Ask Google Guru:

quinta-feira, 29 de março de 2012

TEU PÃO



E quando acabarem as moedas de ouro,
Farei pra você casacos de pele, 
Rasgando meu couro.

E quando não sobrar mais vinho
Te darei de beber na fonte, gozando 
E gemendo baixinho.

E quando faltar o ossobuco, o cordeiro e o faisão,
Olha pra mim: para beijar, morder, consumir...
Serei teu pão.

PERSISTÊNCIA





O tempo resiste.
A carne insiste.


O tempo persiste.
A carne existe.


O tempo e a carne combinam.
Mas nem sempre rimam.


O tempo e a carne ruminam.
Um quer mandar, o outro já domina.


O tempo sempre cobra.
A carne, às vezes, sobra.


O tempo sempre cobre.
A carne, quase sempre, é pobre.


O tempo faz a carne sentir.
A carne faz o tempo existir.


O tempo é o ensejo.
A carne, só desejo.


O tempo é o olhar.
A carne é o beijo.


O tempo é Deus.
A carne sou eu.


Mas se Deus não existe,
porque a carne insiste?


O tempo é o karma?
O tempo é a calma?


A carne é uma arma?
Dentro da carne mora a alma?


O tempo é religião.
A carne é o pão!


O tempo a tudo consome.
O pão nem a todos sacia.


Nem só de pão viverá o homem:
há de se ter paixão e poesia!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

FREUD EXPLICA?









Muito ego.
Pouco sossego.
Mulher vestida de menina,
Mas por baixo da pele a alma não rima.
Feios modos de uma pobre menina rica.
O teu problema, nem Freud explica.

O ENCARCERADO









Talvez amar de verdade seja tudo o que preciso. 
Mas que homem está preparado para cumprir prisão perpétua no paraíso?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

MITOCÔNDRIA



És uma deusa de morte e vida
como se tu, divina organela atrevida
fosses ao mesmo tempo Shiva, Brahma e Vishnu.
Tens a forma da semente primordial, o grão cru
que germina de fora para dentro, inteligente
simbiótica dona de casa, zeladora dos eucariontes.
Em tua cama de vilosidades e tecidos tão rugosos
queimam como numa panela os afetos mais gostosos
as flores de açúcar dadas com carinho e como oferenda
são o teu combustível, que nos devolve como santificada merenda
que o corpo vai precisar a cada minuto de cada santo e glorioso dia
para sobreviver, andar, correr, lutar, crescer, amar, e escrever poesia!






- Só para provar que as nossas antigas aulas de Ciências também podem render poesia. Dedico esse poema aos meus bons professores de Biologia! :)

domingo, 29 de janeiro de 2012

PERANTE TUA FACE





Senhor dos meus dias, Senhora das minhas noites.
Que eu suporte com igual ânimo os teus carinhos e os teus açoites.
Senhor das profundezas, Senhora de todos os céus.
Que eu possa vislumbrá-los face-a-face, ou com seus véus.
Senhor das minhas lágrimas, Senhora do meu sorriso.
Que em tuas mãos nunca esteja o que quero, mas o que preciso.
Senhor do meu medo, Senhora da minha luz.
Que eu seja mestre do que me eleva tanto quanto do que me reduz.
Senhor dos meus vitupérios, Senhora das minhas preces.
Que eu seja sempre o mesmo homem, mesmo longe da tua face.
Senhor dos meus tormentos, Senhora do meu gozo.
Que minhas mãos sejam artefatos de atos terríveis e maravilhosos.
Senhor dos meus poemas, Senhora dos meus versos.
Que eu seja poeta hoje e sempre, a despeito do Bem e do Mal do universo.
Senhor da minha razão, Senhora dos meus amores.
Que meu peito nunca esteja anestesiado para qualquer que sejam as dores.
Senhor dos céus e dos trovões, Senhora da terra e do fogo.
Que meu eu saiba estar tranquilo e alerta entre as ovelhas e os lobos.
Senhor do tempo, Senhora do tempo. Donos da minha paciência.
Que eu saiba rugir como homem, e sentir como criança.
Senhor do Tempo, Senhora do Tempo. Perante a tua face, neste longo inverno
Que eu aceite que a carne é finita, mas o que há de mágico fluindo nas veias do poeta...
Isso é eterno!

