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sexta-feira, 25 de março de 2016

PONTEIO





Aceitemos as rosas
e seus espinhos.
As pedras e
os caminhos.
A palmeira
e a erva 
daninha.

O hálito, o respiro,
o oxigênio queimando
na sagrada pira, e o mundo
que roda, roda, dá voltas,
mas não gira: o mundo
pára, estaca, olha, mira,
mas não vê.

O inferno, 
o eterno, o outro,
o estrangeiro 
e você. O teatro
dos vampiros,
os tiros na tevê.

A paixão 
e a rotina.
O afago, a repulsa.
Andrômeda, Cassiopéia,
mas também Teseu e a Ursa
Maior. O gozo, esposo 
da dor.

Os bandolins
e os violões.
Um sim
com muitos senões.
Os turcos, os mandarins,
americanos e alemães.
As fadas, o fado.
As palmas
e os safanões.
Os santos
e os sãos.

As tintas
e os borrões.
Os sonhos
e as manhãs.
As dentaduras,
as maçãs.
As nações
e as guerras.
A terra,
as cercas.
Os gatos
nos becos.
O cinza,
o branco e
o preto.

Os poetas
e essa desesperança
festiva, quase alegre,
regada à palavra
e por ela ferida
mortalmente.

E o verso
semi-novo, o ovo
do filósofo, o magma,
o gelo, o feio, o mais
feio, e o belo, na berlinda,
a linda flor
no prelo.

O sopro 
empurrado pelo
diafragma, o canto, 
o pranto e o confete,
a festa, o texto,
o poema, este 
poema, esse 
versinho, essa trova,
pó, carvão, diamante,
pólvora.

A coisa
nova, o refrão,
o poema, ah esse 
poema que se repete
e se repete novamente,
tão ruim, tão bonito,
tão aflito, tão valente,
repetindo, repetindo,
repetido (...)
mortalmente.

quinta-feira, 17 de março de 2016

DOZE SUSTOS






#1

Na tempestade
onde dormem
as borboletas?

#2

Sob a neve
queimam secretamente
os vaga-lumes.

#3

No espelho d'água
as libélulas penteiam 
seus cabelos.

#4

Nas paixões
toda a razão
é como o orvalho.

#5

Olhar
de muito perto
arranha o objeto.

#6

Os baobás
são velozes
como as montanhas.

#7

Troveja
ou Deus
pestaneja?

#8

Pise flores,
mate os homens
e faça poemas.

#9

A rã
saltando na poça
inaugura a manhã.

#10

Os deuses
não matam mais,
mas ( )

#11

As montanhas
não fugirão
jamais.

#12

Na tempestade
as borboletas
dormem.

segunda-feira, 14 de março de 2016

A SOMBRA DO SER E A CENTELHA DO POEMA




O poema não resiste
ao medo do minuto seguinte,
à flacidez da carne, ao desemprego,
ao vinho demais, ao dedo que acusa,
ao verbo que malogra, à frase que,
guardada com cuidado, escapa
com dolorosa minúcia
no meio da noite
estilhaçando
taças

e sonhos.
O poema não resiste
ao momento em que, lúcido,
o amor desiste, cansa, procura
um canto escuro, guarda o rosto
evitando a luz de um olhar que antes
alumbrava, alegrava, mas agora
anuncia tempestades, acende
luzes fortes num salão
de nús grotescos,
que se julgavam
belos.

O poema
não resiste.
Por isso, não ames
como quem faz poesia.
Porque poesia é bruma,
fumaça branca, a asa vítrea
da libélula, o metal brilhante
dos olhos das moscas, o ouro
que aos poucos verdeja nas ervas
e depois vira um ocre pálido
que feliz anuncia a sua
morte, sorte única
de tudo o que 
é vivo.

O vento 
que conversa entre 
as maçãs, o açúcar na ponta 
do ferrão das abelhas, a prece que 
não se precisa fazer de joelhos, o passo 
de dança à beira do abismo, os engenhos
secretos, higiênicos, ternos, do corpo 
preparando-se para amar ou para 
morrer, para o sexo ou para
a morte, o sexo, a morte, 
esta sorte.

