Ask Google Guru:

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

EQUAÇÃO






Papai chegou de visita em nossa ilha, como que tem agenda de ir e voltar, mas seus olhos queriam ficar.

Foi recebido no cais por mãos carinhosas, firmes, e vontades despidas de cuidados plásticos: apenas os gestos despretensiosos de quem ama, sem nota promissória, sem cálculo para o futuro ou mesuras para outras histórias.

Viu um lar, marido e mulher, amor e dor. E o gato, na cama.

Percebeu as mazelas, viu as flores, o jardim. Agradou-se ao sentar no lounge aberto para um azul insano. Correu olhos de menino por todos os lados, nossa biblioteca, o computador, o quadrado japonês - no chão, deck de madeira e almofadas - com o tabuleiro de xadrêz, e o piano ao lado.

Paredes brancas. O calor. O azul, o azul, o azul. As araras, o bem-te-vi, o martim-pescador, o tucano, os marimbondos, as borboletas, morcegos e muriçocas. A montanha chamando monções de um verão indulgente. Inteligente. A voz muída das gentes, pescadores que passam. Pra onde? Nem eles sabem.

Papai provou carpaccio conosco, pela primeira vez em sua vida. E provou do nosso vinho, degustou a doçura dos olhos do gatinho que, da cama, cumprimentou a nobreza daquele avô que trazia sobre a carapinha negra a fuligem cinza e branca de tempos imemoriais.

Papai sentou com Thamar naquela tarde iluminada (havia uma chama acolhedora nos olhares) e conversou a prosa miúda dos que vem lá das Gerais, aquele jeito de trazer lonjuras na fala, aquele vagar cavalheiresco que tapa mais do que descobre, enquanto, no andar de baixo, eu cozinhava. E ouvia. Ouvia. E como era bom ouvir.

Papai voltou a ser papai, passou a tarde despindo-se de ser pai, tornando-se só homem: o que é ser mais pai que tudo neste mundo.

Foi o homem que eu precisava, na hora propícia, no tempo certo, quando eu mesmo haveria de ser homem também.

Papai viu que nossas sementes, secas, ainda poderiam brotar.

Não deu conselho, não ensinou, não deixou ordem nem pedido.

Deu-nos a bênção. Despediu-se.

De mãos dadas comigo (um hiato de décadas ditongou naquele momento) foi embora, e naquela hora, o menino era maior que o homem, mas o mito do homem, o pai eterno, esse ficou, fixado, cravado no sílex, no quartzo afiado dessas retinas que ditam este ensaio de poema.

A visita de papai, hoje, solucionou o mais complexo de todos os nossos teoremas.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O QUE EU QUERO







O que eu quero
Não tem tamanho.
Não cabe na mala,
Tampouco no sonho.

O que eu quero
Não se paga com moeda.
Tem a consistência gostosa
Do cetim, palha, pêlo e pedra.

Quero o que é bom 
para o filósofo, para o burocrata, 
para o velho e o rapaz.

Mas se, qualquer dia sesses, 
um gaiato der nome e sobrenome 
a isso que eu quero,

Danou-se:
Morreu, perdeu a graça, 
e já não vou desejá-lo nunca mais.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

OSSOS DE BORBOLETA






Era pouco. 
Muito pouco.
Quase nada.
E só por isso,
Deu e sobrou.

[Não. Isso não é poesia.
Isso é vida, apelido do tempo.]

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

APOGIATURA



 


Silêncio. 


Houve uma ilha de silêncio no oceano da cidade. As marés vagavam intranquilas à nossa volta. A algazarra fazia hiato. Os gritos se estilhaçavam contra a muralha de calma que se levantou entre nós.


Lembro que tudo era gris. O mar, os prédios, a montanha, até as árvores e as pessoas pareciam cinzentas. Mas naquele instante sem nome, sem foto, sem dono, naquele instante o firmamento rasgou-se devagar, e do tecido roído brotou o azul. E era desesperadamente azul aquele pedaço do cosmos sobre nossas cabeças.


