Ask Google Guru:

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

QUE NADA ME ROUBE O PRAZER DE APENAS SER



Não me roube o prazer de ser corpo, apenas.
Não me censure o prazer de palavra, poema.
Não me prive das delícias de amar em silêncio.
Não amarre minhas mãos ao ver que faço e não penso.
Há tempo, há o ensejo, há o privilégio, há epifanias.
Há o momento de segurar a pena, e o de ter a espada.
Há vontade de sumir no deserto, ou apreciar a maresia.
Há o feio que te anima e o mais belo que só enfada.

Para tudo há medida, há regra e contenção.
Para tudo há um preço, um certo valor.
Só não venha medir-me a alma e o coração.
Esses sabem ser delicados como o beija-flor,
mas em geral são indomáveis como o dragão.

domingo, 24 de junho de 2012

SALVE JORGE!





O bafo de Deus cavalga sobre os capins, faz rima de assobio sobre as campinas, flutua sobre a lagoa, cintila na água boa que faz brotar os alecrins.

Os sapos cantam o "Salve, uai! Vai, não vai!?" e o "Foi, não foi, oi, oi?!" Coaxam no limo o sapo barrigudo e o sapo-boi... Vento alazão. Galopa veloz sobre a terra seca e sobre os riachos. A crina vermelha lambendo o horizonte. Puseram fogo na mata, ou é o sol que correu pra se esconder trá-os-montes? 

Os olhos em brasa assustando as crianças. Mãe-preta sabe quem está por chegar. Os bicos dos peitos da negrinha estão duros. Vontade de ver o patrão, fazê-lo gemer. Fazê-lo ladrar! Machucar a cara do algoz, estapeá-lo. Dar com amor o que receberam todos com dor. Sorriso branco, pele preta. No escuro todo mundo é poeta!

Capitão do mato solta o chicote, baixa a cabeça. Peça castigo, peça! Os pretos mais velhos colocaram o capim cheiroso na palha do pito. Sálvia, salsa, madrágora, heléboro negro, urtiga... E a cantiga dos cigarros ganha o mundo. 

O incenso improvisado vai benzer a Casa-Grande. As matronas enlouquecidas rezam o terço. Os tambores, mais tarde, vão ecoar na sua cabeça. Até o padre na capela sabe que é santo aquele rito. Tudo convida, mas poucos hão de se chegar. Hoje é dia de fogueirão! Capoeira, pés voando na escuridão! O Maculelê rasga o ar. Palmas ecoam de Aruanda. Preta bonita lavou vestido com água de lavanda. Bate palma menino! Hoje o tempo é senhor! 

Lá vem facão, mas não quer matar. Jogo de homens pra esquecer a dor. (Olha o dragão, olha o dragão passando rente!) Mas ninguém foge do dragão que mora dentro da gente! Jorge, guerreiro, é o chefe da brincadeira. Homem feito, homem forte, também quer brincar. Cavaleiro de lança forte, vem dançar sem medo da morte. 

Vida boa, meu amigo! Os moleques vestem camisa, procuram abrigo. As jaboticabeiras ficam vazias, nem se mexem. Remoinho. Rodamoinho. Roda a saia, pretinha. Ciranda! É fim de tarde, e o vento da monção anuncia: Venham meus pretos! Hoje é dia! O chicote não canta, e nossa gente faz cantoria! Hoje, no barracão, vai ter poesia!

sábado, 2 de junho de 2012

L'ABÎME


Volonté d'arriver au côté de tout abîme et dire à l'infini: 
- Bientôt, je suis ici ! Ce que tu me dit? 

O NOME DA ROSA


As coisas tem um nome,
e em cada nome reside um mistério.
Cada letra é uma pétala de flor
e toda palavra traz em si o seu perfume.
Um lume de questionamento, um porquê
com gosto de pergunta já respondida.

A palavra maçã tem cheiro, e tem culpa,
porque traz a lembrança lendária,
no subconsciente o castigo mais gostoso
de Eva, que ofereu a Adão seu engodo:
a primeira mulher, primeira mãe, primeira puta
que jogou o homem para fora do paraíso,
depedendo apenas da sua força, do seu juízo,
para o sofrimento e a labuta.

O nome da rosa já denuncia a carga
de sentimentos que a palavra traz á tona
renovando-lhe a vida.
Respeite o nome da palavra,
saiba manuseá-la, prová-la,
sentir sua doçura e seu azedume.

De tudo podemos perder,
a vida, os deuses, a filosofia, a poesia,
são subterfúgios, pequenas mentiras,
mas o nome das coisas ninguém os tira!



Marcelo Sousa, in "Sortilégios", 2012.


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"Stat rosa pristina nomine,
nomina nuda tenemus."