O poema não 
resiste ao cimento
e ao ferro, ao pão de cada
dia, ao remendo na calça, ao
despertador das cinco da matina,
à repórter bonita na tevê, ao amigo
bem-sucedido, ao dia de limpar latrinas,
levar o lixo para fora, a conta de luz e gás,
a paz dos vizinhos, não resiste à aguardente
que rasga as finas vestes do juízo, à festa 
que nos empobrece  a alma, bendita,
trazendo espelhos rente o nosso 
rosto, revelando a feiura 
do outro, pobre poema, 
suas mãos vazias 
pouco podem, 
nada podem, 
não 

evitam perdas 
e danos, não resolvem
os problemas do cotidiano,
não libertam, nem despertam
na gente qualquer centelha divina
escondida talvez entre as cinzas da 
rima, porque a poesia não nos salva 
de amar sendo isto que somos: 
irremediavelmente
humanos.

terça-feira, 8 de março de 2016

ORA PRO NOBIS




Desço 
escadas imaginárias
no escuro.

Procuro
o cheiro verde-metálico
das rúculas selvagens,
das vulvas virgens,
da fuligem dos 
corpos,

das campinas devoradas
pelo cimento que arranhará os céus,
dos campos com a grama orvalhada
e dos santos mofados na sombra 
silenciosa de uma igreja
vazia, terrivelmente
vazia.

Desço
a ladeira do poema
em pleno meio-dia.

Queria
provar o sol que molha 
de luz as tangerinas, as romãs,
enquanto a manhã apodrece
resplendendo nos olhos
dos peixes da feira.

As roseiras
mastigadas pelos olhos
das moças, os dentes-de-leão
em chamas, na foz de uma tarde
qualquer, num verão violento, impiedoso, 
onde milagres são desperdiçados
com uma alegria torta
e desdentada.

Desço
esta vida inteira
à procura de algo que me valha
um sorriso, uma lágrima, uma gota
de suor, um piscar de olhos,
um gesto, um punho cerrado,
um espalmar de mãos, 
uma oração, mas não 
acho.

O facho
que me foge 
vige no oculto, 
no distante, no insofismável, 
naquilo que não possuo nem 
entendo, mas continua sendo, ou 
melhor, insiste em ser meu: 
eis que no poema 
te escondo 

e tu me guardas, 
meu fim, meu começo, 
esse estranho verso 
- meu Deus.

domingo, 6 de março de 2016

QUASAR



A chama verde-azulada
- que em verdade é feita de noventa 
e oito mil tons de vermelho -
aos poucos se apaga, esplêndida
como a estrela que vemos agora
no oceano lívido da Via Láctea
ou melhor, nos seus 
arredores.

No centro, seu umbigo
negro engole matéria e tempo.
Seu coração rubro pulsa cansado
dentro de um cofre de carne, osso 
e fé.

Estamos vivos.
É esplêndida e sombria
esta nossa condição.

As pálpebras pesadas
dos homens degolam
os caules tenros
das manhãs.

É bom 
não negar os engenhos
deste mundo: somos todos
engrenagens cuja ferrugem
atinge mais a uns e menos
a outros.

Existir é pouco.
É preciso ser feliz.

Plantei muitos relicários
dentro da noite, sob tempestades,
entre ramas de pedra calcária,
flores de vidro colorido, dolorido,
aguardando festas, tragédias,
silêncios não proclamados
e gritos jamais recolhidos.

Quero viver
mais um pouco
ao lado de quem me ama
em vão.

Tão logo eu me apague,
tragam seus olhos para o campo
e procurem vestígios, vivos, 
de que morri.

Não encontrarão
mais que estrelas, milhares
delas, fulgurantes como olhares
desviados de um desastre, de
repente.

Sorrir
é o trabalho, o exercício,
o vício necessário a cada dia.
Há uma alegria nervosa embrulhada
no papel pardo do poema.

A chama verde-azulada
esplêndida como a estrela 
que vemos agora, com calma
se apaga no oceano lívido 
da Via Láctea, ou melhor,
longe dos seus olhares.

Cansado,
o miolo de luz pulsa
insistente, tão brilhante, dentro 
de um cofre de carne, osso e fé:
meu coração.

Todos os olhares
desviam-se, depois voltam
curiosos, furiosos, as órbitas
vazadas de paixão.

Quero viver
mais um pouco, e sorrir
o riso trabalhoso de cada dia
ao lado de quem me ama
em vão.





sexta-feira, 4 de março de 2016

HIDRA




Aceitemos as rosas
e seus espinhos.
As pedras e
os caminhos.
A palmeira
e a erva 
daninha.

O hálito, o respiro,
o oxigênio queimando
na sagrada pira, e o mundo
que roda, roda, dá voltas,
mas não gira: o mundo
pára, estaca, olha, mira,
mas não vê.

