Ask Google Guru:

quarta-feira, 30 de março de 2011

A MAGOADA FELICIDADE





A Magoada Felicidade


Sempre que essa tal felicidade bate à minha porta, fico como uma criança que estivesse sozinha em casa e fosse surpreendida por algum estranho visitante, que subitamente batesse com mão de pedra ou de aço, e fizesse todo mísero cotidiano transformar-se em novidade. Eis o dilema: abrir ou não abrir a porta?


A gente se acostuma a viver em um mundo previsível, onde a única certeza é a perda. Nada é completo, perfeito. E perfeição, aqui, nada tem a ver com beleza ou poder. Perfeito é aquilo que é completo. Veja só a nossa vida: é totalmente imperfeita. É incompleta. Temos alegrias momentâneas, uma alegria diáfana, efêmera, escrita a ferro e fogo nos cânones, delimitada por todas as religiões: a vida tem alegrias, porque seu Criador assim deseja, mas o sofrer é humano, necessário, indispensável, insofismável. Somente no pós-vida é que existe a possibilidade da redenção, que é disfrutar do sentimento de eternidade, a existência enfim completa e por isso perfeita, e por consequência, a felicidade.


Então quer dizer que ninguém é feliz nessa vida? Sim, a felicidade, muitas vezes, se apresenta em nossa vida, mais de uma vez a cada pessoa, mas nós não acreditamos nela. Não conseguimos entender o que ela pretente. Recebemos a felicidade como uma visita muito suspeita: ninguém pode ser realmente feliz, plenamente, para sempre! Se vemos alguém feliz, ou suspeitamos que está fingindo, ou cremos que está obtendo sua felicidade às custas da tristeza de outro, ou que, em última instância, não é a felicidade verdadeira, visto que essa felicidade demanda um contentamento sem medida e sem motivo, ou sem motivo aparente ou explícito, visto que tudo é tão perfeito que fica difícil definir qual é a fonte daquela felicidade.


Chega até ser deselegante, ofensivo, dizer que é feliz, andar sorrindo por aí, dizendo que a vida é boa, dizendo que está tudo bem!  Gente que vive assim é tida como boba ou como mal-intensionada, gente que finge o impossível só para nos deixar 'pra baixo', pra mostrar que está obtendo mais vantagens que nós, que está sendo favorecida por alguma entidade suprema que só distribui benesses a uma pequena parcela da humanidade.


Estava me sentindo tão pleno ultimamente, tão feliz, que não entendi o motivo, apesar de suspeitar de vários. Poderia achar que é o trabalho, o amor, as finanças, a política... poderia ser simplesmente por ter achado uma moeda no bolso de um paletó, ou ter recebido um sorriso de um estranho na rua, ou ter conseguido comprar aquele carro, aquele tênis, o último gadget da moda, uma gravata bonita...  É claro que a vida possui as suas mazelas, os seus problemas, os pequenos descontentamentos, as lágrimas que furtivamente irrompem quando vemos uma cena triste no noticiário ou na tela do cinema... mas essas dores, essas lágrimas, estavam, por assim dizer, no "script". É esperado certo tipo de empatia e simpatia, para o riso e para o choro. Mas a felicidade sobrepuja a tudo isso, e no fim do dia o sujeito feliz sente-se realizado, completo, ainda que suspeite que haja algo de errado.


O fato é que nossa felicidade é uma senhora acostumada a não ser correspondida por qualquer pretendente. Ela nos sorri, flerta conosco, e nós fazemos pouco caso. Ficamos com medo, e, humanos e bobos como somos, aceitamos a felicidade como algo que não pudesse durar, e por isso ansiamos tolamente pela volta ao 'mundo normal' sem toda aquela euforia, aquela felicidade, aqueles sorrisos e aquela alegria.


Como eu disse, estava me sentindo feliz com tudo o que estava vivendo ultimamente, sem ligar para os pequenos problemas do dia a dia. Mas, de repente, lembrei da minha condição humana, lembrei de como me contavam que a felicidade não existia, que era apenas uma palavra usada para designar o inatingível, mas lembrei, sobretudo, de como a filosofia e a ciência pouco contribuem para o entendimento da felicidade, que, muito magoada, não quer mais papo com cientistas, filósofos e, cada dia mais, com os poetas!