O QUEBRA-CABEÇAS





Sei o que presumo, 
Mas assumo que nada sei. 
Sou nefelibata, sem chão.
O que tenho de você 
Foi construído com imaginação.
Mas tudo tu me confirmastes, C
omo seu eu fosse um prestidigitador,
Sagaz advinhador do que é alegria, 
Do que é carne, do que é alma, do que é dor.
Provei os vãos do teu corpo, 
O mel sorvi diretamente na colmeia.
Descobri que trocamos de pele quando não há plateia.
Talvez seja mesmo assim, tateando, experimentando, intuindo.
Talvez seja mesmo no escuro que se juntam as peças do amor.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

DAS UNHEIMLICH





O oposto do que me é familiar
é o que nasce quando meu silêncio quer cantar
ou quando chorar é o que mais preciso
e contudo meu rosto ergue o mais belo sorriso.

Meu íntimo-estranho,
o quanto menos te quero aprisionar, mais te ganho.
Sinto-te passear por dentro de minhas veias lentamente
enquanto gozo ao sentir tua estranheza inquietante.

É tudo tão apreciável que chega a dar medo:
sou criança que receia tomarem-me o brinquedo!
Mas sei que é pelos caminhos mais perigosos
que chegarei aos jardins mais lindos, às frutas mais gostosas.

Ó escuridão! Sabes o quanto tenho medo de ti!
Mas com as luzes acesas não poderei dormir.
E dormir é condição imperiosa para poder sonhar.
As luzes ficarão acesas, mas meus olhos com força irão fechar!

Tão familiar é esta estranheza
de encontrar no oposto tanta beleza
que ao fugir de todos e querer ficar sozinho
meus pés dizem-me que estou pisando os mesmos caminhos.

Vejo criaturas estranhas e caio perante elas de joelhos
mas perplexo descubro-me seu irmão ao olhar-me no espelho.
O que fazer? Para onde ir? Sinto que o tempo aperta o laço!
Resta-me beijar a boca do Destino, e deixar-me descansar em seus braços!






domingo, 8 de janeiro de 2012

DEUS - AO GOSTO DO FREGUÊS




Uns dizem AXÉ, outros dizem AMÉM.
Deus, confuso, pergunta: Estás falando com quem?
Mas os palhaços continuam a misturar seus rotos ritos
fazendo uma colcha de retalhos, costurando pecados aflitos.
Como raposas muito espertas eles querem agradar a todos
adotando um pedaço de cada religião, dizendo ter bons modos.
Mas de vez em quando um se estranha com o outro
e nas guerras santas os que sofrem não são poucos.
No bolso esquerdo um terço, um crucifixo, um rosário,
no direito haverá um patuá, uma guia, um escapulário?
Copo com água e olho de boi dentro, no chão, atrás da porta
e do copo de pinga uma golada para o santo é o que importa.
Acordam dizendo SHALOM, dormem cantando EVOÉ:
sabem a hora certa de citar Abraão, Buda, Tupã, Ogum e Maomé!
Tem tantos deuses pra gente amar que ficou difícil lembrar seus nomes
por isso já inventaram até programas para rezar via iPhone.
Joga flores no mar, que Iemanjá abençoa, dá paz e luz
e depois, à meia-noite, lembram do Cristo pregado na cruz.
Eu vejo e não acredito em tantos doutores em todos os cantos
beijando a mão do padre de dia, e de noite a mão do pai-de-santo.
Nessa vida tumultuada o povo quer se valer por todos os lados,
porque não faz mal ter fé, sem esquecer de trancar a porta com cadeado.
É como os árabes dizem num provérbio tão belo:
'Confia em Deus, mas amarra o teu camelo!'
Enfim, todos se entendem, do mais pobre ao bom burguês
em nossa terra a religião é comprada ao gosto do freguês.
Debaixo das lonas azuis deste imenso circo de almas
não quero tomar partido, ficarei na platéia batendo palmas!

Alaistar Crowlei criou uma igreja do diabo, só pra comer as meninas,
enquanto um coreano criou a igreja da Ciência, onde não cabem rimas.
Como diria Raul Seixas, que dos sábios e dos loucos era rei:
"Faz o que tu queres, pois há de ser tudo da Lei!"



sábado, 31 de dezembro de 2011

FELIZ MINUTO NOVO





FELIZ MINUTO NOVO!