O inferno, 
o eterno, o outro,
o estrangeiro 
e você.
O teatro
dos vampiros,
os tiros na tevê.

A paixão
e a rotina.
O afago,
a repulsa.
Andrômeda, Cassiopéia,
mas também Teseu e a Ursa
Maior. O gozo, esposo 
da dor.

Os bandolins
e os violões.
Um sim
com muitos senões.
Os turcos, os mandarins,
americanos e alemães.

As fadas,
o fado.
As palmas
e os safanões.
Os santos
e os sãos.

As tintas
e os borrões.
Os sonhos
e as manhãs.
As dentaduras,
as maçãs.

As nações
e as guerras.
A terra,
as cercas.
Os gatos
nos becos.
O cinza,
o branco e
o preto.

Os poetas
e essa desesperança
festiva, quase alegre,
regada à palavra
e por ela ferida
mortalmente.

E o verso
semi-novo, o ovo
do filósofo, o magma,
o gelo, o feio, o mais
feio, e o belo, na berlinda,
a linda flor
no prelo.

O sopro 
empurrado pelo
diafragma, o canto, 
o pranto e o confete,
a festa, o texto,
o poema, este 
poema, esse 
versinho, essa trova,
pó, carvão, diamante,
pólvora, o refrão,
o poema, ah esse 
poema que se repete
e se repete novamente,
tão ruim, tão bonito,
tão aflito, tão valente,
repetindo, repetindo,
repetido (...)
mortalmente.

terça-feira, 1 de março de 2016

O UMBIGO







Talvez 
eu esteja morto 
como a luz que beija
 a pele fria de uma estrela anã
ou deveras torto, torto como a linha reta  
outrora traçada pelo pincel de um holandês 
apaixonado, de orelha cortada, afogado em azuis 
de cobalto coruscante e amarelos pungentes,
rascantes, deliciosos como a maçã mordida
por um casal de bobos, expulsos 
do paraíso, naquela (nesta)
manhã prateada, congelada
no dedo (de deus, esperto)
que aponta o deserto
e com carinho
condena.

Talvez
a pena que escreve
persiga a pena que se paga
ao fazer o poema: nada, nada
pode perdoar essa nossa falha.
Sonhei com o umbigo ambíguo
de uma quase amiga, a tez branca
salpicada de estrelinhas coradas
e nas entrelinhas (proibidas)
a palavra dada, oferecida
com a relutância franca
de quem faz uma prece
pedindo pressa, muita
pressa aos deuses
- que voltem logo
mas não agora.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

ANTES DO SONO




Não sou eu
mas meus olhos,
ventanelas semicerradas
segurando a hora última,
íntima, ínfima, antes
do sono.

Uma torre de marfim
queima esplendidamente
no horizonte crepuscular.

Os ratos cantam,
contam segredos,
fazem dos gatos seus
brinquedos, tocam jazz,
declamam poemas, oram, 
pedem a Deus que salve
suas almas pequenas,
e riem do seu próprio
destino.

Estou feliz
e finito.

Cada minuto
de calma, na fotografia,
parece uma festa de cegos
lambendo celulóides
de cromo.

Estou feliz
e finito.

Não sou eu
mas meus olhos,
ventanelas semicerradas
segurando a hora última,
íntima, ínfima, antes
do sono.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

BEIRA-MAR



Venho à beira de ti,
meu mar, testar meu canto,
resfolegar com que em prantos,
tentando, na verdade, tornar
imperceptível, impenetrável
a minha respiração, como
se morto eu pudesse
ainda, ao sabor
das marés
dançar.

Vim, meu mar,
dizer que cantar o azul
é voltar, e voltar, e voltar
sem sair do lugar: saber
que a gente acaba, e esquece
que as ondas vem, e voltam, e
vem, as ondas, as ondas, a gente
se vai, de repente morre, mas não
desaparece.

Venho à beira deste mar
deixar meu corpo fluir, pesar
sobre as águas, como se mágoa
alguma pudesse nos vencer, machucar,
porque é enorme, imensa a alma de quem
com calma souber viver, morrer, viver,
morrer, e com pés de sereia 
flutuar.

Basta saber
que tudo (e nada)
é definitivamente vigente:
a gente vive, sobrevive, cala
e canta, pranteia um ponteio
bonito, como o volteio do pescador
a pentear a rede que se irá lançar
- ter esperança, saber esperar
por outra vida, talvez melhor,
talvez diferente, um outro
canto, no mesmo mar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

ESPUMAS FLUTUANTES


Verdades 
líquidas escorrem 
das falas enquanto 
não é noite
nem dia.

