Certamente a cidade de Beirute era uma das minhas preferidas nos meses de abril e maio. O perfume do mar penteando as palmeiras é algo a ser lembrado para sempre, assim como a voz miúda e rouca das mulheres que conversam e sorriem umas para as outras do lado de fora do Zonta Club nas noites de sexta-feira, algumas fumando Marlboro e tomando Veuve Clicquot escondido em copos de vidro opaco, quase sempre colorido. Não posso dizer que algum dia estive lá, nem que não estive. Não digo que foram bons todos aqueles dias, nem que foram ruins, nem que houve carinhos, ou que deixei um único tiro pousar como um besouro de metal negro entre as sobrancelhas mais-que-negras d´um pobre coitado não-tão-pobre e nem-tão-coitado assim. Mas posso te dar a certeza de que ali pela Rua do Mercado 67 há um café chamado Flor-de-Lis, onde há apenas uma garçonete com cara de debutante (que escondia com um band-aid um cavalo-marinho tatuado no pescoço do lado esquerdo perto da orelha, e tinha os seios mais perfeitos que já imaginei sob uma profusão de camisas e aventais) que falava francês sem sotaque e desdenhava de quem lhe dirigisse a palavra em qualquer outro idioma - o seu próprio, inclusive - e o dono já muito velho operando o caixa - mas sem jamais errar no troco em favor do cliente - e que debaixo da mesinha (que um dia foi amarelo-mostarda) do canto esquerdo há uma chave de cobre com laço de fita azul e uma folha de bloco pautado, presa com fita forte (que é como chamam por lá o equivalente da nossa fita durex) com um poema, em língua estranha, dizem que em português. É preciso entrar, pedir um café ou uma coca-cola, que é o que se pode pedir por lá, fora a torta de banana com gengibre e canela ou, no almoço, os miúdos de carneiro com arroz branco no leite de coco, pra se comer sem talher, fazendo montinhos com as pontas dos dedos, regando com azeite ou molho de pimenta e cominho, abanando moscas platinadas que vez em quando dão o ar da graça entre a poeira verde-gris e a cantilena indecifrável - mas doce, quase uma cantiga de ninar em pleno dia - que entra pelas janelas. Não posso dizer que algum dia estive lá, nem que não estive, e é justamente por isso que acho aquele poema tão bom.
Ask Google Guru:
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
THEORBA
No alto daquela torre de cabeça quebrada, quando o sol pede paz atrás da campina grande onde os urubus parecem noivas de renda negra, por trás da pardacenta copa de uma figueira brava, o mestre do canto dedilha a sua theorba. Suas barbas não são pretas nem brancas, e seus olhos já dispensaram a necessidade da cor. Os dedos cegos acariciam o tempo escondido entre as cordas de metal, fazendo vibrar o vento do meio-dia, que é o seu jeito de fazer cócegas na rotunda pança de deus.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
CARNAVAL
O dia amanheceu
doendo.
Não era eu,
não poderia ser.
No bolso do pijama
trago sempre um sorriso amassado
para ser vestido logo cedo
e crer no bem que vence o mal.
Ainda assim, senti doer
os ossos quebradiços dessa manhã.
Fingi que não era comigo.
Levei o lixo para fora, varri dejetos.
Arrumei objetos no escritório
e tirei o pó de certas lembranças.
Mas doía, a dor roía
o dia pelas suas beiradas douradas.
Ouvi ritos de festa,
lembrei que era carnaval.
Recusei qualquer unguento,
não teci lamento.
Era a alvorada que doía,
chorando sua mágoa boreal
dos confins coloridos
da dolorida alma de deus.
Dolorido, cansado, alquebrado,
assim o dia amanheceu.
Repito,
era o dia que doía.
Era ele,
não eu.
doendo.
Não era eu,
não poderia ser.
No bolso do pijama
trago sempre um sorriso amassado
para ser vestido logo cedo
e crer no bem que vence o mal.
Ainda assim, senti doer
os ossos quebradiços dessa manhã.