Escrevo a vocês às 17:00hs no Rio de Janeiro, Brasil. Em metade do mundo o ano de 2011 já é finado, e 2012 foi e está sendo comemorado efusivamente. 

Na Austrália, Nova Zelândia, Hong Kong, Japão, Indonésia... já é Ano Novo! Enquanto nós, aqui do outro lado do mundo, ainda estamos pensando no que fazer, nos planos para o próximo ano, no que vestir, em que festa comparecer, se vamos beber muito ou pouco, se vamos beijar aquela pessoa, se vamos ligar para aquela outra, se vamos ter coragem de contar aos nossos pais aquele segredo que todo mundo já sabe, menos você!

As pessoas fazem planos, decidem que vão mudar, fazem promessas aos deuses, compram roupas brancas, esperam ansiosamente o momento em que o relógio, essa coisinha ínfima que você carrega no pulso, marcará o começo da sua nova vida!

Isso já aconteceu hoje para milhões de pessoas e nada mudou. A crise financeira, as guerras, a política internacional, tua conta bancária, o teu DNA, o teu endereço, o preço do arroz e do feijão, o preço do pão continua o mesmo.

Nada mais idiota que deixar que os ponteiros do relógio decidam a sua vida!

Em metade do mundo o novo ano já começou, e você ainda está aí fazendo promessas e esperando o milagre acontecer! Mas o milagre é você! O tempo não tem nada a ver com a tua existência. Ele passa, você passa, cada um no seu passo. 

Eu gostaria de propor a você que comemore cada segundo, cada minuto. Que cada respiração sua seja um sussurro dizendo "Muito obrigado! Eu venci!". Por que é exatamente isso que acontece, você vence a cada segundo da sua vida! Se ainda respiras, agradeça! Não espere que a mudança do ano te traga luz. Brilhe você! Seja você o modelo de tudo aquilo que tu desejas. Seja você o espelho de tudo o que te seduz.

Seja honesto, paciente, coerente, forte quando for preciso ter força, tenro quando for preciso ternura e carinho. Saiba aproveitar a vida quando tiveres companhia ou quando estiveres sozinho. Ouça os mais velhos, mas com ressalvas, porque idade pode ser sinal de experiência, mas não de sabedoria. Não tenha medo de pedir desculpas, de pedir perdão. E não tema ser duro quando necessário. Teu caráter é teu escudo. Se te livrares dele, o mundo te atacará sem piedade, sabendo que estás descuidado.

Mude de idéia quantas vezes for necessário, pois somente os tolos são arrogantes o suficiente para não mudar de idéia, mesmo sabendo que erraram. E trabalhe, trabalhe muito. Viver não é fácil. Nunca vai ser. Dependerá de você decidir como vai enfrentar e desfrutar o dom da vida.

Existem tantos deuses e tantas religiões, que seria imensamente inconseqüente ser um fundamentalista, tomar partido, brigar por causa das crenças dos outros. Os deuses que se virem, eles que se definam, eles que decidam quem existe e quem não existe, quem é e quem não é. A você, cabe apenas a fé! 

Os deuses são tantos, que fica difícil escolher. Todas as religiões tem seus dogmas, suas regras, suas restrições, suas bênçãos e suas maldições. Mas no fim das contas todas são unânimes em dizer: quem decide sua vida é você!

Não culpe os astros pelo teu fracasso ou tua vitória. Só você tem mãos, vontade, determinação e capacidade para viver cada minuto que lhe foi dado. As estrelas, que nós vemos brilhar no céu toda noite... muitas delas já morreram, deixando uma luz que nos chega já muito atrasada, e não nos serve para nada, nada além da contemplação romântica, para a inspiração filosófica, e nada mais.

O universo segue seu rumo independente da tua vontade. Teu lugar é aquele que você escolher. Teu futuro depende do teu esforço, e não da conjunção de signos, símbolos, nada disso!

Tua existência é tão importante quanto a de uma estrela ou a de uma formiga. Viva com fé em você, principalmente. Aceite a vida, aceite a briga!

Você pode esperar a meia-noite na tua cidade (Acho que no Brasil temos 3 fusos, lembra?) para decidir parar de fumar, de beber, ser vegetariano, assumir sua sexualidade, pedir demissão do emprego, fugir de casa, gritar por liberdade... não interessa. O tempo continua seguindo independente da tua preguiça ou da tua pressa!

