver 
aos falsos confortos da noite 
e aos verdadeiros (porém tão
caros) prazeres
do dia.

Para todo o resto
há Deus, o dinheiro
e a poesia.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

RECORTE

Cada minuto dourado
dura apenas o necessário,
então preteja, latejando sob
nossa pele. Devoro a hora boa
com esses olhos de mirar à toa.
Viver é prestar atenção, muita
atenção, a tudo o que for
colocado ao lado
de cada detalhe.

O entalhe
do morro onde 
as nuvens se escondem.
O coqueiro torto que à direita
prepara suas ogivas esverdeadas
e suculentas. As lâminas que pendem
dos caules; prata, alumínio, chumbo
no céu da tarde, pardais, e mais,
todos iguais, pedindo haikais
aos monges, longe, onde
léguas imaginadas
nos separam.

Um gesto
que lança os dados
errados, uma curva que nos perde,
o pingo de malvasia, o vidro moído
entre os dentes, a resposta dada,
a chuvinha que arde, a espuma
de um cansaço que escorre
dos poros, o verso de ouro
que a gente pensa, pensa,
corre, procura o papel,
acha caneta, mas
perde a letra.

Não dei sorte, venci.
Houvesse perdido, sido
mais um, seria mais feliz?

Escapo.
Por um triz não fui.

O musgo cresce feliz
entre os hábitos da gente.

A hera, viçosa, 
faz parecer alegria 
o que era apenas 
descuido.

Tudo é bom, 
e é preciso esquecer-se disso
a cada dia, e recomeçar, escorregar,
cair, levantar, sorrir, fingir, 
e chorar como quem 
aplaude.

Todo santo dia
uma flecha envenenada 
me acerta o peito, e eu
sorrio, ensaio um salamaleque,
e malandro, moleque, sigo em frente
dizendo que não doeu.

Repare, é tudo verdade, 
mas nem tudo aconteceu.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

ALEGORIAS E ADEREÇOS

Estive e fui.
Sobretudo tive.

Hoje, flutuo 
com pesos 
nos artelhos.

Do alto, 
pareço estar 
ainda de joelhos.

Divago
com pressa.
Cobram-me abraços
e sorrisos espremidos:
entrementes, entredentes,
é estridente o som deste
silêncio.

Estive. Fui.
Tive. Mas dói
saber que foi tardio
compreender que toda dor
vinha do peso, da posse, dos ossos
cansados, loucos pra ser penas,
talvez plumas, e voar. 
Apenas.

Mas 
preciso demais
de um pouco mais de tempo
e umas poucas coisas que muito
custam chegar, porque aqui do alto
fica difícil alcançá-las: quem
me entender, não diga.

Estive. Fui.
Tive. Agora toco
ágoras douradas 
com as pontas dos meus pés.
"Viver é foda. Morrer é difícil."
Há de se ter paciência
e alguma pressa.

Pisar a lama
tendo nuvens na cabeça.
sapatear, meu bem, sapatear
miudinho, como a palmeira
que penteia os cabelos
na tempestade.

A gente vive mesmo
é quando não quer
nem precisa.

Deve
ser por isso
que a vida é preciosa.

Minhas filosofias
derreteram-se no último verão.
Os blocos passam, passarão.
Até as moças, oh, as moças,
por baixo da purpurina
e do cetim, também
são carne e osso.

Tudo é possível.
Mas nem tudo se pode,
disse aquele que me fortalece.
Minhas preces sobem e descem,
descem e sobem, na partitura.

Hoje fluo, quase voo.
As correntes balançam no ar.
E o som que elas fazem, ao tilintar
inúteis e pesadas, é lindo!

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

MÁRMORE NEGRO




Reparo 
que há um veludo 
muito bem gasto no gesto comum
e que sobre o mármore negro do cotidiano
há pequenas manchas de contentamento 
e mágoa. 

Trago 
ânforas de cansaço
nas costas, espáduas, 
quadris, artelhos, espírito, 
e na alma. 

O tempo flui, pesado, 
mas veloz, com a calma 
nervosa dos que morrem aos poucos, 
escorrendo por caminhos tortuosos, 
por veias, vias rubras onde 
se guardam tesouros 
ignorados.