Nossos dedos se tocaram, daquele jeito que fazemos sem notar, formando uma corrente de carne e aço. Nossos ossos tremeram, mas nossos olhos não se turvaram, o mundo fez uma pausa de mais de mil compassos, como se entre sístole e diástole houvesse tempo para contar uma história inteira.


De repente, estávamos dançando. Ela sorria com olhos e boca, e seus cabelos negros davam inveja à noite, e sua pele branquinha desdenhava do dia. Éramos os últimos habitantes do planeta, e todas as palavras não ditas faziam inveja aos poetas.


Lembro que o mundo parou para ver a bailarina sambar aquele miudinho cheio de bossa. A curva bonita de suas ancas e os seios de romã brincando de esconde-esconde entre as flâmulas de seda, o vestido roçando a pele feito nuvem que faz carinho nos topetes das montanhas.


Silêncio.


Aquele silêncio tinha cor, perfume, e era tátil como as teclas de um piano. E convidava. Não era preciso saber qual, como, onde e quando. O convite era para um silêncio salpicado de melismas assombrosos, com espaços perspontados de gemidos de sôfrega alegria, dessas que a gente não sai contando por aí, com medo de gastar a lembrança.


Recordo, houve uma ilha de silêncio no oceano da cidade. Palco perfeito, sem holofotes. O dia foi ficando castanho, os pardais entre as palmeiras chamando o sol para dormir... Foi assim que acordei, numa dessas varandas perdidas numa lembrança talvez vivida, talvez inventada, talvez - o que é mais certo - simplesmente sonhada.


Acordei naquela varanda, o pêndulo da rede fazendo cócegas nos meus sonhos, o ar pulverizado de música, a silhueta de uma ninfa dedilhando no piano as melodias que eu ouvia muito antes de nascer.


Era outono. É sempre outono em meus sonhos. 


As folhas caíam como dias passados. Eu lembro. Eu estava lá quando um azul imenso abriu uma cicatriz na pele morna do dia.


Uma ninfa tocou aquela canção de ninar a tarde inteira, e eu imaginei claves de sol brilhando no céu cinzento.


Uma ninfa. E uma canção de ninar.


Sempre que lembro aquele momento, posso jurar que enxerguei seus dedos cantando. Foi a primeira vez que a vi dedilhar o clavinote como quem faz festa com o próprio corpo, instigando o tempo a parar, sentar e ouvir. 


Uma ninfa reinventou o silêncio. 


E os acordes que ela tocava faziam cachinhos nas madeixas do vento.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

SÓ DÓI QUANDO EU SORRIO





Há dias em que me lembro que existir dói. E dói muito - na maioria das vezes - ou fica naquela dorzinha chata, persistente.

Então percebo que todos os dias são assim. E sorrio por isso: algumas vezes o riso nervoso de quem não sabe ou não tem outra coisa a fazer; outras vezes o sorriso tranquilo e gostoso de quem aceita que enquanto estiver doendo, estamos existindo. E sei que existir não significa viver, não completamente, mas não há vida sem existência, por isso existir é um ato de resistência. 

Existo, logo, viverei. O que está, cedo ou tarde, será. Eis que a dialética de Shakespeare me assalta com seu "ser ou não ser" tão mastigado, porém nunca esvaziado. O chiclete do bardo continua doce e colorido, como um enigma entre os dentes de um menino-deus que se percebe gigante, enorme como a projeção das sombras que sua figura lança nas paredes azuis do Cosmo.

Há dias em que viver simplesmente dói. Nos outros, dói muito. Em todos esses dias, ao olhar meu rosto fisgado pela promessa de finitude refletida em cada átomo do meu corpo, tento sorrir. Tento contentar-me, porque ser contente é fundamental. Ser feliz é outra coisa, estar alegre também. Mas o contentamento, por princípio, é o fundamento de tudo o que nos anima, o que redunda, pois o alimento da alma é o ânimo, alento, seja pela brisa que acaricia ou pelo vento que fustiga.