Fingi que não era comigo.
Levei o lixo para fora, varri dejetos.
Arrumei objetos no escritório
e tirei o pó de certas lembranças.
Mas doía, a dor roía
o dia pelas suas beiradas douradas.
Ouvi ritos de festa,
lembrei que era carnaval.
Recusei qualquer unguento,
não teci lamento.
Era a alvorada que doía,
chorando sua mágoa boreal
dos confins coloridos
da dolorida alma de deus.
Dolorido, cansado, alquebrado,
assim o dia amanheceu.
Repito,
era o dia que doía.
Era ele,
não eu.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
CANSAÇO
Na corola da manhã o azul ultramarino de ontem
escorre líquido por entre as montanhas.
Há paz e medo na íris embaçada
que vê outros olhares
alhures.
escorre líquido por entre as montanhas.
Há paz e medo na íris embaçada
que vê outros olhares
alhures.
Dísticos se desencaixam com sôfrega beleza:
os ritmos não rimam, os poemas são pomares
de frutos roxos, que não justificam nem perdoam
o açúcar desperdiçado pelos sonhos
dos infantes.
os ritmos não rimam, os poemas são pomares
de frutos roxos, que não justificam nem perdoam
o açúcar desperdiçado pelos sonhos
dos infantes.
Prossigo encarando minha finitude
como quem espera uma ave matutina
que vem de longe trinando seu canto de cristal quebrado
e sóbria pousa antes do enquadramento perfeito da foto.
como quem espera uma ave matutina
que vem de longe trinando seu canto de cristal quebrado
e sóbria pousa antes do enquadramento perfeito da foto.
Minha palmeira invencível dorme, mas está atenta.
Em seu sono os ventos passam alisando-lhe os cabelos
que a noite tingiu com as mais bonitas chagas e broquéis
como quem salpica estrelas num céu nublado.
Em seu sono os ventos passam alisando-lhe os cabelos
que a noite tingiu com as mais bonitas chagas e broquéis
como quem salpica estrelas num céu nublado.
É preciso arar entre os versos
para compreender que não há beleza neles
e ainda assim encher os olhos de águas claras
lavando o azulejo colorido das almas restantes
dos teus delírios mais perfeitos.
para compreender que não há beleza neles
e ainda assim encher os olhos de águas claras
lavando o azulejo colorido das almas restantes
dos teus delírios mais perfeitos.
Não entender é essencial nessa hora.
Só com as mãos de quem ignora é possível reter
a paz que vigia de dentro desse turbilhão, e dormir
o sono dos bobos, com a firmeza rubra dos inconstantes.
Só com as mãos de quem ignora é possível reter
a paz que vigia de dentro desse turbilhão, e dormir
o sono dos bobos, com a firmeza rubra dos inconstantes.
Divago, cansado de estar certo em vão.
Errar por certos lugares tornou-se o pão de cada dia.
Há algo ameaçadoramente bom no horizonte, convém,
por isso, quebrar as pernas de qualquer ave branca
Errar por certos lugares tornou-se o pão de cada dia.
Há algo ameaçadoramente bom no horizonte, convém,
por isso, quebrar as pernas de qualquer ave branca
e com isso fazer com que voe sem pouso
e sem uso para o chão, faça tensa a pena leve,
e breve a cena imensa, desfazendo a aliança
entre o que é e o que deveria ser.
e sem uso para o chão, faça tensa a pena leve,
e breve a cena imensa, desfazendo a aliança
entre o que é e o que deveria ser.
É possível que o tempo faça sentido
desfazendo meu corpo de areia como faz o vento
soprando as dunas para onde não se pode vê-las
grão a grão, para dentro do oceano.
desfazendo meu corpo de areia como faz o vento
soprando as dunas para onde não se pode vê-las
grão a grão, para dentro do oceano.
