Ask Google Guru:
sábado, 30 de abril de 2011
SENHORA
Como o oceano imenso
abraça as terras todas de uma só vez
e embala o mundo no berço ritmado de suas marés
assim eu, pequeno perante a tua lenda, sou acolhido
por esta presença firme e doce resumida num abraço de mulher.
Num instante que poderia se prolongar pela eternidade
sinto todos os meus átomos desejando experimentar o teu corpo:
sou uma criança excitada por trovões que ressoam nos confins da noite
e sob o açoite das impreteríveis vontades que me assombram eu me deixo acolher
pela tua presença firme e doce resumida num abraço de mulher.
Mas num lampejo a realidade nos afeta
e teu olhar repreende o poeta dizendo "sim"
enquanto teu corpo aceita o homem dizendo "não"
separando-nos devagar, deixando-me flutuar para longe
da tua presença firme e doce resumida num abraço de mulher.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
NOTAS PARTICULARES
Notas particulares de quem sou agora para aquele que serei no minuto seguinte:
- Alegria, mas contida.
- Confiança, mas prudente.
- Amizade, mas à uma distância segura.
- Paciência, sobretudo consigo mesmo.
- Gentileza, mesmo com os que não merecem.
- Se perder a paciência, não se esqueça de manter a educação.
- Entre os ignorantes, seja elegante.
- Imite os bons hábitos, mas não perca sua personalidade.
- Seja original, mas controle as polêmicas.
- Diga sempre a verdade... para aqueles que se importam com ela.
- Não minta jamais, mas se esquive de compromissos impossíveis.
- Admire a beleza das flores, mas aceite a utilidade de um machado.
- Admire um bom sorriso, mas não creia em todos eles.
- Que tua voz seja firme, mas mansa.
- Seja bom, mas não pusilânime.
- Seja bravo, mas nunca impiedoso.
- Viva como se fosse o último dia, mas esteja ciente das consequências do amanhã.
- Que tuas mãos sejam fortes, mas carinhosas.
- Que teu coração não se deixe enganar, mas também não perca jamais a vontade de amar!
[Tenho a leve impressão de que metade disso já havia sido anotado antes. "Ignorance is bliss?"]
[CARPE DIEM]
domingo, 17 de abril de 2011
sábado, 9 de abril de 2011
O DESTINO DE ÍCARO
Eu não sabia mais olhar o nascer do dia com inocência.
Fazer a barba era um momento de epifanias cinzentas
e dedos trêmulos prometendo pequenas tragédias cotidianas
como cortes de navalha de dentro para fora, como mágoas
que correm sob a pele na calada das horas...
Eu não poderia contemplar o vôo tímido dos pardais
sem pensar nos poetas suicidas que tinham como único amigo
uma ave negra como a noite que beija os seus umbrais
lembrando que ali o amor não entraria... nunca mais!
Eu não sabia mais sorrir sem que por baixo daquela máscara
uma criatura de pele fria perguntasse "porquê?", "porquê?"
e o menino que eu ainda poderia ser desistisse da brincadeira
e fugisse entre as brumas de ocre-esverdeadas dos meus olhos.
Eu sou um homem feliz que esqueceu-se como sorrir.
Eu sou um homem bom que esqueceu-se de como rezar.
Eu sou um eterno amante que já não sabe amar.
Aos trinta anos de idade exauri todo açúcar do universo
mas continuo fingindo carinhos deliciosos
e sorrisos lindos como portas abertas de par em par.
Aos trinta anos troquei minha alma por um punhado de versos
e desde então sigo sozinho:
um coração de pedra,
que mesmo jogado no oceano
ainda insiste em flutuar.
MARE TRANQUILITATIS
Sigo em frente
na foz nas das gentes
ouvindo vozes antigas
e o marulho solfejante das ondas.
Tiro fotografias instantâneas
não daquilo que está á margem
mas das coisas sucedâneas, subcutâneas,
aquelas que trazem calma e vertigem.
Ando com passos de bêbado na corda bamba:
esse é meu compasso, passear por bossas e sambas.
Esse corpo nasceu comigo, mas descolou-se da alma logo cedo:
certas partes de mim são infinitas, outras quebram fácil como brinquedos.