A Felicidade, magoada, tem evitado constantemente o nosso convívio. Culpa nossa!


Ao perceber que a minha felicidade já estava me olhando desconfiada, querendo ir embora, observando meu comportamento estranho, decidi chamá-la para uma conversa, dizer que não me importava de onde vinha ou o que fazia aqui. Decidi não interpelar mais a quem me batesse na porta com um sorriso no rosto e uma promessa de perfeição. Simplesmente abriria portas e janelas, deixaria entrar quem quisesse, e deixaria a porta aberta para que a brisa de cada dia e cada noite viesse arejar os cômodos dessa vida, sem que eu chegasse a perguntar quem sopra esses ventos na minha face, simplesmente aceitando seu cheiro de "bom dia" e de "boa noite" como quem aceita um sonho bom, e embarca em suas aventuras sem nem perceber que já está navegando em águas profundas. 


Ser feliz é exatamente isso, um exercício consciente para perder a consciência. Perder-se com minúcia, com toda a técnica e experiência daqueles que não tem a mínima idéia do que estão fazendo! Como disse o velho bardo: "Navegar é preciso, viver não é preciso!"



sábado, 26 de março de 2011

SOLITUDE

Me dá sua mão?
E se eu precisar de um abraço, como eu faço?
Me conta qualquer mentira gostosa!
Os meus versos só se alegram com a tua prosa!

sábado, 19 de março de 2011

AS COISAS MAIS DOLORIDAS





Vim de longe derrubando ânforas de espanto
enquanto meu tempo transformava  o eterno em por enquanto
e ao ouvir meu próprio canto, abafado pela noite lenta e mágica
achei que fosse outro, menos parecido comigo, menos carente de abrigo,
talvez alguém que não parecesse tão velho
ou cujos olhos já cansados de tanto brilhar
não fugissem ao encontro de qualquer espelho.


Vim fugindo da minha sombra
porque depois de certas horas qualquer companhia incomoda
e qualquer fio de esperança é visto como a corda
de uma forca que ao balançar dos ventos me convida
ao último salto, para além do meu próprio tempo,
para o voo mais alto e absurdo, a deliciosa vertigem
de enfim livrar-se de roupas, carnes, ossos... de toda casca
que nos impede de gritar ao mundo: Já chega! Já basta!


Vim até aqui e estaquei diante da folha branca
como quem chega à beira de um abismo 
com a certeza do próximo passo
mas interrompe a marcha diante do sinismo
que trazemos guardado com minúcia e paciência
para usar nessas horinhas tristes e calmas
quando a vida e a morte unidas batem palmas
aguardando terminar o espetáculo da nossa existência.


Tinha ganas de poetar violentamente, de gozar de todos,
de jogar na cara dos meus amores fracassados essa dor imensa,
de perder os bons modos e ditar nomes de santas e putas
pois são todas elas filhas da mesma Eva
que jogou o homem nas trevas usando uma fruta.
Mas seria fácil demais fazer versos de pura mágoa
enquanto o espírito de um Deus sonso flutua sobre as águas
sabendo que a carne é fraca e não deve ser esquecida
nem recusada, nem abolida, nem refutada, 
porque na carne moram as coisas mais gostosas
e só no espírito residem as coisas mais doloridas!

domingo, 6 de março de 2011

A MELHOR FLOR DOS PIORES TEMPOS





A Melhor Flor dos Piores Tempos


[ou... Cavando Abismos, Construindo Pontes]


Acostumei-me ao rebuscados meneios da poesia. Mal costume, devo dizer. Porque a cada dia que passa tenho que ser mais homem, mais humano, e subverter toda lira, e não pensar mais em ramos floridos bailando entre os dedos da brisa matutina, nem nas ondas de chumbo líquido que se descabelam ao encontrar a terra, bordando de brancas espumas os lábios do continente. Não, não cabe rimar. Contemplar a poesia não cabe, nessas horas de ferro e fogo que exigem da gente a palavra dura e a atitude medida dos homens de verdade.