Esperanças fugidias
fazem ninho em moitas
de silêncio e mágoa.

Estamos em estado de festa,
ou de luto, o que é, no fim
das contas, a mesma
coisa.

Estamos bem
como o cristal
à sombra do 
martelo.

Descubro cobras
e lagartos, de vidro
colorido, enterrados 
no peito d'uma palmeira
solitária.

Venta:
o mar arrebenta
contra meus rochedos
particulares, minhas verdades,
medos, minhas apostas, 
meus lances de fé
e sinismo.

Amar, fato
registrado em ata,
firmado em contratos
e lavrado nos autos
resvala, escapa
quando se tenta
retê-lo.

Amor,
monstro maldito
e belo!

Quanto custa
voltar atrás para
encontrar a mesma
história, renovada
em erros luminosos
e promessas frágeis
e lindas como as algas
que se desfazem todas
as manhãs, ao chegar 
à praia?

Há verdades firmes 
como a espuma branca
das marés.

Creio nelas 
e no poder de mil fadas 
afogadas, mortas, decompostas,
dentro de uma garrafa de vodka,
vinho, ou coisa que o valha.

Esses diabinhos
guardados nos odres
nunca falham.

O amor
rescinde à fruta
podre.

Fui romântico
em vão, como são
e serão todos os poetas
fracassados, mas aplaudidos
por hordas de paquidermes
que nunca dormem.

Enorme, 
o caminho de volta
some na poeira
do oceano.

A pé, à nado,
com remos ou braçadas
fortes, decididas, não importa,
já não posso voltar.

Inteira,
minha sombra
é maior que meu 
corpo.

Morto, 
valho menos,
mas sirvo ainda.

Servir e amar
é quase o mesmo
para muita gente.

É preciso
contar moedas
e garantir as incertas
vias do viver.

Cada vez mais raras
essas horas de paz e bem
precisam ser compradas
a peso de ouro e carvão
animal.

Assino promissórias.
Penhoro relicários
de prata suja.

O amor falha
mas não tarda.

Mesmo
em vão, não 
podemos desacreditar 
do seu poder.

Calar, amar,
seguir em frente,
rente à costa, cortando
a pele, a carne, nos corais, nos recifes, 
nos hábitos pontiagudos, nos costumes 
afiados, nas horas pesadas 
de descanso, no armistício 
do sono, na paz da 
ausência.

Só assim 
é possível, obrigatório, 
imperioso viver, sobreviver 
aos falsos confortos da noite 
e aos verdadeiros (porém tão
caros) prazeres
do dia.

Para todo o resto
há Deus, o dinheiro
e a poesia.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

RECORTE

Cada minuto dourado
dura apenas o necessário,
então preteja, latejando sob
nossa pele. Devoro a hora boa
com esses olhos de mirar à toa.
Viver é prestar atenção, muita
atenção, a tudo o que for
colocado ao lado
de cada detalhe.

O entalhe
do morro onde 
as nuvens se escondem.
O coqueiro torto que à direita
prepara suas ogivas esverdeadas
e suculentas. As lâminas que pendem
dos caules; prata, alumínio, chumbo
no céu da tarde, pardais, e mais,
todos iguais, pedindo haikais
aos monges, longe, onde
léguas imaginadas
nos separam.

Um gesto
que lança os dados
errados, uma curva que nos perde,
o pingo de malvasia, o vidro moído
entre os dentes, a resposta dada,
a chuvinha que arde, a espuma
de um cansaço que escorre
dos poros, o verso de ouro
que a gente pensa, pensa,
corre, procura o papel,
acha caneta, mas
perde a letra.

Não dei sorte, venci.
Houvesse perdido, sido
mais um, seria mais feliz?

Escapo.
Por um triz não fui.

O musgo cresce feliz
entre os hábitos da gente.

A hera, viçosa, 
faz parecer alegria 
o que era apenas 
descuido.

Tudo é bom, 
e é preciso esquecer-se disso
a cada dia, e recomeçar, escorregar,
cair, levantar, sorrir, fingir, 
e chorar como quem 
aplaude.

Todo santo dia
uma flecha envenenada 
me acerta o peito, e eu
sorrio, ensaio um salamaleque,
e malandro, moleque, sigo em frente
dizendo que não doeu.

Repare, é tudo verdade, 
mas nem tudo aconteceu.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

ALEGORIAS E ADEREÇOS

Estive e fui.
Sobretudo tive.