Que as aves não pousem jamais, nem usem o horizonte
como faz o poeta, que ara horas acesas enquanto sonha:
na corola da manhã o azul ultramarino de ontem
escorre líquido por entre as montanhas.
como faz o poeta, que ara horas acesas enquanto sonha:
na corola da manhã o azul ultramarino de ontem
escorre líquido por entre as montanhas.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
O CAVALEIRO DA ARMADURA NEGRA
A armadura negra do homem nu
brilha sob o sol pesado de janeiro.
A carapaça luzidia do bicho pelado
protege do carinho, não do chicote.
Sob o açoite de cada hora que passa
ele precisa cumprir deveres, suportar olhares
e cumprimentar com a cara boa dos fodidos.
A boca beiçuda ri, os olhos vermelhos choram,
mas a cabeça não baixa, e as mãos não imploram.
Homem preto de alma cor de chumbo,
na lama do mundo procuras teus tesouros.
Arrancando suas últimas penas, o bicho alado
sorri olhando para o alto, para os deuses,
para as luzes azuis dos olhos do mestre
que promete vida, e vida em abundância
quando ele, o guerreiro negro sem sorte
só queria descansar a mão (que já não traz a espada)
e o corpo feio e forte, nos braços dourados
de uma boa morte.
O HOMEM GENTIL
O homem genial e gentil existe, mas não o vemos. Não somos nós, não é ninguém que eu conheça, mas sei (tenho essa vã esperança) que ele existe, resiste, n'algum lugar distante. Este homem pouco sabe de si, pouco vive e morre muito, aos poucos, todo santo dia.
Nem mesmo ele se vê, porque em todos os espelhos ele usa uniforme, e se acostuma a dizer "sim senhor" às pessoas e principalmente aos relógios. Em casa diz que sim, e pede perdão, no trabalho diz que está pronto, sempre alerta, no sonho finge que está acordado, está desperto, o peito aberto sempre para o bem e o mal do mundo, as mãos mais velhas que seus olhos, os olhos mais cansados que o corpo, o corpo mais torto que a alma, a alma escondida como um gato preto em noite sem lua.
O homem bom é criminoso, não vítima. Ele existe quando não deveria, ama quando não poderia, responde quando precisaria silenciar, respira mesmo sabendo que seus pulmões já não suportam o perfume cotidiano desse ar. Este homem, que não vai à missa aos domingos, acorda com dor, mas sorrindo. Seus carinhos, guardados na ponta dos dedos, são inúteis, porque dele se espera que seja forte, que seja fiel ao mundo, que seja o primeiro da fila, e gire a roleta russa com a certeza de que qualquer resultado o fará feliz.
O homem genial, gigante, é para o mundo um anão que diz sempre sim, que não ouve as flautas, os bandolins, as harpas, o bocejo do mar, o arpejo das aves que voam para longe, a algazarra dos gatos nos telhados, o homem bom não pode se matar de amor, de tiro ou vício. Cabe a ele viver sua doce maldição, e esperar qualquer bala perdida ou qualquer paixão errada, encontrada numa esquina qualquer, sua mulher, sua princesa, certa como a luz de mil vaga-lumes à margem da alvorada.
Este homem que poderia ser genial e gentil, este homem que poderia ser bom, precisa na verdade ser forte e pequeno, caber nos anseios do outro, dos outros, de muitos que vigiam solenemente com um sorriso no rosto. Ele precisa cumprir suas obrigações frente ao mundo com a maestria comedida de quem já não espera nada além do momento do estouro, o trovão, o fogo que lhe queimará as carnes curtidas pelo sal da vida, pelo sol dourado e dolorido, ah este homem (que já não existe) vez em quando aparece, sorri - sem ênfase - e obedece como quem diz uma prece, ama como quem padece, dorme sujo e sozinho, e esquece que tem que acordar limpo, descansar de pé, engolir o café amargo da vida e o pão pisado pelo tempo.