Mas o que é ser um homem de verdade? Ser rude? Mentir? Acordar cedo e sair para a vida com a gravata apertada no colarinho, com o tempo nos estrangulando, com contas a pagar, com as mãos secas para machucar os outros, com o corpo esperando o sexo sem carinho, a agulha, o vício, a morte?


Será o tempo o nosso vilão? Será o tempo a mão esquerda de Deus? Será que existe um Deus? Ou será que cada homem cria um álibi chamado Deus para cuidar do episódio humano como quem vive a podar uma árvore que só queria florescer?


Há algum tempo não encontro refúgio nas palavras. Elas que me acolheram nas horas mais difíceis, hoje me fogem como cavalos selvagens, e são ariscas, brutas, e jogam poeira nos meus olhos e me fazem chorar um choro abafado e envergonhado. Homem não chora, menino!  E as palavras passam, cavalgam sem cuidado com as campinas floridas, e rima alguma me contempla, nem mesmo a mais dolorida. As palavras passam por meus olhos, mas por mais que eu as mire, não acredito mais na verdade dos seus nomes. Elas nascem de todos os lugares e de lugar nenhum; elas voam por todos os lados e se chocam contra o meu peito como aves cegas contra um rochedo à beira-mar. Como sorrir assim? Como cantar a paisagem se todas as janelas estão fechadas?


Tempo sem beijos. Tempo de apertos de mãos sem vontade. Tempo de dividir o cativeiro com o inimigo. E as palavras ao redor, paredes sujas, corredores escuros, os carinhos disfarçados de mal-querer, os maus-tratos adornados com fita cor-de-rosa e com cheiro de chocolate. É como se todos os ramos de flores escondessem venenos mortais, adagas, punhais. Onde foi que perdemos nossa delicadeza? Quando foi que amar ficou fora de moda? As pessoas caminham em círculos, mãos dadas com luvas cheias de espinhos.


Outro dia me encontrei olhando nos olhos de outra pessoa, e confesso que estremeci. Nos últimos anos chegar perto de qualquer ser humano era para mim como aproximar-se da beira de um abismo. Curiosidade, medo, náuseas, desconforto...  E por isso abracei as formas mais efêmeras de existência, e me tornei uma lenda pra mim mesmo. Mas de tempos em tempos eu me pego desafiando a perigosa distância da qual me fiz refém, e a despeito do perigo de perder-me nos abismos da alma alheia, deixo-me apaixonar pela mais banal da criaturas, por aquela que passa sem me notar, por aquela que sorri sem terceiras intenções (porque das segundas ninguém escapa) e que me estende a mão desnuda, sem as luvas cotidianas a que todos nos acostumamos a usar.



Esta criatura em construção sempre me surpreende com a força da sua poesia. Poesia que eu não acreditava existir mais! 

Engraçado como nosso pensamento caminha pelas mesmas trilhas, ás vezes ensolaradas, ás vezes obscuras. a vida continua dura, ríspida, mas há quem resista. Há quem resista!

Meus nós desataram-se há muito tempo, e nem lembro mais o que é ter um porto seguro, ou uma corda que me prenda a alguma coisa, alguém, algum lugar. Mas quanto mais eu conheci do mundo, mas percebi o quanto todos nós somos parecidos, as mesmas vontades, os mesmos pecados, as mesmas forças e fraquezas.

Antes eu me privava do amor, porque eu sim fui abandonado e envelheci esperando ela voltar... e a dor do golpe me fez jamais querer aventurar-me por estes caminhos novamente.

Mas hoje existe um mundo novo, virtual, e apaixonar-se tornou-se possível novamente, pois o muro de proteção (a telinha brilhante ) nos salvaguarda de tocar o outro e depois morrer de saudade por não poder tocar mais...

C'est la vie.

Pensando em nós... acho que somos como duas pessoas que caminham no escuro, uma ao lado da outra, mas sem se ver, sem se tocar, e por isso seguindo sempre em frente, com uma imensa impressão de estar só. Faltaria só um gesto na direção oposta para que o milagre acontecesse, mas já é tarde para acreditar em milagres, e caminhar é preciso...