Hoje, flutuo 
com pesos 
nos artelhos.

Do alto, 
pareço estar 
ainda de joelhos.

Divago
com pressa.
Cobram-me abraços
e sorrisos espremidos:
entrementes, entredentes,
é estridente o som deste
silêncio.

Estive. Fui.
Tive. Mas dói
saber que foi tardio
compreender que toda dor
vinha do peso, da posse, dos ossos
cansados, loucos pra ser penas,
talvez plumas, e voar. 
Apenas.

Mas 
preciso demais
de um pouco mais de tempo
e umas poucas coisas que muito
custam chegar, porque aqui do alto
fica difícil alcançá-las: quem
me entender, não diga.

Estive. Fui.
Tive. Agora toco
ágoras douradas 
com as pontas dos meus pés.
"Viver é foda. Morrer é difícil."
Há de se ter paciência
e alguma pressa.

Pisar a lama
tendo nuvens na cabeça.
sapatear, meu bem, sapatear
miudinho, como a palmeira
que penteia os cabelos
na tempestade.

A gente vive mesmo
é quando não quer
nem precisa.

Deve
ser por isso
que a vida é preciosa.

Minhas filosofias
derreteram-se no último verão.
Os blocos passam, passarão.
Até as moças, oh, as moças,
por baixo da purpurina
e do cetim, também
são carne e osso.

Tudo é possível.
Mas nem tudo se pode,
disse aquele que me fortalece.
Minhas preces sobem e descem,
descem e sobem, na partitura.

Hoje fluo, quase voo.
As correntes balançam no ar.
E o som que elas fazem, ao tilintar
inúteis e pesadas, é lindo!

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

MÁRMORE NEGRO




Reparo 
que há um veludo 
muito bem gasto no gesto comum
e que sobre o mármore negro do cotidiano
há pequenas manchas de contentamento 
e mágoa. 

Trago 
ânforas de cansaço
nas costas, espáduas, 
quadris, artelhos, espírito, 
e na alma. 

O tempo flui, pesado, 
mas veloz, com a calma 
nervosa dos que morrem aos poucos, 
escorrendo por caminhos tortuosos, 
por veias, vias rubras onde 
se guardam tesouros 
ignorados.

A gente sorri, diz 
bom dia e boa noite, pede 
desculpas, concede a bênção, 
dá licença, e sobrevive, por que é preciso 
[precioso] sobreviver, resistir, fingir que a carne 
entende todo fingimento, necessidade de estar 
em paz [no vácuo das bombas] enquanto 
tudo o que é sólido, eterno, desfaz-se 
graciosamente no ar, diante do vidro 
embaçado dos (nossos) 
olhos.

Há tempo
para pisar flores,
levantar a guarda, cultivar
amores vãos, cavar trincheiras,
palavrar poemas inúteis, como
todos hão de ser, sempre,
e sempre.

Reparo 
que há um veludo 
muito bem gasto no gesto comum
e que minhas unhas, desafiadas, arranham
o mármore negro do cotidiano, desenhando
este verso (talvez o derradeiro) que erra
tranquilo, em círculos de virtude
e vício.

Trago ainda
essas ânforas de cansaço
sobre as costas, espáduas, 
quadris, nos artelhos, 
no espírito, 
na alma. 

Estou bem.

A máquina do mundo 
mói os dias, mastiga as carnes,
e distribui acenos, desses 
que não sabemos se 
de chegada ou de 
adeus.

Há tempo
para pisar flores,
levantar a guarda, cultivar
amores vãos, cavar trincheiras,
palavrar poemas inúteis, como
todos hão de ser, sempre,
e sempre.

Amém.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O ANJO DA ALVORADA



Uma fresta
reluz no céu coalhado
de estrelas.

Algumas são mais belas,
outras, quase apagadas,
são fim de festa.

Estamos quase acordados,
e quase amanhece: 
o arcanjo Miguel 

sonha conosco 
e molha a cama. 
Seu corpo têso, 

de barro e louça
quase quebra.
Ele chora? 

Fala com os peixes? 
É licor? Mel?
Breu de vela?

A moça na cama
não vê que a luz pinga
sobre ela.

Outros anjos,
outros homens
devem levantar-se

agora. Viver
é urgente, tarefa diária
para a qual não há protesto.

O anjo se esvai
na melodia da alvorada
dispensando seus amplexos.

Suas asas derretem? 
Ou ele sonha 
que tem sexo?

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

COROLAS




Na corola da manhã 
o azul ultramarino de ontem
escorre líquido por entre as montanhas.