Bernardo Morliacense, in "De Contemptu Mundi" no século XII. Livro 1, Verso 952.

domingo, 20 de maio de 2012

ASTÚCIA





À toda mulher sobra sempre muita astúcia.
Em alguns lugares elas tem pêlos,
n'outros, pelúcia!

#haikai


DUPLO


Seremos como Sartre e Simone,
ou como Harry e Hermione?
Seremos como Adão e Eva,
ou como a Luz e as Trevas?

Seremos como Caim e Abel,
ou como a Terra e o Céu?
Seremos como o Touro Negro e Dom Sebastião,
ou como o Cérebro, sempre soberbo, e o humilde Coração?

Talvez não venhamos a ser nada,
ou talvez eu seja o Crepúsculo e você a Alvorada.
Talvez seja possível, na mesma taça, servir tristeza e alegria,
ou nos enganamos sendo irmãos gêmeos vestindo diferentes fantasias.

Talvez haja maior sabedoria contida
no ato de nada querer saber.
Talvez as melhores coisas da vida
sejam aquelas que sabemos sem precisar aprender.

domingo, 13 de maio de 2012

QUANTAS PONTAS TEM AS ESTRELAS?



Quantas pontas tem as estrelas?
Alguém já se deu o trabalho de contá-las?
E se forem adornos dos deuses?
E se forem colares de contas?
Talvez sejam abelhas em chamas
ou simples mariposas brancas 
voando tontas...

Houve quem as tentasse contar
e até poetas capazes de ouvir estrelas.
Eu, que sou bronco, e muito franco
(sou do interior de mim mesmo)
não julgo saber muita coisa delas.
Sei que brilham porque são necessárias:
toda noite a Senhora Lua as acende como velas
e de manhã vem o Senhor Sol e sopra várias
porque à luz do dia não é mais preciso tê-las.

São tão brilhantes, e tão belas
que nossa vontade é estender as mãos
e catá-las uma a uma, e retê-las
como crianças que pegam vaga-lumes.
Assim são os que amam:
No céu, até o ponto de luz mais singelo
já é desculpa pra iluminar seu interno negrume
porque amantes são bobos, e temos que os desculpar
pois quem ama tem a necessidade natural de brilhar!



- Parceria poética de Thamar de Araújo e Marcelo Sousa.

terça-feira, 8 de maio de 2012

CAMINHANDO









Quantos sorrisos não recebemos por medo de sorrir primeiro. Quantos carinhos o tempo apaga porque a tua mão não teve a coragem de ser a mão que afaga. Quantos amigos, quantos amores você perdeu por que escolheu rogar praga, quando poderia ter pedido desculpas, quando poderia ter dito um simples "obrigado". Quanto mar, quantas ondas, quantos horizontes ficaram para trás, porque você não aprendeu a nadar, com medo de que o oceano te levasse embora a vida, quando viver, no fim das contas, é estar sempre de partida. Quantas coisas perdemos por medo de perder, quantas coisas não somos por que estamos apenas fingindo ser. Por que o que vive de verdade simplesmente acorda e vai vivendo, enquanto quem fica parado na vida, é o que acorda, senta na cama e fica pensando, pensando, pensando, e morrendo.


OLHOS DE FACA




Na noite muito densa
precisei respirar areias em tempestade
fechar os olhos e deixar me guiar a saudade
porque já me acostumei a respirar fogo
saltando muros para brincar com os lobos
escapar de becos muito escuros
esconder meus caninos
e fingir-me de bobo.

Na noite muito densa
fui ganhando caminho
sozinho como quem não pensa
poder cair em armadilha
ou pisar qualquer alçapão.
Adentrei teu quarto
e esperto, com olhos de faca
joguei-me sobre o teu leito
e deixei minhas lâminas descansarem
nas profundezas do teu peito.




- Parceria poética de Thamar de Araújo e Marcelo Sousa.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

QUID PRO QUOD



A mão que lava a outra, de outrem,
e a culpa rolando nos trilhos anuncia: ele vem!
Com a barriga de metal cheia de culpados,
o abdômen do bonde enfastiado.

Lava minha mão que eu lavo a tua!
Mas o cheiro bom do pecado não desencrua.
Quero saber da tua vida, tua espinhela caída.
Já sei a hora da chegada, falta-me a da despedida.

Desmesuro-me, por ser anão
tendo o mundo na palma da mão!
Sou pequeno, comungo com os deuses,
mas só ao apagar das luzes.

Quer saber da minha vida passada?
Nem eu sei se o que passou é da minha alçada.
Meus ossos ignoram (bendita ossada) o que a carne
traz de mágoa e bendizer. A carne não promulga o cerne!