Por isso, nesses dias em que tudo dói, tento sinceramente sorrir. E sorrindo sinto doer mais ainda. E quanto mais sinto mais me contento, e esse contentamento me alegra: estou vivo! Porque o fim da dor é o fim da vida. E toda alegria tem a obrigação ontológica - epistemológica - de ser dolorida.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

SOU POENTE





Quem passou, 
o dia, ou eu?

Não morri, nem vivo. 
Mas sigo, sou poente, 
um astro claudicante 
a flutuar no céu.

O dia passou.
Mas, e eu?

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

PRIMEIRO ENVELHECER




Primeiro envelhecer.
Encardir as sobrancelhas.
Usar calças de tergal.
Vestir camisas brancas,
Devidamente enegrecidas
Na gola e nos punhos.
Um remendo de esparadrapo
Nos óculos de aro fino.
Moedas miúdas no bolso.
A voz baixa, as mãos incertas.
Explosões de um ódio cômico.
Rompantes de uma tristeza engraçada.
O perfume estragado na pele morta.
O tempo encalacrado 
Na borda amarelada
De cada dia.
As facas cegas.
Os garfos tortos.
Panelas furadas.
Gaveteiros de meias sem par
E sonhos nunca realizados.
Os seios que brotam
Sob as malditas camisetas brancas
Das raposinhas que me assaltam a paz.
O mingau frio.
Os cabelos ralos.
O sexo vil.
O cerebelo ereto.
O gozo triste e incerto
Da minha glândula pineal.
A aurora boreal constante
Fotografada no mata-borrão
Das minhas retinas.
A resolução do olhar perdido.
O passo claudicante,
Como num tango dolorido.
Viver, sem ênfase.
Morrer, sempre aos poucos.
Ter epifanias diárias, inúteis.
Envelhecer, sem teoria.
Ensaiar falências múltiplas.
O 'delirium tremens' da alma.
O verso precário
A poesia bárbara
Do meu silêncio.
Arrefecer.
Envelhecer.
Feito isso, o cenário
Estará quase definido.
Compra-se um gato. 
Talvez um canário
Um cão pequinês
Um peixe dourado
Um lagarto emplumado
Uma serpente alada, talvez.
Uns cochilos no calçadão.
A cara fechada, de poucos amigos.
Uns tomates derrubados
Na feira de domingo.
E está feito!
Após uma vida de excessos,
Malcriações e vilanias,
Serei um senhor de idade
E todos acharão genial
Todo o mal que fiz.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A HORA MÁGICA






A orla desenrola sua linha bonita, nunca aflita. Sua vazante desce pelo canto do meu olho como lágrima de uma estranha alegria, melancolia recebida com festa. Pelos cantos, pelas arestas do que se vê, estamos condensados, firmados na efeméride daquele momento. Na fotografia, a luz é moldada no pós-clique: reverte-se, subverte-se o real com as tintas menos precárias do nosso imaginário. Assim a linha marginal do mar imenso estende-se para além do que se vê, deitando seu espectro entre o que se sente e o que se quer sentir, ou por um triz ficou para trás do real, porém adiante do possível, por assim dizer tangível no espaço definido pelo tato da alma, não do corpo. A pátina arenosa deste universo particular nunca é abrupta, corrupta ou revoluta. A fímbria tranquila recolhe em seu berço as marés revoltas, as voltas que damos no vai-e-vem das estações, as monções de infortúnio e boa sorte, tão comuns ao viver, e o concreto armado dos prédios novos sobre os casebres que resistem à maresia e aos ataques do dia a dia. Hoje tirei gravata e sapatos, e chafurdei na luz e na areia da praia dos meus sonhos, na praia da minha vida real, no bairro onde moro, onde moram vontades de ontem, onde vivem os fantasmas de hoje, onde jazem os perigos de amanhã. Hoje tirei gravata e sapato, e deixei o sol poente pegar-me de calças curtas. E no meio do calmo turbilhão do mar imenso, penso que fiz de minha vida (essa fração infinitamente mínima e tão precariamente bela) uma ode ao momento presente, uma canção de amor ao átimo íntimo perdido na infinita procura do que não será, não foi, não pode ser, não existia. Eis que eternizo, ao menos para mim, o sal empregnado nessa hora tão fugaz do dia. Mar, oceano, lágrima, tudo cabe no mesmo momento, na mesma palavra: poesia. 

sábado, 17 de agosto de 2013

CAPOEIRAS






Sabia do pó, da garganta seca, do turbilhão.
Conhecia o samba que as mãos fazem no vácuo do momento certo.