Há paz e medo na íris embaçada
que vê outros olhares
alhures.

Dísticos se desencaixam 
com sôfrega beleza: os ritmos não rimam, 
os poemas são pomares de frutos roxos

que não justificam nem perdoam
o açúcar desperdiçado pelos sonhos
dos infantes.

Prossigo 
encarando minha finitude
como quem espera uma ave matutina

que vem de longe 
trinando seu canto de cristal quebrado, e pousa 
sóbria, antes do enquadramento perfeito da foto.

Minha palmeira invencível 
dorme, mas está atenta. Em seu sono os ventos 
passam alisando-lhe os cabelos que a noite pintou

com as mais bonitas chagas e broquéis
como quem salpica estrelas de fogo-fátuo
num céu nublado.

É preciso arar 
entre os versos que vigoram
para compreender que não há beleza neles

e ainda assim encher os olhos 
de águas claras, lavando o azulejo colorido 
das almas restantes desses delírios mais-que-perfeitos.

Não entender é essencial nessa hora.
Só com as mãos de quem ignora é possível reter
a paz que vigia de dentro desse turbilhão, e dormir

o sono dos bobos, 
com a firmeza rubra dos inconstantes.
Divago, cansado de estar certo em vão.

Errar por certos lugares 
tornou-se o pão de cada dia.
Há algo ameaçadoramente bom no horizonte, 

convém, por isso, quebrar as pernas 
de qualquer ave branca, e com isso fazer com que voe 
sem pouso e sem uso para o chão, faça tensa a pena leve,

e breve a cena imensa, 
desfazendo a aliança frágil e triste
entre o que é e o que deveria ser.

É possível 
que o tempo faça sentido
desfazendo meu corpo de areia 

como faz o vento soprando 
as dunas para onde não se pode vê-las,
grão a grão, para dentro do oceano.

Repito, é preciso quebrar as pernas
de qualquer esperança, qualquer pássaro alvo,
qualquer bicho alado que voe sobre nossa cabeça.

Sem chão, hão de voar melhor.
Como Ícaro entre os escombros, a memória
do voo será feliz como a memória do tombo.

Então, que as aves não pousem jamais, 
nem usem o horizonte como faz o poeta, 
que ara horas acesas enquanto sonha:

na corola da manhã 
o azul ultramarino de ontem
escorre líquido por entre as montanhas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O PESO DA LUZ



Quanto pesa a luz
que evita pousar em tua pele
quando a alvorada passa rente
- lâmina de sol - como esta mão
que hexita, claudica, reivindica, implora
o teu calor, e tu escapas, engenhosa, 
entre os dedos velozes do tempo?

Quanto pesa o gesto
que não se completa, a palavra
esmagada por teu lábio carinhoso
- veludo e vontade, puro aço - agora
que tua carne não se põe em ata
no contrato quotidiano do amor
entre os escombros da noite
e os vestígios do dia?

Quanto pode a tua vontade
agora que és senhora apenas 
da tua própria ausência, mesmo 
quando tua sombra azuleja minha alma
e teus passos - abalo sísmico, cínico -
seguem os dos gatos, pelos cantos
das fotografias?

Quanto queres de mim
hoje que teus poderes acabaram
e as lagunas castanhas dos meus olhos
- águas salgadas, doces marés - secaram
de tanto choro, derramaram tanto ouro,
garimpado sem paz, nos armistícios
declarados à força, senão por amor
apenas por cansaço?

[Amanheceu: sigamos em frente.
Me beija? Toda manhã é boa - mesmo
que amar assim não seja.]

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A FLORESTA QUE SE MOVE




Paro. 
A floresta se move.
A montanha, veloz,

contorna o aro 
quebrado dos meus óculos. 
A luz cai pesada sobre meus ombros.

Os escombros 
da minha alma não me cabem 
na palma da mão direita. 

Um gato se deita
sobre a minha sombra.
Um cão andaluz paira na tela.

Peço ajuda.
Ninguém ouve.
Aplausos na plateia.

Uma torre branca
está para cair: seus cabelos
pegam fogo, ela não grita.

O cavalo amarelo, 
um bispo negro, um galo
português, um falcão maltês,

um monge cego,
a estrela negra ardendo em pleno dia.
Os signos estão postos, em vão.

Não morrerei.
Nem vivo. Comemoro:
a ruína é um berço de ouro.

Paro.
Quebrado, o aro
dos meus óculos

acompanha a curva
do horizonte que se afasta.
Meu poema é uma floresta.