Ask Google Guru:

sexta-feira, 23 de maio de 2014

NÃO TE ACOVARDES AO CAIR DA NOITE






DO NOT GO GENTLE INTO THAT GOOD NIGHT

NÃO TE ACOVARDES AO CAIR DA NOITE


Do not go gentle into that good night,

Old age should burn and rave at close of day;

Rage, rage against the dying of the light.


Não te acovardes ao cair da noite.

Que tu saibas envelhecer como o sol ao findar o dia:

Bravo, belo, forte, vivo, mesmo em face a própria morte.


Though wise men at their end know dark is right,

Because their words had forked no lightning they

Do not go gentle into that good night.


Sábios fizeram poemas lindos sobre este último açoite.

Suas palavras brilhantes são palavras apenas, mas ainda brilhantes:

Bravas, belas, fortes, vivas, mesmo em face a própria morte.


Good men, the last wave by, crying how bright

Their frail deeds might have danced in a green bay,

Rage, rage against the dying of the light.


Homens bons, cujo aceno de despedida foi breve, mas fulgurante,

Seja em verdes pastos ou escuros desertos, mantiveram a alma límpida

E o espírito indomável, bravo, belo, forte, vivo, mesmo em face a própria morte.


Wild men who caught and sang the sun in flight,

And learn, too late, they grieved it on its way,

Do not go gentle into that good night.


E vós corajosos, selvagens, guerreiros, heróis, mesmo os imprudentes

Cuja mão rija se adianta ao pensamento, que seu derradeiro lamento

Seja bravo, belo, forte, vivo, mesmo em face a própria morte.


Grave men, near death, who see with blinding sight

Blind eyes could blaze like meteors and be gay,

Rage, rage against the dying of the light.


Que vós moribundos, cujos olhos se enevoam perante a grave senhora,

Encontrem a consolação no espetáculo cósmico desta última hora

E sigam em frente, bravos, belos, fortes, vivos, mesmo em face 

a própria morte.


And you, my father, there on that sad height,

Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.

Do not go gentle into that good night.

Rage, rage against the dying of the light. 


E tu meu pai, que para o mundo definha enquanto para mim se agiganta,

Ouve este poema, esta maldita bênção que nasce miúda, mas logo se levanta

Chamando-te para comigo, de mãos dadas, enfrentar o terror e a maravilha desta noite:

Sigamos em frente, bravos, belos, fortes, vivos, mesmo em face a própria morte.



[Poema original de Dylan Thomas, versão de Marcelo Sousa.]



A GREVE GERAL





Naquela madrugada, Florêncio não foi trabalhar. Era outono, uma ventania mordia o cocoruto das campinas onde as rosas e os lírios, mastigados, choravam lindamente, orvalhados por aquela lua gigante que teimava em não ir embora. O homem na janela observou e chorou, sozinho. Não tinha mulher nem filhos, nem cão, nem gato, nem ratos havia em sua casa, ninguém sorria ou chorava por sua causa. Era florista, filho de florista, neto de não se sabe quem, porque os floristas jamais foram bons em cultivar árvores genealógicas. Florêncio, filho de Florisvaldo, era um trocadilho vivo e infame, um clichê feliz em sua limitada e florida vida. E naquele dia, não foi trabalhar. Mariano, pequeno fazendeiro, passou com a caminhonete na frente da casa de Florêncio. Iriam juntos para o Mercado Municipal, um vender flores, o outro, pão, leite e café. Mas o florista estava ainda em camisola, as mangas brancas esfarrapadas manchadas de amarelo, o tempo traçando bordados que a gente só percebe na morte, ou num dia desses de sorte, em que se decide olhar a vida e não fazer nada. 

Mariano chamou, chamou, e nada. Então desceu do velho chevrolet azul e foi ver o que acontecia. Pisou o caminho de pedrinhas lisas, ladeadas por mais flores, de tantas cores que pareciam potes de tinta derramados sobre a relva. Andou pouco até a casa, onde surpreendeu Florêncio bocejando na janela, o aspecto sonolento e contente, a caneca de folha de alumínio ainda vazia: no caminho da cozinha o florista havia parado pra olhar a campina e ali ficou.

