Ask Google Guru:

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O CAVALEIRO DA ARMADURA NEGRA




A armadura negra do homem nu
brilha sob o sol pesado de janeiro.
A carapaça luzidia do bicho pelado
protege do carinho, não do chicote.
Sob o açoite de cada hora que passa
ele precisa cumprir deveres, suportar olhares
e cumprimentar com a cara boa dos fodidos.
A boca beiçuda ri, os olhos vermelhos choram,
mas a cabeça não baixa, e as mãos não imploram.

Homem preto de alma cor de chumbo,
na lama do mundo procuras teus tesouros.
Arrancando suas últimas penas, o bicho alado
sorri olhando para o alto, para os deuses,
para as luzes azuis dos olhos do mestre
que promete vida, e vida em abundância
quando ele, o guerreiro negro sem sorte
só queria descansar a mão (que já não traz a espada)
e o corpo feio e forte, nos braços dourados
de uma boa morte.

O HOMEM GENTIL






O homem genial e gentil existe, mas não o vemos. Não somos nós, não é ninguém que eu conheça, mas sei (tenho essa vã esperança) que ele existe, resiste, n'algum lugar distante. Este homem pouco sabe de si, pouco vive e morre muito, aos poucos, todo santo dia.

Nem mesmo ele se vê, porque em todos os espelhos ele usa uniforme, e se acostuma a dizer "sim senhor" às pessoas e principalmente aos relógios. Em casa diz que sim, e pede perdão, no trabalho diz que está pronto, sempre alerta, no sonho finge que está acordado, está desperto, o peito aberto sempre para o bem e o mal do mundo, as mãos mais velhas que seus olhos, os olhos mais cansados que o corpo, o corpo mais torto que a alma, a alma escondida como um gato preto em noite sem lua.

O homem bom é criminoso, não vítima. Ele existe quando não deveria, ama quando não poderia, responde quando precisaria silenciar, respira mesmo sabendo que seus pulmões já não suportam o perfume cotidiano desse ar. Este homem, que não vai à missa aos domingos, acorda com dor, mas sorrindo. Seus carinhos, guardados na ponta dos dedos, são inúteis, porque dele se espera que seja forte, que seja fiel ao mundo, que seja o primeiro da fila, e gire a roleta russa com a certeza de que qualquer resultado o fará feliz.

O homem genial, gigante, é para o mundo um anão que diz sempre sim, que não ouve as flautas, os bandolins, as harpas, o bocejo do mar, o arpejo das aves que voam para longe, a algazarra dos gatos nos telhados, o homem bom não pode se matar de amor, de tiro ou vício. Cabe a ele viver sua doce maldição, e esperar qualquer bala perdida ou qualquer paixão errada, encontrada numa esquina qualquer, sua mulher, sua princesa, certa como a luz de mil vaga-lumes à margem da alvorada.

Este homem que poderia ser genial e gentil, este homem que poderia ser bom, precisa na verdade ser forte e pequeno, caber nos anseios do outro, dos outros, de muitos que vigiam solenemente com um sorriso no rosto. Ele precisa cumprir suas obrigações frente ao mundo com a maestria comedida de quem já não espera nada além do momento do estouro, o trovão, o fogo que lhe queimará as carnes curtidas pelo sal da vida, pelo sol dourado e dolorido, ah este homem (que já não existe) vez em quando aparece, sorri - sem ênfase - e obedece como quem diz uma prece, ama como quem padece, dorme sujo e sozinho, e esquece que tem que acordar limpo, descansar de pé, engolir o café amargo da vida e o pão pisado pelo tempo. 

Este homem precisa ser genial e gentil sempre, sem mostrá-lo nunca, nunca, jamais. Eis o segredo de toda a sua tristeza, e também da sua paz.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

SOB A PELE DO METAL




No meio da tarde retirei meu sabre da bainha
e a rainha de todas as lâminas - minha alma - 
tremeu ao ver brilhar a luz do metal frio
ávido por abrir sulcos em carne alheia
e ver das veias partidas nascerem rios.