Este homem precisa ser genial e gentil sempre, sem mostrá-lo nunca, nunca, jamais. Eis o segredo de toda a sua tristeza, e também da sua paz.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
SOB A PELE DO METAL
No meio da tarde retirei meu sabre da bainha
e a rainha de todas as lâminas - minha alma -
tremeu ao ver brilhar a luz do metal frio
ávido por abrir sulcos em carne alheia
e ver das veias partidas nascerem rios.
No meio da tarde retirei da bainha o meu sabre
e uma febre imensa arrebatou meu momento de calma
tendo nas palmas trêmulas o corpo sagaz e sereno
de uma criatura que vigia com olhos de faca cega:
em sua sabedoria, o dragão ignora o bem, e tampouco sabe
o que é o mal.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
A VÊNUS TATUADA
Na primeira vez em que o eclipse da tua presença
assombrou a passagem do meu corpo sobre a terra
e os signos brutais que trazias como cicatrizes tatuadas
por um prazer feito apenas de culpa e mágoa
me fizeram novamente menino em labirintos de pele alheia
com as veias secando o magma tranquilo que num repente
agalopadamente denso atreveu-se a reverter meu tempo
em escamas de uma insidiosa, porém doce memória,
achei que teus olhos eram uma clara fúria verde
que se dissipava nas marés de uma voz rouca de mulher
mas quando já seguia longe o manto dourado dos teus pêlos
e o perfume nauseante da tua existência se acalmou em minhas narinas
percebi que eram negros os teus olhos, eternamente negros
como uma noite sem lua, como um segredo desvendado antes da hora,
como a luz negra que na hora da morte a alma persegue em transe
sem saber se voa ou se cai, se chega ou se vai, se ri ou se chora,
como uma rua dentro de uma caverna, como o signo da sorte
que entre as pernas da sereia os homens, tolos, procuram
e procurarão para todo o sempre, como eu que em ti
procuro um fim para uma dor que sinto mas não reconheço,
como eu que pago as parcelas da tua companhia
com as migalhas platinadas do meu próprio espírito
algo que nem o divino fiador de minha alma
saberá dizer o preço.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
ASSIM É SE LHE PARECE
Nada é.
Mas tudo continua sendo
um eterno vir-a-ser.
Até mesmo eu
poderia ser, amanhã,
você.
Porém, aquilo que já foi
contém a semente do que, não existindo,
espera em qualquer esquina,
para te olhar nos olhos,
e com um riso sarcástico
dizer apenas "oi"!
O pássaro bonito
que você não vê no céu agora
jamais existiu, ou passou voando n'outra hora?
A mulher perfeita, a que mais te amou
não existe, ainda está por vir, ou
foi aquela que tu deixastes ir embora?
Saber
não é ter certeza.
Perfeição
nem sempre é beleza.
Toda chama queima
mas nem toda aquece.
Todo vício é ruim.
Mas nem sempre a gente
por causa do vício adoece.
Tem remédio que trata.
Mas pra quem não está doente,
qualquer remédio mata.
Todo poema é só um poema.
Ou assim é se lhe parece.
[Na pressa,
qualquer 'deus me livre'
vale como boa prece.]
domingo, 4 de janeiro de 2015
POMPÉIA
Há flores novas crescendo no solo negro e quebradiço.
Algumas casas resistiram, os lares, mesmo os menores,
são maiores que qualquer mero edifício.
Quando o Vesúvio acordou de um sono intranquilo
o sol envergonhado cobriu sua face dourada
e a lua chorou lágrimas de sal sobre o mar.
Marés de condenados assomaram sobre as campinas
que amarelavam em labaredas de um inútil desespero
enquanto os deuses se fartavam de gargalhar.
Em alguns cantos da cidade desolada,
mãos frágeis, humanas, se procuravam
na escuridão fria que precedeu o inferno.
Quando as cinzas faiscantes cimentaram a paz de Pompéia
o mundo calou, desfeito em chamas que lamberam do cais às montanhas
varrendo poemas, evangelhos, jornais, homens, crianças, e tudo mais.
N'alguns cantos da metrópole que ruía,
restaram estátuas eternamente abraçadas, lindas,
que venceram as brasas do grande Vesúvio.