- Ô de casa, Sêu Flor!
- Mariano, homem, venha chegando...
- Mas já cheguei.
- Então entre, vem olhar pela janela comigo.
- Mas entrar pra olhar pra fora, Sêu Flor?
- Pois sim, então fique. Tomou café?
- No mercado a gente toma, estamos atrasados, homem!
- Não vou.
- Hein?
- Não vou. Estou em greve.
- Greve?
- Pois é. Tenho o direito.
- Mas que idéia é essa? Vendedor de flor não tem greve!
- Tem sim! E eu sou florista. Planto, cuido, faço os ramalhetes, e vendo.
- Florista não faz greve.
- Por quê não?
- Porque não.
- Vou reclamar no sindicato.
- Não tem sindicato.
- Mas, e os meus direitos, o meu salário, as minhas férias?
- Tens o direito de passar a flor a quem gostar de flor.
- Isso, e o quê mais?
- E vais receber o quanto quiser cobrar, se tiver alguém pra pagar.
- É, e tem os pechincheiros engravatados dos escritórios, e as moças bonitas, e os jovens namorados, e as velhinhas...
- O quê tem?
- Cada um paga um preço, uns não pagam nada, outros pagam quando dá.
- Mas aí é um problema seu, meu amigo.
- E tem as estações em que as flores estão arredias, não crescem direito, exigem mais água, até música, querem que eu toque serenata a noite inteira, e acordam bonitas, mas eu fico um farrapo.
- É a vida. Eu com as vaquinhas sou meio assim também. E tem dia que não querem me dar uma gotinha de leite.
- Então façamos greve!
- Contra quem, o quê?
- Tem que ser do contra?
- Não tem?
- Não sei. Acho que não.
- Vamos tomar um cafézinho?
- Só se for com leite.
- Dia bonito, não é?
- Belíssimo!
- Vamos pra janela.

E sentaram os dois perto da janela, á beira de campos floridos de todas as cores. Agora tinham café com leite, pão quentinho, e flores por todos os lados. Estava declarada a greve dos floristas e dos fazendeiros daquela cidadezinha. Os moradores logo perceberam algo de errado. Não tinha pão e leite na padaria. O cafézinho do bar era velho, da véspera. As casas dos ricos e dos pobres tinham flores murchando, que não foram substituídas. No terceiro dia o delegado foi à fazenda, preocupado, buscar Sêu Mariano, que não estava lá. No quinto dia os três policiais da cidade, mais um bombeiro e o delegado, procuravam o fazendeiro. No sexto dia uma moça notificou a falta do florista. Seu namorado chegara pra pedir a sua mão, conforme ensaiaram, ele de terno branco (o mesmo que seu pai usou duas décadas antes) ajoelhando perante o sogro, bigode grosso e preto, pintado dois dias antes, já sabendo da surpresa... Mas sem flor! Sem flor! Um disparate, uma falta de consideração! Ou seja, não teve noivado. Não teve beijinhos e mãe chorosa. E quase teve briga com cunhados de calças curtas e pavio menor ainda. Deu polícia! E por isso lembraram do florista.

- Ô de casa! Sêu Flor!?
- Carneiro, homem, venha chegando!
- Bom dia! Está doente?
- Não.
- Tem faltado à banca...
- Estou em greve. Não vai ter flor.
- Greve?

Mariano chega à janela e faz côro:

- Greve, Sêu Delegado! Estamos em greve!
- Homem de Deus, estás vivo!?
- Estou aqui com meu amigo...
- E estão os dois em greve?
- Isso.
- Mas que disparate. Vocês não podem...
- Podemos! 
- Mas contra quem?
- E tem que ser contra alguém?
- Não, mas, vocês vão reclamar do quê? Com quem?
- E se a gente não reclamar?
- Mas não é greve?
- É.
- Não estou entendendo.
- Entre, Sêu Carneiro, digo, Sêu Delegado. Tome um café...

E foi assim que o delegado, depois os três praças e o bombeiro, foram entrando, cada um ganhando uma caneca de folha de alumínio cheia de café com leite, e uma rosa (cada uma de uma cor) na lapela. E sentaram pra conversar, mas a verdade é que não falavam nada, apenas ficaram ali sorrindo, aproveitando o café e as flores.

A cidade estava estranha. As pessoas notavam um ar de desconfiança, uns ventos soturnos de descrença. Os turistas deixaram de ir pra lá, achando aquela cidade sinistra demais. Algo estranho estava acontecendo, e ninguém sabia o que era. Aos poucos, as pessoas iam desaparecendo: no sétimo dia o padre sumiu, junto com a moça que vende chocolates, o fazedor de pipas, o tocador de sanfona e o chinês da pastelaria. Aos dez dias já tinham sumido os mendigos, os vendedores de milho pra pombo, a velhinha do quebra-queixo, o garoto que engraxa sapatos na esquina da prefeitura, o lanterninha do cinema...