Mar... teu latim de pedras azuis que cantam para mim
as canções de ninar que minha mãezinha no céu já se esqueceu.
Ouço, oceano, e transbordo de poemas que jamais virão á luz.
O Gólgota está vazio. Não fará mal jogar pedras na cruz.
Teço sem pressa a salmodia das madrugadas que se vão em gestos sem pudor.
Deus está morto. Mas o menino-deus, travesso, atravessa meus versos com amor.
Fui um bom cristão, trafiquei meu sangue azul entre as princesas e as putas do cais.
Grito o nome de Deus no deserto, mas meu eco é esperto, e não reverbera meus ais.
Quem sou eu debaixo deste véu? Quem é o homem que vejo no espelho?
Quando eu era criança tocava o céu. Hoje me resta o pó: estou ficando velho!
Mas o que farei com tantos carinhos ainda não gastos? Voarei para outro planeta?
Aos palhaços cabe esse destino, ver o circo pegar fogo, e rebatizar-se de poeta!
sexta-feira, 1 de abril de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
A MAGOADA FELICIDADE
A Magoada Felicidade
Sempre que essa tal felicidade bate à minha porta, fico como uma criança que estivesse sozinha em casa e fosse surpreendida por algum estranho visitante, que subitamente batesse com mão de pedra ou de aço, e fizesse todo mísero cotidiano transformar-se em novidade. Eis o dilema: abrir ou não abrir a porta?
A gente se acostuma a viver em um mundo previsível, onde a única certeza é a perda. Nada é completo, perfeito. E perfeição, aqui, nada tem a ver com beleza ou poder. Perfeito é aquilo que é completo. Veja só a nossa vida: é totalmente imperfeita. É incompleta. Temos alegrias momentâneas, uma alegria diáfana, efêmera, escrita a ferro e fogo nos cânones, delimitada por todas as religiões: a vida tem alegrias, porque seu Criador assim deseja, mas o sofrer é humano, necessário, indispensável, insofismável. Somente no pós-vida é que existe a possibilidade da redenção, que é disfrutar do sentimento de eternidade, a existência enfim completa e por isso perfeita, e por consequência, a felicidade.
Então quer dizer que ninguém é feliz nessa vida? Sim, a felicidade, muitas vezes, se apresenta em nossa vida, mais de uma vez a cada pessoa, mas nós não acreditamos nela. Não conseguimos entender o que ela pretente. Recebemos a felicidade como uma visita muito suspeita: ninguém pode ser realmente feliz, plenamente, para sempre! Se vemos alguém feliz, ou suspeitamos que está fingindo, ou cremos que está obtendo sua felicidade às custas da tristeza de outro, ou que, em última instância, não é a felicidade verdadeira, visto que essa felicidade demanda um contentamento sem medida e sem motivo, ou sem motivo aparente ou explícito, visto que tudo é tão perfeito que fica difícil definir qual é a fonte daquela felicidade.
Chega até ser deselegante, ofensivo, dizer que é feliz, andar sorrindo por aí, dizendo que a vida é boa, dizendo que está tudo bem! Gente que vive assim é tida como boba ou como mal-intensionada, gente que finge o impossível só para nos deixar 'pra baixo', pra mostrar que está obtendo mais vantagens que nós, que está sendo favorecida por alguma entidade suprema que só distribui benesses a uma pequena parcela da humanidade.
Estava me sentindo tão pleno ultimamente, tão feliz, que não entendi o motivo, apesar de suspeitar de vários. Poderia achar que é o trabalho, o amor, as finanças, a política... poderia ser simplesmente por ter achado uma moeda no bolso de um paletó, ou ter recebido um sorriso de um estranho na rua, ou ter conseguido comprar aquele carro, aquele tênis, o último gadget da moda, uma gravata bonita... É claro que a vida possui as suas mazelas, os seus problemas, os pequenos descontentamentos, as lágrimas que furtivamente irrompem quando vemos uma cena triste no noticiário ou na tela do cinema... mas essas dores, essas lágrimas, estavam, por assim dizer, no "script". É esperado certo tipo de empatia e simpatia, para o riso e para o choro. Mas a felicidade sobrepuja a tudo isso, e no fim do dia o sujeito feliz sente-se realizado, completo, ainda que suspeite que haja algo de errado.