Mas como uma criança deixa sua mão registrada no cimento fresco, sem saber que aquele toque ficará ali para sempre, você fez o mesmo comigo, chegando de leve, como uma pena bonita e colorida que vem flutuando e nos toca o ombro, e a gente guarda com um carinho sem explicação, numa caixinha que talvez fique esquecida em alguma gaveta, lembrança única de que um dia nos apaixonamos por um pássaro que nem vimos nem ouvimos, pois passou voando veloz em direção ao seu destino de liberdade!


domingo, 20 de fevereiro de 2011

KAFKA SORRI NA ETERNIDADE



Ontem de madrugada vi uma barata branca passeando pelos ladrilhos negros do meu banheiro. O pior é que eu não estava bêbado, aliás não sou do tipo que costuma ficar bêbado, porque uma dor-de-cabeça cruel me assalta antes que eu consiga passar do limite e ver o mundo rodando. E o mais curioso é que a barata era banca mesmo, e os ladrilhos do meu banheiro são de mármore negro, imagine o contraste!

Levei um susto, depois tive vontade de perseguí-la, mas o monstrinho desapareceu como por encanto, ou foi mais rápida que meus olhos míopes e astigmáticos ao mesmo tempo. Mais provável.

Fiquei lembrando da minha infância, em um momento em que eu morava com minhas tias, e lembrei do pânico das senhoras, misturado ao frenezi das crianças correndo com chinelos à mão... Mas depois lembrei também das histórias que me contavam:

" - A barata branca geralmente só aparece pra uma única pessoa. Ela é chamada de barata-noiva e significa que aquela pessoa vai se casar em breve!"

Essa era uma das histórias que eu ouvia em casa, você sabe, tias solteiras, família mineira, grande, cheia de crendices (e o texto redundando nos adjetivos) mas uma vizinha mais soturna, creio que uma viúva paulistana, filha de imigrantes búlgaros, gente muito tendenciosa a ver espíritos malignos até mesmo num belo arco-íris, um dia me disse assim:

" - A barata branca é chamada de barata-fantasma e traz sempre mau agouro! Quando ela aparece, é sinal de que alguém daquela casa ou algum conhecido de quem a viu irá morrer em breve!"

Considerando o imaginário popular e considerando que eu moro sozinho num prédio antigo, vocês já podem imaginar o resultado: não consegui dormir durante a noite. Primeiro esperei por mais de uma hora que a noiva-fantasma voltasse, depois passei o resto da madrugada no quarto, um calor infernal sem ar-condicionado, imaginando quem seria essa minha esposa tão inesperada ou como seria essa minha morte tão prematura... e com a barata-branca me convidando a escrever um samba pra ela!


O prognóstico é pouco animador: ou eu vou me casar muito em breve, ou vou morrer! Pra mim, está dando na mesma...



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A CARNE




A carne 
é o cerne
de tudo o que a gente gosta
mas também do arame farpado
que se enrosca na alma do coitado.

A carne da mulata
servida em baixelas de prata.
A carne da loirinha
degustada com os melhores vinhos.
A mulher do outro
um manjar para poucos.
O sexo igual ou diferente
a carne que ilude a gente...

Se os sábios, os santos, os ascetas

disserem que é na alma que reside
o fogo que dá vida aos poetas
chame-os de falsos, pois é tudo mentira!
É a carne que alimenta
o fogo da sagrada pira!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A MEDIDA CERTA






Neste cais
na beira deste cais
onde mar há demais, demais,
e onde não conheço ninguém
nem meço onde termino nem onde começo
sei que nem sou homem nem menino
nem posso ser santo, tampouco travesso
trago uma pedra latejando no punho fechado
e ela bate, pulsa, você até acharia graça
se eu jogasse essa pedra de fogo na tua vidraça
mas trago-a sem saber o que fazer com ela
sem saber se a jogo ao mar ou se jogo contra a tua janela...