Sê modesto, mas não servil. Saiba colocar o preço certo no suor do teu rosto ou na maestria do teu intelecto. Saiba repreender o mal, e também ouvir quando apontarem teus erros. E sobretudo entenda que em qualquer situação, seja de alegria ou de tristeza, nunca é conveniente derramar gritos e berros.

Seja mestre do teu destino! O teu relógio não é teu dono! A cada minuto da tua vida você pode comemorar, abraçar quem estiver por perto e desejar "Feliz Minuto Novo!", ou mesmo que estejas sozinho, comemore a tua vida, os teus mandamentos, as tuas verdades. 

Tens a liberdade de comemorar agora ou mais tarde! O tempo urge, mas não faz alarde!

A tua conta bancária segue intacta, seja no azul ou no vermelho. O teu corpo continua igual, gordo ou magro, novo ou velho. As pendências do trabalho te esperam na segunda-feira. E se estiveres desempregado, continuarás sem eira nem beira. O teu trabalho, a tua vontade, a tua liberdade é que definirá o teu futuro. Mudar de ano não é como saltar um muro! A planície é ampla, ainda há muitas léguas a correr!

Quando teu relógio mudar deste ano para o outro, quando ele trocar de hoje para o outro dia, espero que tu estejas entre os seus pares, espero que comemores com alegria. Mas mesmo que estejas, como eu, sozinho, lembra que é você quem define e quem traça as curvas e as retas do teu caminho.

Comemore agora, ou espere a meia noite virar. Seja educado, adote o costume dos demais, sem ser rude, sem ser bruto. Mas no próximo ano, lembre-se de comemorar igualmente a tua vida a cada minuto!

Pax hoc domui.


- Marcelo Sousa, 2011/2012.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

CUMPLICIDADE





Cúmplices
como o sol e a lua que não se tocam
mas um ao outro no momento propício se evocam
somos os que se amam com delicada sabedoria, sem pressa, sem rompantes:
como o sol e a lua que fazem amor à distância, um de cada lado do horizonte.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O TRIVIAL



Não venha me contar de heroísmos, de grandes feitos,
de porres homéricos, de amores feéricos, de viagens á America.
Não cantes teus poemas da alcova, versos de malandro ou marginal.
O que me interessa é aquela paz da rotina, a rima cotidiana,
a pitadinha de sal que nos faz mais gostosos, posto que mais humanos.
Quando me pega pelas ancas, lavando louça molhando o seio 
que se entumesce com a água fria e seu toque,
ajoelhando-me pra recolher do chão, tudo que derrubamos na ânsia, 
não resisto à ocasião...o teu roçar quase imperceptível
derrama um calor incrível, enquanto mexo meu caldeirão,
essas coisinhas de cama, banho, cozinha, essa vidinha gostosa 
de cabelos desgrenhados e calça de moletom. Você sem vergonha, eu sem batom
no meio da tarde, trocando carícias, cantando qualquer música brega e fora do tom.
Conta-me a tua vida banal, porque é assim que te quero.
Muito esmero, muito cuidado, muito cálculo... tudo muito artificial.
Viva a banalidade, porque é no trivial que a gente descobre quem é genial!

Marcelo Sousa e Marfiza de França , Cadernos Particulares.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

AS COISAS RASAS







A sua medida
é a medida das coisas rasas
das coisas que cabem apenas nas casas dos teus botões
das coisas que podem ser descritas por tuas retinas
das coisas que só podem caber nas mais fáceis rimas
porque a sua pobre medida vigente
é a medida usada por toda gente
medida viciada, traçada de joelhos
medida que não sabe nada da imaginação dos poetas
que não cabe na avaliação científico-imaginária-aleatória
que faz possível medir o tamanho dos gametas e dos planetas
e a velocidade estimada da luz e a data de nascimento do homem
que sem tempo para arrependimento teve que morrer na cruz
("Eli, Eli! Lamná sabactani?") E não houve resposta alguma dos céus
que tinha mais o que fazer: o tempo observa impassível, ao léu,
enquanto a tua triste e corrompida medida
não corresponde à metade de um segundo da minha vida
mas ainda assim deixo-me à mercê da tua régua
e meu corpo diminui-se sem dó, sem trégua
a sua medida da minha e da tua vida
cabe apenas dentro daquilo que tu vês no espelho
e é somente por isso, por causa dessa tua medida
é que estamos parados, boquiabertos,
ficando velhos.