A gente sorri, diz 
bom dia e boa noite, pede 
desculpas, concede a bênção, 
dá licença, e sobrevive, por que é preciso 
[precioso] sobreviver, resistir, fingir que a carne 
entende todo fingimento, necessidade de estar 
em paz [no vácuo das bombas] enquanto 
tudo o que é sólido, eterno, desfaz-se 
graciosamente no ar, diante do vidro 
embaçado dos (nossos) 
olhos.

Há tempo
para pisar flores,
levantar a guarda, cultivar
amores vãos, cavar trincheiras,
palavrar poemas inúteis, como
todos hão de ser, sempre,
e sempre.

Reparo 
que há um veludo 
muito bem gasto no gesto comum
e que minhas unhas, desafiadas, arranham
o mármore negro do cotidiano, desenhando
este verso (talvez o derradeiro) que erra
tranquilo, em círculos de virtude
e vício.

Trago ainda
essas ânforas de cansaço
sobre as costas, espáduas, 
quadris, nos artelhos, 
no espírito, 
na alma. 

Estou bem.

A máquina do mundo 
mói os dias, mastiga as carnes,
e distribui acenos, desses 
que não sabemos se 
de chegada ou de 
adeus.

Há tempo
para pisar flores,
levantar a guarda, cultivar
amores vãos, cavar trincheiras,
palavrar poemas inúteis, como
todos hão de ser, sempre,
e sempre.

Amém.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O ANJO DA ALVORADA



Uma fresta
reluz no céu coalhado
de estrelas.

Algumas são mais belas,
outras, quase apagadas,
são fim de festa.

Estamos quase acordados,
e quase amanhece: 
o arcanjo Miguel 

sonha conosco 
e molha a cama. 
Seu corpo têso, 

de barro e louça
quase quebra.
Ele chora? 

Fala com os peixes? 
É licor? Mel?
Breu de vela?

A moça na cama
não vê que a luz pinga
sobre ela.

Outros anjos,
outros homens
devem levantar-se

agora. Viver
é urgente, tarefa diária
para a qual não há protesto.

O anjo se esvai
na melodia da alvorada
dispensando seus amplexos.

Suas asas derretem? 
Ou ele sonha 
que tem sexo?

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

COROLAS




Na corola da manhã 
o azul ultramarino de ontem
escorre líquido por entre as montanhas.

Há paz e medo na íris embaçada
que vê outros olhares
alhures.

Dísticos se desencaixam 
com sôfrega beleza: os ritmos não rimam, 
os poemas são pomares de frutos roxos

que não justificam nem perdoam
o açúcar desperdiçado pelos sonhos
dos infantes.

Prossigo 
encarando minha finitude
como quem espera uma ave matutina

que vem de longe 
trinando seu canto de cristal quebrado, e pousa 
sóbria, antes do enquadramento perfeito da foto.

Minha palmeira invencível 
dorme, mas está atenta. Em seu sono os ventos 
passam alisando-lhe os cabelos que a noite pintou

com as mais bonitas chagas e broquéis
como quem salpica estrelas de fogo-fátuo
num céu nublado.

É preciso arar 
entre os versos que vigoram
para compreender que não há beleza neles

e ainda assim encher os olhos 
de águas claras, lavando o azulejo colorido 
das almas restantes desses delírios mais-que-perfeitos.

Não entender é essencial nessa hora.
Só com as mãos de quem ignora é possível reter
a paz que vigia de dentro desse turbilhão, e dormir

o sono dos bobos, 
com a firmeza rubra dos inconstantes.
Divago, cansado de estar certo em vão.

Errar por certos lugares 
tornou-se o pão de cada dia.
Há algo ameaçadoramente bom no horizonte, 

convém, por isso, quebrar as pernas 
de qualquer ave branca, e com isso fazer com que voe 
sem pouso e sem uso para o chão, faça tensa a pena leve,

e breve a cena imensa, 
desfazendo a aliança frágil e triste
entre o que é e o que deveria ser.

É possível 
que o tempo faça sentido
desfazendo meu corpo de areia 

como faz o vento soprando 
as dunas para onde não se pode vê-las,
grão a grão, para dentro do oceano.