Estou aqui, parado, na beira de um cais de perguntas
feitas para jamais encontrar qualquer resposta.
Sei que preciso de uma atitude, de um leme,
mas sempre que meu coração quer ser suave ou rude
o chão se abre, os ventos sopram, a terra treme
e eu que já não me sinto confortável dentro de mim
preciso ser apenas a exata medida
da rima que talvez não caiba num poema
mas que fique subentendida
como a maior parte de tudo na vida
porque sou poeta, enfim
(pedra enrolada em cetim)
e por isso tenho que barco e timoneiro
mas a alma, esta será sempre um oceano
porque todo poeta é humano
demasiadamente humano
e tem apenas que ser a medida certa
de uma ferida aberta.

domingo, 9 de janeiro de 2011

NAVEGAR É PRECISO





Neste cais
na beira deste cais
onde mar há demais, demais, 
e onde não conheço ninguém
nem meço onde termino nem onde começo
sei que nem sou homem nem menino
nem posso ser santo, tampouco travesso
tenho que ser a medida certa
de uma ferida aberta...


Nessa hora
em que toda pergunta sã me permeia
preciso de qualquer resposta louca
porque tudo o que me vier à boca
não será digno de nota, coisa ínfima
como a mosca que se deixa enredar numa teia
me passa um trem nas veias
e me sinto com alguém que foge
alguém que deve, que se atreve,
alguém que escreve um destino 
diferente do que diziam ser o dogma divino
alguém que que deixa pra trás seus imundos panos
pra ser mais homem, mais mulher, mais vivo, mais humano!


Porque sendo pobre e humilde e suburbano
querendo ser mais que humano
metropolitano, homem do mundo
com a alma mais limpa que a água clara
da fonte mais transparente, mais secreta e mais rara
vem falar como quem sabe só o que é preciso saber
e não esse homem qualquer, esse imundo
que não ouve a poesia murmurante, a poesia simples,
que fala baixinho, fala baixinho com o mundo e o mundo lhe escuta:
ele sim é mestre, artesão, homem que de mansinho
com palavra e força, com martelo e carinho, esculpe a pedra bruta
e transforma o mundo, disto que ele é agora
naquilo que todo homem bom sonha 
que o mundo de hoje seja o que foi outrora!




-

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

FALAR COM DEUS



Conversar com Deus às vezes é um diálogo, outras um monólogo.
Contudo o mais difícil nesse caminho é interpretar quem de nós está falando sozinho!

A FLECHA




O toque do poeta
é o toque de quem se atreve
a passear de leve sobre a pele da mulher do outro
ou como quem olha a divindade e negocia: "A eternidade ainda é pouco!"
Porque ele escreve como quem abre uma porta e não a fecha.
Ofício de arqueiro-poeta é escolher a palavra mais aguda
mas nem se importar em olhar onde vai cair a flecha!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

OTHELO



Sinto-me um novo Othelo
sem nenhuma Desdêmona.
Na verdade, sou um peixe-palhaço
que ainda não encontrou sua anêmona.



CERTIDÃO DE NASCIMENTO






Eu, expatriado e repatriado
sem bandeira que me dê razão
sem pátria que me sirva de âncora ao coração
transbordo minhas ânforas de mágoa e alegria.
Nenhum idioma me prende, toda língua me permeia
porque meus sonhos não obedecem a qualquer dicionário.
Precário é o grito da mosca
quando se vê enredado por qualquer teia.
Meu sangue carrega as histórias mais toscas
porque é difícil definir a cor daquilo que corre em minhas veias!
Minha pátria é este sol, esse mar, essa dor e essa gente;
minha pátria é meu pão de cada dia
e o resto é pura fantasia.


domingo, 19 de dezembro de 2010

TEMPUS FUGIT


Chega uma hora em que o tempo nos diz: basta! 
E a gente foge tão rápido, que só deixa para trás a casca.




CITAÇÕES DE ESTAMIRA

-








Citações de Estamira


Estamira é uma mulher sexagenária, considerada louca por sua família e conhecidos, moradora de um lixão no Rio de Janeiro, que vive da reciclagem daquilo que para nós é lixo, mas que para ela e para muitos milhares de brasileiros é vida, simples assim.


Ela alterna estados de lucidez e fúria, vituperando contra forças ocultas, discursando altíssimas filosofias que seus companheiros de ofício, entre os cães e os urubus, mal compreendem. Seu discurso apocalíptico é entrecortado por sorrisos triunfantes, que só se perdem quando ela se enfurece com a humanidade, ou melhor, com a "esperteza ao contrário" de todos os que a cercam.