No décimo dia o prefeito decretou estado de calamidade pública. As pessoas andavam tristes, a cidade não produzia, o noticiário culpava as autoridades. A notícia da cidade que definhava ganhou as manchetes estaduais, depois as nacionais. O prefeito percorria a cidade e o campo, mas não encontrava motivo. Até que um dia, passando nas campinas floridas do Sêu Florisvaldo, viu pessoas sentadas no quintal, umas na varanda, tantas e tantas entrando e saindo da casa, uma cara boba, sonolenta, parecia um semi-sorriso sarcástico, meio lunático, uma cara de santo de igreja, mas sem martírio.

- Ô de casa! Sêu Flor!?
- Ô seu Praxedes, venha chegando!
- Mas já cheguei!
- Então entre e tome um café!
- Venho como prefeito da cidade.
- Pois tome aqui a sua caneca, seu prefeito.
- Mas o quê está acontecendo por aqui?
- Estamos em greve.
- Greve? Sêu Flor! 

Daí chega o padre com a caneca quentinha nas duas mãos, como se entregasse a hóstia ao prefeito. Aquela fumacinha gostosa perto do rosto do Praxedes era irresistível, e quando a garota dos chocolates chegou com aquela rosa vermelha, o coração do prefeito virou manteiga...

- Aliás, alguém tem um pãozinho aí?
- Sêu Praxedes, tó!
- Obrigado, Sêu Mariano.

O florista, que já nem conseguia entrar na própria casa, passou os dias no alto da campina. A vida passava devagar sobre aqueles montes floridos. A cidade, cada vez mais vazia, preocupava a nação. Três meses depois, um destacamento do exército passou por lá, e como era de se esperar, os milicos chegaram com suas patentes. Tenentes jovens com botas lustradas pediam explicações. Confusos, chegaram os mais graduados, com tanques e fuzis. 

Um general sentou pra conversar com o Florisvaldo. 
Nunca mais voltou.

Nesse ponto, até mesmo quem contava a história desapareceu na multidão, a caneca de folha na mão, uma flor roxa na lapela. Mas dizem que trezentos dias depois do início da greve do Sêu Flor, o presidente do país chegou naquelas campinas com uma tropa de ajuda internacional, líderes do mundo, cientistas e políticos seguiram pra lá também.

- Ô de casa! Sêu Flor?
- Ô de fora, venha chegando...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

SUBTERRÂNEO



Não serei o poeta-espetáculo.
Não trarei lantejoulas bordadas na alma. 
Tenho em mim a necessidade do silêncio.
As explosões subterrâneas. A palavra-magma. 
Dos abismos. Das fossas abissais.
Da rocha líquida dos vulcões.
Dos minutos contados para trás.

Não serei o poeta-picadeiro.
Não trarei um riso nervoso ensaiado para deleite da plateia.
Tenho a voz mansa dos que se acostumaram ao grito interrompido. 
As expressões vociferantes dos que comedidamente perdem a calma. 
Das cismas. Dos sismos. Da concha do batismo. 
Das piras sacerdotais. Da sentença derretida no céu da boca.
E nada mais.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

EQUAÇÃO






Papai chegou de visita em nossa ilha, como que tem agenda de ir e voltar, mas seus olhos queriam ficar.

Foi recebido no cais por mãos carinhosas, firmes, e vontades despidas de cuidados plásticos: apenas os gestos despretensiosos de quem ama, sem nota promissória, sem cálculo para o futuro ou mesuras para outras histórias.

Viu um lar, marido e mulher, amor e dor. E o gato, na cama.

Percebeu as mazelas, viu as flores, o jardim. Agradou-se ao sentar no lounge aberto para um azul insano. Correu olhos de menino por todos os lados, nossa biblioteca, o computador, o quadrado japonês - no chão, deck de madeira e almofadas - com o tabuleiro de xadrêz, e o piano ao lado.

Paredes brancas. O calor. O azul, o azul, o azul. As araras, o bem-te-vi, o martim-pescador, o tucano, os marimbondos, as borboletas, morcegos e muriçocas. A montanha chamando monções de um verão indulgente. Inteligente. A voz muída das gentes, pescadores que passam. Pra onde? Nem eles sabem.

Papai provou carpaccio conosco, pela primeira vez em sua vida. E provou do nosso vinho, degustou a doçura dos olhos do gatinho que, da cama, cumprimentou a nobreza daquele avô que trazia sobre a carapinha negra a fuligem cinza e branca de tempos imemoriais.