No meio da tarde retirei da bainha o meu sabre
e uma febre imensa arrebatou meu momento de calma
tendo nas palmas trêmulas o corpo sagaz e sereno
de uma criatura que vigia com olhos de faca cega:
em sua sabedoria, o dragão ignora o bem, e tampouco sabe 
o que é o mal.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A VÊNUS TATUADA





Na primeira vez em que o eclipse da tua presença
assombrou a passagem do meu corpo sobre a terra
e os signos brutais que trazias como cicatrizes tatuadas 
por um prazer feito apenas de culpa e mágoa

me fizeram novamente menino em labirintos de pele alheia
com as veias secando o magma tranquilo que num repente
agalopadamente denso atreveu-se a reverter meu tempo
em escamas de uma insidiosa, porém doce memória,

achei que teus olhos eram uma clara fúria verde
que se dissipava nas marés de uma voz rouca de mulher
mas quando já seguia longe o manto dourado dos teus pêlos
e o perfume nauseante da tua existência se acalmou em minhas narinas

percebi que eram negros os teus olhos, eternamente negros
como uma noite sem lua, como um segredo desvendado antes da hora,
como a luz negra que na hora da morte a alma persegue em transe
sem saber se voa ou se cai, se chega ou se vai, se ri ou se chora,

como uma rua dentro de uma caverna, como o signo da sorte
que entre as pernas da sereia os homens, tolos, procuram
e procurarão para todo o sempre, como eu que em ti
procuro um fim para uma dor que sinto mas não reconheço,

como eu que pago as parcelas da tua companhia
com as migalhas platinadas do meu próprio espírito
algo que nem o divino fiador de minha alma 
saberá dizer o preço.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

ASSIM É SE LHE PARECE





Nada é.
Mas tudo continua sendo
um eterno vir-a-ser.

Até mesmo eu
poderia ser, amanhã,
você.

Porém, aquilo que já foi
contém a semente do que, não existindo,
espera em qualquer esquina, 

para te olhar nos olhos,
e com um riso sarcástico
dizer apenas "oi"!

O pássaro bonito
que você não vê no céu agora
jamais existiu, ou passou voando n'outra hora?

A mulher perfeita, a que mais te amou
não existe, ainda está por vir, ou
foi aquela que tu deixastes ir embora?

Saber 
não é ter certeza.

Perfeição
nem sempre é beleza.

Toda chama queima
mas nem toda aquece.

Todo vício é ruim.
Mas nem sempre a gente
por causa do vício adoece.

Tem remédio que trata.
Mas pra quem não está doente,
qualquer remédio mata.

Todo poema é só um poema.
Ou assim é se lhe parece.

[Na pressa, 
qualquer 'deus me livre'
vale como boa prece.]

domingo, 4 de janeiro de 2015

POMPÉIA





Há flores novas crescendo no solo negro e quebradiço.
Algumas casas resistiram, os lares, mesmo os menores, 
são maiores que qualquer mero edifício.

Quando o Vesúvio acordou de um sono intranquilo
o sol envergonhado cobriu sua face dourada
e a lua chorou lágrimas de sal sobre o mar.

Marés de condenados assomaram sobre as campinas
que amarelavam em labaredas de um inútil desespero
enquanto os deuses se fartavam de gargalhar.

Em alguns cantos da cidade desolada, 
mãos frágeis, humanas, se procuravam
na escuridão fria que precedeu o inferno.

Quando as cinzas faiscantes cimentaram a paz de Pompéia
o mundo calou, desfeito em chamas que lamberam do cais às montanhas
varrendo poemas, evangelhos, jornais, homens, crianças, e tudo mais.

N'alguns cantos da metrópole que ruía,
restaram estátuas eternamente abraçadas, lindas, 
que venceram as brasas do grande Vesúvio.

A tola montanha, hoje apagada, é apenas a sombra
de algo maior, mais belo, mais forte, 
porque o vulcão, dono da morte,

não conseguiu apagar a chama voraz 
que violentamente ainda queima no peito 
daquelas estátuas de cinza e esperança.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

INVICTUS (tradução)

INVICTUS

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

- William Ernest Henley [“Invictus” is a lyric poem in four quatrains (four-line stanzas). Henley wrote it in 1875 but did not publish it until 1892 in a collection entitled 'Echoes'.


INVICTUS

Por sobre a noite que a tudo encobre
Negra como um covil de torpes criaturas
Agradeço aos deuses por salvar est'alma pobre
Guardando nela a chama que perdura.