O filme de Marcos Prado é de 2005, mas é tão atual quanto o sol que nasceu hoje; e eu, poeta, não poderia deixar de registrar aqui essa minha lembrança recorrente, que mexeu com meu jeito de ver, descrever e escrever o mundo. Estamira é essencial, porque é simples. Estamira ("esta mira" / "esta paisagem" / "essa visão") é um daqueles espelhos onde a humanidade pouco gosta de se olhar.


"Eu trago a boa sorte, mas a minha sorte não é boa."



"Eu não sou como vocês, que são apenas robôs sanguíneos."


"A culpa é do hipócrita, mentiroso, e esperto ao contrário! Entendeu? É o que joga a pedra e esconde a mão!"


"Há o controle remoto. Veja, existe o controle remoto superior, natural... e há o artificial. O controle remoto é uma força assim quase como a luz, a eletricidade, por assim dizer. Agora é o seguinte: no homem, na sua carne estão os nervos, que são como cabos que transmitem as informações, como os cabos de eletricidade. Agora os deuses, que hoje são os cientistas, os técnicos... eles controlam, eles vêem até onde podem. Os cientistas, por meio de trocadilhos, de engodos, eles conseguem tudo. Por que o controle remoto nunca se queima, ele se distorce, gira. O cientista tem um medidor que revela, que controla. Tão simples, não?"


"Eu não sou feiticeira, não sou louca, não sou nada assim como a classificação que o homem produz. Eu sou livre, porque tenho o controle remoto natural, o superior!" 


"Neste mundo de maldades não tem mais o inocente. O que tem, isto sim, por todo lado, é o esperto ao contrário!"


"Você tem sua camisa, você está vestido, mas está suado. Você não vai tirar a sua camisa e jogar fora. você não pode fazer isso! Mas é assim que estão fazendo, de certa forma. Veja que isso aqui é um depósito dos restos. Ás vezes é só resto, mas ás vezes é só descuido. Resto e descuido! Quem revelou o homem como único ser condicional ensinou a conservar as coisas, e conservar é proteger, é cuidar, lavar, limpar, e usar o quanto pode. Mas o homem aprendeu a consumir e humilhar. Isso é o desperdício da coisa, e da alma."


"Eu vivo no lixo, mas não sou o lixo, sou o cuidado e a conservação, o que mantém o equilíbrio das coisas. Os cientistas enganaram Jesus. Ele não me vê, nem sabe de mim. E os cientistas não chegam até aqui, por isso o controle não me engana. A religião morreu, mas o controle remoto ainda existe, o natural e o artificial. Vive quem escolhe. Qual é o seu?"


"O homem torna-se visível quando nasce. Mas não é nascer de dentro da mãe, mas em sua realidade!"






http://www.estamira.com.br/
[Estamira, de Marcos Prado, Documentário, 2005]




-

sábado, 18 de dezembro de 2010

O MACETE



“Speak softly, and carry a big stick.” 
- Theodore Roosevelt 

Em bom Português vou dar o macete: "Fale manso, mas traga um porrete!"
- Marcelo Sousa

sábado, 11 de dezembro de 2010

DEMÊNCIA



Quero, mas não posso.
De espuma são feitos meus ossos.
Pra sempre, pra mim, é sempre muito pouco.
Não me tirem por gênio; eu sou mesmo é louco.
Tenho mãos que sabem os mais perfeitos carinhos,
mas meus gestos dizem ao mundo que quero estar sozinho.
Toda dissonância me alivia. Toda confusão me anima.
Mesmo assim teimo em perseguir a correta rima.
Eu poderia ser feroz, pois tenho músculos e astúcia,
mas meu juízo me faz sempre parecer um bicho de pelúcia.
Meu corpo pede, minha alma refuta.
Doar aos pobres ou gastar com as putas?
Não vou à missa; jamais provei uma hóstia.
Mas Deus nunca deixou-me com perguntas sem resposta.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

UM TELEFONEMA




Um Telefonema



Manhã de dezembro, dia abafado no Rio, apesar do céu cinzento típico do inverno. Faço malas para uma nova viajem. É o terceiro fim-de-semana na ponte aérea e a segunda noite de insônia. Tenho evitado espelhos e pessoas, mas viver me força a uma certa dose de contato com ambos. Vida que escolhi, ou caminhos pra onde fui empurrado? Não penso, apenas sigo adiante, ou cortando caminho pelos lados. 