Repito, é preciso quebrar as pernas
de qualquer esperança, qualquer pássaro alvo,
qualquer bicho alado que voe sobre nossa cabeça.

Sem chão, hão de voar melhor.
Como Ícaro entre os escombros, a memória
do voo será feliz como a memória do tombo.

Então, que as aves não pousem jamais, 
nem usem o horizonte como faz o poeta, 
que ara horas acesas enquanto sonha:

na corola da manhã 
o azul ultramarino de ontem
escorre líquido por entre as montanhas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O PESO DA LUZ



Quanto pesa a luz
que evita pousar em tua pele
quando a alvorada passa rente
- lâmina de sol - como esta mão
que hexita, claudica, reivindica, implora
o teu calor, e tu escapas, engenhosa, 
entre os dedos velozes do tempo?

Quanto pesa o gesto
que não se completa, a palavra
esmagada por teu lábio carinhoso
- veludo e vontade, puro aço - agora
que tua carne não se põe em ata
no contrato quotidiano do amor
entre os escombros da noite
e os vestígios do dia?

Quanto pode a tua vontade
agora que és senhora apenas 
da tua própria ausência, mesmo 
quando tua sombra azuleja minha alma
e teus passos - abalo sísmico, cínico -
seguem os dos gatos, pelos cantos
das fotografias?

Quanto queres de mim
hoje que teus poderes acabaram
e as lagunas castanhas dos meus olhos
- águas salgadas, doces marés - secaram
de tanto choro, derramaram tanto ouro,
garimpado sem paz, nos armistícios
declarados à força, senão por amor
apenas por cansaço?

[Amanheceu: sigamos em frente.
Me beija? Toda manhã é boa - mesmo
que amar assim não seja.]

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A FLORESTA QUE SE MOVE




Paro. 
A floresta se move.
A montanha, veloz,

contorna o aro 
quebrado dos meus óculos. 
A luz cai pesada sobre meus ombros.

Os escombros 
da minha alma não me cabem 
na palma da mão direita. 

Um gato se deita
sobre a minha sombra.
Um cão andaluz paira na tela.

Peço ajuda.
Ninguém ouve.
Aplausos na plateia.

Uma torre branca
está para cair: seus cabelos
pegam fogo, ela não grita.

O cavalo amarelo, 
um bispo negro, um galo
português, um falcão maltês,

um monge cego,
a estrela negra ardendo em pleno dia.
Os signos estão postos, em vão.

Não morrerei.
Nem vivo. Comemoro:
a ruína é um berço de ouro.

Paro.
Quebrado, o aro
dos meus óculos

acompanha a curva
do horizonte que se afasta.
Meu poema é uma floresta.

sábado, 31 de outubro de 2015

NO VÁCUO DAS BOMBAS




As palavras não ditas
ficaram grudadas - fina película -
naquela manhã ladrilhada 
de silêncios.

Os cães ladraram sem som, 
os pássaros passaram, porque é tudo 
o que sabem fazer por baixo do alvedrio 
das penas, das plumas e do canto.

Minhas mãos não procuraram 
novos engenhos, firulas, mesuras. 
Nenhuma ciência desembrulhou
mistérios perante meus olhos.

Não fiz poema.
Qualquer rima seria inútil. 
Desejei gritar, mas fui educado, 
magoado e forte, em vão.

Flácido, fluo.
De repente, tudo é fácil.
Calar, desistir, retroceder é possível.

Toda manhã é uma promessa, uma sentença.
Viver é um rio, e é preciso navegá-lo sempre
contra a corrente, pra longe do mar,
evitando as pedras escondidas 
pelas marés.

Minhas musas ousam
saber que já não quero tocá-las.
Uso um sorriso, depois outro.
Tenho mais alguns na gaveta.

Feérica, a hora certa não vem,
mas há minutos simples e quase bons,
feitos de pedra porosa, erva daninha,
pimenta caiena, mexericas mofadas,

morangos silvestres, nuvens de cimento,
sorrisos de criança, pontes inventadas,
o tempo bom e rasteiro dentro de um cigarro, 
uma xícara de café, um abraço, um olhar

por sobre os ombros,
talvez um beijo de lábio seco, 
um poema ruim, uma serpente emplumada,
qualquer jardim sem flor, qualquer versinho de amor.