Fui tragado pelo remoinho das circunstâncias
Mas não deixei que ouvissem meu choro.
Honrei meus ancestrais, mesmo à distância
Guardei a cabeça erguida como um busto de ouro.

O tempo cruel sempre cura machucando
Onde toda existência se resume a sombras.
Resisti ao tempo, à torrente dos anos passando
Com o olhar impávido e forte que a tudo alumbra.

Não importa quão estreitos sejam os portões
Tampouco quantas vezes desça o chicote ao badalar o sino:
Eu, e somente eu, sou de minha alma o capitão
E único mestre do meu destino.

- Marcelo Sousa, poeta e tradutor. Versão livre, de 18 de dezembro de 2013, Rio de Janeiro, Brasil.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

COMO PODE O PEIXE VIVO...





As nuvens passam e bocejam.
Águas claras, excepcionalmente claras
deixam transparecer o peixe grande na lagoa
e sua boa aparição nadante, divagante e rara
reflete na prata polida de suas escamas a luz do sol
que poreja estrelas de céu e mar, e se rí, 
e nada para longe.

Nada, nada, para longe, longe. 
O nada no meio da tarde é tudo o que tenho, 
isso que me abarca num barquinho que me leva 
ao outro lado, aquele bocado de terra e guerra
onde serei homem sério, ainda que menino perante 
os perenes mistérios de ser homem-menino-poeta, 
e ter que esconder este meu ser completo.

Porque lá, do outro lado, eu sou outro, 
eu sou pouco, eu sou apenas metade deste 
que sem vaidade se mostra aqui imenso e pequenino, 
este homem que se sabendo menino contempla o céu, a lagoa, 
os peixinhos, os barquinhos, e sente que sua alma, 
ainda que muito remendada, é uma obra completa: 
a alma toda furadinha pelas traças 
dos desejos e dos sonhos, 
esta minha alminha vã 
de poeta.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

QUANTUM






Por um buraco de minhoca
a boca deste que morre 
suga o ar do outro lado
onde o finado está-estava-estará 
vivo. 

No oco de um tempo-espaço 
que se dobra sobre si
e forma a mais perfeita 
e perplexa equação:
o homem é o seu contexto 
e a sua vontade, sua salvação.

O homem
que nasce-cresce-reproduz-e-morre
já não precisa existir para saber 
que viveu, amou, lutou, sorriu, chorou, 
ganhou e perdeu.

O homem que não existe
está ali, descrito, escrito,
conscrito, inscrito, infinito
no poema que ele mesmo
(não) escreveu.

domingo, 14 de dezembro de 2014

NENÚFAR II






1.

Faço mira. 
O arco, por demais retesado, 
arrebentará sem alarde, 
em tempo breve.  

Flecha de imburana, 
a seta de pedra-de-fogo,  
a mão soberana, erradia, 
desafiando a paz dos lobos.

Vontade é manobra difícil, 
exigência sempre inoportuna:  
vontade de seguir, prosseguir, 
porque todo vento é contra,  
ainda que empurre para a frente.  

Tudo é tensão. 
Não faz sentido fazer poema.  
Não faz sentido fazer amor. 

Sob a pele jaz a espuma do ser. 
Entre os pelos, as ramas do querer. 

Debuto desesperanças festivas. 
Abismos me atraem. 

Procuro sempre uma pulga 
atrás da orelha de louça de um santo qualquer, 
talvez um pequeno deus com olhinhos de serpente 
e corpo de mulher. 

Oremos. 
Tenhamos força e fé
e em qualquer desespero
aguardaremos.


2.

Aprendi palavras novas. 
Não as usarei jamais. 

Trago nas mãos esses versos soltos,  
versos ruins, porque o bom verbo 
quero-o bem guardado, bem longe 
de holofotes, distante das ribaltas. 

Falta pão,  
tomemos champagne. 

Esquivo-me das boas causas. 
Desvio o olhar dos favores mais doces. 
Estou envergonhado demais para acreditar 
no mel venenoso de cada manhã. 

Calo. 
Resvalo em ninharias. 

Problema, teorema, teoria, tudo é esperança. 
Todo problema tem cálculo, exercício,  
trabalho e resposta. 

O que não é problema  
não tem solução. 

Do lodo brotará a flor de lótus. 
Nascerá branquíssimo o lírio d'água 
na foz das mágoas rasas desta vida. 