Papai sentou com Thamar naquela tarde iluminada (havia uma chama acolhedora nos olhares) e conversou a prosa miúda dos que vem lá das Gerais, aquele jeito de trazer lonjuras na fala, aquele vagar cavalheiresco que tapa mais do que descobre, enquanto, no andar de baixo, eu cozinhava. E ouvia. Ouvia. E como era bom ouvir.

Papai voltou a ser papai, passou a tarde despindo-se de ser pai, tornando-se só homem: o que é ser mais pai que tudo neste mundo.

Foi o homem que eu precisava, na hora propícia, no tempo certo, quando eu mesmo haveria de ser homem também.

Papai viu que nossas sementes, secas, ainda poderiam brotar.

Não deu conselho, não ensinou, não deixou ordem nem pedido.

Deu-nos a bênção. Despediu-se.

De mãos dadas comigo (um hiato de décadas ditongou naquele momento) foi embora, e naquela hora, o menino era maior que o homem, mas o mito do homem, o pai eterno, esse ficou, fixado, cravado no sílex, no quartzo afiado dessas retinas que ditam este ensaio de poema.

A visita de papai, hoje, solucionou o mais complexo de todos os nossos teoremas.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O QUE EU QUERO







O que eu quero
Não tem tamanho.
Não cabe na mala,
Tampouco no sonho.

O que eu quero
Não se paga com moeda.
Tem a consistência gostosa
Do cetim, palha, pêlo e pedra.

Quero o que é bom 
para o filósofo, para o burocrata, 
para o velho e o rapaz.

Mas se, qualquer dia sesses, 
um gaiato der nome e sobrenome 
a isso que eu quero,

Danou-se:
Morreu, perdeu a graça, 
e já não vou desejá-lo nunca mais.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

OSSOS DE BORBOLETA






Era pouco. 
Muito pouco.
Quase nada.
E só por isso,
Deu e sobrou.

[Não. Isso não é poesia.
Isso é vida, apelido do tempo.]

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

APOGIATURA



 


Silêncio. 


Houve uma ilha de silêncio no oceano da cidade. As marés vagavam intranquilas à nossa volta. A algazarra fazia hiato. Os gritos se estilhaçavam contra a muralha de calma que se levantou entre nós.


Lembro que tudo era gris. O mar, os prédios, a montanha, até as árvores e as pessoas pareciam cinzentas. Mas naquele instante sem nome, sem foto, sem dono, naquele instante o firmamento rasgou-se devagar, e do tecido roído brotou o azul. E era desesperadamente azul aquele pedaço do cosmos sobre nossas cabeças.


Nossos dedos se tocaram, daquele jeito que fazemos sem notar, formando uma corrente de carne e aço. Nossos ossos tremeram, mas nossos olhos não se turvaram, o mundo fez uma pausa de mais de mil compassos, como se entre sístole e diástole houvesse tempo para contar uma história inteira.


De repente, estávamos dançando. Ela sorria com olhos e boca, e seus cabelos negros davam inveja à noite, e sua pele branquinha desdenhava do dia. Éramos os últimos habitantes do planeta, e todas as palavras não ditas faziam inveja aos poetas.


Lembro que o mundo parou para ver a bailarina sambar aquele miudinho cheio de bossa. A curva bonita de suas ancas e os seios de romã brincando de esconde-esconde entre as flâmulas de seda, o vestido roçando a pele feito nuvem que faz carinho nos topetes das montanhas.


Silêncio.


Aquele silêncio tinha cor, perfume, e era tátil como as teclas de um piano. E convidava. Não era preciso saber qual, como, onde e quando. O convite era para um silêncio salpicado de melismas assombrosos, com espaços perspontados de gemidos de sôfrega alegria, dessas que a gente não sai contando por aí, com medo de gastar a lembrança.


Recordo, houve uma ilha de silêncio no oceano da cidade. Palco perfeito, sem holofotes. O dia foi ficando castanho, os pardais entre as palmeiras chamando o sol para dormir... Foi assim que acordei, numa dessas varandas perdidas numa lembrança talvez vivida, talvez inventada, talvez - o que é mais certo - simplesmente sonhada.


Acordei naquela varanda, o pêndulo da rede fazendo cócegas nos meus sonhos, o ar pulverizado de música, a silhueta de uma ninfa dedilhando no piano as melodias que eu ouvia muito antes de nascer.


Era outono. É sempre outono em meus sonhos. 


As folhas caíam como dias passados. Eu lembro. Eu estava lá quando um azul imenso abriu uma cicatriz na pele morna do dia.