Marcelo Sousa, em "O Semeador de Abismos", 2011.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A DAMA SILENCIOSA



Dama da noite, cujo cheiro causa náusea e pavor,
Não venha silenciosa roubar-me o calor.
Se tiveres que vir, que venha rude e furiosa,
Não minta, sendo pérfida e silenciosa.
Não tenho me cuidado direito, 
Mas a todos digo que sim,
Pois o desfecho perfeito deste poema 
Seria com o lírio branco e a fita negra de cetim.

Dama da noite, cujo perfume todos evitam,
Deixa-me queimar esses versos, 
Vê como são lindas as chamas que crepitam.
Não venha pelas sombras como uma ladra
Pois te espero sem escudo nem espada.
Não tenho me cuidado direito, 
Mas a todos digo que sim,
Porque meu peito quer parar de doer, 
E meus versos precisam de um fim.

domingo, 27 de novembro de 2011

A OSTRA E O VENTO






Preenche-me com teu sorriso, 
teu corpo, tuas vontades, 
tua força e tua fragilidade. 
O teu perfume e os contornos da tua boca 
e a forma com que você tira os cabelos da frente do rosto... 
Ah, que delícia! Que delícia!
Eu observo, de longe, 
como um monge
contempla a lua
mas queria observar-te de perto:
poeta, esperto, queria observar-te toda nua
mas tua concha de madrepérola flutua
no mar dançando ao sabor do vento
ao sabor das marés, eu catando conchas
ajoelhado aos teus pés, perverso
querendo abrir-te não com faca
mas com a aguda ponta dos meus versos
mas tu resistes, não te abrirás facilmente
àquele que simplesmente chegar sem saber a senha
a palavra mágica que a brisa sussurra 
por baixo da saia do tempo
eu, poeta, esperto, passo as noites atento 
porém fraco, confesso, estou faminto
para saber o que esta concha guarda por dentro!






- Marcelo Sousa, Cadernos Particulares.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

AS NOSSAS AUSÊNCIAS



Certa manhã, ao acordarmos juntos e já atrasados
cada um correndo para um lado procurando roupas e tempo,
ela parou, deixou o vento alisar seus cabelos
e o sol dar-lhe no rosto o beijo 
que me faltou naquela hora.
O maquinário do viver vai gastando certas peças
que a gente não percebe que eram detalhes
que faziam toda a diferença, mas que de repente
simplesmente vão embora.

Fitou-me sem alento, e sentada na cama
frente à janela que convidava a aventuras titânicas
acho que desejou sair voando, planando
como fazem sem pudor as aves oceânicas
a garça branca, o martim pescador, a gaivota
esses bichos poetas que rabiscam no céus
as suas efêmeras notas.

E sem saber se poderia escolher entre ir ou ficar
ou se haveria tempo pra amar ou só olhar o mar
ou se tinha em si o tanto de loucura para saltar
apenas disse com a sabedoria simples dos amantes:

"Ás vezes eu me pergunto se tudo o que a gente tem de verdade 
são as nossas ausências..."

E eu, ausente de mim mesmo, 
sem saber se ali ainda estava o homem
ou já a engrenagem imunda que move a máquina do mundo
só pude preenchê-la com a delicadeza destemperada do meu choro 
e com os carinhos brutos da minha carne ereta de poeta
naquele único momento que de fato era nosso. 

E, sem mais filosofia
nos despedimos com um beijo de bom dia!

domingo, 20 de novembro de 2011

DENTE DE SABRE





Quem sabe não fala, quem fala não sabe.
A sabedoria é uma espada afiada, guardada e quieta
igual um tigre na relva, descansando seus dentes de sabre!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O TOCADOR DE TUBA





Repito-me, chato como quem ensaia numa tarde de domingo um solo de tuba:
Tem certos dias em que tudo o que se pode fazer é ler Nietzsche e comer jujubas.