Aqui, no pântano  
há pouca esperança.  
Mas, cedo ou tarde,  
haverá redenção.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

ECO





Olhei fixamente 
dentro do vidro negro dos teus olhos, meu senhor, 
e fiz a última pergunta que ainda restava. 

O teu silêncio de rocha e cristal
partiu-se na miríade de poemas 
que jamais irei escrever.

Toda música se perdeu no vácuo, 
mas guardo na concha dos meus ouvidos cansados
algum resto de palavra, um trinado, um eco, um segredo, 
um medo que conforta, uma paz que entorta a espinha,
uma força que verga as vontades.

Trago essa verdade
como quem leva consigo uma antiga melodia, 
talvez um canto de ninar, talvez o som de um pássaro 
que nunca mais passou, talvez o rolar do primeiro trovão 
trazendo susto e magia. 

Não sei, 
mas entendo.
Pertenço a tudo 
o que me foge. 

Olhei fixamente 
para os lagos congelados dos teus olhos
e de dentro da escuridão 
uma luz gritou por socorro. 

Tardei em reconhecer o reflexo das minhas pupilas, 
a luz ambarina, pesada, deitada sobre o vidro negro
que é o teu olhar, este fosso de alegria e dor,
meu bom algoz, meu senhor.

Tremi ao reconhecer a chama
que no leito de veludo negro resiste sem ênfase
temendo (mas insistindo) em brilhar em vão. 

Diante deste espelho, 
fiz a ti a última pergunta que me cabia, 
e antes que pudesses me enganar com tua poesia, 
eu mesmo respondi a nós dois: não!

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

OS IPÊS AMARELOS






Joaquim, meu filho, 
os ipês estão floridos
nas montanhas em nossa volta.

Mas tu não vês, 
não sabes como são lindos
os nossos ipês.

Joaquim, meu filho,
demorastes a nascer, meu querido,
e por isso não podes ver o espetáculo desse dia.

Todos os ipês amarelos floresceram
pintando de dourado as montanhas que dormem
embaladas por este mar imenso.

O mundo é um lugar terrível
mas, vez em quando a gente olha para o alto
e os ipês de dezembro trazem alguma esperança.

Joaquim, tu olharias maravilhado 
a silenciosa explosão amarela
e dirias que Deus existe, senhor 
de todas as aquarelas.

Mas, filho, tu que não nascestes,
nada sabes, não miras, não olhas, 
não brincas, não choras, não vês
como são lindos os nossos ipês.

Nem eles te olham de volta,
não sabem da cor dos teus olhinhos
nem ouvem a tua voz, nem reconhecem
a tua gargalhada gostosa.

Joaquim, meu filho, o mundo é terrível
mas nele há dezembros que começam assim
com ipês amarelos brotando no seio da rocha
desafiando as escarpas montanhosas.

Mas tu deles não sabes, nem eles sabem de ti.
Tu, que no vácuo habitas, nada ouves, nada vês,
e por isso, diante desta montanha florida, penso
em como são lindos, mas como são tristes
esses nossos ipês.

domingo, 7 de dezembro de 2014

CAMADAS



Um poema é só um poema.
Mas não apenas.

PAISAGEM






Tic tac tic tac tic tac, posso ouvir
as horas que pingam gotas de sol 
molhando a paisagem com este fluido
que as pessoas deram o nome de domingo
e eu aqui dentro, seguro, de galochas
e guarda-chuvas, fazendo versos
esperando a tempestade
e a banda passar.

CABRESTO




O cabresto das conversas miúdas
na voz doce de quem ama com o coração de pedra polida
e descansa com um olho aberto e outro muito bem fechado,
este aliás, enxergando dentro, sondando interiores, entranhas,
como a nave que mergulha silente nos nossos sonhos
e de lá rouba pérolas que estavam guardadas
para dias melhores, amores melhores,
que são melhores justamente
porque jamais existirão.


O cabresto curto, fio de ouro que se estica e se contrai
num movimento que imita inspirar e expirar, esperto
e sinuoso como a serpente que sorri ao dar o bote
e depois beija, sôfrega, derramando a bile que
não mata de imediato: é fato que ninguém morre
de amor, assim rápido, no ato, como os romances
insistem em ensinar, ledo engano, no retrato,
veja só como ele sorri, o amante, (que cara boa)
mas de perto se notam as manchas, as marcas,
percebe-se que quem está sorrindo,
é o papel apenas, não a pessoa.