A tola montanha, hoje apagada, é apenas a sombra
de algo maior, mais belo, mais forte,
porque o vulcão, dono da morte,
não conseguiu apagar a chama voraz
que violentamente ainda queima no peito
daquelas estátuas de cinza e esperança.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
INVICTUS (tradução)
INVICTUS
Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.
It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.
- William Ernest Henley [“Invictus” is a lyric poem in four quatrains (four-line stanzas). Henley wrote it in 1875 but did not publish it until 1892 in a collection entitled 'Echoes'.
INVICTUS
Por sobre a noite que a tudo encobre
Negra como um covil de torpes criaturas
Agradeço aos deuses por salvar est'alma pobre
Guardando nela a chama que perdura.
Negra como um covil de torpes criaturas
Agradeço aos deuses por salvar est'alma pobre
Guardando nela a chama que perdura.
Fui tragado pelo remoinho das circunstâncias
Mas não deixei que ouvissem meu choro.
Honrei meus ancestrais, mesmo à distância
Guardei a cabeça erguida como um busto de ouro.
Mas não deixei que ouvissem meu choro.
Honrei meus ancestrais, mesmo à distância
Guardei a cabeça erguida como um busto de ouro.
O tempo cruel sempre cura machucando
Onde toda existência se resume a sombras.
Resisti ao tempo, à torrente dos anos passando
Com o olhar impávido e forte que a tudo alumbra.
Onde toda existência se resume a sombras.
Resisti ao tempo, à torrente dos anos passando
Com o olhar impávido e forte que a tudo alumbra.
Não importa quão estreitos sejam os portões
Tampouco quantas vezes desça o chicote ao badalar o sino:
Eu, e somente eu, sou de minha alma o capitão
E único mestre do meu destino.
Tampouco quantas vezes desça o chicote ao badalar o sino:
Eu, e somente eu, sou de minha alma o capitão
E único mestre do meu destino.
- Marcelo Sousa, poeta e tradutor. Versão livre, de 18 de dezembro de 2013, Rio de Janeiro, Brasil.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
COMO PODE O PEIXE VIVO...
As nuvens passam e bocejam.
Águas claras, excepcionalmente claras
deixam transparecer o peixe grande na lagoa
e sua boa aparição nadante, divagante e rara
reflete na prata polida de suas escamas a luz do sol
que poreja estrelas de céu e mar, e se rí,
e nada para longe.
Nada, nada, para longe, longe.
O nada no meio da tarde é tudo o que tenho,
isso que me abarca num barquinho que me leva
ao outro lado, aquele bocado de terra e guerra
onde serei homem sério, ainda que menino perante
os perenes mistérios de ser homem-menino-poeta,
e ter que esconder este meu ser completo.
Porque lá, do outro lado, eu sou outro,
eu sou pouco, eu sou apenas metade deste
que sem vaidade se mostra aqui imenso e pequenino,
este homem que se sabendo menino contempla o céu, a lagoa,
os peixinhos, os barquinhos, e sente que sua alma,
ainda que muito remendada, é uma obra completa:
a alma toda furadinha pelas traças
dos desejos e dos sonhos,
esta minha alminha vã
de poeta.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
QUANTUM
Por um buraco de minhoca
a boca deste que morre
suga o ar do outro lado
onde o finado está-estava-estará
vivo.
No oco de um tempo-espaço
que se dobra sobre si
e forma a mais perfeita
e perplexa equação:
o homem é o seu contexto
e a sua vontade, sua salvação.
O homem
que nasce-cresce-reproduz-e-morre
já não precisa existir para saber
que viveu, amou, lutou, sorriu, chorou,
ganhou e perdeu.
O homem que não existe
está ali, descrito, escrito,
conscrito, inscrito, infinito
no poema que ele mesmo
(não) escreveu.
domingo, 14 de dezembro de 2014
NENÚFAR II
1.
Faço mira.