O fato é que nossa felicidade é uma senhora acostumada a não ser correspondida por qualquer pretendente. Ela nos sorri, flerta conosco, e nós fazemos pouco caso. Ficamos com medo, e, humanos e bobos como somos, aceitamos a felicidade como algo que não pudesse durar, e por isso ansiamos tolamente pela volta ao 'mundo normal' sem toda aquela euforia, aquela felicidade, aqueles sorrisos e aquela alegria.
Como eu disse, estava me sentindo feliz com tudo o que estava vivendo ultimamente, sem ligar para os pequenos problemas do dia a dia. Mas, de repente, lembrei da minha condição humana, lembrei de como me contavam que a felicidade não existia, que era apenas uma palavra usada para designar o inatingível, mas lembrei, sobretudo, de como a filosofia e a ciência pouco contribuem para o entendimento da felicidade, que, muito magoada, não quer mais papo com cientistas, filósofos e, cada dia mais, com os poetas!
A Felicidade, magoada, tem evitado constantemente o nosso convívio. Culpa nossa!
Ao perceber que a minha felicidade já estava me olhando desconfiada, querendo ir embora, observando meu comportamento estranho, decidi chamá-la para uma conversa, dizer que não me importava de onde vinha ou o que fazia aqui. Decidi não interpelar mais a quem me batesse na porta com um sorriso no rosto e uma promessa de perfeição. Simplesmente abriria portas e janelas, deixaria entrar quem quisesse, e deixaria a porta aberta para que a brisa de cada dia e cada noite viesse arejar os cômodos dessa vida, sem que eu chegasse a perguntar quem sopra esses ventos na minha face, simplesmente aceitando seu cheiro de "bom dia" e de "boa noite" como quem aceita um sonho bom, e embarca em suas aventuras sem nem perceber que já está navegando em águas profundas.
Ser feliz é exatamente isso, um exercício consciente para perder a consciência. Perder-se com minúcia, com toda a técnica e experiência daqueles que não tem a mínima idéia do que estão fazendo! Como disse o velho bardo: "Navegar é preciso, viver não é preciso!"
sábado, 26 de março de 2011
SOLITUDE
Me dá sua mão?
E se eu precisar de um abraço, como eu faço?
Me conta qualquer mentira gostosa!
Os meus versos só se alegram com a tua prosa!
E se eu precisar de um abraço, como eu faço?
Me conta qualquer mentira gostosa!
Os meus versos só se alegram com a tua prosa!
sábado, 19 de março de 2011
AS COISAS MAIS DOLORIDAS
Vim de longe derrubando ânforas de espanto
enquanto meu tempo transformava o eterno em por enquanto
e ao ouvir meu próprio canto, abafado pela noite lenta e mágica
achei que fosse outro, menos parecido comigo, menos carente de abrigo,
talvez alguém que não parecesse tão velho
ou cujos olhos já cansados de tanto brilhar
não fugissem ao encontro de qualquer espelho.
Vim fugindo da minha sombra
porque depois de certas horas qualquer companhia incomoda
e qualquer fio de esperança é visto como a corda
de uma forca que ao balançar dos ventos me convida
ao último salto, para além do meu próprio tempo,
para o voo mais alto e absurdo, a deliciosa vertigem
de enfim livrar-se de roupas, carnes, ossos... de toda casca
que nos impede de gritar ao mundo: Já chega! Já basta!
Vim até aqui e estaquei diante da folha branca
como quem chega à beira de um abismo
com a certeza do próximo passo
mas interrompe a marcha diante do sinismo
que trazemos guardado com minúcia e paciência
para usar nessas horinhas tristes e calmas
quando a vida e a morte unidas batem palmas
aguardando terminar o espetáculo da nossa existência.
Tinha ganas de poetar violentamente, de gozar de todos,
de jogar na cara dos meus amores fracassados essa dor imensa,
de perder os bons modos e ditar nomes de santas e putas
pois são todas elas filhas da mesma Eva
que jogou o homem nas trevas usando uma fruta.