O cabresto das conversas miúdas
na voz doce de quem persegue, perscruta, percebe
que atenção é vigiar sem estar alerta, como quem dorme
sabendo que na terra dos sonhos, naquela terra dos desejos,
no mundo de faz-de-conta onde jaz todo spleen dos poetas,
nessa terra onde moram as coisas que ainda não fizemos
é onde se deve fustigar toda raiz de qualquer vontade
que não seja a de amar e marchar, marchar e amar,
sempre em frente, fiel e forte, jogando dados
viciados a mesma sorte.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ENTRETANTO



Eu queria,
mas percebi que querer
é pouco.

Então comecei a desejar
mas entendi que desejar 
é demais.


ID







A cena é recorrente -
um arpão e seu ensejo:
a ponta afiada de um olhar
percebido no arpejo frio das retinas
tocaiando um alvo que se afasta
mas não se move. 

O metal da íris
resolve as distâncias 
abarbando espaço e tempo
num piscar de olhos.

A hora certa espera 
sob o manto da vontade
logo ali onde as verdades 
descansam resumidas 
a pequeninas resmas 
de luz e escuridão.

A cena é recorrente -
jamais estamos sozinhos:
ao mirar, mesmo de soslaio, 
um ponto escuro qualquer
a treva silente (pulsante)
sempre olha de volta.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A PELE




A pele da mulher 
que não escrevi.

A pele do poema 
que não toquei.

A pele da canção 
que não amei.

A pele do tempo que 
perdendo, amando-em-vão, 
ganhei.

A minha pele, que é tua, 
minha, nossa, de ninguém, 
já não sei.





domingo, 16 de novembro de 2014

ALVORADA





[prólogo]


Reinvento memórias recortadas de outros livros 
que escrevi sob o gozo e a tortura 
das horas mais simples.

É tudo verdade,
mas nem tudo aconteceu.

1.

É domingo novamente,
mas não de novo.

N'algum lugar descansam
meu pai e meu filho.

Apenas eu, que ainda sou finito,
e cansado, resisto.

Os sinos amplificam esta verdade:
é domingo novamente, mas não de novo.


2.

As notícias matutinas
decretaram o fim da rima rica.

Fica o sentimento de que acabou o pão,
mas o café não.

Entenda, a dissonância é intencional,
mas também inevitável.

Convém resguardar um minuto
e um torrão de açúcar.


3.


Não escrevi o poema 
que no seio da madrugada crepita
debaixo de lençóis salpicados de estrelas de suor.

Não senhor, não escrevi sobre o negro gigante
que tempo roeu, acinzentou, perolou de brancas nuvens
depositando a mármore das horinhas banais desta vida 

nos cantos escuros 
onde não se percebe, com sorte, 
a morte.


Não escrevi o verso triste 
nem a epopéia deste homem
cujo sedimento paciente foi arrastado pela chuva

e que na torrente de desfez sem culpa nem mágoa
vertendo a si mesmo nas águas misteriosas
dos dias mais banais.

Não, o poema não chegou em tempo
de colher o rosto flácido entre as mãos
de um herói descrente, mas obstinado.


4.


O meu poema crepita sem força
no seio de uma noite calada.
Uma noite alada.

Os tremores herdados, 
plantados em meus gametas
desfolham-se num gozo perverso

desperdiçado no gesto da pena breve
que risca em rubras tintas a sua prosa
mas nunca, nunca, nunca mais um verso.

No pêndulo afiado 
que trago sobre minha cabeça
brilha a gênese da minha extinção:

todo abismo merece um sorriso, precioso,
lançado à flor do vento com desdém 
e paixão.


5.


Não escrevi o poema,
que desvendará o teu nome 
para a posteridade,
meu pai.

Estamos agora 
tão perto dele - o poema -
que já nem precisamos contá-lo
aos que por nós passaram.

A alvorada se aproxima
sorrindo por cima das encostas fustigadas 
pelos maravilhosamente (milagrosamente) comuns
incêndios e maremoros da nossa vida.

As rimas do poema que jamais será escrito
serão mastigadas pelos seres minúsculos
que minuciosamente te devoram
e me esperam.