Uma ninfa tocou aquela canção de ninar a tarde inteira, e eu imaginei claves de sol brilhando no céu cinzento.


Uma ninfa. E uma canção de ninar.


Sempre que lembro aquele momento, posso jurar que enxerguei seus dedos cantando. Foi a primeira vez que a vi dedilhar o clavinote como quem faz festa com o próprio corpo, instigando o tempo a parar, sentar e ouvir. 


Uma ninfa reinventou o silêncio. 


E os acordes que ela tocava faziam cachinhos nas madeixas do vento.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

SÓ DÓI QUANDO EU SORRIO





Há dias em que me lembro que existir dói. E dói muito - na maioria das vezes - ou fica naquela dorzinha chata, persistente.

Então percebo que todos os dias são assim. E sorrio por isso: algumas vezes o riso nervoso de quem não sabe ou não tem outra coisa a fazer; outras vezes o sorriso tranquilo e gostoso de quem aceita que enquanto estiver doendo, estamos existindo. E sei que existir não significa viver, não completamente, mas não há vida sem existência, por isso existir é um ato de resistência. 

Existo, logo, viverei. O que está, cedo ou tarde, será. Eis que a dialética de Shakespeare me assalta com seu "ser ou não ser" tão mastigado, porém nunca esvaziado. O chiclete do bardo continua doce e colorido, como um enigma entre os dentes de um menino-deus que se percebe gigante, enorme como a projeção das sombras que sua figura lança nas paredes azuis do Cosmo.

Há dias em que viver simplesmente dói. Nos outros, dói muito. Em todos esses dias, ao olhar meu rosto fisgado pela promessa de finitude refletida em cada átomo do meu corpo, tento sorrir. Tento contentar-me, porque ser contente é fundamental. Ser feliz é outra coisa, estar alegre também. Mas o contentamento, por princípio, é o fundamento de tudo o que nos anima, o que redunda, pois o alimento da alma é o ânimo, alento, seja pela brisa que acaricia ou pelo vento que fustiga.

Por isso, nesses dias em que tudo dói, tento sinceramente sorrir. E sorrindo sinto doer mais ainda. E quanto mais sinto mais me contento, e esse contentamento me alegra: estou vivo! Porque o fim da dor é o fim da vida. E toda alegria tem a obrigação ontológica - epistemológica - de ser dolorida.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

SOU POENTE





Quem passou, 
o dia, ou eu?

Não morri, nem vivo. 
Mas sigo, sou poente, 
um astro claudicante 
a flutuar no céu.

O dia passou.
Mas, e eu?

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

PRIMEIRO ENVELHECER




Primeiro envelhecer.
Encardir as sobrancelhas.
Usar calças de tergal.
Vestir camisas brancas,
Devidamente enegrecidas
Na gola e nos punhos.
Um remendo de esparadrapo
Nos óculos de aro fino.
Moedas miúdas no bolso.
A voz baixa, as mãos incertas.
Explosões de um ódio cômico.
Rompantes de uma tristeza engraçada.
O perfume estragado na pele morta.
O tempo encalacrado 
Na borda amarelada
De cada dia.
As facas cegas.
Os garfos tortos.
Panelas furadas.
Gaveteiros de meias sem par
E sonhos nunca realizados.
Os seios que brotam
Sob as malditas camisetas brancas
Das raposinhas que me assaltam a paz.
O mingau frio.
Os cabelos ralos.
O sexo vil.
O cerebelo ereto.
O gozo triste e incerto
Da minha glândula pineal.
A aurora boreal constante
Fotografada no mata-borrão
Das minhas retinas.
A resolução do olhar perdido.
O passo claudicante,
Como num tango dolorido.
Viver, sem ênfase.
Morrer, sempre aos poucos.
Ter epifanias diárias, inúteis.
Envelhecer, sem teoria.
Ensaiar falências múltiplas.
O 'delirium tremens' da alma.
O verso precário
A poesia bárbara
Do meu silêncio.
Arrefecer.
Envelhecer.
Feito isso, o cenário
Estará quase definido.
Compra-se um gato. 
Talvez um canário
Um cão pequinês
Um peixe dourado
Um lagarto emplumado
Uma serpente alada, talvez.
Uns cochilos no calçadão.
A cara fechada, de poucos amigos.
Uns tomates derrubados
Na feira de domingo.
E está feito!
Após uma vida de excessos,
Malcriações e vilanias,
Serei um senhor de idade
E todos acharão genial
Todo o mal que fiz.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A HORA MÁGICA