Tudo o que não foi dito 
nessa manhã reluziu em festa solene,
azulejando nossos salões antes vazios,
agora povoados de silêncios festivos demais.

Guardemos então este momento
áspero e doce, pois a hora certa não virá
como o pássaro bonito, mas como o míssil
voraz e certeiro, sobre nossas cabeças.

Há paz no vácuo das bombas.
E as palavras não ditas ficarão grudadas 
- fina película - sobre a pele dos sobreviventes
nessas manhãs ladrilhadas de silêncios.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

SALA ESCURA




A cena 
é recorrente - um arpão 
e seu ensejo: a ponta afiada 
de um olhar percebido no arpejo frio 
das retinas, tocaiando um alvo 
que se afasta mas 
não se move.

O metal da íris
embotado nas promessas 
da paisagem, desfaz com calma a firmeza 
das montanhas, os prédios desabam, as famílias, 
minha família desintegra-se no vento como as plumas
de um dente-de-leão, o pão compartilhado
no passado fica embolorado como
o carinho que a vida prática
engoliu, apressado,
bruto.

Por trás das cortinas,
na algazarra contida de um entreato,
mocinhos e bandidos sentam à mesma mesa
e se refestelam, mastigam de boca aberta
e riem alto, os bigodes falsos caindo
por um canto do rosto, malditos
sejam, benditos 
são.

Tento fazer 
um poema: minha métrica
é um soluço, o pensamento claudica
e corre, as rimas sobem escadas e caem 
em açapões, reaparecem tímidas, sorriem com
cara de choro, tentam novamente, e se estatelam de novo, 
dão uma cambalhota, fazem uma mesura para a plateia 
e seguem para a coxia fingindo que triunfaram, 
que são reais os aplausos da claque
num alto-falante quebrado.

O show tem que continuar.

Meu semblante de vilão
é refletido nos telões da metrópole:
falam de mim, sabem de mim, meu sangue
escorre na praça para o espetáculo dos pios,
um rio se forma, mas logo é canalizado,
domado, fadado ao subterrâneo
onde habito feliz, mas
pouco animado.

Temos champagne 
na cadeia, mas falta pão.

Recusei pisar
a cabeça daquela serpente,
chamei-a irmã, deixei que se aninhasse
entre os meus despojos, ofereci a ela
um refúgio, um pouco de sangue, 
outro tanto de mel: seus olhos 
luminosos e seu sorriso
carinhoso, apenas
betume e breu.

O cimento 
de minhas pálpebras
resolve as distâncias e as ausências
abarbando espaço e tempo num piscar de olhos.
Tudo é palco, por isso convém calar, fazer
um silêncio de vidro, e guardá-lo 
à sombra de um martelo.

A hora certa 
espera que haja carne e tempo
sob o manto da vontade, logo ali 
onde as verdades - e as vaidades -
descansam quase intactos, 
resumidos a pequeninas 
resmas de luz 
e escuridão.

Terceiro sinal: sala vazia.

A cena é recorrente -
jamais estamos sozinhos:
ao mirar, mesmo de soslaio, 
um ponto escuro qualquer na tela
entre as cortinas que vão se abrindo
a treva silente (pulsante) sempre 
olha de volta, sangrando, 
sorrindo.