Não acho tua mão, mas teu peito faz barulho no escuro
e tudo é fastio e tesão por trás desses muros.
Quiprocó, dizem os corpos, pedindo recíproco deleite:
mas quem tem a alma maior que o corpo, observa apenas, como enfeite.

Vê círculos, auréolas, todo circo precisa de um palhaço
mas se não tenho tintas pra pintar meu rosto, como faço?
Serei domador de leões, desafiarei de peito nu todas as feras
enquanto a menina bonita na platéia pela tragédia espera?

Não te encontro, onde estás que não te vejo?
Galante domador de corações, palavras e desejos...
Minhas orações são para ti, pecador
porque quero pecar junto, com ardor!

Com ardor, com amor
mas devagar com o andor!
Deve ser como a primeira vez que se anda de bicicleta
subir ao picadeiro, estar entregue à mãos firmes do poeta.

Quiprocó, minha querida,
pois disso dependerá nossa vida.
Te contarei baixinho nos ouvidos os meus truques
e tu ouvirás os cantos gregorianos e os africanos batuques.

A mão sozinha não se lava, só leva
de um lado para o outro o facho de luz que será logo treva.
Lava minha mão que eu lavo a tua: façamos o quiprocó
antes que o laço do tempo puxe a corda e dê um nó!



- Poesia colaborativa de Marcelo Sousa e Thauan Raposo.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

UM COPO DE CÉU CHEIO DE MAR


De sorrisos e lágrimas
imprecisos azuis e coruscantes magmas
fazemos ninhos nos sonhos um do outro
onde a eternidade, esse piscar de olhos, ainda é pouco
porque minh'alma transborda quando encontra o seu olhar:
esse lindo copo de céu cheio de mar.

domingo, 8 de abril de 2012

NÃO QUERO SER O PRIMEIRO A CHEGAR


Vetustos senhores
cujas barbas brancas
e a cabeça platinada
não adicionou-lhes em honra e sabedoria
quase nada.

Venusta figura, vetusta criatura
cuja pobre caricatura
lembra muito de longe
aquele que antes fora
mas que hoje encontra-se gasto
por assim dizer, velho
ainda que o que insista em ver
é uma criança no espelho.

Mando-te lembranças
e espero que teus restantes dias
sejam de tranquilidade, de quietude
mesmo que teu cenho torpe
e sua têmpera muito rude
atrapalhe ouvir os pássaros
na alvorada.

Eu e você nos olhamos, somos símiles,
partilhamos o destino humano na mesma estrada.
Porém tua vantagem, ou tua fraqueza
é que tu estás muito á frente, és vencedor,
e com terror verás que vencer é não mais existir.
Fruta madura demais na árvore
não tem outro destino senão cair.

Aceno-te, irmão, que daqui há pouco chegará
sorrindo, bonachão, fazendo troça,
gesticulando solenemente como um palhaço,
seguindo sempre em frente, veloz e audaz
como um cego cruzando a linha de chegada.
Eu, pobre e tolo, ainda estou de saída:
começo agora a viver esta vida!

quinta-feira, 29 de março de 2012

TEU PÃO



E quando acabarem as moedas de ouro,
Farei pra você casacos de pele, 
Rasgando meu couro.

E quando não sobrar mais vinho
Te darei de beber na fonte, gozando 
E gemendo baixinho.

E quando faltar o ossobuco, o cordeiro e o faisão,
Olha pra mim: para beijar, morder, consumir...
Serei teu pão.

PERSISTÊNCIA





O tempo resiste.
A carne insiste.


O tempo persiste.
A carne existe.


O tempo e a carne combinam.
Mas nem sempre rimam.


O tempo e a carne ruminam.
Um quer mandar, o outro já domina.


O tempo sempre cobra.
A carne, às vezes, sobra.


O tempo sempre cobre.
A carne, quase sempre, é pobre.


O tempo faz a carne sentir.
A carne faz o tempo existir.


O tempo é o ensejo.
A carne, só desejo.


O tempo é o olhar.
A carne é o beijo.


O tempo é Deus.
A carne sou eu.


Mas se Deus não existe,
porque a carne insiste?


O tempo é o karma?
O tempo é a calma?


A carne é uma arma?
Dentro da carne mora a alma?


O tempo é religião.
A carne é o pão!


O tempo a tudo consome.
O pão nem a todos sacia.


Nem só de pão viverá o homem:
há de se ter paixão e poesia!

sábado, 18 de fevereiro de 2012

FREUD EXPLICA?









Muito ego.
Pouco sossego.
Mulher vestida de menina,
Mas por baixo da pele a alma não rima.
Feios modos de uma pobre menina rica.
O teu problema, nem Freud explica.