A orla desenrola sua linha bonita, nunca aflita. Sua vazante desce pelo canto do meu olho como lágrima de uma estranha alegria, melancolia recebida com festa. Pelos cantos, pelas arestas do que se vê, estamos condensados, firmados na efeméride daquele momento. Na fotografia, a luz é moldada no pós-clique: reverte-se, subverte-se o real com as tintas menos precárias do nosso imaginário. Assim a linha marginal do mar imenso estende-se para além do que se vê, deitando seu espectro entre o que se sente e o que se quer sentir, ou por um triz ficou para trás do real, porém adiante do possível, por assim dizer tangível no espaço definido pelo tato da alma, não do corpo. A pátina arenosa deste universo particular nunca é abrupta, corrupta ou revoluta. A fímbria tranquila recolhe em seu berço as marés revoltas, as voltas que damos no vai-e-vem das estações, as monções de infortúnio e boa sorte, tão comuns ao viver, e o concreto armado dos prédios novos sobre os casebres que resistem à maresia e aos ataques do dia a dia. Hoje tirei gravata e sapatos, e chafurdei na luz e na areia da praia dos meus sonhos, na praia da minha vida real, no bairro onde moro, onde moram vontades de ontem, onde vivem os fantasmas de hoje, onde jazem os perigos de amanhã. Hoje tirei gravata e sapato, e deixei o sol poente pegar-me de calças curtas. E no meio do calmo turbilhão do mar imenso, penso que fiz de minha vida (essa fração infinitamente mínima e tão precariamente bela) uma ode ao momento presente, uma canção de amor ao átimo íntimo perdido na infinita procura do que não será, não foi, não pode ser, não existia. Eis que eternizo, ao menos para mim, o sal empregnado nessa hora tão fugaz do dia. Mar, oceano, lágrima, tudo cabe no mesmo momento, na mesma palavra: poesia. 

sábado, 17 de agosto de 2013

CAPOEIRAS






Sabia do pó, da garganta seca, do turbilhão.
Conhecia o samba que as mãos fazem no vácuo do momento certo.

Imaginava paranauês: pernadas, ombradas, sopapos, nas capoeiras armadas pelo coração.
Temia as campinas, mas em frente seguiu; seguia. Poesia era semente plantada em peito aberto.

Sabia do pó. Da garganta seca brotava o brado.
Tudo em pé-de-guerra, tudo tranquilo para o que tem que estar desperto, esperto.

Conhecia o aboio tranquilo para guiar seus sonhos: verso-grunhido, jeito triste de tocar feliz o seu gado.
Capoeira se faz com corpos que descansam na revolta.

Vento vil, vento veloz, vento que acaricia o longe e maltrata o perto.
Paz de pássaro que descansa em pleno voo, na esteira esgarçada desse tempo que não volta.

A caravana passa, sem que os menestréis tenham tempo de cantar o Bem, as Boas Novas.
Sem pão nem piedade, todo homem sabe ser cão e gato, feto e fato, vilão e mártir. 

Partir. Partir. Tudo se resume a um lento, pesaroso, porém delicioso, partir.
Por isso sigo, despedido de tudo à minha volta. Eis a prova: o mel deixado como rastro percebido no amargor dessa trova.

domingo, 21 de julho de 2013

UNS E OUTROS





Muitos pedem mais sapatos.
Outros vão abrindo caminho.
Uns desejam mais plumas.
Outros só querem ser ninho.
Muitos querem mais fotos.
Outros, curtir o momento.
Uns pedem mais ação.
Outros pedem sentimento.
Muitos constroem galeões.
Uns navegam seu barquinho.
Outros arrebatam corações.
Uns preferem ter carinho.
Há os que passam como aviões.
Eu vou ficando. Eu, passarinho.

[- Para Mário Quintana.]

RETRATOS





Falsa intimidade.
A inutilidade das fotos.
A torpeza das suas legendas.
O soneto pior que a emenda.
O teatro por trás dos fatos.
Os sorrisos rotos.
As jóias raras nos esgotos.
Um poeta, um ídolo, um deus.
Um santo cultuado por ateus.
Os mecenas de coisas pequenas.
Os intelectuais iletrados.
Um porto, um cais.
Personagens sem personas.
Tudo divide, fingindo que soma.
Tudo é menos, fingindo ser mais.
Uma flor, nenúfar.
Um tótem feito de açúcar.
Abelhas e mariposas na mesma colmeia.
Moscas varejando a mesmíssima ideia.
E eu, fico em casa.
Protagonizo meu próprio drama.
Em silêncio. Em particular.
E deixo muito a desejar,
Aos que gostariam de ser plateia.