Estava na cozinha tomando chá quando o telefone tocou...

Era um telefonema fortuito, inesperado. Logo pela manhã ouvir aquela voz rouca e doce tão perto do meu ouvido foi um choque, mas depois dos primeiros segundos aquilo se tornou uma experiência deliciosa e ao mesmo tempo aterradora. Foi como se eu mesmo, ou uma versão melhor de mim, extraviada em algum lugar do passado, pegasse o telefone só para ter essa conversa comigo:


- Alô?


- "Escuta, preciso que você me deixe seguir em frente. Pare de pensar em mim, por favor."


- Quem está falando?


- "Você sabe!'


- Sinto sua falta. Será que...

- "Olha aqui, rapaz, você está indo muito bem, aliás, nós estamos indo muito bem um sem o outro.

- Mas ainda dói, você sabe...

- "Óbvio que dói, estamos vivos, doer é o termômetro por onde medimos isso. Se nada doer mais, estaremos frios, mortos."

- Eu mudei, e queria ter você de volta...

- "É claro que mudou. Eu mesma também mudei, e daqui do passado onde você me deixou eu também consegui uma forma de prosseguir. Eu criei um futuro descolado do seu."

- Isso é cruel.

- "Sim, é a vida, lembra? Você nunca poderá mais ser, sozinho, aquilo que poderia ser comigo, mas o que importa é que eu ainda me importo, e sei que tu te importas também. Estou te ligando pra dizer que..."

- Eu te amo!

- "Também gosto muito de você. Agora dorme. Já é tarde."

- Nunca é tarde!

- "Confia em mim. Já é muito tarde. Bons sonhos..."

E foi como se eu pudesse ouvir e sentir o telefone se afastando do rosto dela, enquanto eu tentava com a voz trêmula e vacilante dizer umas últimas palavras, repetitivas e patéticas, que eu esperava que funcionassem como uma corda jogada ao mar a resgatar alguém que se afoga... "Eu te amo!"

E do fundo do limbo azul para onde aquela voz mergulhava de volta, juro que ainda pude ouvir uma resposta: "Também amo você. Adeus."



sábado, 27 de novembro de 2010

AS DELÍCIAS DO NÃO-SABER




Toda multidão é um abismo, 
um convite ao suicídio da privacidade, da calma. 
Mas também é um maremoto, um turbilhão
onde o moto-perpétuo do coração 
olha-se no espelho embaçado da alma. 
Um bafo de vida no vidro, 
e o vapor do amor faz aparecer a escrita oculta: 
alguém passou os dedos na tua pele 
e em segredo riscou um mapa do tesouro. 
O que não se vê é sempre de ouro! 
Porque ver a si mesmo ainda é pouco 
perto da experiência de mirar-se na figura do 'outro'. 
O semelhante, sempre dissonante, 
nosso irmão, seja na cachaça ou seja no pão, 
nem sempre é carne da nossa carne, 
mas carrega uma semente comum no seu cerne, 
em sigilosa angústia ou em barulhenta epifania
todos são iguais em suas secretas vilanias.
E enquanto isso Deus e o diabo jogam xadrez 
pela alma e pelos corpos de todos, vivos ou mortos, 
alinhados como formigas, laboriosas em sua marcha em fila, 
cada uma ciente da sua ignorância, a bela bestialidade 
da qual todo bom filósofo se jubila.
Ah, as delícias do não saber! 
Todo homem não é uma ilha? 
Somente os ignorantes podem versar sobre tudo: 
no tumulto das vozes, sempre vai parecer mais inteligente 
aquele que permanecer mudo!






- Marcelo Sousa, em "O Semeador de Abismos", 2011.

[...]



Quando a gravidade dos que mandam tanto
for uma força completamente nula
todos os povos entenderão sem espanto
que bobo não é quem divide, é quem só acumula.

Não vamos ter que escolher patrões nem políticos
nem vamos depender de deuses cansados, raquíticos.
Cada homem sem terra terá enfim seu quinhão de céu, de ar
e às crianças desde cedo será natural aprender a voar.

-