Ask Google Guru:

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

VIBRATO




Madrugada adentro
leio vorazmente a minha sina
em palavras alheias.

Faço poemas
como quem corta com faca
e expõe da palavra o tutano.

Mas do nervo posto
mantenho intacto o seu vibrato.
Toda punção de vida e morte
procura na esperança o seu contrato.

Palco iluminado.
Panos coloridos, dourados,
sob a rima dolorida, adorada.

Lavro termos incongruentes.
Dísticos rolam sem a beleza dos cordéis.
Tudo o que tenho são cacos de vidro
sob as unhas.

Um baixio de bestas no peito.
Toda melodia expira antes do fim.
Ouça, a canção estaca
no oco da gente.

Inspiro, escrevo.
Um arfar que na noite longa
ainda canta.

Respiro.
Há pausas inconfessadas
nas entrelinhas.

Minha espada
escava sulcos no verbo.

O metal passeia
por baixo da pele inerte:
artes de um fauno sem floresta.

Que ninguém me entenda.
Vendo barato este ouro
que não é meu.

Maremotos perpétuos
aprisionados numa concha
ainda podem afogar os sonhadores.

Trago agmas enferrujadas
nessas cordas vocais onde eu quis me enforcar.

Canto.

Povoo de vento a boca desdentada
desta alvorada veloz.

Na coxia anasalada de uma sílaba forte
talvez haja redenção, talvez não.

Nenhum comentário:

Postar um comentário