O arco, por demais retesado,
arrebentará sem alarde,
em tempo breve.
Flecha de imburana,
a seta de pedra-de-fogo,
a mão soberana, erradia,
desafiando a paz dos lobos.
Vontade é manobra difícil,
exigência sempre inoportuna:
vontade de seguir, prosseguir,
porque todo vento é contra,
ainda que empurre para a frente.
Tudo é tensão.
Não faz sentido fazer poema.
Não faz sentido fazer amor.
Sob a pele jaz a espuma do ser.
Entre os pelos, as ramas do querer.
Debuto desesperanças festivas.
Abismos me atraem.
Procuro sempre uma pulga
atrás da orelha de louça de um santo qualquer,
talvez um pequeno deus com olhinhos de serpente
e corpo de mulher.
Oremos.
Tenhamos força e fé
e em qualquer desespero
aguardaremos.
2.
Aprendi palavras novas.
Não as usarei jamais.
Trago nas mãos esses versos soltos,
versos ruins, porque o bom verbo
quero-o bem guardado, bem longe
de holofotes, distante das ribaltas.
Falta pão,
tomemos champagne.
Esquivo-me das boas causas.
Desvio o olhar dos favores mais doces.
Estou envergonhado demais para acreditar
no mel venenoso de cada manhã.
Calo.
Resvalo em ninharias.
Problema, teorema, teoria, tudo é esperança.
Todo problema tem cálculo, exercício,
trabalho e resposta.
O que não é problema
não tem solução.
Do lodo brotará a flor de lótus.
Nascerá branquíssimo o lírio d'água
na foz das mágoas rasas desta vida.
Aqui, no pântano
há pouca esperança.
Mas, cedo ou tarde,
haverá redenção.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
ECO
Olhei fixamente
dentro do vidro negro dos teus olhos, meu senhor,
e fiz a última pergunta que ainda restava.
O teu silêncio de rocha e cristal
partiu-se na miríade de poemas
que jamais irei escrever.
Toda música se perdeu no vácuo,
mas guardo na concha dos meus ouvidos cansados
algum resto de palavra, um trinado, um eco, um segredo,
um medo que conforta, uma paz que entorta a espinha,
uma força que verga as vontades.
Trago essa verdade
como quem leva consigo uma antiga melodia,
talvez um canto de ninar, talvez o som de um pássaro
que nunca mais passou, talvez o rolar do primeiro trovão
trazendo susto e magia.
Não sei,
mas entendo.
Pertenço a tudo
o que me foge.
Olhei fixamente
para os lagos congelados dos teus olhos
e de dentro da escuridão
uma luz gritou por socorro.
Tardei em reconhecer o reflexo das minhas pupilas,
a luz ambarina, pesada, deitada sobre o vidro negro
que é o teu olhar, este fosso de alegria e dor,
meu bom algoz, meu senhor.
Tremi ao reconhecer a chama
que no leito de veludo negro resiste sem ênfase
temendo (mas insistindo) em brilhar em vão.
Diante deste espelho,
fiz a ti a última pergunta que me cabia,
e antes que pudesses me enganar com tua poesia,
eu mesmo respondi a nós dois: não!
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
OS IPÊS AMARELOS
Joaquim, meu filho,
os ipês estão floridos
nas montanhas em nossa volta.
Mas tu não vês,
não sabes como são lindos
os nossos ipês.
Joaquim, meu filho,
demorastes a nascer, meu querido,
e por isso não podes ver o espetáculo desse dia.
Todos os ipês amarelos floresceram
pintando de dourado as montanhas que dormem
embaladas por este mar imenso.
O mundo é um lugar terrível
mas, vez em quando a gente olha para o alto
e os ipês de dezembro trazem alguma esperança.
Joaquim, tu olharias maravilhado
a silenciosa explosão amarela
e dirias que Deus existe, senhor
de todas as aquarelas.
Mas, filho, tu que não nascestes,
nada sabes, não miras, não olhas,
não brincas, não choras, não vês
como são lindos os nossos ipês.