Imaginava paranauês: pernadas, ombradas, sopapos, nas capoeiras armadas pelo coração.
Temia as campinas, mas em frente seguiu; seguia. Poesia era semente plantada em peito aberto.

Sabia do pó. Da garganta seca brotava o brado.
Tudo em pé-de-guerra, tudo tranquilo para o que tem que estar desperto, esperto.

Conhecia o aboio tranquilo para guiar seus sonhos: verso-grunhido, jeito triste de tocar feliz o seu gado.
Capoeira se faz com corpos que descansam na revolta.

Vento vil, vento veloz, vento que acaricia o longe e maltrata o perto.
Paz de pássaro que descansa em pleno voo, na esteira esgarçada desse tempo que não volta.

A caravana passa, sem que os menestréis tenham tempo de cantar o Bem, as Boas Novas.
Sem pão nem piedade, todo homem sabe ser cão e gato, feto e fato, vilão e mártir. 

Partir. Partir. Tudo se resume a um lento, pesaroso, porém delicioso, partir.
Por isso sigo, despedido de tudo à minha volta. Eis a prova: o mel deixado como rastro percebido no amargor dessa trova.

domingo, 21 de julho de 2013

UNS E OUTROS





Muitos pedem mais sapatos.
Outros vão abrindo caminho.
Uns desejam mais plumas.
Outros só querem ser ninho.
Muitos querem mais fotos.
Outros, curtir o momento.
Uns pedem mais ação.
Outros pedem sentimento.
Muitos constroem galeões.
Uns navegam seu barquinho.
Outros arrebatam corações.
Uns preferem ter carinho.
Há os que passam como aviões.
Eu vou ficando. Eu, passarinho.

[- Para Mário Quintana.]

RETRATOS





Falsa intimidade.
A inutilidade das fotos.
A torpeza das suas legendas.
O soneto pior que a emenda.
O teatro por trás dos fatos.
Os sorrisos rotos.
As jóias raras nos esgotos.
Um poeta, um ídolo, um deus.
Um santo cultuado por ateus.
Os mecenas de coisas pequenas.
Os intelectuais iletrados.
Um porto, um cais.
Personagens sem personas.
Tudo divide, fingindo que soma.
Tudo é menos, fingindo ser mais.
Uma flor, nenúfar.
Um tótem feito de açúcar.
Abelhas e mariposas na mesma colmeia.
Moscas varejando a mesmíssima ideia.
E eu, fico em casa.
Protagonizo meu próprio drama.
Em silêncio. Em particular.
E deixo muito a desejar,
Aos que gostariam de ser plateia.

[Poemas sem começo e nem fim. 
Vidas que prosseguem, simples assim.]

terça-feira, 16 de julho de 2013

NOTAS PARTICULARES





[Notas particulares de quem sou agora 
para aquele que serei no minuto seguinte...]

Alegria, porém contida.

Confiança, mas prudente.

Amizade, mas à uma distância segura.

Paciência, sobretudo consigo mesmo.

Gentileza, mesmo com os que não merecem.

Se perder a paciência, não se esqueça de manter a educação.

Entre os ignorantes, seja elegante.

Imite os bons hábitos, mas não perca sua personalidade.

Diga sempre a verdade... para aqueles que se importam com ela.

Admire a beleza das flores, aceitando também a utilidade de um machado.

Aprecie um belo sorriso, mas não se deixe seduzir por todos eles.

Que tua voz seja firme, porém mansa.

Seja bom, mas não pusilânime.

Seja bravo, mas nunca impiedoso.