Mas seria fácil demais fazer versos de pura mágoa
enquanto o espírito de um Deus sonso flutua sobre as águas
sabendo que a carne é fraca e não deve ser esquecida
nem recusada, nem abolida, nem refutada,
porque na carne moram as coisas mais gostosas
e só no espírito residem as coisas mais doloridas!
domingo, 6 de março de 2011
A MELHOR FLOR DOS PIORES TEMPOS
A Melhor Flor dos Piores Tempos
[ou... Cavando Abismos, Construindo Pontes]
Acostumei-me ao rebuscados meneios da poesia. Mal costume, devo dizer. Porque a cada dia que passa tenho que ser mais homem, mais humano, e subverter toda lira, e não pensar mais em ramos floridos bailando entre os dedos da brisa matutina, nem nas ondas de chumbo líquido que se descabelam ao encontrar a terra, bordando de brancas espumas os lábios do continente. Não, não cabe rimar. Contemplar a poesia não cabe, nessas horas de ferro e fogo que exigem da gente a palavra dura e a atitude medida dos homens de verdade.
Mas o que é ser um homem de verdade? Ser rude? Mentir? Acordar cedo e sair para a vida com a gravata apertada no colarinho, com o tempo nos estrangulando, com contas a pagar, com as mãos secas para machucar os outros, com o corpo esperando o sexo sem carinho, a agulha, o vício, a morte?
Será o tempo o nosso vilão? Será o tempo a mão esquerda de Deus? Será que existe um Deus? Ou será que cada homem cria um álibi chamado Deus para cuidar do episódio humano como quem vive a podar uma árvore que só queria florescer?
Há algum tempo não encontro refúgio nas palavras. Elas que me acolheram nas horas mais difíceis, hoje me fogem como cavalos selvagens, e são ariscas, brutas, e jogam poeira nos meus olhos e me fazem chorar um choro abafado e envergonhado. Homem não chora, menino! E as palavras passam, cavalgam sem cuidado com as campinas floridas, e rima alguma me contempla, nem mesmo a mais dolorida. As palavras passam por meus olhos, mas por mais que eu as mire, não acredito mais na verdade dos seus nomes. Elas nascem de todos os lugares e de lugar nenhum; elas voam por todos os lados e se chocam contra o meu peito como aves cegas contra um rochedo à beira-mar. Como sorrir assim? Como cantar a paisagem se todas as janelas estão fechadas?
Tempo sem beijos. Tempo de apertos de mãos sem vontade. Tempo de dividir o cativeiro com o inimigo. E as palavras ao redor, paredes sujas, corredores escuros, os carinhos disfarçados de mal-querer, os maus-tratos adornados com fita cor-de-rosa e com cheiro de chocolate. É como se todos os ramos de flores escondessem venenos mortais, adagas, punhais. Onde foi que perdemos nossa delicadeza? Quando foi que amar ficou fora de moda? As pessoas caminham em círculos, mãos dadas com luvas cheias de espinhos.
Outro dia me encontrei olhando nos olhos de outra pessoa, e confesso que estremeci. Nos últimos anos chegar perto de qualquer ser humano era para mim como aproximar-se da beira de um abismo. Curiosidade, medo, náuseas, desconforto... E por isso abracei as formas mais efêmeras de existência, e me tornei uma lenda pra mim mesmo. Mas de tempos em tempos eu me pego desafiando a perigosa distância da qual me fiz refém, e a despeito do perigo de perder-me nos abismos da alma alheia, deixo-me apaixonar pela mais banal da criaturas, por aquela que passa sem me notar, por aquela que sorri sem terceiras intenções (porque das segundas ninguém escapa) e que me estende a mão desnuda, sem as luvas cotidianas a que todos nos acostumamos a usar.
Esta criatura em construção sempre me surpreende com a força da sua poesia. Poesia que eu não acreditava existir mais!
Engraçado como nosso pensamento caminha pelas mesmas trilhas, ás vezes ensolaradas, ás vezes obscuras. a vida continua dura, ríspida, mas há quem resista. Há quem resista!
Meus nós desataram-se há muito tempo, e nem lembro mais o que é ter um porto seguro, ou uma corda que me prenda a alguma coisa, alguém, algum lugar. Mas quanto mais eu conheci do mundo, mas percebi o quanto todos nós somos parecidos, as mesmas vontades, os mesmos pecados, as mesmas forças e fraquezas.
Antes eu me privava do amor, porque eu sim fui abandonado e envelheci esperando ela voltar... e a dor do golpe me fez jamais querer aventurar-me por estes caminhos novamente.