Nem eles te olham de volta,
não sabem da cor dos teus olhinhos
nem ouvem a tua voz, nem reconhecem
a tua gargalhada gostosa.
Joaquim, meu filho, o mundo é terrível
mas nele há dezembros que começam assim
com ipês amarelos brotando no seio da rocha
desafiando as escarpas montanhosas.
Mas tu deles não sabes, nem eles sabem de ti.
Tu, que no vácuo habitas, nada ouves, nada vês,
e por isso, diante desta montanha florida, penso
em como são lindos, mas como são tristes
esses nossos ipês.
domingo, 7 de dezembro de 2014
PAISAGEM
Tic tac tic tac tic tac, posso ouvir
as horas que pingam gotas de sol
molhando a paisagem com este fluido
que as pessoas deram o nome de domingo
e eu aqui dentro, seguro, de galochas
e guarda-chuvas, fazendo versos
esperando a tempestade
e a banda passar.
CABRESTO
O cabresto das conversas miúdas
na voz doce de quem ama com o coração de pedra polida
e descansa com um olho aberto e outro muito bem fechado,
este aliás, enxergando dentro, sondando interiores, entranhas,
como a nave que mergulha silente nos nossos sonhos
e de lá rouba pérolas que estavam guardadas
para dias melhores, amores melhores,
que são melhores justamente
porque jamais existirão.
na voz doce de quem ama com o coração de pedra polida
e descansa com um olho aberto e outro muito bem fechado,
este aliás, enxergando dentro, sondando interiores, entranhas,
como a nave que mergulha silente nos nossos sonhos
e de lá rouba pérolas que estavam guardadas
para dias melhores, amores melhores,
que são melhores justamente
porque jamais existirão.
O cabresto curto, fio de ouro que se estica e se contrai
num movimento que imita inspirar e expirar, esperto
e sinuoso como a serpente que sorri ao dar o bote
e depois beija, sôfrega, derramando a bile que
não mata de imediato: é fato que ninguém morre
de amor, assim rápido, no ato, como os romances
insistem em ensinar, ledo engano, no retrato,
veja só como ele sorri, o amante, (que cara boa)
mas de perto se notam as manchas, as marcas,
percebe-se que quem está sorrindo,
é o papel apenas, não a pessoa.
num movimento que imita inspirar e expirar, esperto
e sinuoso como a serpente que sorri ao dar o bote
e depois beija, sôfrega, derramando a bile que
não mata de imediato: é fato que ninguém morre
de amor, assim rápido, no ato, como os romances
insistem em ensinar, ledo engano, no retrato,
veja só como ele sorri, o amante, (que cara boa)
mas de perto se notam as manchas, as marcas,
percebe-se que quem está sorrindo,
é o papel apenas, não a pessoa.
O cabresto das conversas miúdas
na voz doce de quem persegue, perscruta, percebe
que atenção é vigiar sem estar alerta, como quem dorme
sabendo que na terra dos sonhos, naquela terra dos desejos,
no mundo de faz-de-conta onde jaz todo spleen dos poetas,
nessa terra onde moram as coisas que ainda não fizemos
é onde se deve fustigar toda raiz de qualquer vontade
que não seja a de amar e marchar, marchar e amar,
sempre em frente, fiel e forte, jogando dados
viciados a mesma sorte.
na voz doce de quem persegue, perscruta, percebe
que atenção é vigiar sem estar alerta, como quem dorme
sabendo que na terra dos sonhos, naquela terra dos desejos,
no mundo de faz-de-conta onde jaz todo spleen dos poetas,
nessa terra onde moram as coisas que ainda não fizemos
é onde se deve fustigar toda raiz de qualquer vontade
que não seja a de amar e marchar, marchar e amar,
sempre em frente, fiel e forte, jogando dados
viciados a mesma sorte.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
ENTRETANTO
Eu queria,
mas percebi que querer
é pouco.
Então comecei a desejar
mas entendi que desejar
é demais.
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