Viva como se fosse o último dia, mas esteja ciente das consequências do amanhã.

Que tuas mãos sejam fortes, mas carinhosas.

Seja amigo dos deuses, mas não os deixe decidir todos os seus caminhos.

Entre os lobos, seja homem. Entre os homens, seja o lobo. 

Prefira ser vaga-lume a ser estrela cadente.

E por fim, após ler tudo isso, não se preocupe em decorar regras ou conselhos. Geralmente os que vivem seguindo fórmulas prontas passam a vida de joelhos.

Cometa erros, e seja feliz. 

Escaparás de ser eterno, mas só por um triz.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

OS MORTOS RECONSTRUÍDOS




Alguns mortos simplesmente ficam conosco. A terra fria que os cobriu não é suficiente para enterrá-los, e as pequenas criaturas que se nutrirão do seu corpo não os farão deixar de existir. Depois de meses, eles permanecem, desconstruídos e reconstruídos. Sua memória se confunde com a nossa memória, e ele renasce por nossa vontade, e vê com nossos olhos, e sente com a nossa pele.

Esses mortos, reconstruídos, são o que muita gente chamava de fantasma. Os da roça tinham mania de dizer: "Toda assombração sabe muito bem pra quem aparece!" Sábios, esses matutos. Foram os primeiros a descobrir que os mortos voltam, mas não como eram antes. Voltam piores ou melhores, mas nunca os mesmos, porque foram reconstruídos por quem não os deixará ir embora jamais. Seus pecados podem ser redimidos, ou jamais perdoados. Suas marcas de nascença, ou são apagadas ou criam a aparência de um borrão. E ficam enormes suas mãos e seu rosto. E vagam por caminhos que, quam em vida, talvez eles nunca tiveram passado, mas que por nossa vontade, hoje passam, e caminham com desenvoltura. Os reconstruídos deixam de pertencer a si mesmos, e perdem a liberdade de viver a sua própria morte, posto que haverá semore alguém que o reconstrói a cada amanhecer, e não o deixa morrer em paz.

Pobres desses dois, os reconstruídos e seus construtores. Ambos são assombrados. Um pela presença imaginária daquele que já nada é. Outro pela insistência patológica e melancólica daquele que não sabe perder, nem prosseguir, e por isso reconstrói muletas das quais não precisa usar, como a bengala que os dândis de antigamente usavam, não por necessidade, mas porque era bonito, era de uso comum um cavalheiro sair com seu chapéu e sua bengala. Mas, efeito colateral, esses que usavam a bengala como apetrecho de moda, acabavam mancando por tanto usá-la daquele lado, colocando o peso ali, o que os entortava aos poucos, tornando o que era fútil, de repente, necessário, essencial.

Assim reconstruímos os que já não nos pertencem, por que os queremos nossos por mais tempo. E por acostumarmo-nos com o seu uso, perdemos o senso da sua realidade. A memória do que foi vai aos poucos sendo substituída pela memória do que poderia ter sido. E depois disso, nem o vivo nem o morto serão os mesmos. Ambos mancos, andarão apoiados um no outro, claudicantes, para sempre (e por vontade própria) aleijados.

Tenho meus fantasmas. Porém evito reconstrui-lhes a história como se sua cronologia fosse acompanhar a minha. Em algum momento da vida a história deles cessou, a minha continua. Cessará também um dia, e como um barbante esticado é subitamente cortado por uma tesoura, assim o tempo nos separa, e interrompe nosso caminhar. 

Meus mortos pertencem a si mesmos. Digo que são meus apenas por vício de linguagem, por escolha semântica, propósito cruel para criar um paradoxo no texto que flui, umas vezes iluminando, outras confundindo. Mas, em suma, esses que se foram já não pertencem a nada nem a ninguém, mas existem de uma forma especial. Sei quem são, que tinham virtudes e vícios. Sinto mágoa de alguns, mas saudades de outros. Porém, quando sinto que podem aparecer na minha frente, para o castigo ou o carinho, trato de mandá-los embora. Recuso-me a reconstruí-los, pois urge-me viver, e tentar recriar o que está morto é procurar morrer junto, os poucos. E talvez este seja um segredo importante: saber chamar os mortos de mortos. Dar-lhes um nome para sua nova e eterna condição é tocar a fria realidade, para depois poder acalentar-se nas boas lembranças, que é o que eles deixam: lembranças, exemplos, ensinamentos, sentimentos. Mas nunca pedem para nascer de novo, tampouco reconstruir-se de cacos de vida que sobraram espalhados aqui e acolá, como se fossem mendigos a nos suplicar migalhas.