Mas hoje existe um mundo novo, virtual, e apaixonar-se tornou-se possível novamente, pois o muro de proteção (a telinha brilhante ) nos salvaguarda de tocar o outro e depois morrer de saudade por não poder tocar mais...
C'est la vie.
Pensando em nós... acho que somos como duas pessoas que caminham no escuro, uma ao lado da outra, mas sem se ver, sem se tocar, e por isso seguindo sempre em frente, com uma imensa impressão de estar só. Faltaria só um gesto na direção oposta para que o milagre acontecesse, mas já é tarde para acreditar em milagres, e caminhar é preciso...
Mas como uma criança deixa sua mão registrada no cimento fresco, sem saber que aquele toque ficará ali para sempre, você fez o mesmo comigo, chegando de leve, como uma pena bonita e colorida que vem flutuando e nos toca o ombro, e a gente guarda com um carinho sem explicação, numa caixinha que talvez fique esquecida em alguma gaveta, lembrança única de que um dia nos apaixonamos por um pássaro que nem vimos nem ouvimos, pois passou voando veloz em direção ao seu destino de liberdade!
domingo, 20 de fevereiro de 2011
KAFKA SORRI NA ETERNIDADE
Ontem de madrugada vi uma barata branca passeando pelos ladrilhos negros do meu banheiro. O pior é que eu não estava bêbado, aliás não sou do tipo que costuma ficar bêbado, porque uma dor-de-cabeça cruel me assalta antes que eu consiga passar do limite e ver o mundo rodando. E o mais curioso é que a barata era banca mesmo, e os ladrilhos do meu banheiro são de mármore negro, imagine o contraste!
Levei um susto, depois tive vontade de perseguí-la, mas o monstrinho desapareceu como por encanto, ou foi mais rápida que meus olhos míopes e astigmáticos ao mesmo tempo. Mais provável.
Fiquei lembrando da minha infância, em um momento em que eu morava com minhas tias, e lembrei do pânico das senhoras, misturado ao frenezi das crianças correndo com chinelos à mão... Mas depois lembrei também das histórias que me contavam:
" - A barata branca geralmente só aparece pra uma única pessoa. Ela é chamada de barata-noiva e significa que aquela pessoa vai se casar em breve!"
Essa era uma das histórias que eu ouvia em casa, você sabe, tias solteiras, família mineira, grande, cheia de crendices (e o texto redundando nos adjetivos) mas uma vizinha mais soturna, creio que uma viúva paulistana, filha de imigrantes búlgaros, gente muito tendenciosa a ver espíritos malignos até mesmo num belo arco-íris, um dia me disse assim:
" - A barata branca é chamada de barata-fantasma e traz sempre mau agouro! Quando ela aparece, é sinal de que alguém daquela casa ou algum conhecido de quem a viu irá morrer em breve!"
Considerando o imaginário popular e considerando que eu moro sozinho num prédio antigo, vocês já podem imaginar o resultado: não consegui dormir durante a noite. Primeiro esperei por mais de uma hora que a noiva-fantasma voltasse, depois passei o resto da madrugada no quarto, um calor infernal sem ar-condicionado, imaginando quem seria essa minha esposa tão inesperada ou como seria essa minha morte tão prematura... e com a barata-branca me convidando a escrever um samba pra ela!
O prognóstico é pouco animador: ou eu vou me casar muito em breve, ou vou morrer! Pra mim, está dando na mesma...
O prognóstico é pouco animador: ou eu vou me casar muito em breve, ou vou morrer! Pra mim, está dando na mesma...
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
A CARNE
A carne
é o cerne
de tudo o que a gente gosta
mas também do arame farpado
que se enrosca na alma do coitado.
A carne da mulata
servida em baixelas de prata.
A carne da loirinha
degustada com os melhores vinhos.
A mulher do outro
um manjar para poucos.
O sexo igual ou diferente
a carne que ilude a gente...
Se os sábios, os santos, os ascetas
disserem que é na alma que reside
o fogo que dá vida aos poetas
chame-os de falsos, pois é tudo mentira!
É a carne que alimenta
o fogo da sagrada pira!