O ENCARCERADO









Talvez amar de verdade seja tudo o que preciso. 
Mas que homem está preparado para cumprir prisão perpétua no paraíso?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

MITOCÔNDRIA



És uma deusa de morte e vida
como se tu, divina organela atrevida
fosses ao mesmo tempo Shiva, Brahma e Vishnu.
Tens a forma da semente primordial, o grão cru
que germina de fora para dentro, inteligente
simbiótica dona de casa, zeladora dos eucariontes.
Em tua cama de vilosidades e tecidos tão rugosos
queimam como numa panela os afetos mais gostosos
as flores de açúcar dadas com carinho e como oferenda
são o teu combustível, que nos devolve como santificada merenda
que o corpo vai precisar a cada minuto de cada santo e glorioso dia
para sobreviver, andar, correr, lutar, crescer, amar, e escrever poesia!






- Só para provar que as nossas antigas aulas de Ciências também podem render poesia. Dedico esse poema aos meus bons professores de Biologia! :)

domingo, 29 de janeiro de 2012

PERANTE TUA FACE





Senhor dos meus dias, Senhora das minhas noites.
Que eu suporte com igual ânimo os teus carinhos e os teus açoites.
Senhor das profundezas, Senhora de todos os céus.
Que eu possa vislumbrá-los face-a-face, ou com seus véus.
Senhor das minhas lágrimas, Senhora do meu sorriso.
Que em tuas mãos nunca esteja o que quero, mas o que preciso.
Senhor do meu medo, Senhora da minha luz.
Que eu seja mestre do que me eleva tanto quanto do que me reduz.
Senhor dos meus vitupérios, Senhora das minhas preces.
Que eu seja sempre o mesmo homem, mesmo longe da tua face.
Senhor dos meus tormentos, Senhora do meu gozo.
Que minhas mãos sejam artefatos de atos terríveis e maravilhosos.
Senhor dos meus poemas, Senhora dos meus versos.
Que eu seja poeta hoje e sempre, a despeito do Bem e do Mal do universo.
Senhor da minha razão, Senhora dos meus amores.
Que meu peito nunca esteja anestesiado para qualquer que sejam as dores.
Senhor dos céus e dos trovões, Senhora da terra e do fogo.
Que meu eu saiba estar tranquilo e alerta entre as ovelhas e os lobos.
Senhor do tempo, Senhora do tempo. Donos da minha paciência.
Que eu saiba rugir como homem, e sentir como criança.
Senhor do Tempo, Senhora do Tempo. Perante a tua face, neste longo inverno
Que eu aceite que a carne é finita, mas o que há de mágico fluindo nas veias do poeta...
Isso é eterno!

O QUEBRA-CABEÇAS





Sei o que presumo, 
Mas assumo que nada sei. 
Sou nefelibata, sem chão.
O que tenho de você 
Foi construído com imaginação.
Mas tudo tu me confirmastes, C
omo seu eu fosse um prestidigitador,
Sagaz advinhador do que é alegria, 
Do que é carne, do que é alma, do que é dor.
Provei os vãos do teu corpo, 
O mel sorvi diretamente na colmeia.
Descobri que trocamos de pele quando não há plateia.
Talvez seja mesmo assim, tateando, experimentando, intuindo.
Talvez seja mesmo no escuro que se juntam as peças do amor.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

DAS UNHEIMLICH





O oposto do que me é familiar
é o que nasce quando meu silêncio quer cantar
ou quando chorar é o que mais preciso
e contudo meu rosto ergue o mais belo sorriso.

Meu íntimo-estranho,
o quanto menos te quero aprisionar, mais te ganho.
Sinto-te passear por dentro de minhas veias lentamente
enquanto gozo ao sentir tua estranheza inquietante.

É tudo tão apreciável que chega a dar medo:
sou criança que receia tomarem-me o brinquedo!
Mas sei que é pelos caminhos mais perigosos
que chegarei aos jardins mais lindos, às frutas mais gostosas.

Ó escuridão! Sabes o quanto tenho medo de ti!
Mas com as luzes acesas não poderei dormir.
E dormir é condição imperiosa para poder sonhar.
As luzes ficarão acesas, mas meus olhos com força irão fechar!

Tão familiar é esta estranheza
de encontrar no oposto tanta beleza
que ao fugir de todos e querer ficar sozinho
meus pés dizem-me que estou pisando os mesmos caminhos.

Vejo criaturas estranhas e caio perante elas de joelhos
mas perplexo descubro-me seu irmão ao olhar-me no espelho.
O que fazer? Para onde ir? Sinto que o tempo aperta o laço!
Resta-me beijar a boca do Destino, e deixar-me descansar em seus braços!