Aos meus queridos fantasmas dedico esta crônica, este ensaio. E aos vivos, peço que lembrem-se de permanecerem vivos, construindo vida, porque disso nem mesmo os mortos esquecem:

- Toda assombração sabe muito bem pra quem aparece!

domingo, 14 de julho de 2013

ANGÚSTIA COM FUNDO AZUL BRILHANTE



Sento-me num banco solitário,
Na varanda de pedras do cais.
Nada mais importa, nem mesmo os deuses
Ralhando comigo, prometendo chuvas,
Ventos vorazes, trovões de tenebroso estrondo.

Sobre a minha cabeça a ameaça
De uma colméia de marimbondos.
Pombos são poucos, 
Há muitos gatos e gaviões.
No jardim as folhas concorrem
Em matizes e formas diversas.

Sobre minha cabeça a ameaça
De um dia lindo ao meu redor.
O vento farfalha nas palmeiras, 
Coqueiros, salgueiros e bananeiras.
O azul intenso é a moldura mais perfeita
E por isso mais inquietante.
Sou um fracassado diletante,
Um pobre diabo tão insistente
Que finge sentir doer em si
Uma certa parte 
Já amputada,
Ausente.

Numa goiabeira um casal de micos
Me olha com curiosidade.
Um gambá passou apressado
Pelos fios da rede elétrica.
Um peixe enorme, exibido, 
Saltou bem alto, à toa,
Num malabarismo prateado
para fora da lagoa.

As águas estão transparentes nas bordas 
E os caranguejinhos vermelhos 
Trabalham muito atentos no mangue.
Sua azáfama veloz tinge a lama
Com pontinhos cor de sangue.
Uma garça rosada olha de longe
Fazendo cara de sono,
Equilibrada numa perna só.

Um pescador tira o chapéu ao ver-me ao longe,
E eu aceno de volta, sem convicção.
Já o martim-pescador e o pato colhereiro
Passam sem notar minha presença.
O gato, pueril, brinca com tudo o que lhe interessa.
Formigas pretas são seus soldadinhos de chumbo.

Sobre minha cabeça a ameaça
Dos poemas que ainda vou escrever.
Sentado sob o azul imenso
Observo minha magnífica insignificância
E engano minh'alma feliz, achando graça
Deste jeito de existir sempre à margem
De um sonho impreciso, uma nova infância
Resumida num compasso de mil momentos
Onde condenei-me a viver num paraíso
Tão pleno de prazeres quanto de tormentos.

Tudo o que posso fazer é sentar e escrever
Como faço agora, dedilhando mágoas
Na posição confortável dos falidos
Remediados por qualquer esperança vã.
Espero calado, e a vida passa devagar
Enquanto me consolo sozinho
Com uma caneca de chá
Batizada com mel e uísque.

Estou sem inspiração.
Sem dores reais ou inventadas.
Ignoro qualquer possibilidade de rima
Enquanto for possível assim cantar
E cantar, cantar, cantar, até que o canto
Transforme em pranto o que de tanto sorrir
Pode apenas (resta-lhe ao menos) 
Gozar seu íntimo sofrer.