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
A MEDIDA CERTA
Neste cais
na beira deste cais
onde mar há demais, demais,
e onde não conheço ninguém
nem meço onde termino nem onde começo
sei que nem sou homem nem menino
nem posso ser santo, tampouco travesso
trago uma pedra latejando no punho fechado
e ela bate, pulsa, você até acharia graça
se eu jogasse essa pedra de fogo na tua vidraça
mas trago-a sem saber o que fazer com ela
sem saber se a jogo ao mar ou se jogo contra a tua janela...
Estou aqui, parado, na beira de um cais de perguntas
feitas para jamais encontrar qualquer resposta.
Sei que preciso de uma atitude, de um leme,
mas sempre que meu coração quer ser suave ou rude
o chão se abre, os ventos sopram, a terra treme
e eu que já não me sinto confortável dentro de mim
preciso ser apenas a exata medida
da rima que talvez não caiba num poema
mas que fique subentendida
como a maior parte de tudo na vida
porque sou poeta, enfim
(pedra enrolada em cetim)
e por isso tenho que barco e timoneiro
mas a alma, esta será sempre um oceano
porque todo poeta é humano
demasiadamente humano
e tem apenas que ser a medida certa
de uma ferida aberta.
domingo, 9 de janeiro de 2011
NAVEGAR É PRECISO
Neste cais
na beira deste cais
onde mar há demais, demais,
e onde não conheço ninguém
nem meço onde termino nem onde começo
sei que nem sou homem nem menino
nem posso ser santo, tampouco travesso
tenho que ser a medida certa
de uma ferida aberta...
Nessa hora
em que toda pergunta sã me permeia
preciso de qualquer resposta louca
porque tudo o que me vier à boca
não será digno de nota, coisa ínfima
como a mosca que se deixa enredar numa teia
me passa um trem nas veias
e me sinto com alguém que foge
alguém que deve, que se atreve,
alguém que escreve um destino
diferente do que diziam ser o dogma divino
alguém que que deixa pra trás seus imundos panos
pra ser mais homem, mais mulher, mais vivo, mais humano!
Porque sendo pobre e humilde e suburbano
querendo ser mais que humano
metropolitano, homem do mundo
com a alma mais limpa que a água clara
da fonte mais transparente, mais secreta e mais rara
vem falar como quem sabe só o que é preciso saber
e não esse homem qualquer, esse imundo
que não ouve a poesia murmurante, a poesia simples,
que fala baixinho, fala baixinho com o mundo e o mundo lhe escuta:
ele sim é mestre, artesão, homem que de mansinho
com palavra e força, com martelo e carinho, esculpe a pedra bruta
e transforma o mundo, disto que ele é agora
naquilo que todo homem bom sonha
que o mundo de hoje seja o que foi outrora!
-
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
FALAR COM DEUS
Conversar com Deus às vezes é um diálogo, outras um monólogo.
Contudo o mais difícil nesse caminho é interpretar quem de nós está falando sozinho!
A FLECHA
O toque do poeta
é o toque de quem se atreve
a passear de leve sobre a pele da mulher do outro
ou como quem olha a divindade e negocia: "A eternidade ainda é pouco!"
Porque ele escreve como quem abre uma porta e não a fecha.
Ofício de arqueiro-poeta é escolher a palavra mais aguda
mas nem se importar em olhar onde vai cair a flecha!
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
OTHELO
Sinto-me um novo Othelo
sem nenhuma Desdêmona.
Na verdade, sou um peixe-palhaço
que ainda não encontrou sua anêmona.
CERTIDÃO DE NASCIMENTO
Eu, expatriado e repatriado
sem bandeira que me dê razão
sem pátria que me sirva de âncora ao coração
transbordo minhas ânforas de mágoa e alegria.
Nenhum idioma me prende, toda língua me permeia
porque meus sonhos não obedecem a qualquer dicionário.
Precário é o grito da mosca
quando se vê enredado por qualquer teia.
Meu sangue carrega as histórias mais toscas
porque é difícil definir a cor daquilo que corre em minhas veias!
Minha pátria é este sol, esse mar, essa dor e essa gente;
minha pátria é meu pão de cada dia
e o resto é pura fantasia.
domingo, 19 de dezembro de 2010
TEMPUS FUGIT
Chega uma hora em que o tempo nos diz: basta!
E a gente foge tão rápido, que só deixa para trás a casca.
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