sábado, 24 de outubro de 2015

MALDITO




Vamos festejar
os contratos não celebrados,
os heróis desacreditados, 
os vilões incompreendidos,
os bandidos acovardados,
os prudentes que estão falidos,
os cautelosos que foram pegos,
os amantes sem brilho nos olhos,
os amigos que não abraçam,
os padrinhos que não cuidam,
os pais que não amam,
os vivos que não morrem, 
os mortos que não descansam,
os pregos sem cabeça,
as tranças sem laço de fita,
os ritos sem compostura,
as missas sem fiéis,
os anéis sem dedos,
os brinquedos sem crianças,
os infantes sem inocência,
os irmãos sem fraternidade,
os palhaços sem graça,
os leões sem juba,
os crocodilos sem dentes,
os tubarões que se afogam,
os crentes que não oram, 
os cientistas delirantes,
os reis que imploram,
os juízes que não decidem,
as leis que não vigem,
os vigilantes que não enxergam,
os cobertores que não cobrem,
os cúmplices que não acobertam,
as mães que não se afligem,
os covardes que não fogem,
os tempos que não urgem,
os monstros que não rugem,
os ventos que não sopram,
os incêndios que não arrasam,
as casas que não protegem,
as primaveras sem flores,
os amores sem dor,
o labor sem cansaço,
o braço sem força,
o poço sem água,
a mágoa sem paixão,
o sim sem um não,
a mocinha sem um vilão,
os santos sem tentações,
as ações sem consequência,
as cobras sem veneno,
as águias sem penas,
e os poemas que não alumbram
o que dentro de nós é treva,
pó, deserto, silêncio
e sombra.

[Maldito, poeta, 
serás entre os seus.]

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O LOBO


O lobo
respira suave
atrás da porta.

As unhas guardadas
na almofada de pelúcia
esperam, esperam.

A fera
que ainda não vejo
não tem pressa.

Por uma fresta
vaza a luz negra
daqueles olhinhos 
bonitos, pretos.

De repente,
um trovão, um murro,
um grito, um uivo,
uma baforada.

Meu amor 
abre a porta, 
pega minha mão:
sua presença 
me aquece.

Meu amor
abre a porta,
pega minha mão
e o lobo, esperto,
desaparece.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

AHAB CANTA PARA A BALEIA BRANCA




A correnteza fere
o leito pardacento da lagoa.
O silêncio corre entre pedregulhos,
arrastando os trilhos da vontade,
trazendo no arrasto da manhã
cristais de conformação.

A lama pegajosa,
o arame, os cacos de vidro,
os casacos de lã, os anéis de vime,
as alianças de ouro (de tolo), os rolos
de fita crepe, as capas de cetim, o lume
dos meus olhos, as adagas e punhais 
perdidos, tudo é depositado 
na escuridão do espelho 
d'água.

As nódoas coloridas
refletem sentenças luminosas
no fluido fosco da líquida mortalha:
dias idos e tempos vindouros parecem
pedrinhas roladas, bonitas e sujas
como caramujinhos guardados
no fundo falso da minha 
calma.

Conto moedas,
escrevo poemas, coço a cabeça,
peço perdão, desejo bom dia, licença
senhor, licença senhora, reforço a moldura
dos bons hábitos, e dos maus também.
A lua enorme, o sol brincante,
o pássaro que voou, tudo
é motivo de alegria
e desespero.

Uma palmeira
balança os cabelos verdes
provando o gosto do vento que a machuca.
Os ipês amarelos definharam, desapareceram.
É primavera na prisão. Deixo que espalhem 
flores de sal sobre minhas feridas. 
A vida é boa,
afinal.

No meio de tanta beleza, 
não me encontro, mas sei que estou lá.
Meus espelhos se partiram antes, além-mar.
As naus, nuas, dançam. São baleias brancas, enormes, 
que ameaçam com carinho, e ensinam que cantar
não é preciso, mas é precioso 
o nosso cantar.

Repito,
é bom e útil repetir
porque assim me ensinou o mar.
As ondas repetem, repetem, refletem.
Que o poema, no escuro repita,
reflita. Cantar não é preciso,
mas é precioso, é precioso
o nosso cantar.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

F(r)ESTA




Sobre a curva do lábio 
a fenda d'uma aurora.

A trave que segura 
teu riso de repente desaba. 

Cai.
Vai longe a lua, 

água turva deitada 
no caminho.

Há música
onde os brutos gritam.

Com o dedo anelar
risca um poema

no ar, na tarde
que te olha de joelhos.

De azul, fez-se vermelho
o olho vazado do firmamento.

És veloz, mas
morres de tédio.

Se pudesse, eu diria
em teus ouvidos caolhos

que invejo
tuas mãos cegas

tateando vias
tortas em minha escrita.

Gárrulas, garranchos.
Desce o pano,

mas um gancho
retém o poente, lindo.

Ainda é noite
sobre o oceano.

Finda
a dor, o que resta?

Um beijo 
na testa, um aceno

um rasgo
na jugular?