[Poemas sem começo e nem fim. 
Vidas que prosseguem, simples assim.]

terça-feira, 16 de julho de 2013

NOTAS PARTICULARES





[Notas particulares de quem sou agora 
para aquele que serei no minuto seguinte...]

Alegria, porém contida.

Confiança, mas prudente.

Amizade, mas à uma distância segura.

Paciência, sobretudo consigo mesmo.

Gentileza, mesmo com os que não merecem.

Se perder a paciência, não se esqueça de manter a educação.

Entre os ignorantes, seja elegante.

Imite os bons hábitos, mas não perca sua personalidade.

Diga sempre a verdade... para aqueles que se importam com ela.

Admire a beleza das flores, aceitando também a utilidade de um machado.

Aprecie um belo sorriso, mas não se deixe seduzir por todos eles.

Que tua voz seja firme, porém mansa.

Seja bom, mas não pusilânime.

Seja bravo, mas nunca impiedoso.

Viva como se fosse o último dia, mas esteja ciente das consequências do amanhã.

Que tuas mãos sejam fortes, mas carinhosas.

Seja amigo dos deuses, mas não os deixe decidir todos os seus caminhos.

Entre os lobos, seja homem. Entre os homens, seja o lobo. 

Prefira ser vaga-lume a ser estrela cadente.

E por fim, após ler tudo isso, não se preocupe em decorar regras ou conselhos. Geralmente os que vivem seguindo fórmulas prontas passam a vida de joelhos.

Cometa erros, e seja feliz. 

Escaparás de ser eterno, mas só por um triz.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

OS MORTOS RECONSTRUÍDOS




Alguns mortos simplesmente ficam conosco. A terra fria que os cobriu não é suficiente para enterrá-los, e as pequenas criaturas que se nutrirão do seu corpo não os farão deixar de existir. Depois de meses, eles permanecem, desconstruídos e reconstruídos. Sua memória se confunde com a nossa memória, e ele renasce por nossa vontade, e vê com nossos olhos, e sente com a nossa pele.

Esses mortos, reconstruídos, são o que muita gente chamava de fantasma. Os da roça tinham mania de dizer: "Toda assombração sabe muito bem pra quem aparece!" Sábios, esses matutos. Foram os primeiros a descobrir que os mortos voltam, mas não como eram antes. Voltam piores ou melhores, mas nunca os mesmos, porque foram reconstruídos por quem não os deixará ir embora jamais. Seus pecados podem ser redimidos, ou jamais perdoados. Suas marcas de nascença, ou são apagadas ou criam a aparência de um borrão. E ficam enormes suas mãos e seu rosto. E vagam por caminhos que, quam em vida, talvez eles nunca tiveram passado, mas que por nossa vontade, hoje passam, e caminham com desenvoltura. Os reconstruídos deixam de pertencer a si mesmos, e perdem a liberdade de viver a sua própria morte, posto que haverá semore alguém que o reconstrói a cada amanhecer, e não o deixa morrer em paz.

Pobres desses dois, os reconstruídos e seus construtores. Ambos são assombrados. Um pela presença imaginária daquele que já nada é. Outro pela insistência patológica e melancólica daquele que não sabe perder, nem prosseguir, e por isso reconstrói muletas das quais não precisa usar, como a bengala que os dândis de antigamente usavam, não por necessidade, mas porque era bonito, era de uso comum um cavalheiro sair com seu chapéu e sua bengala. Mas, efeito colateral, esses que usavam a bengala como apetrecho de moda, acabavam mancando por tanto usá-la daquele lado, colocando o peso ali, o que os entortava aos poucos, tornando o que era fútil, de repente, necessário, essencial.

Assim reconstruímos os que já não nos pertencem, por que os queremos nossos por mais tempo. E por acostumarmo-nos com o seu uso, perdemos o senso da sua realidade. A memória do que foi vai aos poucos sendo substituída pela memória do que poderia ter sido. E depois disso, nem o vivo nem o morto serão os mesmos. Ambos mancos, andarão apoiados um no outro, claudicantes, para sempre (e por vontade própria) aleijados.

Tenho meus fantasmas. Porém evito reconstrui-lhes a história como se sua cronologia fosse acompanhar a minha. Em algum momento da vida a história deles cessou, a minha continua. Cessará também um dia, e como um barbante esticado é subitamente cortado por uma tesoura, assim o tempo nos separa, e interrompe nosso caminhar. 