Sem nada que valha à pena escrever
Atrevo-me a existir, apenas.
Sem nada que valha à pena sofrer
Calo, e meus poemas me devoram.
Eu, coração de papel carcomido
Pela vida veloz e suas tristes traças.
Sobre a minha cabeça a ameaça
Das horas que virão.
Ser poeta é o meu pesar
E minha consolação.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

INSÔNIA




O relógio gira os ponteiros sempre no mesmo sentido, e nunca os ponteiros voltam. Quem definiu o sentido disto? E se o sentido é sempre o mesmo, por que será que tudo é sempre diferente, apesar de aparentemente tudo estar cada dia mais igual? Isso é normal? E se não for da forma que nos conformamos a pensar? E se a realidade é o que pensamos,  mas o que pensamos for apenas um sonho de alguém que vive nesse pretérito perfeito que ainda virá? O primeiro beijo, a primeira bicicleta, a primeira namorada, o primeiro dia no trabalho, o primeiro encontro com as chegadas e partidas da vida, a primeira vez que soubemos que aquilo seria a nossa primeira vez. As escolhas, ser médico e não jogador de futebol. Usar ternos e sapatos. Evitar a areia, o mar, o sol. Meninos ou meninas? Provocar ou esperar, escolher ou deixar estar? Tudo escorre entre dedos que parecem não ser nossos. A textura viscosa das memórias do que ainda não foi. A pegajosa permanência do que nunca deveria ter sido. E os minutos que nunca chegam, mas estão lá, e serão iguais aos minutos idos. Os ossos se quebram, depois algo os conserta. As pessoas morrem, e algo também faz um conserto, com algum tempo em algum lugar improvável, pois provar não cabe nesse tempo de agora, embora saibamos que outros tempos existem, nesse exato momento, neste mesmo lugar, eu que escrevo não sou o mesmo que se atreve. Atrevo-me? Sim, talvez em outra vida bela, paralela, eu seja um revolucionário, um milionário, um burocrata, um magnata, ou continue sendo apenas este que escreve, e que aos menos a uma coisa se atreve: viver, ser, o que é muito precário, mas é o que sobra do perdulário banco de minutos que trazemos guardado num relicário sem foto, onde guardamos o moto-perpétuo do conta-giros que nos olha. Olha. Observa. E pinça nervos amiúde, com calma, sem ser rude, ao menos sem ser afobado como nós, que miramos as voltas idênticas achando a cada ciclo algum milagre, a mudança bonita da cor do céu, o mel engendrado por abelhas que zumbem poemas nos nossos ouvidos, e o farfalhar de borboletas que, no estômago daquela menina, brincam de fazer rimas, liras, e cólicas diferentes, umas ruins, outras gostosas de lembrar. E de lembrar me enfastio, às vezes. Porque o relógio só tem doze números, mas as horas passam de treze. As vinte e quatro badaladas do prédio grande que chama e comanda. A ciranda, ah, a eterna ciranda. Acho que estou ficando tonto, fico olhando os ponteiros girando, girando, em girândolas e cirandas que se empilham como panquecas, como discos imperfeitos, feitos da farinha cinzenta do tempo. Acho que estou ficando tonto. Parágrafos longos me deixam nervoso. E a vida tem salpicado tantas vírgulas, e de vez em quando me pego forçando um ponto-e-vírgula, e me sinto mais participativo. Até que o destino, esse menino mal educado, traz ao texto um bocado de pontos continuativos. O relógio que inventamos toma conta de nós. O tempo inventado não fala, mas o tic-tac é a voz que mais ouvimos. Deus. O tempo de ter paciência. Deus. O tempo, fazendo reticências...

quarta-feira, 19 de junho de 2013

RIEN







Je ne veux pas les choses. 
Les gens veulent. 

Je ne veux pas que les gens. 
Je veux sentiments. 

Je ne veux pas des sentiments. 
Je veux moments. 

Je ne veux pas moments. 
Je veux poésie.

Je ne veux pas de la poésie. 
Je veux ne rien vouloir. 

Absolument rien. 
La graine de ce que je veux n'est jamais germé. 

Pourquoi je veux avoir un nom, elle peut être contenue.
Et si contenue, est résumé décrit, de sorte volé. 

Oh, quelle joie gisait dans l'herbe. 
Et un beau dimanche béant en regardant vers le ciel. 