Julgo saber
menos que o pó

dos teus artelhos.
Tudo é comédia.

Uma boca desdentada
desdenha desfechos possíveis.

Reconheço
que por uma fresta

podemos escapar,
sobreviver, vencer.

Desço
à primeira esperança

sabendo que viver
é um enorme

baile de máscaras,
mas não uma festa.

Dai-me forças,
peço à moça que dorme

coçando feridas
imaginárias, dessas

que doem mais
quando amanhece.

Tudo é comédia.
Todo abismo

merece 
um sorriso.

És veloz, mas
morres de tédio:

teu destino
é terrível, mas

como é linda
a tua tragédia!





segunda-feira, 5 de outubro de 2015

SOBRE AS ÁGUAS



Algo
de mim na alga
que se deita sobre a água
afaga a maré que vaza
sem prazo.

O anzol
procura entre os sargaços
a carne, o cerne do peixe
que só por causa
do cansaço

do pescador
se deixa levar, fisgado,
mas não morto, o peito
rasgado de alegria
porque vai matar
em breve

a fome
de quem quer
que o leve embora
porque agora o peixe
é quem nos 
consome.

Alguma poesia
sobra, soçobra na alga
que devagar se deita e afaga
a pele de prata deste 
que morre:

correm 
as águas, morrem
os homens, e o espírito
de deus bóia sobre
as mágoas.

Reza a lenda
que é o sal da terra
que tempera os mares
e é o pó das montanhas
que tempera 
os ares.

Assim também 
é o sal da carne de quem 
morde os anzóis que dá sentido 
e sabor à carne 
que o tempo
rói.

O poeta 
tempera o cerne
de quem o consome
porque todos os pescadores
sabem que é o peixe 
quem come 
o homem.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

ÍCARO ENTRE OS ESCOMBROS

Não escrevi o poema 
que no seio da madrugada crepita
debaixo de lençóis salpicados 
de estrelas de suor.

Não senhor, não escrevi 
sobre o homem negro gigante
cujo tempo roeu, acinzentou, perolou 
de brancas nuvens, depositando 
o calcário das horinhas banais 
desta vida nos cantinhos 
onde não se percebe, 
com sorte, 
a morte.

Não escrevi o verso triste 
nem a epopéia de festivas derrotas 
deste homem cuja presença é o sedimento 
paciente arrastado pela chuva e que na torrente 
se desfaz sem culpa nem mágoa
vertendo a si mesmo em águas 
misteriosas.

Não, o poema 
não chegou em tempo 
de colher o rosto flácido 
entre as mãos de um herói 
descrente, mas 
obstinado.

O meu poema 
crepita sem força, 
mas invencível no seio 
de uma noite 
calada.

Os tremores herdados, 
plantados em meus gametas
desfolham-se num gozo perverso
desperdiçado no gesto da pena breve
que risca em rubras tintas a sua prosa
mas nunca, nunca, nunca mais 
um verso.

No pêndulo afiado 
que trago sobre minha cabeça
brilha a gênese da minha extinção:
todo abismo merece um sorriso, precioso,
preciso, lançado à flor do vento 
com desdém e paixão.

Não escrevi o poema,
que desvendará o teu nome 
para a posteridade,
meu pai.

Estamos agora 
tão perto dele - o poema -
que já nem precisamos contá-lo.

A alvorada se aproxima. 
Veja como é linda e terrível 
a luz que se arrasta, pesada, 
por cima das encostas fustigadas 
pelos incêndios e maremotos 
comuns da nossa vida.

As rimas 
de um poema enorme
dormem num canto, numa gaveta,
e serão mastigadas em tempo breve
pelas traças, pelos destroços,
por essas ruínas que hoje 
te devoram e me 
esperam.

Não escreverei 
este poema. Minha voz
é demais, e o verso pede pouco.

Que minhas palavras 
se guardem em si mesmas, silenciosas 
como um vulcão adormecido, e tenham 
a paciência das flores nascidas 
no inverno.

Meus cadernos de menino
se perderam. Mas, em algum lugar 
um herói nascerá. 