Meus mortos pertencem a si mesmos. Digo que são meus apenas por vício de linguagem, por escolha semântica, propósito cruel para criar um paradoxo no texto que flui, umas vezes iluminando, outras confundindo. Mas, em suma, esses que se foram já não pertencem a nada nem a ninguém, mas existem de uma forma especial. Sei quem são, que tinham virtudes e vícios. Sinto mágoa de alguns, mas saudades de outros. Porém, quando sinto que podem aparecer na minha frente, para o castigo ou o carinho, trato de mandá-los embora. Recuso-me a reconstruí-los, pois urge-me viver, e tentar recriar o que está morto é procurar morrer junto, os poucos. E talvez este seja um segredo importante: saber chamar os mortos de mortos. Dar-lhes um nome para sua nova e eterna condição é tocar a fria realidade, para depois poder acalentar-se nas boas lembranças, que é o que eles deixam: lembranças, exemplos, ensinamentos, sentimentos. Mas nunca pedem para nascer de novo, tampouco reconstruir-se de cacos de vida que sobraram espalhados aqui e acolá, como se fossem mendigos a nos suplicar migalhas.

Aos meus queridos fantasmas dedico esta crônica, este ensaio. E aos vivos, peço que lembrem-se de permanecerem vivos, construindo vida, porque disso nem mesmo os mortos esquecem:

- Toda assombração sabe muito bem pra quem aparece!

domingo, 14 de julho de 2013

ANGÚSTIA COM FUNDO AZUL BRILHANTE



Sento-me num banco solitário,
Na varanda de pedras do cais.
Nada mais importa, nem mesmo os deuses
Ralhando comigo, prometendo chuvas,
Ventos vorazes, trovões de tenebroso estrondo.

Sobre a minha cabeça a ameaça
De uma colméia de marimbondos.
Pombos são poucos, 
Há muitos gatos e gaviões.
No jardim as folhas concorrem
Em matizes e formas diversas.

Sobre minha cabeça a ameaça
De um dia lindo ao meu redor.
O vento farfalha nas palmeiras, 
Coqueiros, salgueiros e bananeiras.
O azul intenso é a moldura mais perfeita
E por isso mais inquietante.
Sou um fracassado diletante,
Um pobre diabo tão insistente
Que finge sentir doer em si
Uma certa parte 
Já amputada,
Ausente.

Numa goiabeira um casal de micos
Me olha com curiosidade.
Um gambá passou apressado
Pelos fios da rede elétrica.
Um peixe enorme, exibido, 
Saltou bem alto, à toa,
Num malabarismo prateado
para fora da lagoa.

As águas estão transparentes nas bordas 
E os caranguejinhos vermelhos 
Trabalham muito atentos no mangue.
Sua azáfama veloz tinge a lama
Com pontinhos cor de sangue.
Uma garça rosada olha de longe
Fazendo cara de sono,
Equilibrada numa perna só.

Um pescador tira o chapéu ao ver-me ao longe,
E eu aceno de volta, sem convicção.
Já o martim-pescador e o pato colhereiro
Passam sem notar minha presença.
O gato, pueril, brinca com tudo o que lhe interessa.
Formigas pretas são seus soldadinhos de chumbo.

Sobre minha cabeça a ameaça
Dos poemas que ainda vou escrever.
Sentado sob o azul imenso
Observo minha magnífica insignificância
E engano minh'alma feliz, achando graça
Deste jeito de existir sempre à margem
De um sonho impreciso, uma nova infância
Resumida num compasso de mil momentos
Onde condenei-me a viver num paraíso
Tão pleno de prazeres quanto de tormentos.

Tudo o que posso fazer é sentar e escrever
Como faço agora, dedilhando mágoas
Na posição confortável dos falidos
Remediados por qualquer esperança vã.
Espero calado, e a vida passa devagar
Enquanto me consolo sozinho
Com uma caneca de chá
Batizada com mel e uísque.

Estou sem inspiração.
Sem dores reais ou inventadas.
Ignoro qualquer possibilidade de rima
Enquanto for possível assim cantar
E cantar, cantar, cantar, até que o canto
Transforme em pranto o que de tanto sorrir
Pode apenas (resta-lhe ao menos) 
Gozar seu íntimo sofrer.

Sem nada que valha à pena escrever
Atrevo-me a existir, apenas.
Sem nada que valha à pena sofrer
Calo, e meus poemas me devoram.
Eu, coração de papel carcomido
Pela vida veloz e suas tristes traças.
Sobre a minha cabeça a ameaça
Das horas que virão.
Ser poeta é o meu pesar
E minha consolação.