O SENHOR DO BONFIM




Pele negra. Pele branca. 
E mãos cegas na noite franca.
Tudo é cinza quando as luzes estão apagadas.
Pêlo e pelúcia tecem a colcha dos tempos.
A pele lambe a cor das almas. 
Exus e Budas batem palmas!
O atabaque excita o peito,
Lateja nos penduricalhos da virilha.
Os terreiros, as igrejas, os templos,
São apenas ilhas.

A cidade é cruel: 
Dá-te um 'bom dia' negando seu perdão
Mas sabemos que o dia bom será mesmo o do patrão!
O sol de cada um é diferente, e mente quem diz o contrário.
O sol que doura a pele do surfista
É o mesmo que machuca o operário?
A cidade te olha, mas ninguém nos vê. 
Deus tudo sabe, mas em nada crê.

O dia se contorce
Entre os dedos de um tempo mesquinho.
Acordamos já enlatados nos trens que vão e vem.
Acordamos já preparados pra viver pouco
E dizer amém.

Mendigo, sobrevivo catando nas ruas
O que a cloaca dos corações humanos despeja.
O vento beija com beiço duro e quente,
Amante feio e sem prática.
As moedas não pagam pão e sexo.
Meu bolso é inimigo de qualquer matemática.
Fome, homem, fome, homem, e sempre mais fome.
Você pensa que é malandro, mas nem sabe quem te come.

Pago-me com o que posso, 
Certas coceiras dão na pele, outras nos ossos.
Ando, sigo, persigo. Insisto nas ladeiras. 
Persisto em cavar nas lixeiras
Algum resto de lembrança que me vista, 
Chinelo velho, camisa rasgada, um livro,
Uma batalha, um perigo qualquer
Que me sirva de trincheira.

Sobram horizontes sem esperança, 
O tempo árido dos que esperam sem saber o quê.
As árvores observam, as estátuas gritam sem voz,
Na foz do dia os pobres se equilibram num ritmado balanço.
Quem será este que divide comigo a praça,
Este altivo e miserável herói
a quem o tempo e a ignorância corroem?

Todo deserto
Tem multidões que o habitam. 
A razão às vezes faz greve,
Mas nunca sabe o que reivindica.
O passo claudica, dança de solitários
Procurando um corpo para esbarrar.
Ando sozinho, olhando as moças,
Pisando poças, mirando o mar.

O azul muda de aspecto,
Muda de figura, muda de humor.
O oceano pode caber num copo d'água,
Tudo depende do sonhador.
Deram-me fitinhas coloridas
Para amarrar no tornozelo.
Disseram-me que ganharia fácil
O zelo do nosso Senhor.
Mas recusei laços, pedi cachaça, 
Fiz pirraça, cheirei vapor.

Evito olhar minhas mãos vazias,
Cheias de vontades desconstruídas.
Evito fazer de tudo pretexto para poesia. 
A palavra fácil só me traz rimas doloridas.
Tem dias em que tudo o que a gente quer
é ter mulher para amar, e ter o pão para comer.
Ou vice-versa. Tudo depende da hora
Em que a carne implora o verso.

Paciência!
As engrenagens precisam se mover, mas não para sempre.
Olha o mar como balança ritmado, mesmo magoado 
batendo-se contra as paredes do rochedo. 
Olha como os galeões se esfacelam na tempestade 
como barquinhos de brinquedo.

Talvez brancos, pretos, amarelos, vermelhos
façam suas preces com pressa, pra não machucar os joelhos
mas os deuses acharão tua reza sem sal, sem sabor, sem valor
porque no fim das contas quem paga a tua existência
é um outro Senhor.

Paciência!
Eis o feitiço
Dos que não tem outra ciência.
Mesmo nos dias de estranha paz,
Traga sempre o escudo, o macete,
E a adaga com cabo de marfim.
Ainda que a luta seja desigual
Não fará mal desejar a todos
Um bom fim.

Há os dias de luta
E os dias de beijo.
Há o ensejo de ir à igreja,
Há o tempo de visitar as putas.
Haverá sempre a Poesia,
Sobretudo a Poesia
E isso ninguém refuta.

Os navios negreiros
Ainda trazem às nossas praias
Os novos brasileiros, filhos da dor 
(Todo tipo de herói furta-cor)
Que convertidos à força,
Pedem apenas uma boa morte
Em versos que não seriam de outra sorte
Pois cabe a nós lutar o bom combate
Esperando sempre um bom fim
Nos braços do nosso Senhor.