N'algum momento 
- passado ou futuro, não importa - 
um homem enorme virá e me fará dormir 
o primeiro e eterno sono tranquilo, 
que me faz tanto sentido agora 
nessa noite longa 
e turbulenta.

Não 
escrevi o poema. 
Não o escreverei, 
ainda.

Na noite imensa
que já termina, as rimas crepitam 
como a luz dourada do sol fervendo 
o sal do mar de versos que a gente não diz 
na hora primeira - ou derradeira - 
em que enfim nos encontramos 
com nosso reflexo, 
perplexo.

Um herói, 
um gigante de cera
derrete-se com calma
sob a luz de uma alvorada 
veloz.

Ícaro 
entre os escombros
desdenha e rí do próprio
tombo.

Percebo 
o brilho dos seus olhos
no pêndulo afiado desta hora
que sobre minha cabeça
balança.

O passado 
olha para frente
mirando miragens 
no espelho.

Aquele homem, 
negro, enorme, agora é a sombra 
compacta e branca que numa gaveta 
ou em meus gametas
descansa.

Versar 
já não vale à pena.
Deixemos descansar 
nessa esplêndida e frágil paz
os heróis ignorados pelos nossos 
melhores (ou piores) 
poemas.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

UMA FOTO EM MARTE




Esperemos.

Brumas.
Pó, fumaça e fuligem.
Passa uma nuvem,
a foto se desfoca.
Ali acontece
um milagre.

Talvez
uma lua vermelha,
um eclipse, um enigma,
o diafragma da máquina

engasgando diante disto:
o impossível, justo
aqui, agora, 
perdido.

Talvez
a auréola do seio
esquerdo da Madonna,
o brinco de prata pendente
na orelha direita de Santo
Agostinho, o próprio.

Talvez
um habitante de Marte
tomando Coca-Cola, ou ela,
a musa impassível, sorrindo,
gargalhando num vibrato
inaudível.

Talvez
o próprio Criador,
ou um criado seu, mandado
especialmente neste momento
para nos contar as velhas
novidades.

Esperamos.

Brumas.
Pó, fumaça e fuligem.
Passou uma nuvem
e roubou-nos a foto.
Fora de foco, tudo 
pode ser um
milagre.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

NÃO NOS TOCAMOS




Não nos tocamos.
Houvesse o momento,
o ensejo, ainda assim, não

vibraria alto e claro como os sinos
que redobram quando nossos olhos se encontram,
faíscam, esplendem, e depois se apagam

sob os clarins
de uma paz magoada
como um amar sem querer.

Não nos tocamos,
é preciso repetir
para crer.

A boca breve
negou seu beijo
com o vagar de quem nega

aceitando, pedindo, o peito
arfante como quem se arrepende
de um crime perfeito.

Senti o gosto do seu gesto, apenas ensaiado.
Mas o arco da vontade não se ergueu
sobre a minha silhueta.

O facho
da mão que se levantou
no pensamento

não brilhou sobre a minha carne,
anoitecida, parada, inerte, imóvel,
presa à realidade.

A pele,
contra minha pele,
um ectoplasma.

O hálito como um vento matutino
roçando sobre as campinas invernadas
da minha vontade.

A sombra do seio
como uma adaga a apontar
gentilmente, como quem ameaça.

O perfume da voz
deslizando seu sabor metálico
de maçã-verde mordida na véspera.

As coxas tectônicas sobre as minhas coxas,
de leve, como as forças ocultas que devagar
fazem rolar os terremotos.

Os dedos como labaredas fustigando os pêlos
de minha barba, como as foices que desafiam
a força verde dos bambuzais.
Aquela manhã irrompeu sobre o mar
suas ogivas azuis implodindo os deliciosos
temores da madrugada.

Mil alvoradas não seriam suficientes
para apagar o que estava prestes
a desacontecer.

O arpejo furtivo deste poema
não faz jus à força daquele contrato:
amor sem desejo, toque sem tato.

Diz a lenda que numa certa catedral de carne e sonho
redobram mil sinos quando estes olhos se encontram,
faíscam, esplendem, e depois se apagam

sob os clarins
de uma paz tão magoada
quanto um amar sem querer.

Não nos tocamos.
Jamais nos tocaremos.
É preciso repetir para crer.