Le ciel peut bien être l'œil bleu de Dieu,
Et pour vous dire la face blasé, monsigneur, trés bien.

L'esprit de qui ont beaucoup à vous poser.
Pour moi, mon Dieu, je ne veux rien!

domingo, 16 de junho de 2013

O NADA







Eu não quero coisas.
Quero pessoas.

Eu não quero pessoas.
Quero sentimentos.

Eu não quero sentimentos.
Quero momentos.

Eu não quero momentos.
Quero poesia.

Eu não quero poesia.
Quero não querer nada.

Absolutamente nada.
Que a semente do que eu quero jamais seja germinada.

Por que se o que eu quero tiver um nome, ela pode ser contida.
E se contida, será resumida, descrita, e por isso roubada.

Ah, que alegria deitar na relva.
E num domingo bonito olhar bocejando para o céu.

Este céu que bem pode ser o olho azul de Deus,
E dizer-lhe com a cara mais lavada:

Ocupe-se dos que tem muito a pedir-te.
Pois eu, meu Deus, não quero nada!

DIVAGO





Divago.
Ditongos me hiatam.
Aparta-me de toda rima rica.
Afasta de mim este cálice.
Traga-me odres de vinho e fel.
Desato o fecho da prosa.
Meu canto é espada e broquel.
Nada de rosa vermelha para as moças.
Nem dedos tamborilando a fina bossa.
Quero calma de copo de pinga.
Olhar a ginga dos quadris ao longe.
Estou velho para o flerte.
Mas não me falta a mão forte.
Pra segurar nas ancas da rima boa.
Divago. Como é bom estar à toa.
Delongo em milongas úteis.
Adoro subir montanhas.
Porém melhor é descer escadas.
Bem fundo, mais baixo.
Comer um cacho de uvas
Enquanto Roma jaz incendiada.
Dar as mãos a Daniel na cova dos leões.
Recusar-se a rolar os dados, girar piões.
Nadar em poças de calma.
A alma esvaziando-se calada.
Não há coisa mais eficiente
Que não fazer absolutamente nada.

sábado, 15 de junho de 2013

FAVOS DE MEL





Tenho preguiça de ficar doente, de deitar na cama e fazer versinhos sobre minúcias do pneumotórax, da anemia, do assalto, do sequestro, da falta de usura, de toda desventura. Não que eu viva num mundo perfeito. De assaltos e outras aventuras já fui eleito. De malfeitos já sofri à vontade. Mas se me roubam duas moedas, não deixo que levem juntos também minha liberdade. Não sem lutar! Ou melhor, não sem antes sentar e relaxar. 

O que se há de fazer? Depois desses momentos, o gostoso é caminhar sorrindo na multidão, tomar um sorvete de casquinha, flertar com as meninas na rua, sorrir para o sol ou para a lua, sacudir a poeira e trabalhar. Costumo trabalhar, trabalhar, trabalhar, e quando algo ameaça falhar, eu corro para a floresta, escalo montanhas, exploro cavernas, surfo em águas frias, deixo as cachoeiras lavarem meu corpo e levarem embora os pensamentos tortos. 

Saio na chuva, saio na noite, pulo muros com os gatos pardos, vou a bibliotecas cheirar livros velhos, vou a restaurantes sentar e conversar com o maitre, jogar conversa fora entre vinhos e queijos. Andar pelas ruas perigosas do Centro, entre putas e ladrões. O que se há de perder? Meu coração, pedra vulcânica? Minha alma, borboleta fugidia? Ah, não, não me detenho com medo de tragédias, sejam elas vividas ou inventadas. Medo é bom, deixa a gente alerta. Mas não namore com seu medo. Não case com ele. Com o medo a gente apenas flerta! 

Há tantos remédios e clínicas, tanto tratamento. Pra quê? Por quê? Se existe poesia espalhada por aí, se tens mãos, pernas, braços, e um coração pronto para os feitos mais bravos...por que choramingar? A vida te dá o mel em favos, mas uma ou outra abelha há de te ferroar. Quem tem medo de um simples zumbido, deste mel jamais provará!