6.


Não escreverei este poema.
Que minhas palavras se guardem em si mesmas
e tenham a paciência das flores nascidas no inverno.

Em algum lugar um herói nascerá.
N'algum momento - passado ou futuro,
não importa - um homem enorme virá

e me fará dormir o primeiro e eterno sono
tranquilo, que me faz tanto sentido agora
nessa noite longa e turbulenta.


7.


Não escrevi o poema.
Não o escreverei, ainda.

Na noite que já termina, 
as rimas crepitam como a luz dourada do sol

fervendo o sal do mar de versos que a gente não diz
na hora primeira - ou derradeira - 

em que enfim nos encontramos
com nosso reflexo, perplexo.


8.


Um herói, 
um gigante de cera
derrete-se com calma
sob a luz de uma alvorada veloz.

Percebo o brilho dos seus olhos
no pêndulo afiado desta hora
que sobre minha cabeça
balança.

O tempo se contorce,
serpente emplumada que a si mesma consome

engolindo voraz a própria cauda.

O passado olha para frente
mirando miragens no espelho.

Aquele homem, negro, 
enorme, dorme, e

agora é a sombra compacta e densa
que numa gaveta descansa.

Versar já não vale à pena.
Deixemos descansar (em paz?)

os heróis ignorados
pelos nossos melhores (ou piores) poemas.


[epílogo]

Faço inventários
de tudo o que está ausente.

Trago em mim oceanos 
cujas marés foram calcinadas
pelo átimo apenas pressentido.

A história é breve,
o tempo não.


[post-scriptum]

Aprendi novos acenos
com as asas das gaivotas.

(Todo abismo
merece um sorriso.

sábado, 8 de novembro de 2014

NENÚFAR




Todos os espelhos estão opacos. 
Por isso vejo mais claro.

Há peles morenas esperando o carnaval
por baixo da moldura de luz e metal.

(Gente é pra brilhar?)

Não é obrigatório sorrir na foto.
Mas, e de fato?

Cumpro ritos.
Palavra, às vezes, é só confete.

Esgoto
as possibilidades do poema
na vala comum destes versos
sem direção.

Do lodo nascerá a flor de lótus.
O nenúfar, a vitória régia,
essas também.

A esperança, 
não.

Ratos de pelúcia, baratas ambarinas,
besouros de madrepérola, percevejos de marfim,
carne-e-osso pra mim.

Caço contornos, horizontes.
Retorno de mãos vazias.

Nenhuma palavra merece meus lábios.
Ainda assim, canto.

Espero.
Faço mira.

O arco, por demais retesado,
arrebentará sem alarde, em tempo breve. 
Flecha de imburana, a seta de pedra-de-fogo, 
a mão soberana, erradia, desafiando a paz dos lobos.

Vontade é manobra difícil, exigência sempre inoportuna: 
vontade de seguir, prosseguir, porque todo vento é contra, 
ainda que empurre para a frente. 

Tudo é tensão.

Não faz sentido fazer poema. 
Não faz sentido fazer amor.

Sob a pele jaz a espuma do ser.
Entre os pelos, as ramas do querer.

Debuto desesperanças festivas.
Abismos me atraem.

Procuro sempre uma pulga
atrás da orelha de louça de um santo qualquer,
talvez um pequeno deus com olhinhos de serpente
e corpo de mulher.

Oremos.

Aprendi palavras novas.
Não as usarei jamais.

Trago nas mãos esses versos soltos, 
versos ruins, porque o bom verbo quero-o bem guardado, 
longe de holofotes, distante de ribaltas.

Falta pão, 
tomemos champagne.

Esquivo-me das boas causas.
Desvio o olhar dos favores mais doces.
Estou envergonhado demais para acreditar
no mel venenoso de cada manhã.

Gosto de gente.
Mas nem tanto 
de pessoas.

Calo.
Resvalo em ninharias.

Problema, teorema, teoria, tudo é esperança.

Todo problema tem cálculo, exercício, 
trabalho e resposta.

O que não é problema 
não tem solução.

Do lodo brotará
a flor de lótus.

Nascerá branquíssimo o lírio d'água
na foz das mágoas rasas desta vida.

Aqui, no pântano 
há pouca esperança. 
Mas, cedo ou tarde, 
haverá redenção.